Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
António Ramos Rosa
84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita
84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
1 011
António Ramos Rosa
82. Procuro As Palavras — Língua Breve
82
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.
Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.
De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.
Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.
De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
1 071
António Ramos Rosa
51. Pedaço Inteiro do Frio Verde
51
Pedaço inteiro do frio verde
e mão do gelo iluminado
quebre
a unidade de pedra ou harmonia.
Beleza brusca no azul opaco
negação do acaso negando o acaso
por uma coisa graciosa
corça perdida no bosque das palavras.
No preciso atalho mas tão simples
como a clareza do pulso
quebrando a pedra do nome o nome-pedra.
Pedaço inteiro do frio verde
e mão do gelo iluminado
quebre
a unidade de pedra ou harmonia.
Beleza brusca no azul opaco
negação do acaso negando o acaso
por uma coisa graciosa
corça perdida no bosque das palavras.
No preciso atalho mas tão simples
como a clareza do pulso
quebrando a pedra do nome o nome-pedra.
1 021
António Ramos Rosa
29. o Lápis — Esta É a Escrita do Lápis
29
O lápis — esta é a escrita do lápis
que escreve a tortura lapidar
os ossos na neve os nervos lapidares.
Quem negará a pobreza desta escrita
que busca a pobreza essencial
a terra nunca vista e vista
sempre na cegueira essencial de sempre.
Direi diremos o que dissermos nunca
o nunca do nunca a brancura do deserto
o lápis aqui aqui sem água e nus.
O lápis — esta é a escrita do lápis
que escreve a tortura lapidar
os ossos na neve os nervos lapidares.
Quem negará a pobreza desta escrita
que busca a pobreza essencial
a terra nunca vista e vista
sempre na cegueira essencial de sempre.
Direi diremos o que dissermos nunca
o nunca do nunca a brancura do deserto
o lápis aqui aqui sem água e nus.
1 007
António Ramos Rosa
10. Rosto Enraizado Na Palavra
10
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.
Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!
Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.
Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!
Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
1 145
António Ramos Rosa
15. Animado o Poeta Desce
15
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.
Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.
Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.
Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.
Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
1 128
António Ramos Rosa
18. Esculpida Pelas Duas Mãos Amigas
18
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.
Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.
Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.
Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.
Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
1 004
António Ramos Rosa
8. E Boca Ou Acidente de Palavra
8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
1 081
António Ramos Rosa
12. Por Ela, o Qual: Por Ela
12
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.
Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.
Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.
Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.
Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
1 097
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 128
António Ramos Rosa
O Personagem Não Existe Sem Paisagem
O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
1 052
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 216
António Ramos Rosa
A Ordem É Uma Sombra Noutra Sombra
A ordem é uma sombra noutra sombra
que movimenta as páginas e os membros.
A face é de papel, de olhar oblíquo.
O sol congelou-se. A solidão.
A mão inventa então outro calor
da página. Onde a quietude
seja outro sol na sombra de um só dia.
É este o fumo, o som, a cor, a terra.
É este o todo das palavras todas
renascidas da sede: nada e nada.
Palavras sem as torres, mas desastres
de um planeta esquecido agora surto.
E assim se ordena em sombra o personagem.
Não lhe perguntem nada, pois ele é a pergunta
de todas a mais una, a mais ardente.
que movimenta as páginas e os membros.
A face é de papel, de olhar oblíquo.
O sol congelou-se. A solidão.
A mão inventa então outro calor
da página. Onde a quietude
seja outro sol na sombra de um só dia.
É este o fumo, o som, a cor, a terra.
É este o todo das palavras todas
renascidas da sede: nada e nada.
Palavras sem as torres, mas desastres
de um planeta esquecido agora surto.
E assim se ordena em sombra o personagem.
Não lhe perguntem nada, pois ele é a pergunta
de todas a mais una, a mais ardente.
937
António Ramos Rosa
Não É o Meu Amigo Ou Semelhante,
Não é o meu amigo ou semelhante,
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.
Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.
Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
538
António Ramos Rosa
O Momento De
Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
1 181
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
619
António Ramos Rosa
O Personagem É Uma Travessia Intensa
O personagem é uma travessia intensa.
Mas imperscrutável
o seu rosto,
não secreto mas aberto e vago.
A cor dos olhos, por exemplo?
Castanhos, azuis?
Só depende
de uma arbitrária palavra.
Quem o decide agora diz são verdes.
E ei-los visíveis,
ei-los transparentes.
Mas imperscrutável
o seu rosto,
não secreto mas aberto e vago.
A cor dos olhos, por exemplo?
Castanhos, azuis?
Só depende
de uma arbitrária palavra.
Quem o decide agora diz são verdes.
E ei-los visíveis,
ei-los transparentes.
1 039
António Ramos Rosa
O Personagem Viola As Leis da Tarde
O personagem viola as leis da tarde
e é ele a tarde mesma, o seu desvio.
As andorinhas morrem. Ele revive
na paixão da palavra: a andorinha.
Não se eleva jamais do rasto frio
que tem o dia. Mas junta-lhe outro fio
e outro calor que é a cor de outras palavras,
cores da cor, numa unidade múltipla.
Surge o jornal do dia azul e verde,
surge a glória de um sol na cabeleira
da rapariga à esquina, zebra alta,
gozo do dia e rapidez do vento.
e é ele a tarde mesma, o seu desvio.
As andorinhas morrem. Ele revive
na paixão da palavra: a andorinha.
Não se eleva jamais do rasto frio
que tem o dia. Mas junta-lhe outro fio
e outro calor que é a cor de outras palavras,
cores da cor, numa unidade múltipla.
Surge o jornal do dia azul e verde,
surge a glória de um sol na cabeleira
da rapariga à esquina, zebra alta,
gozo do dia e rapidez do vento.
706
António Ramos Rosa
Aqui o Fogo Verde
Aqui o fogo verde
da imagem
entre a anca e a face
a turva
forma
que não atinge ainda a folha clara
Não escuto Nem sei nesta folhagem
qual o rosto É incerto
este trabalho num buraco
como um insecto
sem delicadas forças sem o jacto
que estilhace o vidro e abra a pedra
Mas trabalho estes sinais
de ausência
e de tremor na pedra do vazio
Tenho o silêncio do campo a meu favor
tenho várias pedras vários odores
Construo os meus sulcos
avanço com o alento
atento ao silêncio e ao ardor
Chegarei a formar um rosto
nesta folha
árida?
da imagem
entre a anca e a face
a turva
forma
que não atinge ainda a folha clara
Não escuto Nem sei nesta folhagem
qual o rosto É incerto
este trabalho num buraco
como um insecto
sem delicadas forças sem o jacto
que estilhace o vidro e abra a pedra
Mas trabalho estes sinais
de ausência
e de tremor na pedra do vazio
Tenho o silêncio do campo a meu favor
tenho várias pedras vários odores
Construo os meus sulcos
avanço com o alento
atento ao silêncio e ao ardor
Chegarei a formar um rosto
nesta folha
árida?
935
António Ramos Rosa
Exploração Submarina
a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam
de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto
primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente
aqui mais forte o nome
da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando
o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro onde culminam
secretas palavras que iluminam um rosto
as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas
evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo O corpo abre-se
Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água
a pupila dilata-se
a pele entrega-se só um corpo
existe entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)
e a figura ilumina-se
no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa
Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase e os vários níveis
dos templos do tempo
(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado
um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam
de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto
primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente
aqui mais forte o nome
da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando
o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro onde culminam
secretas palavras que iluminam um rosto
as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas
evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo O corpo abre-se
Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água
a pupila dilata-se
a pele entrega-se só um corpo
existe entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)
e a figura ilumina-se
no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa
Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase e os vários níveis
dos templos do tempo
(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado
um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 017
António Ramos Rosa
Um Sorriso No Silêncio
a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
516
António Ramos Rosa
No Imediato Descobrir do Ar
No imediato descobrir do ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
1 051
António Ramos Rosa
A Página Final
A página final
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil
A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos
tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil
A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos
tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
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António Ramos Rosa
Nascer Com a Palavra
à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página
É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome
Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave
Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta
Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo
Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..
Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida
As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia
Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página
É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome
Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave
Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta
Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo
Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..
Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida
As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia
Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
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