Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Charles Bukowski
Isto
estar bêbado diante da máquina é melhor do que estar com qualquer mulher
que jamais vi ou conheci ou de quem ouvi falar
como
Joana d’Arc, Cleópatra, Garbo, Harlow, M.M. ou
qualquer uma das milhares que vêm e vão nas
projeções de celuloide
ou as garotas temporárias que vi tão adoráveis
em bancos de praça, em ônibus, em danças e festas, em
concursos de beleza, cafés, circos, desfiles, lojas de
departamento, competições de tiro ao prato, voos de balão, corridas de carro, rodeios,
touradas, lutas na lama, corridas de patins, preparos de torta,
igrejas, jogos de voleibol, corridas de barco, quermesses,
shows de rock, prisões, lavanderias ou seja lá onde for
estar bêbado diante desta máquina é melhor do que estar com qualquer mulher
que jamais vi ou
conheci.
que jamais vi ou conheci ou de quem ouvi falar
como
Joana d’Arc, Cleópatra, Garbo, Harlow, M.M. ou
qualquer uma das milhares que vêm e vão nas
projeções de celuloide
ou as garotas temporárias que vi tão adoráveis
em bancos de praça, em ônibus, em danças e festas, em
concursos de beleza, cafés, circos, desfiles, lojas de
departamento, competições de tiro ao prato, voos de balão, corridas de carro, rodeios,
touradas, lutas na lama, corridas de patins, preparos de torta,
igrejas, jogos de voleibol, corridas de barco, quermesses,
shows de rock, prisões, lavanderias ou seja lá onde for
estar bêbado diante desta máquina é melhor do que estar com qualquer mulher
que jamais vi ou
conheci.
1 043
Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
1 049
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
891
Charles Bukowski
Poema Bem Bem Bem Tardio
você pensa sobre aquela vez em
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.
e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.
e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
1 217
Charles Bukowski
Um Poema Não Urgente
teve um sujeito que me escreveu sobre
sua impressão de que não havia a mesma
“urgência” nos meus poemas
do presente
em comparação com meus poemas
do passado.
ora, se isso é verdade
por que ele me escreveu
a respeito?
por acaso tornei seus dias
mais
incompletos?
é
possível.
bem, também já me senti
desapontado
por escritores
que eu antes considerava
poderosos
ou
ao menos
bons
pra burro
mas
jamais cogitei
escrever para
informá-los de que eu
pressentia sua
decadência.
descobri que a melhor coisa
a fazer
era apenas seguir martelando
no meu próprio trabalho
e deixar que os moribundos
morressem
como sempre
morreram.
sua impressão de que não havia a mesma
“urgência” nos meus poemas
do presente
em comparação com meus poemas
do passado.
ora, se isso é verdade
por que ele me escreveu
a respeito?
por acaso tornei seus dias
mais
incompletos?
é
possível.
bem, também já me senti
desapontado
por escritores
que eu antes considerava
poderosos
ou
ao menos
bons
pra burro
mas
jamais cogitei
escrever para
informá-los de que eu
pressentia sua
decadência.
descobri que a melhor coisa
a fazer
era apenas seguir martelando
no meu próprio trabalho
e deixar que os moribundos
morressem
como sempre
morreram.
1 173
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 159
Charles Bukowski
Perto da Grandeza
em certa fase da minha vida
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.
depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.
eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.
e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.
meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro
e se conheceu
um
ou conheceu
ambos
então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.
depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.
eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.
e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.
meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro
e se conheceu
um
ou conheceu
ambos
então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
1 180
Charles Bukowski
O Vinho da Eternidade
relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 381
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 194
Charles Bukowski
História Final
meu deus, lá está ele bêbado de novo
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
1 272
Charles Bukowski
Algumas Sugestões
além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 088
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 126
Charles Bukowski
Para Os Meus Amigos da Ivy League:
muitos daqueles que conheci nos circuitos de leitura ou dos quais me falaram nos circuitos
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
1 047
Charles Bukowski
O Grande Plano
passando fome num inverno da Filadélfia
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
1 250
Charles Bukowski
A Última Dose
aqui vamos nós, mais uma vez, a última bebida, o último
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
1 268
Charles Bukowski
Aceito...
talvez eu esteja ficando louco, não tem problema
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
1 176
Charles Bukowski
O Falecimento de Um Grande Homem
ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
1 055
Charles Bukowski
Aos Interessados:
se você se casar acham que você está
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
909
Charles Bukowski
Dando Um Jeito
nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
1 458
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 051
Charles Bukowski
Nem Sempre Funciona
conheci um escritor uma vez
que sempre tentava enxugar suas frases
tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.
mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.
mudava para:
um velho verde caminhava na rua.
mudava para:
velho verde caminhava.
mudava para:
verde caminhava.
por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.
explodia próprio cérebro.
explodia cérebro.
explodia.
que sempre tentava enxugar suas frases
tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.
mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.
mudava para:
um velho verde caminhava na rua.
mudava para:
velho verde caminhava.
mudava para:
verde caminhava.
por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.
explodia próprio cérebro.
explodia cérebro.
explodia.
1 110
Charles Bukowski
#1
ah me perdoem Por quem os sinos dobram,
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
1 114
Charles Bukowski
Um Leitor Escreve
“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
635
Charles Bukowski
A Única Vida
eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
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