Poemas neste tema
Desejo
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 184
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 046
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 199
Marina Colasanti
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
990
Marina Colasanti
CARNAVAL EM FRIBURGO
Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
977
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 088
Allen Ginsberg
Porque Deus é amor, Jack?
Porque eu me deito
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
729
Allen Ginsberg
Mensagem
Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
1 040
Marina Colasanti
INSTRUMENTO SEM SOM
Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 259
Allen Ginsberg
Iluminação de Sather Gate
Por que nego o maná para os outros?
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.
1956
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.
1956
1 010
Allen Ginsberg
Escrito no meu sonho W. C. Williams
“Já que você
carrega
uma
conhecida
verdade
Mais
conhecida como
Desejo
Pra quê
vesti-la de
adornos
ou torcê-la até
ficar
sob medida
para ser
entendida?
Arrisque-se –
Nariz
olhos orelhas
língua
sexo e
cérebro
atirados ao
público
Confie
no seu
próprio
taco
Escute
você mesmo
Fale com
você mesmo
e outros
o farão
felizes,
aliviados
de um fardo –
seu próprio
pensar
e pesar.
O que era
Desejo
terá ainda
mais brilho.”
23 de Novembro, 1984
carrega
uma
conhecida
verdade
Mais
conhecida como
Desejo
Pra quê
vesti-la de
adornos
ou torcê-la até
ficar
sob medida
para ser
entendida?
Arrisque-se –
Nariz
olhos orelhas
língua
sexo e
cérebro
atirados ao
público
Confie
no seu
próprio
taco
Escute
você mesmo
Fale com
você mesmo
e outros
o farão
felizes,
aliviados
de um fardo –
seu próprio
pensar
e pesar.
O que era
Desejo
terá ainda
mais brilho.”
23 de Novembro, 1984
720
Allen Ginsberg
Salmo mágico
Porque o mundo está à beira do abismo e ninguém sabe o quevirá depois
Oh Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites — Inseparável - Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo - Gênio do Universo - Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem -
Indizível Rei das rodovias que se foram - Ininteligível Cavalo saltando fora do sepulcro - Poente sobre a grande Cordilheira e inseto - Cupim -
Lamentoso - Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer - Promessa que não foi feita - Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos -
Oh Misericórdia, Destruidor do Mundo, Oh Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Oh Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem,
invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,
transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,
grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,
Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem foder-me para sempre - véu branco do Polvo sem Olhos -
Cu do Universo no qual desapareço - Mão Elástica que falou com Crane128 —Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio - Ouvido dos edifícios de NY
Aquilo em que acredito - que vi - procurei incessantemente na folha cachorro olho - sempre culpa, falta, - o que me faz pensar -
Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível
que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer -
Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,
eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos
que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte -
Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Moleque entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.
Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,
ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,
devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo - Desce Oh Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo na sua loucura de bombas e morticínio,
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos - caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin - a caveira de luz para Nova York -
miríade de pés recobertos de jóias nos terraços de Pequim - véus de gás elétrico baixando sobre a índia - cidades de
Bactéria invadindo o cérebro - a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso -
Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa,
este é o Sino Dourado da Igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte,
Apelo do agarrâo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo -
Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos
Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira,
que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não-nascida, Oh beleza invisível para meu Século!
que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Alien neste mundo
nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indisível,
que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo
que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação
que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte,
homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.
1960
Oh Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites — Inseparável - Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo - Gênio do Universo - Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem -
Indizível Rei das rodovias que se foram - Ininteligível Cavalo saltando fora do sepulcro - Poente sobre a grande Cordilheira e inseto - Cupim -
Lamentoso - Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer - Promessa que não foi feita - Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos -
Oh Misericórdia, Destruidor do Mundo, Oh Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Oh Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem,
invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,
transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,
grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,
Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem foder-me para sempre - véu branco do Polvo sem Olhos -
Cu do Universo no qual desapareço - Mão Elástica que falou com Crane128 —Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio - Ouvido dos edifícios de NY
Aquilo em que acredito - que vi - procurei incessantemente na folha cachorro olho - sempre culpa, falta, - o que me faz pensar -
Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível
que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer -
Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,
eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos
que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte -
Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Moleque entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.
Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,
ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,
devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo - Desce Oh Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo na sua loucura de bombas e morticínio,
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos - caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin - a caveira de luz para Nova York -
miríade de pés recobertos de jóias nos terraços de Pequim - véus de gás elétrico baixando sobre a índia - cidades de
Bactéria invadindo o cérebro - a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso -
Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa,
este é o Sino Dourado da Igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte,
Apelo do agarrâo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo -
Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos
Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira,
que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não-nascida, Oh beleza invisível para meu Século!
que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Alien neste mundo
nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indisível,
que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo
que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação
que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte,
homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.
1960
1 787
Allen Ginsberg
O Fim
Eu sou Eu, velho Pai Olho de Peixe que procriou o oceano, o verme no meu próprio ouvido, a serpente enrolada na árvore,
Sento-me na mente do carvalho e me oculto na rosa, sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte,
vinde a mim corpos, vinde a mim profecias, vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões,
Eu recebo tudo, morro de câncer, entro no caixão para sempre, fecho meu olho, desapareço,
caio sobre mim mesmo na neve de inverno, rolo numa grande roda pela chuva, observo a convulsão dos que fodem,
carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote, memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães,
gozo no ventre de uma mulher, a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo, o caralho pulando para dentro
derramando sua semente nos lábios de Yin,129 feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou, meus garotos excitados ao crepúsculo nas varandas, chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicêmbalo de Chicago,
Amor que me engendrou retorno a minha Origem sem nada perder, flutuo sobre o vomitório
empolgado por minha imortalidade, empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro,
vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca no teu ouvido.
NY, 1960
Sento-me na mente do carvalho e me oculto na rosa, sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte,
vinde a mim corpos, vinde a mim profecias, vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões,
Eu recebo tudo, morro de câncer, entro no caixão para sempre, fecho meu olho, desapareço,
caio sobre mim mesmo na neve de inverno, rolo numa grande roda pela chuva, observo a convulsão dos que fodem,
carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote, memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães,
gozo no ventre de uma mulher, a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo, o caralho pulando para dentro
derramando sua semente nos lábios de Yin,129 feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou, meus garotos excitados ao crepúsculo nas varandas, chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicêmbalo de Chicago,
Amor que me engendrou retorno a minha Origem sem nada perder, flutuo sobre o vomitório
empolgado por minha imortalidade, empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro,
vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca no teu ouvido.
NY, 1960
1 125
Affonso Romano de Sant'Anna
Coisas da Primavera
O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
1 163
Allen Ginsberg
Europa! Europa!
Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
1 653
Affonso Romano de Sant'Anna
Modigliani E Eu
Modigliani e eu
gostamos de grossas coxas
alongando o desejo nu.
O corpo em repouso
entregue ao olhar.
Modigliani e eu
gostamos de grossas coxas nuas,
não como as que a Rubens apeteciam.
Gostamos Modigliani e eu
de coxas nuas, consistentes.
No olhar, o imponderável.
E no triângulo do sexo
o silencioso,
o discreto,
o imensurável
e doce abismo
a nos chamar.
gostamos de grossas coxas
alongando o desejo nu.
O corpo em repouso
entregue ao olhar.
Modigliani e eu
gostamos de grossas coxas nuas,
não como as que a Rubens apeteciam.
Gostamos Modigliani e eu
de coxas nuas, consistentes.
No olhar, o imponderável.
E no triângulo do sexo
o silencioso,
o discreto,
o imensurável
e doce abismo
a nos chamar.
1 038
Affonso Romano de Sant'Anna
Estranhamento
Estranho
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
1 161
Affonso Romano de Sant'Anna
A Bela do Avião
Mereço tocar em teus cabelos,
loira e anelada mulher
que não me conheces
e estás sentada a dois metros de mim neste avião.
Te contemplo com intimidade. Sei
teus contornos e perfumes.
Reclinas teu assento para dormir
e fechados os olhos viajas
para alguém que te espera, ou não,
sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,
em tua boca perfeita,
teu sublime nariz,
sem saber que conheço teu corpo
com uma intimidade absoluta.
Estou te vendo, com extremado pudor,
em peças íntimas no quarto,
sei da ponta de teus seios
e do grito que lanças ao gozar.
Como deve ser importuno
carregar continuamente
essa beleza
publicamente cobiçada!
Poderia te falar
mas te sentirias imediatamente punida
por seres linda.
Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros
à tua passagem,
pois carregas o fastio da beleza
esse ornamento difícil de ostentar.
Nunca saberás que um poeta
assim te contemplou.
Nunca saberás que estás aqui descrita.
Nunca poderás te valer destes meus versos,
quando, sendo bela, chorares como as feias
e aviltada quiseres morrer
na hora da traição.
loira e anelada mulher
que não me conheces
e estás sentada a dois metros de mim neste avião.
Te contemplo com intimidade. Sei
teus contornos e perfumes.
Reclinas teu assento para dormir
e fechados os olhos viajas
para alguém que te espera, ou não,
sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,
em tua boca perfeita,
teu sublime nariz,
sem saber que conheço teu corpo
com uma intimidade absoluta.
Estou te vendo, com extremado pudor,
em peças íntimas no quarto,
sei da ponta de teus seios
e do grito que lanças ao gozar.
Como deve ser importuno
carregar continuamente
essa beleza
publicamente cobiçada!
Poderia te falar
mas te sentirias imediatamente punida
por seres linda.
Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros
à tua passagem,
pois carregas o fastio da beleza
esse ornamento difícil de ostentar.
Nunca saberás que um poeta
assim te contemplou.
Nunca saberás que estás aqui descrita.
Nunca poderás te valer destes meus versos,
quando, sendo bela, chorares como as feias
e aviltada quiseres morrer
na hora da traição.
1 183
Affonso Romano de Sant'Anna
Velhice Erótica
Estou vivendo a glória de meu sexo
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
1 240
Affonso Romano de Sant'Anna
Entrega
Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
646
Affonso Romano de Sant'Anna
Adolescência
Bom teria sido
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
1 154
Affonso Romano de Sant'Anna
A Maravilha do Mundo
Quem disse
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
1 074
Affonso Romano de Sant'Anna
Um Operário E Seu Desejo
De minha janela vejo um operário que se masturba
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
1 037
Affonso Romano de Sant'Anna
Desenhos de Picasso
“Eu não procuro, eu acho” (Picasso)
O que mostram (escondem)
entre as pernas
as mulheres de Picasso?
Relaxadas, entreabertas, entregues
dadivosas musas mudas
como se fossem gregas lascivas
espanholas carnudas
(ou baianas ociosas?)
nelas o sexo é uma fruta
que o pintor ousado morde.
O que acha (procura)
entre as pernas das mulheres
o pincel de Picasso
por essas vulvas entreabertas
e clitóris expostos
num labirinto de formas?
Ali,
o minotauro
insaciavelmente goza.
O que mostram (escondem)
entre as pernas
as mulheres de Picasso?
Relaxadas, entreabertas, entregues
dadivosas musas mudas
como se fossem gregas lascivas
espanholas carnudas
(ou baianas ociosas?)
nelas o sexo é uma fruta
que o pintor ousado morde.
O que acha (procura)
entre as pernas das mulheres
o pincel de Picasso
por essas vulvas entreabertas
e clitóris expostos
num labirinto de formas?
Ali,
o minotauro
insaciavelmente goza.
1 050