Poemas neste tema
Desejo
Charles Bukowski
Conversa às Três e Meia da Madrugada
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
1 077
Charles Bukowski
Um Poema de Amor
todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas,
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens, algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido, algumas amam
bem, outras nem
tanto, as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas, todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas,
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens, algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido, algumas amam
bem, outras nem
tanto, as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas, todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.
1 556
Charles Bukowski
Metendo Até As Bolas
metendo até as bolas
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo às quatro da manhã
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glória,
ó bolas, ó trombeta e bolas
ó chicote branco e bolas, ó
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bêbado sóbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que não metem não sabem.
os que não podem meter são semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e árvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tão tranquila quanto
possível agora.
enquanto isso, ó bolas, ó bolas, ó belas, ó belas bolas, bolas
belas, ó bolas metidas bolas ó metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lágrimas, eu amo
vocês
mulheres, eu amo vocês.
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo às quatro da manhã
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glória,
ó bolas, ó trombeta e bolas
ó chicote branco e bolas, ó
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bêbado sóbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que não metem não sabem.
os que não podem meter são semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e árvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tão tranquila quanto
possível agora.
enquanto isso, ó bolas, ó bolas, ó belas, ó belas bolas, bolas
belas, ó bolas metidas bolas ó metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lágrimas, eu amo
vocês
mulheres, eu amo vocês.
4 089
Charles Bukowski
O Melhor Poema de Amor Que Posso Escrever No Momento
ouça, eu disse a ela,
por que você não enfia sua língua
no meu
cu?
não, ela disse.
bem, eu disse, se eu enfiar minha língua
no seu cu primeiro
aí você enfia a sua língua
no meu
cu?
tá bom, ela disse.
mergulhei de cabeça lá embaixo
e dei uma olhada,
abri uma parte,
então projetei minha língua...
aí não, ela disse,
ah, hahaha, aí não, esse não é
o lugar certo!
vocês mulheres têm mais buracos do que
queijo suíço...
não quero que você
faça
isso.
por quê?
bem, aí eu vou ter que fazer
também e aí na próxima festa
você vai contar às pessoas que eu lambi o seu cu
com a minha língua.
e se eu prometer que não vou
contar?
você vai ficar bêbado, você vai
contar.
o.k., eu disse, vire o corpo,
vou enfiar no
outro lugar.
ela se virou e eu enfiei minha língua
naquele outro lugar.
estávamos apaixonados
estávamos apaixonados
exceto por aquilo que eu falava nas
festas
e não estávamos apaixonados
pelos cus
um do outro.
ela quer que eu escreva um poema de amor
mas acho que se as pessoas
não conseguem amar os cus
umas das outras
e os peidos e as merdas e as partes terríveis
assim como amam
as partes boas,
isso não é o amor completo.
então até onde podem chegar os poemas de amor,
até onde chegamos nós,
este poema vai ter que
servir.
ISSO É O QUE VOCÊ GANHA PELO SEU SEXISMO
por que você não enfia sua língua
no meu
cu?
não, ela disse.
bem, eu disse, se eu enfiar minha língua
no seu cu primeiro
aí você enfia a sua língua
no meu
cu?
tá bom, ela disse.
mergulhei de cabeça lá embaixo
e dei uma olhada,
abri uma parte,
então projetei minha língua...
aí não, ela disse,
ah, hahaha, aí não, esse não é
o lugar certo!
vocês mulheres têm mais buracos do que
queijo suíço...
não quero que você
faça
isso.
por quê?
bem, aí eu vou ter que fazer
também e aí na próxima festa
você vai contar às pessoas que eu lambi o seu cu
com a minha língua.
e se eu prometer que não vou
contar?
você vai ficar bêbado, você vai
contar.
o.k., eu disse, vire o corpo,
vou enfiar no
outro lugar.
ela se virou e eu enfiei minha língua
naquele outro lugar.
estávamos apaixonados
estávamos apaixonados
exceto por aquilo que eu falava nas
festas
e não estávamos apaixonados
pelos cus
um do outro.
ela quer que eu escreva um poema de amor
mas acho que se as pessoas
não conseguem amar os cus
umas das outras
e os peidos e as merdas e as partes terríveis
assim como amam
as partes boas,
isso não é o amor completo.
então até onde podem chegar os poemas de amor,
até onde chegamos nós,
este poema vai ter que
servir.
ISSO É O QUE VOCÊ GANHA PELO SEU SEXISMO
3 110
Charles Bukowski
Posso Ouvir o Som Das Vidas Humanas Sendo Rasgadas Em Pedaços
estranho calor, fêmeas quentes e frias,
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci são na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchões às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as páginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de história da
Guerra da Crimeia;
é tão tranquilo ficar tranquilo – se você gostar, nada mais
é necessário.
mas a fêmea é estranha, ela é muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
há homens e mulheres morrendo em fábricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não sabe a sorte
que temos...”
“Mas você chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a máquina de escrever está funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como política, medicina,
história e religião
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci são na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchões às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as páginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de história da
Guerra da Crimeia;
é tão tranquilo ficar tranquilo – se você gostar, nada mais
é necessário.
mas a fêmea é estranha, ela é muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
há homens e mulheres morrendo em fábricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não sabe a sorte
que temos...”
“Mas você chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a máquina de escrever está funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como política, medicina,
história e religião
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.
660
Charles Bukowski
O Banho
nós gostamos de tomar banho depois
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
1 755
Charles Bukowski
Nesta Noite
“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem desaparecido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já
se foram.
entendo o que você quer dizer
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
atravessando o assoalho na minha direção
e você pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu porventura escreva
depois deste.
entendo o que você quer dizer.
você entende o que eu quero dizer?
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem desaparecido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já
se foram.
entendo o que você quer dizer
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
atravessando o assoalho na minha direção
e você pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu porventura escreva
depois deste.
entendo o que você quer dizer.
você entende o que eu quero dizer?
1 105
Charles Bukowski
Inflamados de Amor (Para N.W.)
pequena garota morena de
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
1 218
Charles Bukowski
2 Cravos
meu amor me trouxe 2 cravos
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
1 033
Charles Bukowski
Garotas Quietas E Limpas Em Vestidos de Algodão
tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?
ACORDO BEM A TEMPO
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?
ACORDO BEM A TEMPO
1 739
Charles Bukowski
Um Poema de Amor Para Todas As Mulheres Que Eu Conheci
todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
1 221
Charles Bukowski
Oração Para Uma Puta Sob Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão boas de se ter por perto.
elas têm um jeito de brincar com
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
torcendo-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem sobre
a nossa barriga.
não é o foder e o chupar
apenas
o que alcança o íntimo do homem
e o suaviza,
são os extras,
são todos os extras.
está chovendo agora nesta noite
e não há ninguém por aqui.
estão em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
em novos humores
ou talvez em velhos
quartos.
de qualquer forma, está chovendo nesta noite,
um diabo de chuva grossa,
torrencial...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a cia. elétrica
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas suavizam o sujeito
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma puta à moda antiga
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada em sua
bolsa, dizendo “merda, cara,
você consegue achar música melhor
do que essa no seu rádio...
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está
com tesão de amor e tudo
mais
que só continua chovendo
espirrante
vomitante
chuva
boa para as árvores e a
grama e o ar...
boa para coisas que conseguem
viver sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea nas minhas bolas
esta noite.
elas pegam o cara de jeito e
depois o deixam escutando
a chuva.
FAZ QUATRO ANOS QUE NÃO PEGO UMA MULHER
fazer.
elas são tão boas de se ter por perto.
elas têm um jeito de brincar com
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
torcendo-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem sobre
a nossa barriga.
não é o foder e o chupar
apenas
o que alcança o íntimo do homem
e o suaviza,
são os extras,
são todos os extras.
está chovendo agora nesta noite
e não há ninguém por aqui.
estão em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
em novos humores
ou talvez em velhos
quartos.
de qualquer forma, está chovendo nesta noite,
um diabo de chuva grossa,
torrencial...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a cia. elétrica
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas suavizam o sujeito
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma puta à moda antiga
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada em sua
bolsa, dizendo “merda, cara,
você consegue achar música melhor
do que essa no seu rádio...
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está
com tesão de amor e tudo
mais
que só continua chovendo
espirrante
vomitante
chuva
boa para as árvores e a
grama e o ar...
boa para coisas que conseguem
viver sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea nas minhas bolas
esta noite.
elas pegam o cara de jeito e
depois o deixam escutando
a chuva.
FAZ QUATRO ANOS QUE NÃO PEGO UMA MULHER
1 090
Charles Bukowski
O Fim de Um Breve Caso
tentei fazer de pé
dessa vez.
geralmente não
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chão e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clímax
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofá e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
“é melhor você ir. preciso
revelar um filme
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor subiu por trás das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saí
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso é tudo que você tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tão rápido quanto
esperma.
"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"
dessa vez.
geralmente não
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chão e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clímax
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofá e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
“é melhor você ir. preciso
revelar um filme
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor subiu por trás das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saí
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso é tudo que você tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tão rápido quanto
esperma.
"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"
1 433
Charles Bukowski
A Deusa de Um Metro E Oitenta (Para S.D.)
sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela uma abundância para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lábio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de você. não voei até
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu despenco
e nós dormimos.
ela é selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no íntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
não está aqui.
COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela uma abundância para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lábio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de você. não voei até
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu despenco
e nós dormimos.
ela é selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no íntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
não está aqui.
COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES
1 257
Charles Bukowski
Trabalhando
ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
1 192
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 203
Charles Bukowski
Um Encontro Trágico
eu era mais visível e disponível naquele tempo
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
1 210
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 236
Charles Bukowski
O Tempora! o Mores!
venho recebendo revistas de mulherzinha no correio porque
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
1 202
Charles Bukowski
Não Sou Misógino
cada vez mais
recebo cartas de
jovens damas:
“tenho 19 anos e corpo bem-feito
estou sem emprego no momento e
sua escrita me
excita
sou boa dona de casa
e secretária e
eu jamais o
atrapalharia
e
eu poderia mandar uma
foto mas isso é
tão cafona...”
“tenho 21 anos
alta e atraente
li os seus livros
trabalho para um
advogado e
quando você passar pela
cidade
por favor me ligue.”
“nós nos conhecemos
depois da sua leitura
no Troubadour
passamos uma noite
juntos
você se lembra?
eu me casei
com aquele homem
que segundo você tinha uma
voz maldosa
quando você ligou e
ele atendeu
estamos divorciados agora
eu tenho uma
garotinha
de 2 anos
não trabalho mais no
ramo da
música mas
sinto falta
gostaria de
ver você
outra vez...”
“eu li
todos os seus livros
tenho 23 anos
não muito
seio
mas tenho ótimas
pernas
e
bem poucas
palavras
suas
seriam
tão importantes
para mim...”
garotas
por favor deem seus
corpos e suas
vidas
para os jovens rapazes
que
os merecem
além do mais
em hipótese
alguma
eu acolheria de bom grado
o
intolerável
maçante
e disparatado inferno
que vocês criariam
aqui
e
lhes desejo
sorte
na cama
e
fora dela
mas não
na
minha
muito
obrigado.
recebo cartas de
jovens damas:
“tenho 19 anos e corpo bem-feito
estou sem emprego no momento e
sua escrita me
excita
sou boa dona de casa
e secretária e
eu jamais o
atrapalharia
e
eu poderia mandar uma
foto mas isso é
tão cafona...”
“tenho 21 anos
alta e atraente
li os seus livros
trabalho para um
advogado e
quando você passar pela
cidade
por favor me ligue.”
“nós nos conhecemos
depois da sua leitura
no Troubadour
passamos uma noite
juntos
você se lembra?
eu me casei
com aquele homem
que segundo você tinha uma
voz maldosa
quando você ligou e
ele atendeu
estamos divorciados agora
eu tenho uma
garotinha
de 2 anos
não trabalho mais no
ramo da
música mas
sinto falta
gostaria de
ver você
outra vez...”
“eu li
todos os seus livros
tenho 23 anos
não muito
seio
mas tenho ótimas
pernas
e
bem poucas
palavras
suas
seriam
tão importantes
para mim...”
garotas
por favor deem seus
corpos e suas
vidas
para os jovens rapazes
que
os merecem
além do mais
em hipótese
alguma
eu acolheria de bom grado
o
intolerável
maçante
e disparatado inferno
que vocês criariam
aqui
e
lhes desejo
sorte
na cama
e
fora dela
mas não
na
minha
muito
obrigado.
1 293
Charles Bukowski
A Dama do Castelo
ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
1 362
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
916
Charles Bukowski
Dedo
você enfiou o dedo na boceta dela,
ela disse.
não, eu disse, é só um toque
por fora.
bem, pelo que parece você enfiou o
dedo na boceta dela, ela
disse.
não, eu disse, é por fora.
de repente ela rasgou a foto
em pedaços.
ah pelo amor de deus,
Annie, por que é que você fez isso?,
todo mundo falou na
sala.
Annie correu até o meu banheiro e
bateu a porta.
alguém enrolou um baseado e nós
o passamos
de mão em mão.
ela disse.
não, eu disse, é só um toque
por fora.
bem, pelo que parece você enfiou o
dedo na boceta dela, ela
disse.
não, eu disse, é por fora.
de repente ela rasgou a foto
em pedaços.
ah pelo amor de deus,
Annie, por que é que você fez isso?,
todo mundo falou na
sala.
Annie correu até o meu banheiro e
bateu a porta.
alguém enrolou um baseado e nós
o passamos
de mão em mão.
1 221
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
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