Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Leitura
Meus olhos resgatam o que está preso na página: o branco do branco e o
preto do preto.
preto do preto.
1 168
Herberto Helder
Tinha As Mãos de Gesso. Ao Lado, Os Mal
Tinha as mãos de gesso. Ao lado, os malmequeres. Tinha as veias
por cima das cadeiras, lá no alto.
Todo o gesso no alto: os malmequeres.
Ele dormia, dormia.
Aquele homem que as letras atravessavam tinha as mãos
de gesso sobre as cadeiras.
Por cima do alto — dormia, dormia.
As letras encostadas aos telhados, e ali começava
o livro da idade com as suas rosáceas.
Os malmequeres dormiam,
dormiam nas cadeiras. E os telhados
vinham devagar encostar-se às mãos,
nas rosáceas.
No alto, no alto — ele tinha as suas veias
de gesso como o sol
branco encostado.
Perguntei-lhe: aonde vais, caçador
com o arco-íris?
E ele estava coberto de letras encostado
às rosáceas, e disse:
eu dormia, dormia — com as cadeiras
encostadas ao livro da idade,
e agora sou caçador. As minhas mãos
de gesso lá no alto.
Ele tinha malmequeres, e velava
pelos telhados cheios de letras,
e dizia: as rosáceas encostadas ao meu nome,
as cadeiras encostadas,
as mãos de gesso encostadas ao meu nome.
E eu perguntei-lhe: caçador
de arco-íris encostado, aonde vais
assim com a morte encostada ao teu nome?
Ele tinha o gesso como os malmequeres
nas mãos, e disse:
eu dormia, dormia—e eis que as letras
da idade atravessaram a minha morte.
—Aonde vais, encostado à rosácea do teu nome?
Ele tinha, e disse:
com as minhas mãos de gesso,
encostei-me agora à minha morte, no alto.
por cima das cadeiras, lá no alto.
Todo o gesso no alto: os malmequeres.
Ele dormia, dormia.
Aquele homem que as letras atravessavam tinha as mãos
de gesso sobre as cadeiras.
Por cima do alto — dormia, dormia.
As letras encostadas aos telhados, e ali começava
o livro da idade com as suas rosáceas.
Os malmequeres dormiam,
dormiam nas cadeiras. E os telhados
vinham devagar encostar-se às mãos,
nas rosáceas.
No alto, no alto — ele tinha as suas veias
de gesso como o sol
branco encostado.
Perguntei-lhe: aonde vais, caçador
com o arco-íris?
E ele estava coberto de letras encostado
às rosáceas, e disse:
eu dormia, dormia — com as cadeiras
encostadas ao livro da idade,
e agora sou caçador. As minhas mãos
de gesso lá no alto.
Ele tinha malmequeres, e velava
pelos telhados cheios de letras,
e dizia: as rosáceas encostadas ao meu nome,
as cadeiras encostadas,
as mãos de gesso encostadas ao meu nome.
E eu perguntei-lhe: caçador
de arco-íris encostado, aonde vais
assim com a morte encostada ao teu nome?
Ele tinha o gesso como os malmequeres
nas mãos, e disse:
eu dormia, dormia—e eis que as letras
da idade atravessaram a minha morte.
—Aonde vais, encostado à rosácea do teu nome?
Ele tinha, e disse:
com as minhas mãos de gesso,
encostei-me agora à minha morte, no alto.
1 196
Herberto Helder
V E
Selaram-no com um nó vivo como se faz a um odre,
a ele, o dos membros trançados, o recôndito.
Podiam arrancá-lo aos limbos, à virgindade, ao pouco,
destrançá-lo
para o potente e o suave do mundo:
as ramas de leite que se devoram,
sal e mel que se devoram,
pão, o alimento ígneo,
a testa lavorada pela estrela saída agora da forja.
Custara-lhe que a cabeça e os membros atravessassem a vagina
materna.
Mas depois os dois lados da cabeça refulgiram muito,
e ele ergueu-se à altura do seu nome,
antebraços apanhando a luz, pés a correr como em cima de água,
torso puro: algures, algo.
E então selaram-no, e à púrpura nele, e à música jubilatória dos
tubos na boca,
nó de couro num odre vivo,
a frescura como uma chaga:
louco, bêbado. E selado
luzia.
Duro, o sopro e o sangue tornaram-no duro,
as mães não o acalentam, ele,
o sombrio filho das gramáticas,
porque já não quer o peso, o pesadelo:
membros por cima da cabeça e por baixo da barriga,
saco selado a nós de osso, vivo, saco
vivo, osso vivo, dentro um montão
de tripas
brilhando, autor,
como se ele mesmo fosse o poema, lembra-se, o primeiro, talhando
o fôlego,
o das substâncias
quentes, respiração e soluço, o dos elementos:
coziam-se pinhas, pérolas, abelhas, o floral das varas: lume,
se Deus atiçasse ao mesmo tempo as obras —
com uma volta de vento nas mãos fazia
um dia total, o abismo,
ou propriamente o pomar do mundo:
paus estuando de uma agudeza para dentro das frutas,
as laranjeiras com as labaredas,
colinas,
as colinas estremecem pelo poder das laranjas,
ou outros exemplos: que as mães trazem da sua noite a curva
arcaicamente rútila de uma bilha e levam-na até à água fechada, e
abrem-na,
e a água é rútila na bilha,
e por cima do ar comburente e da água tão forte,
poema do começo,
o sistema sideral infunde-se nos trabalhos do terror e da doçura:
a ideia, a idade,
o idioma:
o mais rouco ou mais leve ou de azougue —
poema que desconheço, o antigo, o novíssimo,
o que devora
a mão que o escreve: no papel fica apenas
sal de ouro,
e vê-se tão bem como o rosto se eleva
da sua condição de cometa escarpado caído
raso,
e depois erguido defronte das câmaras,
por entre as pranchas de mármore das florestas da terra,
limpo, lento
— um toque secreto na têmpora,
o tremor da música na boca,
porque é o primeiro e o último baptismo:
o poema escreve o poeta nos recessos mais baixos,
às vezes o nome enche-se de água quebrada no gargalo da bilha,
às vezes é um nome esvaziado de água:
a sangue grosso,
a árduo sopro,
quando o rosto inquilino da luz já não se filma.
1991 e 1994.
a ele, o dos membros trançados, o recôndito.
Podiam arrancá-lo aos limbos, à virgindade, ao pouco,
destrançá-lo
para o potente e o suave do mundo:
as ramas de leite que se devoram,
sal e mel que se devoram,
pão, o alimento ígneo,
a testa lavorada pela estrela saída agora da forja.
Custara-lhe que a cabeça e os membros atravessassem a vagina
materna.
Mas depois os dois lados da cabeça refulgiram muito,
e ele ergueu-se à altura do seu nome,
antebraços apanhando a luz, pés a correr como em cima de água,
torso puro: algures, algo.
E então selaram-no, e à púrpura nele, e à música jubilatória dos
tubos na boca,
nó de couro num odre vivo,
a frescura como uma chaga:
louco, bêbado. E selado
luzia.
Duro, o sopro e o sangue tornaram-no duro,
as mães não o acalentam, ele,
o sombrio filho das gramáticas,
porque já não quer o peso, o pesadelo:
membros por cima da cabeça e por baixo da barriga,
saco selado a nós de osso, vivo, saco
vivo, osso vivo, dentro um montão
de tripas
brilhando, autor,
como se ele mesmo fosse o poema, lembra-se, o primeiro, talhando
o fôlego,
o das substâncias
quentes, respiração e soluço, o dos elementos:
coziam-se pinhas, pérolas, abelhas, o floral das varas: lume,
se Deus atiçasse ao mesmo tempo as obras —
com uma volta de vento nas mãos fazia
um dia total, o abismo,
ou propriamente o pomar do mundo:
paus estuando de uma agudeza para dentro das frutas,
as laranjeiras com as labaredas,
colinas,
as colinas estremecem pelo poder das laranjas,
ou outros exemplos: que as mães trazem da sua noite a curva
arcaicamente rútila de uma bilha e levam-na até à água fechada, e
abrem-na,
e a água é rútila na bilha,
e por cima do ar comburente e da água tão forte,
poema do começo,
o sistema sideral infunde-se nos trabalhos do terror e da doçura:
a ideia, a idade,
o idioma:
o mais rouco ou mais leve ou de azougue —
poema que desconheço, o antigo, o novíssimo,
o que devora
a mão que o escreve: no papel fica apenas
sal de ouro,
e vê-se tão bem como o rosto se eleva
da sua condição de cometa escarpado caído
raso,
e depois erguido defronte das câmaras,
por entre as pranchas de mármore das florestas da terra,
limpo, lento
— um toque secreto na têmpora,
o tremor da música na boca,
porque é o primeiro e o último baptismo:
o poema escreve o poeta nos recessos mais baixos,
às vezes o nome enche-se de água quebrada no gargalo da bilha,
às vezes é um nome esvaziado de água:
a sangue grosso,
a árduo sopro,
quando o rosto inquilino da luz já não se filma.
1991 e 1994.
1 166
Herberto Helder
2
Eis como que uma coisa como que nos interessa: destruir os textos.
Passa-se que:
o caçador vai à procura de cabeças. Que é como quem diz.
Traz cabeças faz um monte.
Um monte de cabeças intempestivas, vociferantes, cabeças rebarbativas.
Arruma tudo, limpa o ar só para elas, um monte grande
luzindo, sibilando assim, ovídeo
turbilhona.
Um monte de desenfreadas cabeças cheias de nós de cá para lá
no vídeo
com uma pressa faiscante.
Atulhadas de pequenas ideias assassinas assim: sibilando
a sua canção estereofónica.
Eis que é como que isso que é como que
é preciso desmanchar: fazer
uma paisagem centrífuga, porque a violência
alimenta-se de música,
música fervente. Electrochoque para os textos apoiados assim
como que em música como que
ali. Isso. Como que: o dínamo nas cabeças lírico-psicóticas:
truculentas — estragando.
Suadas. Soldadas a isto: a ideias frenéticas, como que
soldadas como que
às mãos, aos dedos todos: frenéticos; às garras.
É como que se faz aos textos: toda a destruição.
Pensamos que interessa varrer tudo muito bem:
não é nada com a atmosfera, não é nada que não seja
com destruir por conta
da paisagem escrita que começa sempre à volta de um orifício.
As estações como que trabalham naquilo de
trazer
para muito perto do orifício
a fruta toda os buracos os ovos as víboras os astros as pedras tudo
faiscando.
E o orifício.
E então e o orifício traga tudo. Como as cabeças ficam
faiscando nas mãos.
Queremos dizer que como que abanamos depressa as mãos.
Não se pode acreditar na beleza concentrada
da gramática
como que cheia de como que
força pura,
cintilação,
violência.
Destrói: esta paisagem eternamente em órbita em torno
deste eixo.
Este show treinado como um movimento da terra
com o seu furo incandescente no meio, destrói.
Empurrar as cabeças cheias de relâmpagos para todos os lados
como frases
com fósforo. Cortar aos pedaços.
Quando o vídeo brilha como uma janela como um lirismo
arrebatador. Deitar fora. Ver e marcar onde está o sangue, só.
Passa-se que:
o caçador vai à procura de cabeças. Que é como quem diz.
Traz cabeças faz um monte.
Um monte de cabeças intempestivas, vociferantes, cabeças rebarbativas.
Arruma tudo, limpa o ar só para elas, um monte grande
luzindo, sibilando assim, ovídeo
turbilhona.
Um monte de desenfreadas cabeças cheias de nós de cá para lá
no vídeo
com uma pressa faiscante.
Atulhadas de pequenas ideias assassinas assim: sibilando
a sua canção estereofónica.
Eis que é como que isso que é como que
é preciso desmanchar: fazer
uma paisagem centrífuga, porque a violência
alimenta-se de música,
música fervente. Electrochoque para os textos apoiados assim
como que em música como que
ali. Isso. Como que: o dínamo nas cabeças lírico-psicóticas:
truculentas — estragando.
Suadas. Soldadas a isto: a ideias frenéticas, como que
soldadas como que
às mãos, aos dedos todos: frenéticos; às garras.
É como que se faz aos textos: toda a destruição.
Pensamos que interessa varrer tudo muito bem:
não é nada com a atmosfera, não é nada que não seja
com destruir por conta
da paisagem escrita que começa sempre à volta de um orifício.
As estações como que trabalham naquilo de
trazer
para muito perto do orifício
a fruta toda os buracos os ovos as víboras os astros as pedras tudo
faiscando.
E o orifício.
E então e o orifício traga tudo. Como as cabeças ficam
faiscando nas mãos.
Queremos dizer que como que abanamos depressa as mãos.
Não se pode acreditar na beleza concentrada
da gramática
como que cheia de como que
força pura,
cintilação,
violência.
Destrói: esta paisagem eternamente em órbita em torno
deste eixo.
Este show treinado como um movimento da terra
com o seu furo incandescente no meio, destrói.
Empurrar as cabeças cheias de relâmpagos para todos os lados
como frases
com fósforo. Cortar aos pedaços.
Quando o vídeo brilha como uma janela como um lirismo
arrebatador. Deitar fora. Ver e marcar onde está o sangue, só.
1 016
Herberto Helder
Iv B
Foi-me dada um dia apenas, num dos centros da idade,
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
1 085
Herberto Helder
Em Silêncio Descobri Essa Cidade No Mapa
Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
751
Herberto Helder
Iv H
Medido de espiga a espiga durante a terra contínua,
o ar,
o arco de respiração do mundo,
o ar entrando e saindo pela palavra magnífica,
tão interna e extensa,
tão aparecida palavra escrita,
enflora tanto, pergunta-se: como uma braçada de chamas?,
e se na luz completa alguém entenebrece, se eu
entenebreço, recua
a seara movida a carburante vivo,
constelação com os dedos
rodando
na frase lavrada em baixo a nervo e linha
de sangue, ou poderio
de bafo
na gramática onde se arrumam os objectos minerais
e animais e botânicos e os outros,
todos desde o começo, e o espaço revolto
de orifícios, foles, meatos, bolbos,
oh exercício quente!
— e nesse campo desaforado abate-se então o escuro.
o ar,
o arco de respiração do mundo,
o ar entrando e saindo pela palavra magnífica,
tão interna e extensa,
tão aparecida palavra escrita,
enflora tanto, pergunta-se: como uma braçada de chamas?,
e se na luz completa alguém entenebrece, se eu
entenebreço, recua
a seara movida a carburante vivo,
constelação com os dedos
rodando
na frase lavrada em baixo a nervo e linha
de sangue, ou poderio
de bafo
na gramática onde se arrumam os objectos minerais
e animais e botânicos e os outros,
todos desde o começo, e o espaço revolto
de orifícios, foles, meatos, bolbos,
oh exercício quente!
— e nesse campo desaforado abate-se então o escuro.
1 191
Herberto Helder
Iv J
Arquipélago:
ar que o habita, movimento, sal, abalo.
O barulho, o verbo.
Arqueja a folha onde se funda escrito.
Na linha dos trópicos arqueja de calor e velocidades de água:
e nas frias braças da natação a pique, a morte
submarina.
ar que o habita, movimento, sal, abalo.
O barulho, o verbo.
Arqueja a folha onde se funda escrito.
Na linha dos trópicos arqueja de calor e velocidades de água:
e nas frias braças da natação a pique, a morte
submarina.
582
Herberto Helder
Joelhos, Salsa, Lábios, Mapa.
Joelhos, salsa, lábios, mapa.
As letras dormiam na noite inclinada, e eram
silveiras bravas. Por elas
escorregava o sono inclinado: mercúrio,
salsa leve.
Unidas as letras nos cotovelos, unidas
dormindo
nos seus frios joelhos de letras.
Por baixo, os mapas redondos com seu
mercúrio leve e a sua
salsa leve inclinada. Bravias
silveiras escorregando nos mapas.
Meus lábios unidos às letras dormindo.
Esse, isso — cabelo quente,
telha molhada.
Fogo, vestido, cidade, areia.
Cantando as mulheres palpitavam às portas,
sonhando com atenção. E eu —
engenheiro móvel — enquanto
a noite sensível.
Martelos batiam borboletas como sons
na cidade de areia.
As letras vergavam num sonho.
Cantando linho agudo na atenção
sensível, vergadas às portas,
mulheres cantavam, palpitando letras
na cidade de areia.
Longe, perto — cabelo
quente, telha molhada.
Mulheres, mercúrio, noite, fábrica.
Através do livro raso, um estupendo k
negro de tanto amor.
E o meu grito, copo de pé através
de frias fábricas.
o radar pontuava a viagem das rosas.
Vírgulas na neve batendo nas rosas.
Ww, tt, aspas, parêntesis sensíveis.
Enquanto através alguém ia gritando
pela noite, pela neve — o seu amor:
cabelo quente, telha molhada.
Engenheiro, letra, grito, aspas.
A terra irada escrevia o seu livro raso.
Enquanto por baixo as letras dos peixes
fazendo som.
Eles vinham sonhando, elas vinham sonhando.
Como vírgulas num mapa—os peixes, as letras
vergavam num sonho.
Martelos batendo som nos peixes.
Por baixo os martelos, por cima o radar,
no meio os peixes, as letras, as rosas.
E dentro de mim as vírgulas grandes —
cor de martelos,
som de rosas.
Esse grito, essa letra — cabelo quente, telha
molhada.
Som, radar, peixe, k.
E um terrível amor —pontapé estupendo,
tempestade de areia.
Então o cabelo respirava como uma tábua
irada. Longe, perto — as silveiras
vergavam ao som de mulheres
cantando vírgulas, peixes e aspas.
Enquanto a visão de um copo de pé e da letra k.
E a minha alegria, fábrica de
cabelo quente, telha molhada.
Copo, muro, livro, tábua.
Então o meu cabelo respirava.
Telhas voavam pelos canais —11, tt, ii — durante
todo o pensamento, e os cabelos
no muro batiam finas estátuas.
Abrindo no escuro, durante toda a neve,
os copos, os vestidos, os mapas.
E dentro de mim, rompendo peixes,
uma noite sensível cor de martelos.
Esse grito, essa vírgula, esse amor, esse
martelo louco
nas borboletas. Então o meu cabelo
respirava — cabelo quente, telha
molhada.
Neve, borboleta, vírgula, estátua.
Na noite sensível — louco, louco —
loucamente levantava sobre o livro raso
essa letra k.
Elas tinham asas de castiçal na cara.
Enquanto eu — engenheiro móvel — na fria
fábrica, um copo de pé, um sentimento
de areia. Irado amor em todos
os mapas — cabelo quente,
telha molhada.
Martelo, sono, rosa, porta.
Eu comia fogo ao pé das cerejas.
Álcool escorrendo num retrato aberto
ao contrário da noite.
E as cerejas dormiam de tão abertas —
líricas e loucas.
E eu, álcool escorrendo
pelas fábricas de neve, abertas.
A cabeça aguda dormia nos ares
de um livro raso — cabelo
quente, telha molhada.
Cara, retrato, canal, álcool.
Sinistro na mão um peixe levantado
louco, alguém
gritando, ia gritando pela fábrica fora.
Rosas enoveladas vergavam no sono,
enquanto letras com os cabelos
escorrendo num muro.
Extraordinário, pendurado no sono
sinistro, um negro peixe
morria durante a neve inteira.
Com esse peixe, alguém ia gritando:
cabelo quente, telha molhada.
Gritando, cor de martelo, em peixes
com som de rosas:
Castiçal, silveira, linho — e:
porta porta.
1963.
As letras dormiam na noite inclinada, e eram
silveiras bravas. Por elas
escorregava o sono inclinado: mercúrio,
salsa leve.
Unidas as letras nos cotovelos, unidas
dormindo
nos seus frios joelhos de letras.
Por baixo, os mapas redondos com seu
mercúrio leve e a sua
salsa leve inclinada. Bravias
silveiras escorregando nos mapas.
Meus lábios unidos às letras dormindo.
Esse, isso — cabelo quente,
telha molhada.
Fogo, vestido, cidade, areia.
Cantando as mulheres palpitavam às portas,
sonhando com atenção. E eu —
engenheiro móvel — enquanto
a noite sensível.
Martelos batiam borboletas como sons
na cidade de areia.
As letras vergavam num sonho.
Cantando linho agudo na atenção
sensível, vergadas às portas,
mulheres cantavam, palpitando letras
na cidade de areia.
Longe, perto — cabelo
quente, telha molhada.
Mulheres, mercúrio, noite, fábrica.
Através do livro raso, um estupendo k
negro de tanto amor.
E o meu grito, copo de pé através
de frias fábricas.
o radar pontuava a viagem das rosas.
Vírgulas na neve batendo nas rosas.
Ww, tt, aspas, parêntesis sensíveis.
Enquanto através alguém ia gritando
pela noite, pela neve — o seu amor:
cabelo quente, telha molhada.
Engenheiro, letra, grito, aspas.
A terra irada escrevia o seu livro raso.
Enquanto por baixo as letras dos peixes
fazendo som.
Eles vinham sonhando, elas vinham sonhando.
Como vírgulas num mapa—os peixes, as letras
vergavam num sonho.
Martelos batendo som nos peixes.
Por baixo os martelos, por cima o radar,
no meio os peixes, as letras, as rosas.
E dentro de mim as vírgulas grandes —
cor de martelos,
som de rosas.
Esse grito, essa letra — cabelo quente, telha
molhada.
Som, radar, peixe, k.
E um terrível amor —pontapé estupendo,
tempestade de areia.
Então o cabelo respirava como uma tábua
irada. Longe, perto — as silveiras
vergavam ao som de mulheres
cantando vírgulas, peixes e aspas.
Enquanto a visão de um copo de pé e da letra k.
E a minha alegria, fábrica de
cabelo quente, telha molhada.
Copo, muro, livro, tábua.
Então o meu cabelo respirava.
Telhas voavam pelos canais —11, tt, ii — durante
todo o pensamento, e os cabelos
no muro batiam finas estátuas.
Abrindo no escuro, durante toda a neve,
os copos, os vestidos, os mapas.
E dentro de mim, rompendo peixes,
uma noite sensível cor de martelos.
Esse grito, essa vírgula, esse amor, esse
martelo louco
nas borboletas. Então o meu cabelo
respirava — cabelo quente, telha
molhada.
Neve, borboleta, vírgula, estátua.
Na noite sensível — louco, louco —
loucamente levantava sobre o livro raso
essa letra k.
Elas tinham asas de castiçal na cara.
Enquanto eu — engenheiro móvel — na fria
fábrica, um copo de pé, um sentimento
de areia. Irado amor em todos
os mapas — cabelo quente,
telha molhada.
Martelo, sono, rosa, porta.
Eu comia fogo ao pé das cerejas.
Álcool escorrendo num retrato aberto
ao contrário da noite.
E as cerejas dormiam de tão abertas —
líricas e loucas.
E eu, álcool escorrendo
pelas fábricas de neve, abertas.
A cabeça aguda dormia nos ares
de um livro raso — cabelo
quente, telha molhada.
Cara, retrato, canal, álcool.
Sinistro na mão um peixe levantado
louco, alguém
gritando, ia gritando pela fábrica fora.
Rosas enoveladas vergavam no sono,
enquanto letras com os cabelos
escorrendo num muro.
Extraordinário, pendurado no sono
sinistro, um negro peixe
morria durante a neve inteira.
Com esse peixe, alguém ia gritando:
cabelo quente, telha molhada.
Gritando, cor de martelo, em peixes
com som de rosas:
Castiçal, silveira, linho — e:
porta porta.
1963.
1 229
Herberto Helder
Em Marte Aparece a Tua Cabeça -
Em marte aparece a tua cabeça —
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina —
eu queria dizer.
Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas —
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos 11, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.
A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes —
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.
Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, cômo maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio — e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. Atua cabeça, a cortina fria.
Dou-te as letras dos peixes, escutando —
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina —
eu queria dizer.
Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas —
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos 11, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.
A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes —
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.
Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, cômo maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio — e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. Atua cabeça, a cortina fria.
Dou-te as letras dos peixes, escutando —
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
1 314
Herberto Helder
Iv F
Um espelho em frente de um espelho: imagem
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.
Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move
para o centro de si mesmo,
como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.
Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse,
com o seu nome do princípio,
entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
da cor e do exemplo,
se até ao coração da pedra e dele mesmo
devorasse a matéria exaltada,
por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
vivo: profundamente
num único nó de corpo,
e brilharia até se consumir
de si, todo — e a terra, suportaria ela
o poema disso?
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.
Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move
para o centro de si mesmo,
como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.
Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse,
com o seu nome do princípio,
entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
da cor e do exemplo,
se até ao coração da pedra e dele mesmo
devorasse a matéria exaltada,
por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
vivo: profundamente
num único nó de corpo,
e brilharia até se consumir
de si, todo — e a terra, suportaria ela
o poema disso?
1 216
Herberto Helder
Iii I
Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
966
Herberto Helder
Húmus
Material: palavras, frases, fragmentos, imagens, metáforas do Húmus de Raul Brandão,
Regra: liberdades, liberdade.
Pátios de lajes soerguidas pelo único
esforço da erva: o castelo —
a escada, a torre, a porta,
a praça.
Tudo isto flutua debaixo
de água, debaixo de água.
— Ouves
o grito dos mortos?
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
só a água fala nos buracos.
São palavras pronunciadas com medo de pousar,
uma tarde que viesse na ponta dos pés, o som
devagar de uma
borboleta.
—A morte não tem
só cinco letras. Como a claridade na água
para me entontecer,
a cantaria lavrada:
com um povo de estátuas em cima,
com um povo de mortos em baixo.
Primaveras extasiadas, espaços negros, flores desmedidas
— todos os dias debalde repelimos os mortos.
É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
Uma candeia vem de mão de mulher
em mão de mulher, debruça-se
sobre uma grandeza.
Aumenta.
— Quem grita?
Só a água fala nos buracos.
Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta
no interior da terra. Somos
um reflexo dos mortos, o mundo
não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto
— as palavras, palavras.
A lua de coral sobe
no silêncio, por trás
da montanha em osso. É o silêncio.
O silêncio e o que se cria no silêncio.
E o que remexe no silêncio.
É uma voz.
A morte.
— Nas tardes estonteadas encontrei
uma árvore de pé, do tamanho
de um prédio. As árvores
atravessam o inverno, ressuscitam.
São as primaveras sucessivas, delicadas, as primaveras
frenéticas. As primeiras primaveras.
Primaveras que atingem o auge nos mortos.
Fecho os olhos: há outra coisa enorme.
Atrás desta vila há outra vila maior, outra
imagem maior. Há palavras
que é preciso afundar logo noutras
palavras.
— Uma vida monstruosa.
Quando falo está ali outra coisa quando
me calo.
Outra figura maior.
Fecho os olhos: vejo virem os gestos. O espanto
recamado de mundos caminha
desabaladamente.
— Sinto os mortos.
Aterra remexe. De mais longe
vem um ímpeto. Põe-se a caminho a imensa
floresta apodrecida. Ouve-se
a dor das árvores. Sente-se a dor
dos seres
vegetativos,
ao terem de apressar a sua
vida lenta. Pôs-se a caminho
um remexer de treva. E não tardam
as dispersas primaveras,
uma atrás da outra.
Passa no mundo a estranha ventania. Os mortos
empurram os vivos.
E o tumulto,
o peso do espanto, as forças
monstruosas e cegas. Apedra espera ainda
dar flor, o som
tem um peso, há almas embrionárias.
—Tudo isto se fez pelo lado de dentro,
tudo isto cresceu pelo lado de dentro.
Acrescentou-se o tempo um alto
relevo esquecido.
O tempo.
Acrescentou-se um pórtico aos pórticos,
um terraço aos terraços. E um friso
fantástico com uma cidade incompleta.
Aqui a nave atinge alturas
desconexas: o tempo.
Ouves o grito dos mortos?
— O tempo.
É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
É preciso criar os mortos pela força
magnética das palavras.
Através da paciência,
o esforço do homem tende para
a criação dos mortos.
Por trás da imobilidade, horas verdes
caem de espaço a espaço
— gotas de água no fundo de um subterrâneo.
E em volta um círculo de montanhas atentas.
No alto da noite côncava e branca,
uma camélia gelada. E metem as árvores
para o interior
a tinta e os ramos.
Absorção
dolorosa, diamante polido, vegetação
criptogâmica.
— O tempo.
E o céu. Basta-nos o nome para lidar
com ele.
O céu.
Uma nódoa que se entranha
noutra nódoa.
—A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no silêncio.
Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo
sem tremer: sinto-me
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.
E estou só e a noite.
Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.
O lento acordar das vozes submersas: uma treva
viva, um buraco de treva.
Imaginem
isto, imaginem
o lojista em debate com a vida subterrânea,
o lojista deparando com uma alma esplêndida,
e depois outro assombro.
E atrás deste assombro há outro assombro.
Passos apressados dentro das próprias almas.
A pedra abre a cauda de ouro incessante.
Mãos sôfregas palpam sedas amarelas,
e pergunto,
perguntas, perguntam.
Oh, palavras não, porque tudo está vivo:
o assombro, o esplendor, o êxtase,
o crime.
Noite caiada com uma mancha vermelha
de pólo a pólo, catástrofes
boreais, estrelas no caos, terrores
eléctricos.
— Ouves o grito dos mortos?
Também eu atravessei o inferno.
Chegava
a ouvir o contacto das aranhas devorando-se
no fundo. O meu horrível pensamento só a custo
continha o tumulto dos mortos.
Há dias em que o céu e o inferno esperam
e desesperam. Velhos lojistas
olham para si próprios com terror.
Uma coisa desconforme
levanta-se
e deita-se
connosco.
— São outros mortos ainda.
Vê tu a árvore: uma camada de flor — um grito,
outra camada de flor —outro grito.
Sob o fluido eléctrico, o quintal
tresnoita. Até o escuro se eriça. Há diálogos
formidáveis na obscuridade.
Nesta primavera há duas primaveras — perfume,
ferocidade. Turbilhão azul sem nome.
O sonho irrompe como hastes de cactos, pélago
desordenado.
— Eu sou a árvore e o céu,
faço parte do espanto, vivo e morro.
Vem a noite. Os céus nocturnos parecem
ter gelado em azul. Vem a noite,
e com a noite interrogo-me: — Existe?
O que existe é monstruoso.
Por trás de mim há uma coisa
que apavora.
— Ouves o grito dos mortos?
Respiro. É uma atmosfera
de reticências. Aparte de dentro é que está
viva. Respiro.
—A beleza não existe.
A miséria conserva, tem os cabelos pretos,
perde-os todas as noites com um sorriso
de angústia.
Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
— Sentiste
o teu pensamento avançar
no silêncio?
mais um passo
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O sol negro.
Lepra.
As canduras.
Só a água fala nos buracos.
Estamos como sons, peixes
repercutidos. O homem rói dentro do homem,
criam-se
olhos que vêem na obscuridade.
Deitamos flor pelo lado de dentro.
— Os túmulos
estão gastos de um lado pelos passos
dos vivos, e do outro
pelo esforço dos mortos.
Moram de um lado o espanto, a lentidão, a paciência,
a ferocidade.
Aqui agora a escuridão é viva.
De pé, de ferro, olhos brancos, verde.
Irrompe para o lado de fora.
— Está viva.
Ouço o ruído calamitoso das águas.
São muitas vozes.
Os mortos estonteados
têm medo de nascerem belos.
A noite
é de aparato.
Atrás disto andam enxurradas
de sóis e de pedras, e outras figuras tremendas
atrás das palavras. Fica de pé
o espanto, e os mortos mais vivos
do que quando estavam vivos.
Sob o fluido
eléctrico, todo o ano as árvores se desentranham
em flor. Pegou-lhes sonho também, é um
desbarato, uma
profusão que as devora. A alma
é exterior, envolve
e impregna o corpo. Na pedra recalcada
e concentrada, os grandes fluidos
desgrenhados. Na árvore, a alma da árvore.
Na pedra, a alma da pedra.
Ouves o grito dos mortos?
E preciso
abalar os túmulos, desenterrar os mortos.
Através da pedra destas fisionomias, transparecem
outras fisionomias.
Os mortos, os mortos.
Usam a cabeça como quem usa um resplendor.
De pé na voragem,
pergunto,
perguntas,
perguntam.
E nesse momento de paixão, todas
as forças se concentram, e ponho o pé
no mistério.
Estalaram os botões dos salgueiros.
Um bafo húmido-lilás turba e perturba.
A primavera toca mais fundo na loucura, revolve
os vivos e os mortos.
— Todos deitam flor.
Cai o inverno dentro da primavera,
engrandece-a: tudo se entreabre em vertigem
azul.
Os mortos andam.
Vagueia a floresta apodrecida e avança
desenraizada
para mim.
Uma inocência atroz,
uma tristeza irreflectida
põe a mão e molha, deforma tudo, destinge sonho.
O que estava por baixo está agora por cima.
A flor esbraseada das noites sobre noites
de concentração, com o sítio
imóvel, as labaredas do sítio imóvel.
Tudo está ligado e é conduzido
por uma mão enorme.
As bocas falam
por muitas bocas.
— Ouves o grito dos mortos?
A um grito em baixo corresponde logo
um grito em cima.
Os seres
extraordinários
que ainda não tinham entrado no mundo.
Um arranco na profundidade, põe-se
a caminho outro panorama.
Esta luta
entre o inferno e o sonho revestiu-se
de cimento e de grandeza.
Sustentada num único pilar, a noite —
poça azul, ouro gelado —
tem os cabelos em pé.
O pavor entrou em plena primavera.
Cachorros, agachados de terror, sustentam
uma arcatura de luz intolerável.
É o sonho em marcha, a que não ouço
os passos, uma gota de tinta como uma gota
de leite.
Delicadeza, abundância, tinta
entornada.
A cerejeira é uma aparição,
a febre devora as macieiras, todas
as árvores se consomem de sonho.
São construções vivas, fixadas no silêncio,
suspensas na luz.
Ah, cinematografar
a morte de uma flor, uma tábua atónita,
um nome transfigurado.
— Ouves
o grito dos mortos?
Gomo se as palavras
gesticulassem para dentro, como uma primavera
escorre morte.
Agora meto-me medo.
Dois castiçais de prata foram a minha vida.
As aranhas envelhecem,
as sombras caminham,
dessa pata monstruosa escorre sempre ternura.
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
Apenas
o som devagar de uma borboleta, um exagero
minúsculo, medo, uma névoa sensível, uma
mulher, o que vale um pássaro.
Apenas
as velhas, uma roda de aranhas na cabeça
— até que adormecem comum sorriso
cândido.
— Quem grita?
Atravessei viva o inferno — diz uma árvore
entontecida, tão viva
que a confundo com a morte.
E uma inteligência
exterior.
Sou os mortos — diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu.
E o diálogo dos dias e das noites,
entre as fazendas petrificadas e os grandes
desmoronamentos das estrelas.
Mais braços na monstruosa árvore do sonho,
cores ininterruptas, colunatas
absortas, pórticos
imaginários, a sombra da sombra.
Também eu atravessei o inferno.
Chegava
a ouvir o contacto das aranhas devorando-se
no fundo. O meu horrível pensamento só a custo
continha o tumulto dos mortos.
Pergunto,
perguntas, perguntam.
Oh, palavras não,
porque tudo está vivo: o assombro, o esplendor,
o êxtase,
o crime.
As figuras
são figuras de delírio, deitam raízes
tremendas, atentas,
raízes eléctricas.
Ah, uma catástrofe que engrandeça,
o prestígio da peste, a fascinação das coisas
mais altas.
Os mortos, uma enxurrada
de cores rudimentares, o colérico
crime dos mortos.
E o grito dos mortos libertos.
Imóveis, magnéticas — as sedas amarelas.
Acordou toda a peste nas florestas
intangíveis.
Os astros mudam de cor
de queda em queda.
É preciso
criar palavras, sons, palavras vivas,
obscuras, terríveis.
— Ouves o grito dos mortos?
É preciso matar os mortos,
outra vez,
os mortos.
1966.
Regra: liberdades, liberdade.
Pátios de lajes soerguidas pelo único
esforço da erva: o castelo —
a escada, a torre, a porta,
a praça.
Tudo isto flutua debaixo
de água, debaixo de água.
— Ouves
o grito dos mortos?
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
só a água fala nos buracos.
São palavras pronunciadas com medo de pousar,
uma tarde que viesse na ponta dos pés, o som
devagar de uma
borboleta.
—A morte não tem
só cinco letras. Como a claridade na água
para me entontecer,
a cantaria lavrada:
com um povo de estátuas em cima,
com um povo de mortos em baixo.
Primaveras extasiadas, espaços negros, flores desmedidas
— todos os dias debalde repelimos os mortos.
É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
Uma candeia vem de mão de mulher
em mão de mulher, debruça-se
sobre uma grandeza.
Aumenta.
— Quem grita?
Só a água fala nos buracos.
Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta
no interior da terra. Somos
um reflexo dos mortos, o mundo
não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto
— as palavras, palavras.
A lua de coral sobe
no silêncio, por trás
da montanha em osso. É o silêncio.
O silêncio e o que se cria no silêncio.
E o que remexe no silêncio.
É uma voz.
A morte.
— Nas tardes estonteadas encontrei
uma árvore de pé, do tamanho
de um prédio. As árvores
atravessam o inverno, ressuscitam.
São as primaveras sucessivas, delicadas, as primaveras
frenéticas. As primeiras primaveras.
Primaveras que atingem o auge nos mortos.
Fecho os olhos: há outra coisa enorme.
Atrás desta vila há outra vila maior, outra
imagem maior. Há palavras
que é preciso afundar logo noutras
palavras.
— Uma vida monstruosa.
Quando falo está ali outra coisa quando
me calo.
Outra figura maior.
Fecho os olhos: vejo virem os gestos. O espanto
recamado de mundos caminha
desabaladamente.
— Sinto os mortos.
Aterra remexe. De mais longe
vem um ímpeto. Põe-se a caminho a imensa
floresta apodrecida. Ouve-se
a dor das árvores. Sente-se a dor
dos seres
vegetativos,
ao terem de apressar a sua
vida lenta. Pôs-se a caminho
um remexer de treva. E não tardam
as dispersas primaveras,
uma atrás da outra.
Passa no mundo a estranha ventania. Os mortos
empurram os vivos.
E o tumulto,
o peso do espanto, as forças
monstruosas e cegas. Apedra espera ainda
dar flor, o som
tem um peso, há almas embrionárias.
—Tudo isto se fez pelo lado de dentro,
tudo isto cresceu pelo lado de dentro.
Acrescentou-se o tempo um alto
relevo esquecido.
O tempo.
Acrescentou-se um pórtico aos pórticos,
um terraço aos terraços. E um friso
fantástico com uma cidade incompleta.
Aqui a nave atinge alturas
desconexas: o tempo.
Ouves o grito dos mortos?
— O tempo.
É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
É preciso criar os mortos pela força
magnética das palavras.
Através da paciência,
o esforço do homem tende para
a criação dos mortos.
Por trás da imobilidade, horas verdes
caem de espaço a espaço
— gotas de água no fundo de um subterrâneo.
E em volta um círculo de montanhas atentas.
No alto da noite côncava e branca,
uma camélia gelada. E metem as árvores
para o interior
a tinta e os ramos.
Absorção
dolorosa, diamante polido, vegetação
criptogâmica.
— O tempo.
E o céu. Basta-nos o nome para lidar
com ele.
O céu.
Uma nódoa que se entranha
noutra nódoa.
—A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no silêncio.
Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo
sem tremer: sinto-me
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.
E estou só e a noite.
Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.
O lento acordar das vozes submersas: uma treva
viva, um buraco de treva.
Imaginem
isto, imaginem
o lojista em debate com a vida subterrânea,
o lojista deparando com uma alma esplêndida,
e depois outro assombro.
E atrás deste assombro há outro assombro.
Passos apressados dentro das próprias almas.
A pedra abre a cauda de ouro incessante.
Mãos sôfregas palpam sedas amarelas,
e pergunto,
perguntas, perguntam.
Oh, palavras não, porque tudo está vivo:
o assombro, o esplendor, o êxtase,
o crime.
Noite caiada com uma mancha vermelha
de pólo a pólo, catástrofes
boreais, estrelas no caos, terrores
eléctricos.
— Ouves o grito dos mortos?
Também eu atravessei o inferno.
Chegava
a ouvir o contacto das aranhas devorando-se
no fundo. O meu horrível pensamento só a custo
continha o tumulto dos mortos.
Há dias em que o céu e o inferno esperam
e desesperam. Velhos lojistas
olham para si próprios com terror.
Uma coisa desconforme
levanta-se
e deita-se
connosco.
— São outros mortos ainda.
Vê tu a árvore: uma camada de flor — um grito,
outra camada de flor —outro grito.
Sob o fluido eléctrico, o quintal
tresnoita. Até o escuro se eriça. Há diálogos
formidáveis na obscuridade.
Nesta primavera há duas primaveras — perfume,
ferocidade. Turbilhão azul sem nome.
O sonho irrompe como hastes de cactos, pélago
desordenado.
— Eu sou a árvore e o céu,
faço parte do espanto, vivo e morro.
Vem a noite. Os céus nocturnos parecem
ter gelado em azul. Vem a noite,
e com a noite interrogo-me: — Existe?
O que existe é monstruoso.
Por trás de mim há uma coisa
que apavora.
— Ouves o grito dos mortos?
Respiro. É uma atmosfera
de reticências. Aparte de dentro é que está
viva. Respiro.
—A beleza não existe.
A miséria conserva, tem os cabelos pretos,
perde-os todas as noites com um sorriso
de angústia.
Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
— Sentiste
o teu pensamento avançar
no silêncio?
mais um passo
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O sol negro.
Lepra.
As canduras.
Só a água fala nos buracos.
Estamos como sons, peixes
repercutidos. O homem rói dentro do homem,
criam-se
olhos que vêem na obscuridade.
Deitamos flor pelo lado de dentro.
— Os túmulos
estão gastos de um lado pelos passos
dos vivos, e do outro
pelo esforço dos mortos.
Moram de um lado o espanto, a lentidão, a paciência,
a ferocidade.
Aqui agora a escuridão é viva.
De pé, de ferro, olhos brancos, verde.
Irrompe para o lado de fora.
— Está viva.
Ouço o ruído calamitoso das águas.
São muitas vozes.
Os mortos estonteados
têm medo de nascerem belos.
A noite
é de aparato.
Atrás disto andam enxurradas
de sóis e de pedras, e outras figuras tremendas
atrás das palavras. Fica de pé
o espanto, e os mortos mais vivos
do que quando estavam vivos.
Sob o fluido
eléctrico, todo o ano as árvores se desentranham
em flor. Pegou-lhes sonho também, é um
desbarato, uma
profusão que as devora. A alma
é exterior, envolve
e impregna o corpo. Na pedra recalcada
e concentrada, os grandes fluidos
desgrenhados. Na árvore, a alma da árvore.
Na pedra, a alma da pedra.
Ouves o grito dos mortos?
E preciso
abalar os túmulos, desenterrar os mortos.
Através da pedra destas fisionomias, transparecem
outras fisionomias.
Os mortos, os mortos.
Usam a cabeça como quem usa um resplendor.
De pé na voragem,
pergunto,
perguntas,
perguntam.
E nesse momento de paixão, todas
as forças se concentram, e ponho o pé
no mistério.
Estalaram os botões dos salgueiros.
Um bafo húmido-lilás turba e perturba.
A primavera toca mais fundo na loucura, revolve
os vivos e os mortos.
— Todos deitam flor.
Cai o inverno dentro da primavera,
engrandece-a: tudo se entreabre em vertigem
azul.
Os mortos andam.
Vagueia a floresta apodrecida e avança
desenraizada
para mim.
Uma inocência atroz,
uma tristeza irreflectida
põe a mão e molha, deforma tudo, destinge sonho.
O que estava por baixo está agora por cima.
A flor esbraseada das noites sobre noites
de concentração, com o sítio
imóvel, as labaredas do sítio imóvel.
Tudo está ligado e é conduzido
por uma mão enorme.
As bocas falam
por muitas bocas.
— Ouves o grito dos mortos?
A um grito em baixo corresponde logo
um grito em cima.
Os seres
extraordinários
que ainda não tinham entrado no mundo.
Um arranco na profundidade, põe-se
a caminho outro panorama.
Esta luta
entre o inferno e o sonho revestiu-se
de cimento e de grandeza.
Sustentada num único pilar, a noite —
poça azul, ouro gelado —
tem os cabelos em pé.
O pavor entrou em plena primavera.
Cachorros, agachados de terror, sustentam
uma arcatura de luz intolerável.
É o sonho em marcha, a que não ouço
os passos, uma gota de tinta como uma gota
de leite.
Delicadeza, abundância, tinta
entornada.
A cerejeira é uma aparição,
a febre devora as macieiras, todas
as árvores se consomem de sonho.
São construções vivas, fixadas no silêncio,
suspensas na luz.
Ah, cinematografar
a morte de uma flor, uma tábua atónita,
um nome transfigurado.
— Ouves
o grito dos mortos?
Gomo se as palavras
gesticulassem para dentro, como uma primavera
escorre morte.
Agora meto-me medo.
Dois castiçais de prata foram a minha vida.
As aranhas envelhecem,
as sombras caminham,
dessa pata monstruosa escorre sempre ternura.
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
Apenas
o som devagar de uma borboleta, um exagero
minúsculo, medo, uma névoa sensível, uma
mulher, o que vale um pássaro.
Apenas
as velhas, uma roda de aranhas na cabeça
— até que adormecem comum sorriso
cândido.
— Quem grita?
Atravessei viva o inferno — diz uma árvore
entontecida, tão viva
que a confundo com a morte.
E uma inteligência
exterior.
Sou os mortos — diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu.
E o diálogo dos dias e das noites,
entre as fazendas petrificadas e os grandes
desmoronamentos das estrelas.
Mais braços na monstruosa árvore do sonho,
cores ininterruptas, colunatas
absortas, pórticos
imaginários, a sombra da sombra.
Também eu atravessei o inferno.
Chegava
a ouvir o contacto das aranhas devorando-se
no fundo. O meu horrível pensamento só a custo
continha o tumulto dos mortos.
Pergunto,
perguntas, perguntam.
Oh, palavras não,
porque tudo está vivo: o assombro, o esplendor,
o êxtase,
o crime.
As figuras
são figuras de delírio, deitam raízes
tremendas, atentas,
raízes eléctricas.
Ah, uma catástrofe que engrandeça,
o prestígio da peste, a fascinação das coisas
mais altas.
Os mortos, uma enxurrada
de cores rudimentares, o colérico
crime dos mortos.
E o grito dos mortos libertos.
Imóveis, magnéticas — as sedas amarelas.
Acordou toda a peste nas florestas
intangíveis.
Os astros mudam de cor
de queda em queda.
É preciso
criar palavras, sons, palavras vivas,
obscuras, terríveis.
— Ouves o grito dos mortos?
É preciso matar os mortos,
outra vez,
os mortos.
1966.
2 542
Herberto Helder
Mulheres Correndo, Correndo Pela Noite.
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
1 332
Herberto Helder
4
Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
1 036
Herberto Helder
Era Uma Vez Toda a Força Com a Boca Nos Jornais:
Era uma vez toda a força com a boca nos jornais:
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.
550
Herberto Helder
Iv D
Por isso ele era rei, e alguém
se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra
súbdita: dá-me um nome, uma
baforada,
desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver
uma constelação maior que onze varas,
enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto
na escuridão com toda a potência
dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens
do fogo,
bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze
varas de luz para os braços torcidos,
uma camisa aos rasgões brilhantes por força
da entrada e saída
do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca
petróleo a arder como no circo dos prodígios
fazem os reis terríveis,
por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício
desta magia: a realeza de uma combustão,
acto, verbo,
e em estado natural os elementos:
madeira, cristal e ouro, e o ar movendo
o poema número a número.
se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra
súbdita: dá-me um nome, uma
baforada,
desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver
uma constelação maior que onze varas,
enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto
na escuridão com toda a potência
dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens
do fogo,
bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze
varas de luz para os braços torcidos,
uma camisa aos rasgões brilhantes por força
da entrada e saída
do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca
petróleo a arder como no circo dos prodígios
fazem os reis terríveis,
por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício
desta magia: a realeza de uma combustão,
acto, verbo,
e em estado natural os elementos:
madeira, cristal e ouro, e o ar movendo
o poema número a número.
1 065
Herberto Helder
V C
O astro peristáltico passado da vagina à boca,
mãe e filho, pelo filho passado
à luz escrita:
com dedos virgens
arranco ao mundo os objectos da noite e do dia,
arranco-os, brilhando, disponho-os
assim urgentes
na teia electrónica do idioma:
e em todas as linhas de mármore do poema do nascimento
sinto o abalo,
a respiração narrativa:
orvalho sobre a fruta,
fruta no prato,
e garfo e faca para abrir o coração da fruta
na mesa ponta a ponta acesa:
insectos cheios de nome, o astro como uma aranha na teia
devora-os vivos
— e então eu morro do que nasci na boca,
e ponho o mármore em cima do poema para que nada se mova.
mãe e filho, pelo filho passado
à luz escrita:
com dedos virgens
arranco ao mundo os objectos da noite e do dia,
arranco-os, brilhando, disponho-os
assim urgentes
na teia electrónica do idioma:
e em todas as linhas de mármore do poema do nascimento
sinto o abalo,
a respiração narrativa:
orvalho sobre a fruta,
fruta no prato,
e garfo e faca para abrir o coração da fruta
na mesa ponta a ponta acesa:
insectos cheios de nome, o astro como uma aranha na teia
devora-os vivos
— e então eu morro do que nasci na boca,
e ponho o mármore em cima do poema para que nada se mova.
1 128
Herberto Helder
Iv E
Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
1 024
Herberto Helder
Iii J
O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
1 209
Herberto Helder
Iv A
A alimentação simples da fruta,
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando, brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.
Sopra na cana até que dê flor.
Tão na boca, na língua, na saliva e na garganta,
tão interior ao próprio sopro que nasça
da exaltação do corpo.
Dá-lhe um nó como um umbigo.
Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio
perigoso
— flor com umbigo.
Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando, brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.
Sopra na cana até que dê flor.
Tão na boca, na língua, na saliva e na garganta,
tão interior ao próprio sopro que nasça
da exaltação do corpo.
Dá-lhe um nó como um umbigo.
Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio
perigoso
— flor com umbigo.
Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.
1 083
Herberto Helder
Iv I
Sou eu, assimétrico, artesão, anterior
— na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramatical, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em como isto se cala.
— na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramatical, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em como isto se cala.
962
Herberto Helder
Iv C
Se houver ainda para desentranhar da assimetria
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
1 002
Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
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