Poemas neste tema
Literatura e Palavras
António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 043
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 216
António Ramos Rosa
O Suporte Livre Inicial
O suporte livre inicial
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
1 111
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
635
António Ramos Rosa
À Memória de Vítor Matos E Sá
Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
976
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 046
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
1 059
António Ramos Rosa
1. a (In)Coerência do Fogo
O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
1 126
António Ramos Rosa
Boca Completa
a Teresa Rita
e a António José Saraiva
Estar sobre o opaco Livre
Imediato
Estar no negro A coisa mesma
sem intervalo
Amar sobre A pedra a boca
do morto e vivo sempre
Delinear os dedos da própria coisa
Tocar as vértebras do seu silêncio
Dentro Dentro dela
Onde nos chamam Onde nos requerem
Onde as bocas da terra nos respiram
Dentro Dentro imediatamente dentro
da própria coisa negra
Dizer o silêncio o repouso o movimento
desse braço intenso sobre a terra
O compacto completo e nu num ápice
tocado vertiginosamente como um olho
por outro olho
Unidade límpida central feliz
Ser tocado estremecido respirado
pelo próprio centro da coisa obscura
e clara Água água densa e límpida
Água de uma visão sobre madeira
Corpo de metal lúcido
Haste caindo como uma palavra sobre
um animal
Urgência de ser em estar perfeito
Nudez de dentro
Fim do deserto
Princípio da palavra
Boca completa
e a António José Saraiva
Estar sobre o opaco Livre
Imediato
Estar no negro A coisa mesma
sem intervalo
Amar sobre A pedra a boca
do morto e vivo sempre
Delinear os dedos da própria coisa
Tocar as vértebras do seu silêncio
Dentro Dentro dela
Onde nos chamam Onde nos requerem
Onde as bocas da terra nos respiram
Dentro Dentro imediatamente dentro
da própria coisa negra
Dizer o silêncio o repouso o movimento
desse braço intenso sobre a terra
O compacto completo e nu num ápice
tocado vertiginosamente como um olho
por outro olho
Unidade límpida central feliz
Ser tocado estremecido respirado
pelo próprio centro da coisa obscura
e clara Água água densa e límpida
Água de uma visão sobre madeira
Corpo de metal lúcido
Haste caindo como uma palavra sobre
um animal
Urgência de ser em estar perfeito
Nudez de dentro
Fim do deserto
Princípio da palavra
Boca completa
543
António Ramos Rosa
Alberto Burri
Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
589
António Ramos Rosa
O Flanco Negro a Decisão da Perna
O flanco negro a decisão da perna
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
982
António Ramos Rosa
Ponto — Traço
Um ponto negro — um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
1 048
António Ramos Rosa
Como Se
Tocar as margens desta página
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
565
António Ramos Rosa
A Seta Principia Pela Sede. Ou o Desejo
A seta principia pela sede. Ou o desejo
no seu centro negro (húmido, efervescente)
e vai pelo campo em corpo de cavalo
dizer a plenitude do sangue nesta página.
Cavalo de espaço, terra de vigor e paz
para ser a sede, a força
de outra força,
o puro alento da felicidade ignorante.
Ah não saber e ser a sede irradiante
da água de um cavalo e de uma estrela
do mar no desenho do combate
em que o negro se volve claridade brusca.
E eis a lâmina a ferir a lucidez
de uma verdade morta, a pressa de correr
ao mais ardente nome, o do cavalo sempre,
que galopa no branco o seu negro galope.
no seu centro negro (húmido, efervescente)
e vai pelo campo em corpo de cavalo
dizer a plenitude do sangue nesta página.
Cavalo de espaço, terra de vigor e paz
para ser a sede, a força
de outra força,
o puro alento da felicidade ignorante.
Ah não saber e ser a sede irradiante
da água de um cavalo e de uma estrela
do mar no desenho do combate
em que o negro se volve claridade brusca.
E eis a lâmina a ferir a lucidez
de uma verdade morta, a pressa de correr
ao mais ardente nome, o do cavalo sempre,
que galopa no branco o seu negro galope.
1 045
António Ramos Rosa
Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito
Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
1 150
António Ramos Rosa
Eis Uma Parede o Nome E a Sombra do Cavalo
Eis uma parede o nome e a sombra do cavalo
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
1 114
António Ramos Rosa
É Somente a Mão No Requinte da Febre
É somente a mão no requinte da febre
em sua verde pausa numa folha,
e agora a escrita encontra o tronco
e detém-se. Quem pode amar um insecto?
O cavalo está suspenso destas linhas, a mão
hesita em avançar,
a saliva da vida procria novos ritos,
o esplendor nasce sob a pata do animal.
O esplendor da luz crua exalta.
E a mulher descalça forte com um cântaro
caminha entre ciprestes, na harmonia final.
em sua verde pausa numa folha,
e agora a escrita encontra o tronco
e detém-se. Quem pode amar um insecto?
O cavalo está suspenso destas linhas, a mão
hesita em avançar,
a saliva da vida procria novos ritos,
o esplendor nasce sob a pata do animal.
O esplendor da luz crua exalta.
E a mulher descalça forte com um cântaro
caminha entre ciprestes, na harmonia final.
1 128
António Ramos Rosa
Delírio Legível
à Maria Teresa Dias Furtado
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)
Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso
Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água
Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)
Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra
Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira
Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar
Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável
Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais
Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco
Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue
Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)
Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso
Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água
Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)
Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra
Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira
Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar
Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável
Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais
Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco
Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue
Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
1 074
António Ramos Rosa
O Corpo Sob As Palavras
à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 065
António Ramos Rosa
Nesse Momento a Sombra Foi Uma Ferida
Nesse momento a sombra foi uma ferida
e o silêncio foi na sombra o esplendor
porque o nome que disseste era o domínio
que só no silêncio encontraria a face
Nada se abria rasgou-se lentamente
e alguém foi em mim não sei quem fui eu
e uma palavra a mais no intervalo surgiu
de tanta graça no silêncio lida
Não sei se se perdeu se vai perder-se
ou se para sempre o nome em nós sofria
se fomos pelo nome o lábio do silêncio
e o silêncio foi na sombra o esplendor
porque o nome que disseste era o domínio
que só no silêncio encontraria a face
Nada se abria rasgou-se lentamente
e alguém foi em mim não sei quem fui eu
e uma palavra a mais no intervalo surgiu
de tanta graça no silêncio lida
Não sei se se perdeu se vai perder-se
ou se para sempre o nome em nós sofria
se fomos pelo nome o lábio do silêncio
951
António Ramos Rosa
Presença Ausência
a Jean Malrieu
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
1 174
António Ramos Rosa
A Mão E o Muro
a Maria de Fátima Marinho
A mão é a mão
a mão no muro
entre o grito e as letras
a violência do silêncio
………………………………………………..…
onde estão as palavras que se apaguem na brancura
que me apaguem
e me disseminem sémen na folha
branco silêncio pedra árvore
………………………………………………..…
A mão tem outra mão ou procura a própria mão
a mão procura a mão sobre o seu próprio muro
os dedos desenham
letras linhas lábios
um animal disperso busca o corpo intacto
as ervas são as palavras destas pedras mudas
Há uma fenda na pedra há uma boca no muro
mas as palavras cessam no silêncio do muro
sem o espaço verde e sem a luz
sem o pulsar da terra sem o calor das pedras
…………………………………………….
A mão é a mão
a mão no muro
mas do outro lado do muro há outra mão
há outro corpo para além do muro
as letras respiram sobre a página
As palavras inscrevem-se sobre o muro da mão
só as letras sobrevivem sobre o muro
a boca busca a boca branca
do corpo que se dissemina sobre a página
O corpo renascerá na folha violenta
entre formigas pedras ervas
no silêncio voraz
na sombra opaca e deslumbrante das palavras?
A mão dissemina o ardor do pulso
no espaço ou no deserto
Ouvir-se-á agora a árvore do silêncio?
Que corpo dessedenta a boca desta mão?
A mão exacta percorre a solidão do muro
cada palavra sufoca as suas letras
e o grito
toda a luz é hostil sobre os membros dilacerados
Pronuncio em vão palavras no silêncio do muro
a violência das letras não se liberta da mão
mas há um grito em cada letra
quando dirão as palavras os gritos das suas letras
quando é que o corpo encontra a própria boca
contra a boca do muro
A mão será a mão da outra mão
O corpo reunir-se-á ao corpo atrás do muro
A mão é a mão
a mão no muro
entre o grito e as letras
a violência do silêncio
………………………………………………..…
onde estão as palavras que se apaguem na brancura
que me apaguem
e me disseminem sémen na folha
branco silêncio pedra árvore
………………………………………………..…
A mão tem outra mão ou procura a própria mão
a mão procura a mão sobre o seu próprio muro
os dedos desenham
letras linhas lábios
um animal disperso busca o corpo intacto
as ervas são as palavras destas pedras mudas
Há uma fenda na pedra há uma boca no muro
mas as palavras cessam no silêncio do muro
sem o espaço verde e sem a luz
sem o pulsar da terra sem o calor das pedras
…………………………………………….
A mão é a mão
a mão no muro
mas do outro lado do muro há outra mão
há outro corpo para além do muro
as letras respiram sobre a página
As palavras inscrevem-se sobre o muro da mão
só as letras sobrevivem sobre o muro
a boca busca a boca branca
do corpo que se dissemina sobre a página
O corpo renascerá na folha violenta
entre formigas pedras ervas
no silêncio voraz
na sombra opaca e deslumbrante das palavras?
A mão dissemina o ardor do pulso
no espaço ou no deserto
Ouvir-se-á agora a árvore do silêncio?
Que corpo dessedenta a boca desta mão?
A mão exacta percorre a solidão do muro
cada palavra sufoca as suas letras
e o grito
toda a luz é hostil sobre os membros dilacerados
Pronuncio em vão palavras no silêncio do muro
a violência das letras não se liberta da mão
mas há um grito em cada letra
quando dirão as palavras os gritos das suas letras
quando é que o corpo encontra a própria boca
contra a boca do muro
A mão será a mão da outra mão
O corpo reunir-se-á ao corpo atrás do muro
1 198
António Ramos Rosa
Nascer Com a Palavra
à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página
É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome
Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave
Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta
Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo
Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..
Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida
As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia
Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página
É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome
Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave
Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta
Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo
Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..
Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida
As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia
Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
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António Ramos Rosa
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
Olhos de terra ou de água ou mesmo de árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
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