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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Ruy Belo

Ruy Belo

Os balcões sucessivos sobre o rio

Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
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Neves e Sousa

Neves e Sousa

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S Filipe de Benguela

Recreei-te em saudade e cor
Quando me afastei de ti
E os limites que te fiz
São dentro do meu sentir.

Por cima a cor neutra e desdobrada
Dum céu de cinzas de passado.

O Sombreiro como um marco
marco um lado.

As curvas nuas e douradas
de montes femininos
Nus até à cintura verde
Verde dos longos canaviais
Anunciam o limite de Benguela.

Na areia a longa e estreita ferida
Do Cavaco
Escorrendo o sangue de água
Que abre em bananais sombrios
Caminhos às fábulas de antanho
Marca outra fronteira da Cidade.

Para outro lado estende-se o sertão
Palmeiras espetadas pelo mato
Como flechas da aljava
do Soba Caparandanda
Sombreiam a curva dos caminhos
Perdidos na imensidão...

Por outro limite tem Benguela
Saudade no meu coração
E pela frente aberto e vasto
Tem este mar ardente de oiro e poentes
Este mar imenso que sorri ao longe.

Este mar imenso que também chora
E conta histórias de espumas e naufrágios,

Mar que também banha os seios jovens
Das moças que embalam sonhos
Nas sombras azuis dos quintalões

Altas paredes de adobe
Cheias de sonhos e histórias

Que viram as longas caravanas da borracha
E passos perdidos pelos caminhos sem glórias

Molhadas de lágrimas,
Salobras lágrimas
De anseios há muito mortos...
Mais amargos do que o mar
O mar salgado que chora
Cantos de não mais voltar...

Lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...

Sons dos sinos da Senhora do Pópulo
(Que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
Aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

Sob as árvores antigas
Que o vento sul esporeia
Como uma zebra azul
Feita de nuvens e céu.

Coração quente e generoso de Benguela
Bairros do Benfica, Cassôco,
Águas da Cacimba da Rua Nove
Repouso claro e lento
De luas nascidas longe
Na noite semeada de astros
Como olhos de Cazumbis,...

Na noite enorme e feiticeira da cidade

Bruxuleante do bruxedo de fogueiras
Feitas de amores velhos, carcomidos,
Adormecidos, nas velhas casas compridas.

E de fogueiras de verdade que acalentam
Ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
Subtis como a própria alma da brisa
Que arranca da terra o sangue vivo
Duma pena antiga que se perde...

Noite semeada de batuques
Batuques que me parecem

O palpitar dum coração imenso
Que se esvai nas noites desdobradas
Num rosário de auroras sucessivas.

Minha Benguela nocturna e antiga
Das amplas ruas cheirando a mar
Colmeia de lembranças que me ferem
Perante a dura realidade do progresso...

Volta:
Volta para os sete limites deste sonho
Sob a grande tristeza vegetal das frondes
Cheias de mistérios ancestrais
Do meu passado que não volta mais...
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Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Meus Oito Anos

No tempo de pequenino
eu tinha medo da cuca
velhinha de óculos pretos
que morava atrás da porta...
Um gato a dizer currumiau
de noite na casa escura...
De manhã, por travessura,
pica-pau, pica-pau.

Quando eu era pequenino
fazia bolotas de barro
que punha ao sol pra secar.
Cada bolota daquela,
dura, redonda, amarela,
jogada com o meu certeiro
bodoque de guatambu
matava canário, rolinha,
matava inambu.

Quando eu era pequenino
vivia armando arapuca
pra caçar "vira" e urutau.
Mas de noite vinha a cuca
com o seu gato currumiau...
Como este menino é mau!

Rolinha caiu no laço...
Ia contar, não conto não.
Como batia o coração
daquele verde sanhaço
na palma da minha mão!

Ah! se eu pudesse, algum dia,
caçar a vida num poema,
em seu minuto de dor
ou de alegria suprema,
que bom que pra mim seria
ter a vida em minha mão
pererecando de susto
como um sanhaço qualquer
na grade de um alçapão!

Mas... de noite vinha a cuca
(e por sinal que a noite parecia uma arapuca
com grandes pássaros de estrelas)
vinha com o gato currumiau:
menino mau, menino mau,
meninomaumeninomau.

Na minha imaginação
ficou pra sempre o pica-pau.

Pica-pau batendo o bico
numa casca de pau.
Pica-pau, pau-pau.

Currumiau miando de noite...
Currumiau, miau-miau.


In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
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Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

Ubi Troia Fuit

Eu queria que tu perdesses a beleza e ficasses,
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.

Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.

Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.

Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.

Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.

Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...

E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.


Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.

In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
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Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Café-Expresso

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Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...

2

Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!

Imagem - 00700005


In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
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Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Folha Solta

Eis o ninho abandonado
Dos sonhos do nosso amor...
É o mesmo o chão onde oscila
A mesma sombra tranquila
Dos arvoredos em flor.

É o mesmo o banco de pedra
Onde assentados nós dois
Falamos de amor um dia...
Lembras-te? Então, que alegria!
E que tristeza depois!...

Falamos de amor... E sobre
Minh'alma arqueava-se o azul
Do teu olhar transparente
Como o céu alvorecente
Das nossas manhãs do sul.

Quanta loucura sonhamos!
Quanta ilusão multicor!
Quanta risonha esperança
Nessas almas de criança
Iluminadas de amor!

.........................

Quando eu partia, choramos...
Toda a alma se me desfez.
Cada lágrima caída
Era uma folha da vida
Que eu desfolhava a teus pés.

Então amávamos tanto!
Tanto esquecemos após!
E de minh'alma, alto e doce,
Foi-se afastando... e calou-se
O último som de tua voz...

Passaram-se os anos — sombras
Que iam crescendo em redor
Daquele sol afundado
Nos abismos do passado:
— A estrela do nosso amor.

Hoje volto... É tudo o mesmo
Que quando amamos aqui:
Sombra, pássaros, fragrância,
Tudo me fala da infância,
Tudo me fala de ti.

Abril desenrola em torno
Seu esplendor festival;
Tudo é júbilo... No entanto
Não mesclas teu doce encanto
A este encanto matinal.

Não voltas, pomba emigrante,
Ao ninho de onde se ergueu
Teu vôo, abrindo caminho
Em busca de um outro ninho
Sob o azul de um outro céu...

Encontro o ninho deserto;
Volto, o seio imerso em dor,
Em pranto os olhos submersos...

............................

E aqui deixo nestes versos
o último sonho de amor.


Publicado no livro Ardentias (1885).

In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
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Juó Bananére

Juó Bananére

Os Meus Otto Anno

O chi sodades che io tegno
D'aquillo gustoso tempigno,
Ch'io stava o tempo intirigno
Brincando c'oas mulecada.
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá.

Che sbornia, che pagodêra,
Che pandiga, che arrelía,
A genti sempre afazia
No largo d'Abaxo o Piques.
Passava os dia i as notte
Brincando di scondi-scondi,
I atrepáno nus bondi,
Bulino c'os conduttore.

Deitava sempre di notte,
I alivantava cidigno.
Uguali d'un passarigno,
Allegro i cuntento da vita.
Bibia un caffé ligêro,
Pigava a penna i o tintêro
Iva curréno p'ra scuóla.

Na scuóla io non ligava!
Nunga prestava tençó,
Né nunga sapia a liçó.
O professore, furioso,
C'oa vadiação ch'io faceva,
Mi dava discompostura;
Ma io era garadura
I non ligava p'ra elli.

Inveiz di afazê a liçó,
Passava a aula intirigna,
Fazéno i giogáno boligna
Ingoppa a gabeza dos ôtro.
O professore gridava,
Mi dava un puxó di oreglio,
I mi butava di gioeglio
Inzima d'un grão di milio.

Di tardi xigava in gaza,
Comia come un danato,
Puxava u rabbo du gatto,
Giudiava du gaxorigno,
Bulia co'a guzignêra,
Brigava c'oa migna ermá:
I migna mái p'ra cabá,
Mi dava una brutta sova.

Na rua, na vizinhança,
Io era mesmo un castigo!
Ninguê puteva commigo!
Bulia con chi passava,
Quibrava tuttas vidraça,
I giunto co Bascualino
Rubava nus botteghino,
A aranxia pera du Rio.

Vivia amuntado nus muro,
Trepado nas larangiêra;
I sempre ista bringadéra
Cabava n'un brutto tombo.
Mas io éra incorrigive,
I logo nu otro dia,
Ricominciava a relia,
Gaía traveiz di novo!

A migna gaza vivia
Xiigna di genti, assim!!...
Che iva dá parti di mim.
Sembrava c'un gabinetto
Di quexa i regramaçó.
Meu páio, pobre goitado,
Vivia atrapagliado
P'ra si livrá dos quexozo.

I assi di relia in relia,
Passê tutta infança migna,
A migna infança intirigna.
Che tempo maise gotuba,
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá!

Imagem - 00630001


In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966

NOTA: Paródia do poema "Meus Oito Anos", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
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Rubem Braga

Rubem Braga

Retrato do Time

No primeiro plano vê-se a linha intrépida
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.

A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:

Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.

Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.

E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.

E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.

Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!

Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.

1946


In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

À Beira do Caminho

Por essas tardes plácidas do campo,
— Tardes azuis de firmamento escampo,
Eu vou, través de longos carreadores,
Sentar-me num barranco, ermo e distante,
Sentindo o fresco aroma penetrante
Que vem da madressilva aberta em flores.

Tudo me entrista e punge nestas terras!
Os mesmos cafezais. As mesmas serras.
A mesma casa antiga da fazenda,
Que outrora viu, quando éramos meninos,
Nossos amores, nossos desatinos,
— Toda essa história descorada em lenda!

Quanta saudade! De manhã bem cedo,
Saíamos os dois pelo arvoredo,
De alma contente e exclamações na voz.
Como éramos apenas namorados,
E andássemos, a rir, de braços dados,
Os camponeses riam-se de nós!

Era dezembro. Florescia o milho,
Verde e glorioso como o nosso idílio.
Que lindas roças! Que estação aquela!
Toda a velha fazenda parecia,
Com sua larga e rústica alegria,
Mais cheia de aves, mais ruidosa e bela!

Ainda guardo, intata, na memória,
Aquela ingênua e deliciosa história,
Que foi o meu e o teu primeiro amor.
E ai! que recordação, que duro travo,
Lembrar que eu fui o teu rei o teu escravo,
Saber que fui eu teu servo e teu senhor!

E cismo... Cismo... A tarde vai tombando.
De lado a lado, claras, azulando,
Destacam-se as colinas no horizonte.
Tristonha, a várzea na amplidão se perde.
Lá em baixo um bambual sombrio e verde.
Um fio dágua. Uma arruinada ponte.

Assim, ao pôr do sol, triste e sozinho,
Sentado num barranco do caminho,
Sem que ninguém meu coração compreenda,
Olho a mata, olho os campos, olho a estrada
Ouvindo a melancólica toada
Que chora, ao longe, o piano da fazenda...


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Moita de Rosas.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Depoimento

Ano de 1966.
Eu, Affonso Romano de Sant'Anna,
aos moldes de Villon, meu mestre,
resolvo:
sem ter nada que ocultar,
versos que temer
ou desculpas a quem dar;
já no meio da vida, e no mundo
demais no meio para calar,
conhecedor de algumas terras,
de alguns corpos agrimensor,
sem tocar outro instrumento
que seu corpo e seu amor,
hoje longe da pátria
aos dezesseis — pregador,
hoje — profissão definida,
ontem — recados & marmitas,
hoje — sem dívidas e aluguéis,
ontem — aturdido com a festa
e hoje — demais na vida.

(...)

Neste ano de 66,
ano besta, não bissexto,
apocalíptico e fatídico,

em que artefatos amarelos explodem no mar da China
e meu povo curva a cabeça e se aniquila,

em que minha vida interna floresce
e no Vietnã arroz e carne fenecem,

em que em mim, violenta, a poesia sobrevém
e os distúrbios nos subúrbios negros recrudescem,

em que um amor mais belo e novo se acrescenta
tão logo um antigo e escasso se esvanece,

em que eu, de carro novo transito e rejubilo
e alguns amigos nas prisões padecem,

em que nos savings acounts tenho money
e pelos nordestes perdura a mesma fome.

Neste ano de 66,
esperado, implorado, fabricado, suportado,
neste ano
colho as vacas gordas que meu pai
ano após ano pelos cultos de vigília
esperava que viessem.
Me lembro que em tais natais
eu nada tinha, senão muito que aprender
e muito que aceitar;
e nada tendo, eu aprendia com meu pai
de qualquer jeito
— a graças dar.

Sei
que desta safra outros só colhem palha
ou que muitos encolhem os ossos e a morte
dos seus recolhem.
Sei
que dentro da mesma estória
irmãos mais velhos
vendem o mais novo como escória.
Mas sei
que a seca não tarda
e pra cada irmão que vendam
são sete anos de praga.

Não sei por quantos anos
este ano vai durar,
em que época terei que ler meu verso
ao reverso
e do que é lugar dos outros
farei meu ocupar.
Mas sou pronto pro adverso
e do que há por suportar.
Porque um ano de fausto
não apaga os de penar.

(...)



Publicado no livro Canto e palavra (1965).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
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