Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
António Ramos Rosa
Agilmente
Agilmente
imprevisível
a onda branca desnuda o campo obscuro.
Na trama descoberta o árido esplendor.
imprevisível
a onda branca desnuda o campo obscuro.
Na trama descoberta o árido esplendor.
1 164
António Ramos Rosa
Não Dissemos As Palavras Mais Simples
Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
1 163
António Ramos Rosa
Onde Os Deuses Se Encontram
Não busques não esperes
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
585
António Ramos Rosa
Palavras Para Viver
Afluem do vento as velas
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
1 109
António Ramos Rosa
O Rosto Sob As Águas
as intempéries talharam este rosto.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.
por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.
por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.
é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.
pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.
por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.
por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.
é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.
pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
779
António Ramos Rosa
Matéria Incerta
Em contacto com Matéria ardente
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
1 108
António Ramos Rosa
O Lugar
a Lídia Jorge
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
1 079
António Ramos Rosa
Caos Aberto
Para aquém dos sinais definidos para aquém do silêncio
o fundo à superfície o furor formidável
turbilhão da génese turbulência marinha
multiplicidade sem soma dança flutuações
Marinho deus ou deusa marginal
deus original do clamor ódio primeiro
ódio verde ódio da treva
que ruído pode impor silêncio ao ruído
que furor pode ordenar este furor
…………………………………………….
Detonações sílabas oscilações
Algo começa começa como começa o tempo
Rumor rumor incessante
oiço pelos ouvidos pelas papilas por toda a minha pele
estou mergulhado no som no ar na luz
ó alimento perene vivacidade do rumor
oiço e compreendo cegamente as evidências
O ruído e o furor incessante é quase a deusa branca
sobre o marulho negro
Não não fales a linguagem do rigor
o canal está cheio de ruídos de rumor de imagens
Ao alto o silêncio branco das nuvens silenciosas
O animal ou deus é pouco mais do que água
A crepitação longa do rumor fragmenta-se
flutuações flutuações a língua dança
tudo recomeça tudo cresce tudo morre
O rumor não cessa rumor quase de dança
quase a luz de um corpo e cinza resplandecente
nenhum alvor nenhuma mensagem nenhuma palavra
o furor cresce continua verde e cinza
flutuações flutuações crepitação sem fim
o fundo à superfície o furor formidável
turbilhão da génese turbulência marinha
multiplicidade sem soma dança flutuações
Marinho deus ou deusa marginal
deus original do clamor ódio primeiro
ódio verde ódio da treva
que ruído pode impor silêncio ao ruído
que furor pode ordenar este furor
…………………………………………….
Detonações sílabas oscilações
Algo começa começa como começa o tempo
Rumor rumor incessante
oiço pelos ouvidos pelas papilas por toda a minha pele
estou mergulhado no som no ar na luz
ó alimento perene vivacidade do rumor
oiço e compreendo cegamente as evidências
O ruído e o furor incessante é quase a deusa branca
sobre o marulho negro
Não não fales a linguagem do rigor
o canal está cheio de ruídos de rumor de imagens
Ao alto o silêncio branco das nuvens silenciosas
O animal ou deus é pouco mais do que água
A crepitação longa do rumor fragmenta-se
flutuações flutuações a língua dança
tudo recomeça tudo cresce tudo morre
O rumor não cessa rumor quase de dança
quase a luz de um corpo e cinza resplandecente
nenhum alvor nenhuma mensagem nenhuma palavra
o furor cresce continua verde e cinza
flutuações flutuações crepitação sem fim
1 152
António Ramos Rosa
Entre Mar E Sombra a Delícia
Entre mar e sombra a delícia
de um vento que abre um espaço original.
de um vento que abre um espaço original.
523
António Ramos Rosa
Um Rio No Rio
Onde de súbito desliza a densidade
…………………………………...
Ressurge a energia profunda suave
que entrega à claridade vivo e trémulo
o animal de sombra que respira inteiro
………………………………………
Nada sabemos que não seja estar
na superfície da leveza exacta
Amamos a vertigem lúcida o frémito
do equilíbrio subtil
Longo longo é o tempo do intacto longo
é o tempo do túmido percurso
…………………………………..
Sulcando os sulcos do imprevisível
nas areias repousadas
gozamos o sabor e a cintilação dos frutos
ramos ardentes do ser do espaço livre
………………………………………
Folheamos o corpo da terra no tremor
de um deus longo que se inclina e soletra
as palavras jamais ditas mas ouvidas
no sopro subtil no fogo
aéreo
…………………………………….
Vemos as minúcias do solo vemos a
secreta face silenciosa
nascemos no aqui no seu segredo
indecifrável somos
um imóvel olhar na nitidez do resplendor
………………………………………….
Flui um rio no rio
…………………………………...
Ressurge a energia profunda suave
que entrega à claridade vivo e trémulo
o animal de sombra que respira inteiro
………………………………………
Nada sabemos que não seja estar
na superfície da leveza exacta
Amamos a vertigem lúcida o frémito
do equilíbrio subtil
Longo longo é o tempo do intacto longo
é o tempo do túmido percurso
…………………………………..
Sulcando os sulcos do imprevisível
nas areias repousadas
gozamos o sabor e a cintilação dos frutos
ramos ardentes do ser do espaço livre
………………………………………
Folheamos o corpo da terra no tremor
de um deus longo que se inclina e soletra
as palavras jamais ditas mas ouvidas
no sopro subtil no fogo
aéreo
…………………………………….
Vemos as minúcias do solo vemos a
secreta face silenciosa
nascemos no aqui no seu segredo
indecifrável somos
um imóvel olhar na nitidez do resplendor
………………………………………….
Flui um rio no rio
1 103
António Ramos Rosa
A Superfície da Água Móvel
A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 114
António Ramos Rosa
A Esperança do Livro
Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
1 011
António Ramos Rosa
Um Furor de Espuma Entre As Algas
Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
1 104
António Ramos Rosa
Será Viva Entre Acidentes
Será viva entre acidentes
demolida
a móvel coluna imperceptível
que estaca e se dobra na retina
Um novo furor na espessura cálida
abre-se ao vento e o vento
desnuda investe a água nua
de uma figura incerta principia
Posso dizer terra fogo ou pedra
porque o limiar está limpo
e a limpidez do ar se afirma
nas sílabas
e na nudez obscura desta página
demolida
a móvel coluna imperceptível
que estaca e se dobra na retina
Um novo furor na espessura cálida
abre-se ao vento e o vento
desnuda investe a água nua
de uma figura incerta principia
Posso dizer terra fogo ou pedra
porque o limiar está limpo
e a limpidez do ar se afirma
nas sílabas
e na nudez obscura desta página
1 058
António Ramos Rosa
Um Mar Furtivo Entre Dois Ventos
Um mar furtivo entre dois ventos
no limite
das árvores as vagas
no papel áridas asas
uma cabeça oca branca entre algas dedos
transparência da luz alta
sobre as pálpebras
ávida morte nua lápide da sombra
no limite
das árvores as vagas
no papel áridas asas
uma cabeça oca branca entre algas dedos
transparência da luz alta
sobre as pálpebras
ávida morte nua lápide da sombra
1 059
António Ramos Rosa
81. Verde E Tu Verás Por Sobre o Sono
81
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.
E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.
A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.
E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.
A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
1 046
António Ramos Rosa
69. Pedra E a Perfeição, Essa Frescura
69
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
527
António Ramos Rosa
70. Incide a Água Onde Ainda É Água
70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 125
António Ramos Rosa
58. o Arvoredo E a Água Subjacente
58
O arvoredo e a água subjacente
o arvoredo aqui (e a água subjacente)
repetição da forma não límpida insegura
pobreza da terra mais secreta e abandonada.
Frouxidão dos nós moleza imprópria doce
é também terra também a frase e a prosa
do verso da água subterrânea
a escrita da outra mão também da terra.
Contestação da limpidez: a negação
do nome
próprio
impropriedade férrea tristeza inerme.
O arvoredo e a água subjacente
o arvoredo aqui (e a água subjacente)
repetição da forma não límpida insegura
pobreza da terra mais secreta e abandonada.
Frouxidão dos nós moleza imprópria doce
é também terra também a frase e a prosa
do verso da água subterrânea
a escrita da outra mão também da terra.
Contestação da limpidez: a negação
do nome
próprio
impropriedade férrea tristeza inerme.
1 099
António Ramos Rosa
Na Inesperada Margem Nua
Na inesperada margem nua
confuso chega o som e o verde
A terra é negra no limiar da pedra
E ouve-se o som do mar Um som sem sombra
Suspenderam-se os limites Quem
sustenta a proposição do mundo claro?
É então que se ouve o côncavo de um
caminho fresco que propaga o corpo
e as margens unem-se num só ouvido verde
confuso chega o som e o verde
A terra é negra no limiar da pedra
E ouve-se o som do mar Um som sem sombra
Suspenderam-se os limites Quem
sustenta a proposição do mundo claro?
É então que se ouve o côncavo de um
caminho fresco que propaga o corpo
e as margens unem-se num só ouvido verde
1 119