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Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tudo Certo, Camus

encontrei esse cara em algum lugar, inferno, seus olhos pareciam aqueles
de um louco
ou talvez fosse apenas meu reflexo neles.
bem, de qualquer modo, ele me disse, você leu Camus?
estamos ambos no bar sem mulheres procurando
um pedaço de rabo ou alguma saída através do teto do céu e
não estava funcionando - só havia o balconista do bar perguntando-se
por que
havia se metido nesse negócio
e eu, muito desanimado com o fato de até agora só ter sido traduzido
em 6 ou 7 línguas.
o cara continuava a falar -
O estrangeiro, você sabe, o livro que retrata nossa sociedade moderna -
sobre o homem amortecido que não
conseguia chorar no funeral da mãe dele, que
matou um árabe ou dois sem nem mesmo saber por quê -
ele prosseguia e prosseguia
e prosseguia e prosseguia
contando-me que filho de uma puta era O estrangeiro,
e fiquei pensando que talvez ele tivesse razão -
você sabe, esses discursos horrorosos diante da Academia Francesa -
você não saberia dizer se Camus estava falando pelo
canto da sua boca ou
se ele estava
sério. ele certamente não soava melhor que
o sujeito a meu lado no bar
e nós estávamos apenas procurando
xota.
foi muito triste -
o tempo todo O estrangeiro havia sido meu herói
porque eu achava que ele enxergara para além da tentativa
ou do cuidado
porque tudo era uma tamanha chatice
tão sem sentido -
a vida em um grande buraco no chão olhando para cima -
e eu estava errado mais uma vez:
inferno, eu era O estrangeiro e o livro simplesmente não havia saído
do jeito que
deveria.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Suicídio

eu havia recentemente enterrado uma mulher com a qual vivi
por três anos
estava entre empregos
meus dentes apodrecendo na minha boca
(liquidei a dor com aspirina e
cerveja)
eu estava sentado no sofá quebrado
olhando o entardecer transformar-se em noite
quando o telefone tocou.
era Morrie.
"sim, Morrie?"
"ouça, Mark está aqui. ele diz que tem que
vê-lo! ele diz que vai cometer
suicídio!"
"ponha-o na linha..."
"não, ele não pode falar, ele
pirou!"
pisei em uma barata que passava.
"passe-me seu pai", eu lhe disse.
Bernie pegou o fone.
"escute, Bernie", eu disse, "que besteira
é essa sobre Mark?"
"é verdade! ele disse que se você não
vier já para cá ele vai se matar!
ele precisa de ajuda, Hank!"
"você acha que ele realmente vai
fazer isso?"
"eu não brincaria com uma coisa
dessas!"
"é longe até San Bernardino."
"são apenas 50 milhas! você pode fazer
em 45 minutos."
"tudo certo, Bernie..."
terminei minha cerveja, andei até meu
carro velho de 12 anos.
deu partida e peguei a
autoestrada.
foi uma viagem longa, sombria e estúpida.
Mark era uma dessas pessoas que
sempre insistiam que nossa amizade
era de verdade
pouco importando quanto esforço eu
fizesse para
ficar longe dele.
eu finalmente parei na frente da
casa.
desci do carro, bati na porta.
Morrie atendeu à porta.
ele tinha um tique na cabeça.
quando algo o aborrecia sua
cabeça começava a pular.
ela estava pulando por toda a
entrada da casa.
"Mark tem estado conosco",
ele disse, "pelas últimas duas
semanas."
entrei.
Mark estava sentado no sofá
segurando uma cerveja.
sorriu para mim.
estava usando o velho roupão
de Bernie.
não aparentava
estar
contemplando
suicídio.
"onde está seu pai?", perguntei
a Morrie.
"foi dormir. foi para a
cama. ele não está
passando bem."
"são apenas 7: 30."
"ele não está passando bem."
eu me sentei. havia um fogo aceso
na lareira.
"que tal uma cerveja?", Morrie perguntou,
sua cabeça pulando.
"com certeza. cadê sua mãe?"
"ela não está em casa."
Mark pigarreou. então, em sua
voz calma, começou a falar sobre a
escrita dele: agora estava fixado em serial killers. ele
havia escrito um romance. tinha uma
agente. fora vê-la naquela
tarde. ela tinha uma piscina.
haviam nadado juntos na piscina. ela
era um pedação de mulher com grandes conexões.
entendia que sua escrita era excepcional.
ela ia assumir sua carreira e
torná-lo famoso e...
desliguei enquanto ele seguia em frente e seguia em frente.
ele estava usando um lenço de seda ao redor de seu pescoço
gordo.
terminei minha cerveja e Morrie levantou-se de um pulo,
a cabeça saltitando, e me deu outra.
então ouvi de novo a voz de Mark. "sua
escrita me lembra muito a
minha!"
Morrie me deu a cerveja. tomei um bom
gole e olhei a lareira. um
pedaço de madeira estalou naquele momento, uma
fagulha vermelha se soltou, subiu e caiu
para trás.
aquilo foi bonito. aquilo foi bonito e de algum modo
tranquilizador
"gostaria que você lesse um capítulo do meu
romance", Mark disse. "você tem aquela pasta
azul, Morrie?"
Morrie tinha. ele a pôs cuidadosamente em meu
colo.
eu a abri, fui para a primeira página
e comecei a ler...
Mark não sabia escrever, nunca soube.
eu continuei lendo, meus dentes começando a doer.
perguntei para Morrie,
"você tem algum uísque?"
Morrie foi buscar enquanto Mark permanecia sentado ereto
no roupão velho de Morrie, esperando
por minhas palavras de elogio.
eu acharia um jeito de deixá-lo pra lá facilmente
tomara que
sem mentir.
o uísque chegou e tomei um trago
segui na leitura
bebendo
olhando o fogo.
a cabeça de Morrie continuava a pular.
por que certos indivíduos nunca percebem o quanto
são chatos?
ou eles sabem e simplesmente não
ligam?
continuei a ler, desesperançada-
mente.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Depois De Receber Um Exemplar De Um Editor Contribuinte

cavilosos peixinhos
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
1 133
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Licença Médica

aqui estou deitado de barriga para baixo, Hem está morto, Shake está
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
764
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda

eu finalmente o conheci. ele estava sentado em um velho roupão
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
1 060
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Que Fez Você Perder Sua Inspiração?

Norman goteja uma imbecilidade
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
625
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Todas as Garotinhas

foi lá no norte da Califórnia
e ele estava em pé no púlpito
e estava lendo há algum tempo
estava lendo muitos poemas sobre
a Mãe Natureza e a bondade inerente
ao homem.
ele acreditava que tudo estava
certo com o mundo.
e não dava para reclamar dele:
era um professor de carreira que nunca havia
estado na cadeia ou em um puteiro;
cujo carro usado nunca morreu
na autoestrada; que
nunca havia precisado de mais do que
três drinques durante a mais louca
das suas noitadas;
que nunca havia sido fichado, execrado ou
levado porrada;
que nunca havia sido mordido por um cachorro;
que recebia regularmente cartas cordiais de Gary
Snyder, e cujo rosto era
amável, sem marcas e
carinhoso. finalmente,
sua mulher nunca o havia traído
muito menos sua sorte.
ele disse: "só vou ler
mais três poemas e depois vou
descer daqui e deixar
Chinaski ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos rosados e azuis
e brancos e cor de laranja
e lilases. "ah, não,
leia mais alguns, leia mais
alguns!"
ele leu mais um poema e então disse,
"este é o último poema que
vou ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos meio transparentes
vermelhos e verdes. "ah, não", disseram
todas as garotinhas em seus jeans
apertados com corações costurados neles.
"ah, não", disseram todas as garotinhas,
"por favor, leia
mais poemas!"
mas ele cumpriu sua palavra.
recolheu os poemas e desceu e
desapareceu em algum lugar. quando levantei-me para ler
as garotinhas deram risadinhas em
seus assentos e uma delas assobiou e
algumas delas fizeram observações interessantes dirigidas a mim
que usarei em um poema em alguma data futura
pois este maldito poema em particular
tem que terminar em algum lugar.
de qualquer modo, foi duas ou três semanas depois
que recebi essa carta do poeta William
dizendo que ele havia apreciado minha leitura.
ele era um verdadeiro cavalheiro.
eu estava de cama com uma
ressaca de três dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e a dobrei em
um desses aviõezinhos de papel
que eu havia aprendido a fazer na
escola. navegou ao redor do quarto
e aterrissou entre um velho boletim de corridas de cavalo
e um par de shorts puídos.
não nos correspondemos desde então.
1 023
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vidas na Lata do Lixo

o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu penso nos
garotos na miséria.
espero que eles tenham uma garrafa
de vinho.
é quando você está na miséria
que percebe que
tudo
tem um dono
e que os cadeados estão por toda
parte.
este é o modo como funciona a
democracia:
você pega aquilo que pode,
tenta manter o que pegou
e acrescentar mais ao acumulado
se possível.
é esta também a maneira de agir de uma
ditadura
a diferença é que elas destroem ou
escravizam seus
dissidentes.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
o vento segue
frio e
cortante.

As filmagens iam começar em Culver City. O bar ficava lá, e o hotel com o meu quarto. A parte seguinte seria feita no distrito da Rua Alvarado, onde ficava o apartamento da mulher.
Depois vinha um bar que frequentávamos na 6th Street com Vermont. Mas as primeiras tomadas seriam em Culver City.
Jon nos levou para ver o hotel. Parecia autêntico. Os bebuns moravam ali. O bar ficava embaixo. Nós ficamos parados, olhando.
– Que tal? – perguntou Jon.
– Sensacional. Mas já vivi em lugares piores.
– Eu sei – disse Sarah. – Eu vi.
Subimos para o quarto.
– Aqui está. Parece familiar?
Era pintado de cinza, como muitos desses lugares. Persianas rasgadas. A mesa e a cadeira. A geladeira coberta de grossa crosta de sujeira. E a pobre cama bamba.
– Está perfeito, Jon. É o quarto.
Fiquei um pouco triste por não ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente é jovem, pode realmente aguentar uma surra. A comida não importava. O que importava era beber e sentar à máquina. Eu devia ter sido louco, mas há muitos tipos de loucura, e alguns são muito gostosos. Eu morria de fome para ter tempo de escrever. Não se faz mais isso. Olhando aquela mesa, via-me ali sentado de novo. Naquele tempo estava louco e sabia disso e não importava.
– Vamos descer pra dar outra verificada no bar...
Descemos. Os bebuns que iam aparecer no filme já estavam lá. Bebiam.
– Vamos lá, Sarah, vamos pegar um banco. Tchau, Jon...
O garçom nos apresentou aos bêbados. Eram o Grande Monstro e o Pequeno Monstro, o Nojento, Buffo, Cabeça de Cachorro, Lady Lila, Lance Livre, Clara e outros.
Sarah perguntou ao Nojento o que ele estava bebendo.
– Parece bom – disse.
– É um Cape Cod, suco de amora e vodca.
– Eu tomo um Cape Cod – disse Sarah ao garçom, Cowboy Cal.
– Vodca 7 – eu disse ao Cowboy.
Tomamos algumas. O Grande Monstro me contou uma história de uma briga deles todos com os tiras. Muito interessante. E eu sabia, pelo jeito de ele contar, que era verdade.
Depois veio a chamada para o almoço para os atores e a equipe. Os bebuns ficaram onde estavam.
– É melhor a gente comer – disse Sarah.
Saímos pelos fundos e para leste do hotel. Haviam instalado uma grande banca. Os extras, técnicos, operários e outros já comiam. A comida tinha boa aparência. Jon veio ter com a gente. Pegamos nossas rações na carroça e o seguimos até a ponta da mesa. Quando passávamos, Jon parou. Um homem comia sozinho. Jon apresentou-nos.
– Esse é Lance Edwards...
Edwards fez-nos um leve aceno de cabeça e voltou ao seu filé.
Sentamo-nos na ponta da mesa. Edwards era um dos coprodutores.
– Esse Edwards age como um filho da puta – eu disse.
– Oh – disse Jon – ele é muito acanhado. É um dos caras dos quais Friedman estava tentando se livrar.
– Talvez tivesse razão.
– Hank – disse Sarah –, você nem conhece o cara.
Eu atacava minha cerveja.
– Coma sua comida, Sarah.
Ela ia acrescentar dez anos à minha vida, para o melhor ou para o pior.
– Vamos filmar uma cena com Jack na sala. Você deve vir ver.
– Depois de comermos, vamos voltar pro bar. Quando estiverem prontos pra filmar, mandem alguém nos chamar.
– Tudo bem – disse Jon.
Depois de comermos, contornamos o hotel até o outro lado, verificando-o. Jon nos acompanhava. Vários reboques estacionavam ao longo da rua. Vimos o Rolls-Royce de Jack. E junto a ele um grande reboque prateado, com um anúncio na porta: JACK BLEDSOE.
– Veja – disse Jon –, ele tem um periscópio em cima, pra ver quem se aproxima...
– Nossa...
– Escuta, tenho de acertar umas coisas...
– Tudo bem... Tchau...
Jon tinha uma coisa engraçada. Seu sotaque francês ia desaparecendo à medida que ele só falava inglês nos Estados Unidos. Era um pouco triste.
A porta do reboque de Jack abriu-se. Era ele.
– Ei, entrem!
Subimos os degraus. Uma televisão estava ligada. Uma garota jovem deitava-se no beliche, vendo TV.
– Essa é Cleo. Comprei uma moto pra ela. A gente roda junto.
Um cara sentava-se na outra ponta.
– Esse é meu irmão, Doug...
Eu me aproximei de Doug, ensaiei uns passos de boxe na frente dele. Ele não disse nada. Apenas encarava. Sujeito frio. Ótimo. Eu gostava de caras frios.
– Tem alguma coisa pra beber? – perguntei a Jack.
– Claro...
Pegou um uísque, serviu-me uma dose com água.
– Obrigado...
– Quer um pouco? – ele perguntou a Sarah.
– Obrigada – ela disse. – Não gosto de misturar bebidas.
– Ela está tomando Cape Cods – eu disse.
– Oh...
Sarah e eu nos sentamos. O uísque era bom.
– Gosto deste lugar – eu disse.
– Fique o quanto quiser – disse Jack.
– Talvez eu fique pra sempre...
Jack me lançou seu famoso sorriso.
– Seu irmão não é de falar muito, é?
– Não, não é.
– Um cara frio.
– Ééé.
– Bem, Jack, decorou suas falas?
– Eu nunca olho as minhas falas até o último instante antes da filmagem.
– Sensacional. Bem, escuta, a gente tem de se mandar.
– Eu sei que você consegue, Jack – disse Sarah. – Estamos satisfeitos por você ter o papel principal.
– Obrigado.
No bar, os bebuns ainda estavam lá e não pareciam nem um pouco mais bêbados. Era preciso muita coisa pra derrubar um profissional.
Sarah tomou outro Cape Cod. Eu voltei ao Vodca 7.
Bebemos e ouvimos outras histórias. Cheguei até a contar uma. Talvez houvesse passado uma hora. Aí eu ergui o olhar e vi Jack parado, olhando por cima das portas de vaivém da entrada. Eu via apenas a cabeça dele.
– Ei, Jack – gritei –, entre e tome uma.
– Não, Hank, vamos filmar agora. Por que não vem ver?
– Já vou lá, baby...
Pedimos mais duas doses. E já as atacávamos quando Jon entrou.
– Vamos filmar agora – ele disse.
– Tudo bem – disse Sarah.
– Tudo bem – disse eu.
Acabamos nossas doses, e eu peguei umas duas garrafas de cerveja para levar conosco.
Seguimos Jon por uma escada acima e pelo quarto adentro. Cabos por toda parte. Técnicos mexendo-se de um lado para outro.
– Aposto que poderiam rodar um filme com cerca de um terço desses porras todos.
– É o que Friedman diz.
– Às vezes ele tem razão.
– Tudo bem – disse Jon –, estamos quase prontos. Fizemos alguns ensaios. Agora filmamos. Você – disse para mim – fica nesse canto. Pode ver daqui sem entrar na cena.
Sarah recuou até ali comigo.
– SILÊNCIO! – gritou o assistente de direção de Jon. – PREPARANDO PRA RODAR!
Tudo ficou em silêncio.
Então foi a vez de Jon:
– CÂMERA! AÇÃO!
A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde foi você?
Queria voltar a ser o jovem bêbado. Queria ser Jack Bledsoe. Mas era apenas o cara velho no canto, mamando uma cerveja.
Bledsoe cambaleou até a janela junto à mesa. Abriu a persiana escangalhada. Ensaiou uns passos de boxe, um sorriso no rosto. Depois sentou-se à mesa, pegou um lápis e um pedaço de papel. Ficou ali sentado algum tempo, depois puxou a rolha de uma garrafa de vinho, tomou uma talagada, acendeu um cigarro. Ligou o rádio e deu sorte de sintonizar Mozart.
Começou a escrever naquele pedaço de papel com o lápis, enquanto a cena escurecia...
Pegara a coisa. Pegara do jeito que era, quer isso significasse alguma coisa ou não, ele a pegara como era.
Eu me aproximei dele e apertei sua mão.
– Peguei bem? – ele perguntou.
– Pegou – eu disse.
No bar lá embaixo, os bebuns ainda estavam em serviço e com a mesma aparência.
Sarah voltou aos seus Cape Cods e eu tomei a rota do Vodca 7. Ouvimos algumas histórias ótimas. Mas havia uma tristeza no ar, porque depois de rodado o filme, o bar e o hotel iam ser desmontados, para servir a algum fim comercial. Alguns dos fregueses moravam no hotel há décadas. Outros moravam numa estação ferroviária deserta próxima, e havia uma ação judicial para retirá-los dali. Por isso, a bebida era pesada e triste.
Sarah disse por fim:
– Precisamos voltar pra casa pra dar comida aos gatos.
A bebida podia esperar.
Hollywood podia esperar.
Os gatos não esperavam.
Concordei.
Despedimo-nos dos bebuns e fomos para o carro. Eu não me preocupava com a direção. Alguma coisa na visão do jovem Chinaski naquele velho quarto de hotel me estabilizara. Filho da puta, eu fora um jovem touro do caralho. Realmente um fodido de primeira.
Sarah se preocupava com o futuro dos pinguços. Eu também não gostava daquilo. Por outro lado, não podia vê-los sentados em torno da minha porta da frente, bebendo e contando suas histórias. Muitas vezes o charme diminui quando chega perto demais da realidade. E quantos irmãos a gente pode manter?
Eu dirigia em frente. Chegamos.
Os gatos esperavam.
Sarah desceu e limpou as tigelas deles e eu abri as latas.
Simplicidade, era disso que se precisava.
Subimos, tomamos banho, trocamos de roupa e fomos para a cama.
– Que é que aquele pessoal vai fazer? – perguntou Sarah.
– Eu sei. Eu sei...
Aí chegou a hora de dormir. Desci para dar uma última olhada e voltei. Sarah já adormecera. Apaguei a luz. Dormimos. Tendo visto fazer o filme naquela tarde, agora estávamos um pouco diferentes, jamais voltaríamos a pensar ou falar exatamente da mesma forma. Agora sabíamos algo mais, mas, o que era, parecia muito vago e talvez até um pouco desagradável.
– Hollywood
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ar e Luz e Tempo e Espaço

“...você sabe, já tive uma família, um emprego, mas alguma coisa
sempre se interpôs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estúdio, você precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.”
não, baby, se você vai criar
fará isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvão
ou
criará num cubículo com 3 crianças
enquanto vive
da previdência social,
criará com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criará cego
aleijado,
demente,
criará com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.
baby, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada a ver com isso
e não criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.

Nessa noite, sem Jon escutando lá embaixo, o argumento começou a andar. Eu escrevia sobre um jovem que queria escrever e beber, mas a maior parte de seu sucesso era com a garrafa. O jovem fora eu. Embora aquele não fosse um tempo infeliz, tinha sido, em grande parte, um tempo de vazio e espera. Enquanto eu batia, os personagens de um certo bar me voltavam à memória. Eu tornava a ver cada rosto, os corpos, ouvia as vozes. Ali estava um bar que tinha um certo encanto mortal. Eu me concentrei nisso, revivi as brigas de bar com o garçom. Eu não era bom de briga. Para começar, tinha as mãos pequenas demais e vivia mal alimentado, muito mal alimentado. Mas tinha uma certa garra e encaixava um soco muito bem. Meu principal problema numa briga era que não conseguia me enfurecer de verdade, mesmo quando minha vida parecia estar em jogo. Era tudo teatro comigo. Importava e não. Brigar com o garçom era algo que tinha de ser feito e agradava aos fregueses, que eram um grupinho muito unido. Eu era o de fora. Tem alguma coisa positiva na bebida – aquelas brigas todas teriam me matado se eu estivesse sóbrio, mas, bêbado, era como se o corpo virasse borracha e a cabeça cimento. Pulsos torcidos, lábios inchados e rótulas machucadas eram mais ou menos tudo que eu sofria no dia seguinte. E também galos na cabeça, das quedas. Como isso podia virar um argumento, eu não sabia. Só sabia que era a única parte da minha vida sobre a qual não escrevera muito. Acredito que era são naquela época, tão são quanto qualquer outro. E sabia que havia toda uma civilização de almas penadas que viviam entrando e saindo de bares, diariamente, noturnamente e para sempre, até a morte. Nunca lera sobre essa civilização, e por isso decidi escrever sobre ela, como a lembrava. A boa máquina velha matraqueava.
No dia seguinte, lá pelo meio-dia, o telefone tocou. Era Jon.
– Encontrei uma casa. François está comigo. É linda, tem duas cozinhas, e o aluguel é de graça, realmente de graça...
– Onde está?
– Estamos no gueto de Venice. Avenida Brooks. Só tem negros. As ruas são guerra e destruição. Lindo!
– Oh!
– Você deve vir ver a casa!
– Quando?
– Hoje!
– Eu não sei.
– Oh, você não ia querer perder isto! Tem gente morando debaixo da nossa casa. A gente ouve eles lá embaixo, falando e tocando o rádio. Tem gangues por toda parte! Alguém construiu um grande hotel aqui. Mas ninguém pagou o aluguel. Fecharam o lugar com tábuas, cortaram a eletricidade, a água, o gás. Mas as pessoas ainda moram aqui. É UMA ZONA DE GUERRA! A polícia não vem aqui, parece um estado separado, com suas próprias leis. Eu adoro! Você tem de nos visitar!
– Como chego aí?
Jon me deu as indicações e desligou.
Procurei Sarah.
– Escuta, preciso ir ver Jon e François.
– Ei, eu vou também!
– Não, não pode. Fica no gueto de Venice.
– Oh, o gueto! Eu não perderia isso por nada neste mundo!
– Escuta, me faz um favor, tá? Por favor, não venha!
– Que? Acha que eu ia deixar você ir lá embaixo sozinho?
Peguei minha lâmina, pus o dinheiro nos sapatos.
– Tá legal – disse...
Entramos dirigindo devagar no gueto de Venice. Não era verdade que só tivesse negros. Havia alguns latinos nos arredores. Notei um grupo de sete a oito mexicanos em volta, encostados num carro velho. Quase todos usavam camiseta ou estavam nus da cintura para cima. Passei dirigindo devagar, sem encarar ninguém, só absorvendo. Eles não pareciam fazer muita coisa. Só esperavam. Prontos e à espera. Na verdade, provavelmente estavam apenas entediados. Pareciam caras legais. E não pareciam lá muito preocupados.
Aí chegamos à turfa negra. De repente, ruas cheias de lixo: um pé esquerdo de sapato, uma camisa laranja, uma bolsa velha... uma romã podre... outro pé esquerdo de sapato... um blue jeans... um pneu...
Eu tinha de dirigir por entre aquelas coisas. Dois negros de uns onze anos nos fitavam de suas bicicletas. Ódio puro, perfeito. Eu sentia. Os negros pobres tinham ódio. Os brancos pobres tinham ódio. Só quando ganhavam dinheiro negros e brancos se integravam. Alguns brancos amavam os negros. Muito poucos negros amavam os brancos, se é que algum amava. Ainda estavam indo à forra. Talvez nunca fossem. Numa sociedade capitalista, os perdedores são escravizados pelos vencedores, e é preciso haver mais perdedores que vencedores. Que pensava eu? Sabia que a política jamais resolveria isso, e não sobrava muito tempo para entrar numa boa.
Dirigimos até encontrar o endereço, estacionei o carro, saí e bati na porta.
Uma portinhola abriu-se deslizando e lá estava um olho nos olhando.
– Ah, Hank e Sarah!
A porta abriu-se, fechou-se, e estávamos dentro.
Eu me aproximei da janela e dei uma olhada.
– Que está fazendo? – perguntou Jon.
– Só quero dar uma olhada no carro de vez em quando...
– Oh, sim, venha ver, vou te mostrar as duas cozinhas!
Claro que havia duas cozinhas, um fogão em cada uma, uma geladeira em cada uma, uma pia em cada uma.
– Eram duas casas antes. Foram transformadas em uma.
– Legal – disse Sarah. – Você pode cozinhar numa cozinha e François na outra...
– No momento, estamos vivendo basicamente de ovos. Temos galinhas, que põem muitos ovos...
– Nossa, Jon, tá tão ruim assim?
– Não, na verdade, não. A gente calcula que vai ficar aqui por um longo tempo. Precisamos de quase todo o nosso dinheiro pra vinho e charutos. Como vai indo o argumento?
– Tenho o prazer de comunicar que já temos umas boas páginas. Só que às vezes me atrapalho com CÂMERA, ZOOM, PANORÂMICA... essa merda toda...
– Não se preocupe, eu cuido disso.
– Onde está François? – perguntou Sarah.
– Ah, está na outra sala... venham...
Entramos e lá estava François rodando sua roletinha. Quando bebia, ficava com o nariz muito vermelho, como um bêbado de desenho animado. E também, quanto mais bebia, mais deprimido ficava. Chupava um toco de charuto molhado. Conseguiu extrair algumas tristes baforadas. Ao lado, via-se uma garrafa de vinho quase vazia.
– Merda – disse –, já estou com 60 mil dólares no buraco e bebendo esse vinho barato do Jon, que ele diz ser coisa fina mas é pura bosta. Paga um dólar e 35 centavos a garrafa. Meu estômago parece um balão cheio de xixi! Estou com 60 mil dólares no buraco e sem nenhum emprego em vista. Tenho de... me... matar...
– Vamos lá, François – disse Jon –, vamos mostrar as galinhas a nossos amigos...
– As galinhas! O-V-OS! A gente come O-V-OS o tempo todo! Só O-V-OS! Pup, pup, pup! A galinha pup O-V-OS! O dia todo, a noite toda minha função é salvar as galinhas dos negrinhos! Os negrinhos vivem saltando a cerca e correndo pro galinheiro! Eu bato neles com uma vara comprida, digo: “Seus filhos da puta, fiquem longe de minhas galinhas que pup os O-V-OS! Não consigo pensar, não consigo pensar em minha vida nem em minha morte, estou sempre correndo atrás desses negrinhos com a vara comprida! Jon, preciso de mais vinho, outro charuto!
Deu outra rodada na roleta.
Mais más notícias. O sistema estava falhando.
– Sabe, na França tem apenas um zero pra casa! Aqui na América tem um zero e um duplo zero pra casa! PEGAM OS DOIS BAGOS DA GENTE! POR QUÊ? Vamos lá, mostro a vocês as galinhas...
Saímos para o quintal, e lá estavam as galinhas e o galinheiro. O próprio François o fizera. Era bom nessas coisas. Tinha um verdadeiro talento para isso. Só que não usara tela de galinheiro, mas barras. E fechaduras em cada porta.
– Faço a chamada toda noite. “Cécile, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. “Bernadette, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. E por aí vai. Uma noite, eu chamei “Nicole?”, e ela não clucou. Você acredita? Apesar de todas as barras e fechaduras, eles pegaram Nicole! Tiraram ela daqui. Nicole se foi, se foi para sempre! Jon, Jon, eu preciso de mais vinho!
Tornamos a entrar e nos sentamos, e o novo vinho correu solto. Jon deu um novo charuto a François.
– Se eu tiver meu charuto quando preciso – disse François – posso viver.
Bebemos por algum tempo, e então Sarah perguntou:
– Escuta, Jon, seu senhorio é negro?
– Oh, sim...
– Ele não te perguntou por que alugava uma casa aqui?
– Sim...
– E que foi que você disse?
– Disse que éramos cineastas e atores da França.
– E ele?
– Ele disse: “Oh”.
– Mais alguma coisa?
– Sim, disse: “Bem, o rabo é seu!”.
Bebemos um tempo falando bobagem.
De vez em quando eu me levantava e ia à janela ver se o carro ainda estava lá.
Enquanto bebíamos, comecei a me sentir culpado pela coisa toda.
– Escuta, Jon, deixa eu te devolver o dinheiro do argumento. Eu botei você contra a parede. Isso é terrível...
– Não, eu quero que você faça esse argumento. Ele vai se tornar um filme, eu prometo...
– Tudo bem, porra...
Bebemos mais um pouco.
Então Jon disse:
– Veja...
Por um buraco na parede onde nos sentávamos via-se uma mão, uma mão negra. Contorcia-se através do reboco quebrado, os dedos fechando-se, movendo-se. Parecia um animalzinho escuro.
– DÊ O FORA! – berrou François. – DÊ O FORA, ASSASSINO DE NICOLE! VOCÊ DEIXOU UM BURACO ETERNO EM MEU CORAÇÃO! DÊ O FORA!
A mão não deu o fora.
François aproximou-se da parede e dela.
– Estou mandando dar o fora. Só quero fumar meu charuto e beber meu vinho em paz. Você perturba o visual! Não posso me sentir bem com você tateando e me olhando com seus pobres dedos negros!
A mão não deu o fora.
– TUDO BEM, ENTÃO!
A vara estava bem ali. Com um movimento demoníaco, François pegou-a e começou a açoitar a parede com ela, repetidas vezes...
– ASSASSINO DE GALINHA, VOCÊ FERIU MEU CORAÇÃO ETERNAMENTE!
O som era ensurdecedor. Então François parou.
A mão dera o fora.
François sentou-se.
– Merda, Jon, meu charuto apagou. Por que não compra charutos melhores, Jon?
– Escuta, Jon – eu disse –, a gente tem de ir...
– Ora, vamos... por favor... a noite está só começando! Você não viu nada ainda...
– A gente precisa ir... Preciso trabalhar mais no argumento...
– Oh... nesse caso...
Em casa, subi e trabalhei no argumento, mas estranhamente, ou talvez não, minha vida passada não parecia tão estranha, bárbara ou louca quanto o que ocorria agora.
– Hollywood
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