Poemas neste tema
Infância
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 157
Fernando Pessoa
Ah, no terrível silêncio do quarto
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
1 474
Fernando Pessoa
Na ampla sala de jantar das tias velhas
Na ampla sala de jantar das tias velhas
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
1 293
Fernando Pessoa
Névoas de todas as recordações juntas
Névoas de todas as recordações juntas
(A institutrice loura dos jardins pacatos)
Recordo tudo a ouro do sol e papel de seda...
E o arco da criança passa veloz por quase rente a mim...
(A institutrice loura dos jardins pacatos)
Recordo tudo a ouro do sol e papel de seda...
E o arco da criança passa veloz por quase rente a mim...
1 391
Fernando Pessoa
Fausto perante o povo alegre
Alegres camponeses, raparigas
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
1 513
Fernando Pessoa
Se eu tirar com urna pancada
Se eu tirar com urna pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
1 290
Fernando Pessoa
SOUVENIR
How sweetly sad it is sometimes to hear
Some old loved sound to memory recalled,
To see, an if in dreams, some old dear face,
Some landscape's stretch, some field, some dale, some stream
A memory so sudden, sad and pleasant,
Aught that recalls the days of happy youth.
Then spring in happy pain the tears that wait,
Those subtle tears that wait on thought, and all -
Field stream and voice - all that we hear or see -
Goes from the sense, adorned with mem’ry’s hand
And merges slowly into dreamy light.
I wake; alas! by dreams l was betrayed.
Tis but a semblance that l feel and hear
Because the past, alas! cannot return.
These fields are not the fields I knew, these sounds
Are not the sounds I knew: all those are gone,
And all the past - alas! cannot return.
Some old loved sound to memory recalled,
To see, an if in dreams, some old dear face,
Some landscape's stretch, some field, some dale, some stream
A memory so sudden, sad and pleasant,
Aught that recalls the days of happy youth.
Then spring in happy pain the tears that wait,
Those subtle tears that wait on thought, and all -
Field stream and voice - all that we hear or see -
Goes from the sense, adorned with mem’ry’s hand
And merges slowly into dreamy light.
I wake; alas! by dreams l was betrayed.
Tis but a semblance that l feel and hear
Because the past, alas! cannot return.
These fields are not the fields I knew, these sounds
Are not the sounds I knew: all those are gone,
And all the past - alas! cannot return.
1 522
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 113
Fernando Pessoa
MOMENTS - II
II
Baby came into the world.
In a basket full of flowers
Which a fairy brought, an angel
From the paradisal bowers.
Baby came into the world.
In a basket full of flowers
Which a fairy brought, an angel
From the paradisal bowers.
766
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 779
Fernando Pessoa
Quando for a Grande Partida,
Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 357
Fernando Pessoa
THE BELLS
Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
1 444
Fernando Pessoa
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda.
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
1 647
Fernando Pessoa
Ó minha menina loura,
Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
1 596
Fernando Pessoa
Como uma criança, antes de a ensinarem a ser grande,
Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
1 403
Fernando Pessoa
Em tempos quis o mundo inteiro.
Em tempos quis o mundo inteiro.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
1 436
Fernando Pessoa
I. - Take me up in thine arms, oh some mother.
[I.]
Take me up in thine arms, oh some mother.
Take me up in thine arms, make me a child.
An endless lack of joy every joy doth smother
That rises in me, sudden or great or mild.
Take me up in thine arms, rock me to sleep.
Rock me to sleep in a great meaningless way.
And may I hear, like one who sleeps in a house by a bay,
A great loud wind rise like a life from the deep
And cease as I fall asleep like a life that passes away.
II.
All I have wished to do, mother, I have not done.
Even what I wish to feel makes mistakes within me.
I grow tired, dimly tired, of the calm and constant sun,
And restless beside the happier restlessness of the sea.
Oh for a boat to believe I might sail in it and go,
Beyond the walls of my sensations' world and become
A floating absence from my worn self, a discarded woe
Trailing behind me likes a ship's trail, shining through
My consciousness of having dropt my life like a lamp in a home.
III.
Mother, my cheeks grow thin with cares I forget to know.
With things I forget to feel, nor know how to think, I pine.
Mine envy, mother, is with the figure of the sturdy man at the wheel,
That does his duty in storms and is salt at soul with good brine.
My heart is lost to a perillous life full of achievement and breath.
My thoughts are given like gifts to a life I could never live.
Teach me how to myself my own life I can forgive.
Teach me how to love life, at least how not to fear death,
And be all that you teach in the sense of a mute kiss you give.
IV.
Rock me to and fro in your arms, mother. It is night.
There is something of endless motion, of final ceasing of care,
In your rocking of me now from now into the light
That the cottage lamp sheds on your rocking fire with the same yellow flare.
Let me sleep, let me sleep, outsleep the ages and Time.
Drift far away from space like a hulk away from shore.
Be your arms around me like a land or a day or a clime,
Be your casual lips on my brow like forgiveness of crime.
Rock me till I lose being, mother, rock me still more.
V.
My pain outgrows my power to feel pain. I am numb. I am faint.
I sicken from having lived no life, but all dreams, dreams, dreams,
My soul is poisoned, mother, with an old and mysterious tai[nt]
And now that you have stopped rocking full on my brow the lamp gleams.
Hide me, mother, from the light for it seems that it sees.
Hide me, make me be blurred against your breast and the night.
Lo! outside the great swell of the dim and eternal seas!
Mother, whom do we wait, to return from beyond the seas?
Is it for anyone at sea that the joy of our lamp we light.
VI.
The wind hath risen, the wind hath risen. Something is colder and truer.
Something of life and its mystery creeps into the room.
Mother, stop the window chinks, make the door fast and sure.
We never know what horror it is that out of the Night may come.
We know not whom we await. It may be worse than the dark.
It may be shapeless unto our thought and dread as God if he be...
Mother, new sounds are creeping like snakes through the darkness. Hark!
Is it the wind you fear? Is it the sea you remark?
Mother, make me to sleep at once, ere I may hear or see.
VII.
When will it born. Mother, this fear and this smart,
This ache as of something lost or something near to be found,
Coils like a viscous impossible manner of snake round the heart
And the night, mother, the night without being nor bound!...
Put your arms so much around me, so much, so close so fast
That they cover the eyes of my fancy and cling round my thought's quick ear.
Mother, let us not see if the night will pass or last.
Let us not think nor be... Let life be as if past.
Let our total and infinite death be the day and the ceasing of fear.
Take me up in thine arms, oh some mother.
Take me up in thine arms, make me a child.
An endless lack of joy every joy doth smother
That rises in me, sudden or great or mild.
Take me up in thine arms, rock me to sleep.
Rock me to sleep in a great meaningless way.
And may I hear, like one who sleeps in a house by a bay,
A great loud wind rise like a life from the deep
And cease as I fall asleep like a life that passes away.
II.
All I have wished to do, mother, I have not done.
Even what I wish to feel makes mistakes within me.
I grow tired, dimly tired, of the calm and constant sun,
And restless beside the happier restlessness of the sea.
Oh for a boat to believe I might sail in it and go,
Beyond the walls of my sensations' world and become
A floating absence from my worn self, a discarded woe
Trailing behind me likes a ship's trail, shining through
My consciousness of having dropt my life like a lamp in a home.
III.
Mother, my cheeks grow thin with cares I forget to know.
With things I forget to feel, nor know how to think, I pine.
Mine envy, mother, is with the figure of the sturdy man at the wheel,
That does his duty in storms and is salt at soul with good brine.
My heart is lost to a perillous life full of achievement and breath.
My thoughts are given like gifts to a life I could never live.
Teach me how to myself my own life I can forgive.
Teach me how to love life, at least how not to fear death,
And be all that you teach in the sense of a mute kiss you give.
IV.
Rock me to and fro in your arms, mother. It is night.
There is something of endless motion, of final ceasing of care,
In your rocking of me now from now into the light
That the cottage lamp sheds on your rocking fire with the same yellow flare.
Let me sleep, let me sleep, outsleep the ages and Time.
Drift far away from space like a hulk away from shore.
Be your arms around me like a land or a day or a clime,
Be your casual lips on my brow like forgiveness of crime.
Rock me till I lose being, mother, rock me still more.
V.
My pain outgrows my power to feel pain. I am numb. I am faint.
I sicken from having lived no life, but all dreams, dreams, dreams,
My soul is poisoned, mother, with an old and mysterious tai[nt]
And now that you have stopped rocking full on my brow the lamp gleams.
Hide me, mother, from the light for it seems that it sees.
Hide me, make me be blurred against your breast and the night.
Lo! outside the great swell of the dim and eternal seas!
Mother, whom do we wait, to return from beyond the seas?
Is it for anyone at sea that the joy of our lamp we light.
VI.
The wind hath risen, the wind hath risen. Something is colder and truer.
Something of life and its mystery creeps into the room.
Mother, stop the window chinks, make the door fast and sure.
We never know what horror it is that out of the Night may come.
We know not whom we await. It may be worse than the dark.
It may be shapeless unto our thought and dread as God if he be...
Mother, new sounds are creeping like snakes through the darkness. Hark!
Is it the wind you fear? Is it the sea you remark?
Mother, make me to sleep at once, ere I may hear or see.
VII.
When will it born. Mother, this fear and this smart,
This ache as of something lost or something near to be found,
Coils like a viscous impossible manner of snake round the heart
And the night, mother, the night without being nor bound!...
Put your arms so much around me, so much, so close so fast
That they cover the eyes of my fancy and cling round my thought's quick ear.
Mother, let us not see if the night will pass or last.
Let us not think nor be... Let life be as if past.
Let our total and infinite death be the day and the ceasing of fear.
1 440
Fernando Pessoa
I love this world and all these men because
I love this world and all these men because
I shall not love them long. That we do die
I believe not, bound fast to higher laws,
But that we lose this world do not deny.
This light that in the sea makes many a light,
This breeze so soft when least we feel it most,
May be replaced by a diviner sight
Or by a truer breeze; but these are lost.
Like some strange trick of childhood that was ill
Yet had the childhood, in it I regret
Perchance in some far world sublime and stiIl,
The childhood that I never shall forget —
No, nor these toys of sense —this world, these men —,
Dear now when had because dear when lost then.
I shall not love them long. That we do die
I believe not, bound fast to higher laws,
But that we lose this world do not deny.
This light that in the sea makes many a light,
This breeze so soft when least we feel it most,
May be replaced by a diviner sight
Or by a truer breeze; but these are lost.
Like some strange trick of childhood that was ill
Yet had the childhood, in it I regret
Perchance in some far world sublime and stiIl,
The childhood that I never shall forget —
No, nor these toys of sense —this world, these men —,
Dear now when had because dear when lost then.
1 519
Fernando Pessoa
38 - ANAMNESIS
Somewhere where I shall never live
A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.
There, lining walks immemorial,
Great antenatal flowers
My lost life before God recall.
There I was happy and the child
That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.
They took all these true things away.
O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.
There, lining walks immemorial,
Great antenatal flowers
My lost life before God recall.
There I was happy and the child
That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.
They took all these true things away.
O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
1 150
Fernando Pessoa
Saído apenas duma infância
Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
875
Fernando Pessoa
Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
4 775
Fernando Pessoa
39 - CHALICE
Chalice of my communion
With the lost thing that gleams!
Communion‑bond of union
Between me and my dreams!
O chalice of love's most!
In thy wine, earth's wine's ghost
To lips that are God's flowers,
My soul has dipped the host
Of my diviner hours.
My lips are as lips kissed.
My sad soul happy sings.
O shining through the mist
Of tremulous angels' wings!
I feel me God's moon's node,
A child again, outside life's road,
Remembering how I found me
When I awoke from God
And felt the world around me.
With the lost thing that gleams!
Communion‑bond of union
Between me and my dreams!
O chalice of love's most!
In thy wine, earth's wine's ghost
To lips that are God's flowers,
My soul has dipped the host
Of my diviner hours.
My lips are as lips kissed.
My sad soul happy sings.
O shining through the mist
Of tremulous angels' wings!
I feel me God's moon's node,
A child again, outside life's road,
Remembering how I found me
When I awoke from God
And felt the world around me.
1 404
Fernando Pessoa
Eu cantarei,
I
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.
II
Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros,
Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro,
E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá
Canto também, dormindo transparente e calado.
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.
II
Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros,
Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro,
E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá
Canto também, dormindo transparente e calado.
1 003
Fernando Pessoa
Há tantos deuses!
Há tantos deuses!
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora...
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora...
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