Poemas neste tema
Morte e Luto
Herberto Helder
Os Ritmos 7
Ele lembra-se de setembro, o mês.
Setembro é um mês obrigatório.
Chegara para alguém o tempo do conhecimento.
Os ladrões são assim: espreitam, esperam, a ver como é.
Depois, do conhecimento dos outros instituem uma parte do seu conhecimento próprio.
Pode-se pensar que são coleccionadores de selos, acumuladores de riqueza, espíritos vorazes intensamente ocupados na extravagância dos espectáculos.
E emocionam-se, deslumbram-se, sofrem — monstros hábeis metendo tudo nas algibeiras.
Vamos rir: se calhar, aquilo de nada lhes servirá.
Alguém diz: tornam-se maiores as dimensões da realidade.
E o coleccionador, perdido em espaços demasiado grandes para si, diz devagar, muito devagar: merda.
Ninguém ouve, e ele mantém o seu orgulho de guardador de coisas, ele, o das vastas dimensões da realidade.
Porque é que em setembro acontecem coisas?
É por causa da luz.
O terror, por exemplo, é de setembro.
As noites rebentam inesperadamente no que pensamos ser o meio da luz do mês de setembro.
A morte diverte-se muito em setembro.
Vejamos: as pessoas estão a dormir, em setembro, e acordam de súbito, apavoradas.
Tiveram um sonho premonitório.
As pessoas julgam que a vida treme nelas, riem de alegria, têm o corpo bronzeado, cantam, levantam a cabeça para a luz.
É porque se está em setembro.
Então aprendem uma coisa qualquer, roubam-na, coleccionam-na, aumentam as dimensões da realidade.
E mesmo que digam baixinho: merda — não se livram do seu álbum de selos.
Estão tramadas.
Ele sabe isso muito bem.
De setembro, o mês, conhece todas as artimanhas.
Agora ri, quando as pessoas fáceis dizem: no verão, em setembro.
Elas contam as historiazinhas da praia, da alegria de viver junto ao mar, das roupas leves e claras.
Bem: nunca parou de enriquecer, ele, por obrigação.
E então chegou setembro, o obrigatório.
Nessa altura já ele tinha os braços e as pernas muito grandes e tentava metê-los no espaço, ao mesmo tempo que o resto do corpo.
Estava à procura do último ritmo, e as coisas iam menos mal.
Mas a mais nova das irmãs, com a malevolência dos seus doze anos, estava a comer uma ameixa, com os olhos sobre a mesa de estudo.
Setembro já começara a encher-se de assombro, por causa dos doze anos dela.
Embora o mês principiasse por ter uma qualidade especial de expectativa, e os dias se mudassem uns aos outros, mantendo uma subtil tensão — só nesse sábado branco é que o tumulto se levantou no meio da casa.
A irmã levantou os olhos da mesa, deixou cair a ameixa e ficou a olhar com espanto a parede em frente.
Depois, em setembro, o rosto dela correu vertiginosamente em direcção ao pânico, e ela deu um grito.
Tinha chegado o tempo do conhecimento.
Rouba o teu bocado, disse o pequeno monstro.
Vieram pessoas, vieram as mães todas: a velha, a outra a seguir, e a outra, e as novas mas ainda assim mais velhas.
Arrastaram a irmã para um quarto do fundo, e esconderam-na.
O espectador disse: agora é ela a vítima, foi apanhada de súbito pelo conhecimento.
E perguntou: o que é que cresceu nela, a comedora de ameixas aos doze anos?
Os dias de setembro unem-se uns aos outros, sob a enorme luz da tarde.
As mães todas correm pelos corredores, falam baixo, pretendem tornar inalcançável para ele os doze anos da comedora de ameixas.
Porque ele fica junto da mesa, à procura da ameixa mordida que rolou para o soalho.
Mas ele próprio já sabia demais para convencer-se de que procurava no chão ameixas mordidas.
Caberia isso na cabeça de alguém?
Um criminoso de oito anos procura, em setembro, quando a irmã grita e é levada para o inacessível.
Digo: um criminoso de oito anos perde tempo à procura de uma ameixa? quando uma rapariguinha de súbito cai em pleno espaço do sacral e as sacerdotisas se alvoroçam à sua volta, dizendo: chegou o tempo.
Levam-na para o inacessível, para o fundo da casa.
Que procuras tu, farejador?
Comigo foi assim, pensa ele: golpeei o braço, expus-me, criança doce e dramática, em frente do espanto e da comoção das mulheres, caí no abismo, ressuscitei sob a delicadíssima atenção feminina, cresceram-me os braços e as pernas, insinuou-se em mim um novo ritmo, soube que ultrapassei um perigo e fiquei de uma outra maneira diante de tudo.
Depois diz: aconteceu-lhe o mesmo a ela, mas de um modo particular.
Deve existir um sinal.
Havia no soalho, junto da cadeira, uma pequena mancha de sangue.
E ao longo do quarto, até à porta, um rasto de pingos de sangue.
E havia no corredor, ao longo do corredor — havia sangue.
Acerca das ameixas já eu sabia tudo, pensa ele.
Acerca de sangue de golpes no braço, pensa ele, já eu sabia tudo.
Quanto ao sangue de uma irmã de doze anos que de repente pára de comer ameixas e olha a parede e fica em pânico e grita e atrai as mulheres e é arrastada para o fundo da casa — começo a saber uma pequena coisa.
Tenho medo.
Quando uma mulher tiver fluxo de sangue, e o sangue lhe manar do corpo, ficará sete dias em reclusão, na impureza das suas regras.
Todo aquele que a tocar ficará imundo até à tarde.
O leito em que ela se deitar ficará imundo, e o sítio em que se sentar ficará imundo.
Todo aquele que tocar no seu leito deverá limpar as vestes, e lavar-se em água, e ficará imundo até à tarde.
Todo aquele que tocar num móvel, seja qual for, onde ela se tenha sentado, deverá limpar as vestes, e lavar-se-á em água, e ficará imundo até à tarde.
Se um objecto se encontrar no leito ou no sítio onde ela se sentou, aquele que lhe tocar ficará imundo até à tarde.
Se um homem se deitar com ela, atingi-lo-á a impureza das regras.
Ficará imundo durante sete dias.
O leito onde se deitar ficará imundo.
Principiou assim um tempo novo, uma coisa difícil a favor ou contra a qual ele não possuía qualquer arma.
Se se passasse pelos dias brancos e lisos, talvez nada se notasse, mas ao fundo deles vibrava o ambíguo e cerrado transe feminino.
O crescimento dramático e obscuro da irmã perpetuava-se algures, era o intangível e terrível remate desses dias tão planos.
Deve-se acreditar nos arquitectos, na tradição?
É verdade que uma casa se construíra e nela se instalara um campo de forças, de linhas cruzadas e tensas onde assentava o equilíbrio.
Podia-se então, sob a luz peremptória de setembro, averiguar o valor das pequenas coisas, o sentido de algumas transformações e, embora nada disso se fizesse sem alguma surpresa e sofrimento, ah, ressuscitava-se, sim, ressuscitava-se sempre.
Na verdade, não existia mácula nenhuma.
Metamorfoses, se as havia — e havia — davam-se dentro do próprio sistema de que se fazia parte.
Já se falara em terror?
Sim, falara-se na terra que treme debaixo dos pés, no medo e na confusão.
Não se falara contudo em mácula.
O que estava dentro de uma pessoa crescia, era certo, crescia por vezes espectacularmente, tornava estranhos e inóspitos, por um tempo, o lugar e o estilo — mas recuperava-se tudo, e pensava-se depois: descubro novos dons dentro de mim, eu cresço.
Mas que o mundo crescesse, ele, que o mundo fosse tão brutalmente activo, e não matéria apenas expectante à espera do nosso talento que crescia, isso, ah isso.
Isso não, não se sabia.
Tinha-se medo.
Havia sangue — um sangue corruptor.
Afinal, o trabalho das mulheres era o da ocultação da sua mácula.
Não se tratava de uma riqueza que fosse necessário decifrar, fosse difícil pela sua mesma natureza, mas cujo singular valor se relacionava obscuramente com o crescimento de uma criança.
As mulheres eram secretamente impuras, inspiravam o terror.
Eis que ela grita, aquela que agora se inicia, mas que em si trazia os húmidos e soturnos germens do mal, todas as virtualidades demoníacas.
E se olhares para o alvoroço feminino, com o teu coração tão acessível ao patético, onde o gesto e o movimento curvo se gravam pela impressividade da graça e da inspirada reticência — se olhares assim, aprendiz, ficas a saber que as mulheres continuam o seu trabalho de surpreendentes tecedeiras do milagre.
Mas descobriste outra coisa: que há uma mentira.
Descobriste isto: as mulheres nem roçam por ti.
Nunca soubeste nada, não decifraste o menor sinal, elas sempre estiveram a uma inimaginável distância.
Se perguntasses: o que há em setembro?, apareceriam todas as mentiras.
Maria: a roupa seca mais depressa; Francisca: é o melhor tempo de praia; Filipa: a luz estonteia; Luísa: pode-se dormir ao ar livre; Merícia: custa a adormecer.
Mas em setembro aparece a menstruação.
E ele anda pela casa, em volta daquele círculo de treva ardente, rondando a sagrada vileza das mulheres.
Mas há nessa espécie de desavinda sede de conhecimento, ou nessa angustiosa fascinação, uma repugnância e um medo próximos do amor, um silêncio crispado e atento que quase se abre num louvor incoerente.
Todo aquele… todo aquele que tocar… ficará imundo…
Sim, arrebatam-na, e ela cresce, cresce.
Que é isso de pernas e braços que se põem ridiculamente a sair do seu tamanho, como tomados de um ímpeto próprio, comparado com aquilo que nem se nomeia, não se pode ver, e é sagrado e intocável pelo poder da sua própria maldição?
Uma irmã come ameixas, e isso é mentira.
Ele olhou-a, a ela, e olhou as outras raparigas, e a mãe, e a avó.
Aprendia, pensava ele, aprendia.
Tocava-lhes nos vestidos, via-as pentear-se, andar, falar, calarem-se.
O grito, sim, o grito era o limiar: a primeira e última verdade.
Depois, a treva.
E a irmã estava de repente no seu lugar — a ausência perfeita.
Em setembro, as crianças não dormem.
São rapazinhos de rosto atemorizado, o olhar aberto e imóvel, as mãos espalmadas sobre a colcha.
Talvez pudessem ficar assim, até serem homens, e o que cresceria então neles?
Quem sabe se apenas os cabelos e as unhas?
Mas ele levanta-se no meio da sua noite, um destes rapazinhos, porque afinal existe a força do amor.
Levanta-se para novos corredores e escadas — e anda como um sonâmbulo comido pela febre.
Que o crime é uma vocação — sim, diga-se dessa maneira; diga-se que o crime é uma vocação, do mesmo modo que o conhecimento.
Que são uma só coisa, isso; que o crime e o conhecimento são uma só coisa: uma vocação.
Ele levanta-se na sua noite, cheio de confuso amor, e precipita-se na sua silenciosa vocação: o crime do conhecimento.
E assim se aproxima, tacteando, com as mãos trementes de febre, dos lugares sagrados.
Bem pode ser que haja setembro, luz, coisas aparentemente fáceis, nenhuma dúvida.
Mas agora é sempre noite, sempre um fervor culpado, a descoberta da violação.
Pode-se falar de alegria?
Pode.
É disso mesmo, é de uma monstruosa alegria aquilo de que se fala.
Assim se caminha pelos corredores e quartos, pelo equívoco das velhas arquitecturas, e a inspiração é esta: uma alegria cujas dimensões são ainda imperscrutáveis.
Não se conte isto em tempo: foi muito tempo, ou foi muito pouco.
Não há tempo.
Porque esta alegria, este amor, este medo que anda, esta violação servida por minúcias mesquinhas, estão prontos para o muito ou o pouco tempo.
Exerce-se, e nisso se basta.
É uma aranha, tem as virtudes inteligentes, miúdas e tenazes da aranha.
Aquele rapazinho que fora apanhado pelo espanto e o terror, que se deitara de mãos abertas como fulminado, e estava pálido e já não sabia nada, esse, sim, esse.
É desse que se fala.
Pois levantou-se, e agora procura, cada vez mais perto, mais perto.
É ele.
E um dia então descobre um pano manchado de sangue menstrual e mete-o debaixo da camisa, contra a sua própria carne.
Parece que não chegou a deixar a cama, porque podemos encontrá-lo tal como estava: deitado de mãos estendidas, respirando com a boca entreaberta, e o olhar fixo no tecto.
Talvez um resto de sorriso fugindo dos lábios, ou o princípio de um sorriso.
Mas agora é ele que desaparece, cerra-se, corta todas as pontes que poderiam conduzir ao seu segredo.
Fica só.
Não atravessem corredores, nem subam ou desçam escadas.
Nunca o encontrarão.
Lentamente, a mão que talvez se julgasse adormecida sobe da colcha.
Nunca esteve tão acordada, nunca foi tão forte — aquela mão de rapazinho deitado.
Desabotoa a camisa — ela, a mão, a mão que sabe — e tira o pano para fora.
É sobre um rosto de olhos fechados que essa mão parece voar docemente, com o pano vermelho bem agarrado.
A mão desce sobre o rosto, e o que se poderia ver seria um fremir de narinas, e um tremer de lábios.
O odor tão vivo daquele sangue morto enche-o, passa pelo olfacto e enche-o turvamente.
Sim, sim, também isso, também isso é verdade: um beijo — o beijo do amor.
E, pelas pálpebras fechadas, lágrimas para que não há nome.
Quando ele abre os olhos, talvez ninguém saiba, mas abre-os para a alegria — a mais terrível das alegrias.
Setembro é um mês obrigatório.
Chegara para alguém o tempo do conhecimento.
Os ladrões são assim: espreitam, esperam, a ver como é.
Depois, do conhecimento dos outros instituem uma parte do seu conhecimento próprio.
Pode-se pensar que são coleccionadores de selos, acumuladores de riqueza, espíritos vorazes intensamente ocupados na extravagância dos espectáculos.
E emocionam-se, deslumbram-se, sofrem — monstros hábeis metendo tudo nas algibeiras.
Vamos rir: se calhar, aquilo de nada lhes servirá.
Alguém diz: tornam-se maiores as dimensões da realidade.
E o coleccionador, perdido em espaços demasiado grandes para si, diz devagar, muito devagar: merda.
Ninguém ouve, e ele mantém o seu orgulho de guardador de coisas, ele, o das vastas dimensões da realidade.
Porque é que em setembro acontecem coisas?
É por causa da luz.
O terror, por exemplo, é de setembro.
As noites rebentam inesperadamente no que pensamos ser o meio da luz do mês de setembro.
A morte diverte-se muito em setembro.
Vejamos: as pessoas estão a dormir, em setembro, e acordam de súbito, apavoradas.
Tiveram um sonho premonitório.
As pessoas julgam que a vida treme nelas, riem de alegria, têm o corpo bronzeado, cantam, levantam a cabeça para a luz.
É porque se está em setembro.
Então aprendem uma coisa qualquer, roubam-na, coleccionam-na, aumentam as dimensões da realidade.
E mesmo que digam baixinho: merda — não se livram do seu álbum de selos.
Estão tramadas.
Ele sabe isso muito bem.
De setembro, o mês, conhece todas as artimanhas.
Agora ri, quando as pessoas fáceis dizem: no verão, em setembro.
Elas contam as historiazinhas da praia, da alegria de viver junto ao mar, das roupas leves e claras.
Bem: nunca parou de enriquecer, ele, por obrigação.
E então chegou setembro, o obrigatório.
Nessa altura já ele tinha os braços e as pernas muito grandes e tentava metê-los no espaço, ao mesmo tempo que o resto do corpo.
Estava à procura do último ritmo, e as coisas iam menos mal.
Mas a mais nova das irmãs, com a malevolência dos seus doze anos, estava a comer uma ameixa, com os olhos sobre a mesa de estudo.
Setembro já começara a encher-se de assombro, por causa dos doze anos dela.
Embora o mês principiasse por ter uma qualidade especial de expectativa, e os dias se mudassem uns aos outros, mantendo uma subtil tensão — só nesse sábado branco é que o tumulto se levantou no meio da casa.
A irmã levantou os olhos da mesa, deixou cair a ameixa e ficou a olhar com espanto a parede em frente.
Depois, em setembro, o rosto dela correu vertiginosamente em direcção ao pânico, e ela deu um grito.
Tinha chegado o tempo do conhecimento.
Rouba o teu bocado, disse o pequeno monstro.
Vieram pessoas, vieram as mães todas: a velha, a outra a seguir, e a outra, e as novas mas ainda assim mais velhas.
Arrastaram a irmã para um quarto do fundo, e esconderam-na.
O espectador disse: agora é ela a vítima, foi apanhada de súbito pelo conhecimento.
E perguntou: o que é que cresceu nela, a comedora de ameixas aos doze anos?
Os dias de setembro unem-se uns aos outros, sob a enorme luz da tarde.
As mães todas correm pelos corredores, falam baixo, pretendem tornar inalcançável para ele os doze anos da comedora de ameixas.
Porque ele fica junto da mesa, à procura da ameixa mordida que rolou para o soalho.
Mas ele próprio já sabia demais para convencer-se de que procurava no chão ameixas mordidas.
Caberia isso na cabeça de alguém?
Um criminoso de oito anos procura, em setembro, quando a irmã grita e é levada para o inacessível.
Digo: um criminoso de oito anos perde tempo à procura de uma ameixa? quando uma rapariguinha de súbito cai em pleno espaço do sacral e as sacerdotisas se alvoroçam à sua volta, dizendo: chegou o tempo.
Levam-na para o inacessível, para o fundo da casa.
Que procuras tu, farejador?
Comigo foi assim, pensa ele: golpeei o braço, expus-me, criança doce e dramática, em frente do espanto e da comoção das mulheres, caí no abismo, ressuscitei sob a delicadíssima atenção feminina, cresceram-me os braços e as pernas, insinuou-se em mim um novo ritmo, soube que ultrapassei um perigo e fiquei de uma outra maneira diante de tudo.
Depois diz: aconteceu-lhe o mesmo a ela, mas de um modo particular.
Deve existir um sinal.
Havia no soalho, junto da cadeira, uma pequena mancha de sangue.
E ao longo do quarto, até à porta, um rasto de pingos de sangue.
E havia no corredor, ao longo do corredor — havia sangue.
Acerca das ameixas já eu sabia tudo, pensa ele.
Acerca de sangue de golpes no braço, pensa ele, já eu sabia tudo.
Quanto ao sangue de uma irmã de doze anos que de repente pára de comer ameixas e olha a parede e fica em pânico e grita e atrai as mulheres e é arrastada para o fundo da casa — começo a saber uma pequena coisa.
Tenho medo.
Quando uma mulher tiver fluxo de sangue, e o sangue lhe manar do corpo, ficará sete dias em reclusão, na impureza das suas regras.
Todo aquele que a tocar ficará imundo até à tarde.
O leito em que ela se deitar ficará imundo, e o sítio em que se sentar ficará imundo.
Todo aquele que tocar no seu leito deverá limpar as vestes, e lavar-se em água, e ficará imundo até à tarde.
Todo aquele que tocar num móvel, seja qual for, onde ela se tenha sentado, deverá limpar as vestes, e lavar-se-á em água, e ficará imundo até à tarde.
Se um objecto se encontrar no leito ou no sítio onde ela se sentou, aquele que lhe tocar ficará imundo até à tarde.
Se um homem se deitar com ela, atingi-lo-á a impureza das regras.
Ficará imundo durante sete dias.
O leito onde se deitar ficará imundo.
Principiou assim um tempo novo, uma coisa difícil a favor ou contra a qual ele não possuía qualquer arma.
Se se passasse pelos dias brancos e lisos, talvez nada se notasse, mas ao fundo deles vibrava o ambíguo e cerrado transe feminino.
O crescimento dramático e obscuro da irmã perpetuava-se algures, era o intangível e terrível remate desses dias tão planos.
Deve-se acreditar nos arquitectos, na tradição?
É verdade que uma casa se construíra e nela se instalara um campo de forças, de linhas cruzadas e tensas onde assentava o equilíbrio.
Podia-se então, sob a luz peremptória de setembro, averiguar o valor das pequenas coisas, o sentido de algumas transformações e, embora nada disso se fizesse sem alguma surpresa e sofrimento, ah, ressuscitava-se, sim, ressuscitava-se sempre.
Na verdade, não existia mácula nenhuma.
Metamorfoses, se as havia — e havia — davam-se dentro do próprio sistema de que se fazia parte.
Já se falara em terror?
Sim, falara-se na terra que treme debaixo dos pés, no medo e na confusão.
Não se falara contudo em mácula.
O que estava dentro de uma pessoa crescia, era certo, crescia por vezes espectacularmente, tornava estranhos e inóspitos, por um tempo, o lugar e o estilo — mas recuperava-se tudo, e pensava-se depois: descubro novos dons dentro de mim, eu cresço.
Mas que o mundo crescesse, ele, que o mundo fosse tão brutalmente activo, e não matéria apenas expectante à espera do nosso talento que crescia, isso, ah isso.
Isso não, não se sabia.
Tinha-se medo.
Havia sangue — um sangue corruptor.
Afinal, o trabalho das mulheres era o da ocultação da sua mácula.
Não se tratava de uma riqueza que fosse necessário decifrar, fosse difícil pela sua mesma natureza, mas cujo singular valor se relacionava obscuramente com o crescimento de uma criança.
As mulheres eram secretamente impuras, inspiravam o terror.
Eis que ela grita, aquela que agora se inicia, mas que em si trazia os húmidos e soturnos germens do mal, todas as virtualidades demoníacas.
E se olhares para o alvoroço feminino, com o teu coração tão acessível ao patético, onde o gesto e o movimento curvo se gravam pela impressividade da graça e da inspirada reticência — se olhares assim, aprendiz, ficas a saber que as mulheres continuam o seu trabalho de surpreendentes tecedeiras do milagre.
Mas descobriste outra coisa: que há uma mentira.
Descobriste isto: as mulheres nem roçam por ti.
Nunca soubeste nada, não decifraste o menor sinal, elas sempre estiveram a uma inimaginável distância.
Se perguntasses: o que há em setembro?, apareceriam todas as mentiras.
Maria: a roupa seca mais depressa; Francisca: é o melhor tempo de praia; Filipa: a luz estonteia; Luísa: pode-se dormir ao ar livre; Merícia: custa a adormecer.
Mas em setembro aparece a menstruação.
E ele anda pela casa, em volta daquele círculo de treva ardente, rondando a sagrada vileza das mulheres.
Mas há nessa espécie de desavinda sede de conhecimento, ou nessa angustiosa fascinação, uma repugnância e um medo próximos do amor, um silêncio crispado e atento que quase se abre num louvor incoerente.
Todo aquele… todo aquele que tocar… ficará imundo…
Sim, arrebatam-na, e ela cresce, cresce.
Que é isso de pernas e braços que se põem ridiculamente a sair do seu tamanho, como tomados de um ímpeto próprio, comparado com aquilo que nem se nomeia, não se pode ver, e é sagrado e intocável pelo poder da sua própria maldição?
Uma irmã come ameixas, e isso é mentira.
Ele olhou-a, a ela, e olhou as outras raparigas, e a mãe, e a avó.
Aprendia, pensava ele, aprendia.
Tocava-lhes nos vestidos, via-as pentear-se, andar, falar, calarem-se.
O grito, sim, o grito era o limiar: a primeira e última verdade.
Depois, a treva.
E a irmã estava de repente no seu lugar — a ausência perfeita.
Em setembro, as crianças não dormem.
São rapazinhos de rosto atemorizado, o olhar aberto e imóvel, as mãos espalmadas sobre a colcha.
Talvez pudessem ficar assim, até serem homens, e o que cresceria então neles?
Quem sabe se apenas os cabelos e as unhas?
Mas ele levanta-se no meio da sua noite, um destes rapazinhos, porque afinal existe a força do amor.
Levanta-se para novos corredores e escadas — e anda como um sonâmbulo comido pela febre.
Que o crime é uma vocação — sim, diga-se dessa maneira; diga-se que o crime é uma vocação, do mesmo modo que o conhecimento.
Que são uma só coisa, isso; que o crime e o conhecimento são uma só coisa: uma vocação.
Ele levanta-se na sua noite, cheio de confuso amor, e precipita-se na sua silenciosa vocação: o crime do conhecimento.
E assim se aproxima, tacteando, com as mãos trementes de febre, dos lugares sagrados.
Bem pode ser que haja setembro, luz, coisas aparentemente fáceis, nenhuma dúvida.
Mas agora é sempre noite, sempre um fervor culpado, a descoberta da violação.
Pode-se falar de alegria?
Pode.
É disso mesmo, é de uma monstruosa alegria aquilo de que se fala.
Assim se caminha pelos corredores e quartos, pelo equívoco das velhas arquitecturas, e a inspiração é esta: uma alegria cujas dimensões são ainda imperscrutáveis.
Não se conte isto em tempo: foi muito tempo, ou foi muito pouco.
Não há tempo.
Porque esta alegria, este amor, este medo que anda, esta violação servida por minúcias mesquinhas, estão prontos para o muito ou o pouco tempo.
Exerce-se, e nisso se basta.
É uma aranha, tem as virtudes inteligentes, miúdas e tenazes da aranha.
Aquele rapazinho que fora apanhado pelo espanto e o terror, que se deitara de mãos abertas como fulminado, e estava pálido e já não sabia nada, esse, sim, esse.
É desse que se fala.
Pois levantou-se, e agora procura, cada vez mais perto, mais perto.
É ele.
E um dia então descobre um pano manchado de sangue menstrual e mete-o debaixo da camisa, contra a sua própria carne.
Parece que não chegou a deixar a cama, porque podemos encontrá-lo tal como estava: deitado de mãos estendidas, respirando com a boca entreaberta, e o olhar fixo no tecto.
Talvez um resto de sorriso fugindo dos lábios, ou o princípio de um sorriso.
Mas agora é ele que desaparece, cerra-se, corta todas as pontes que poderiam conduzir ao seu segredo.
Fica só.
Não atravessem corredores, nem subam ou desçam escadas.
Nunca o encontrarão.
Lentamente, a mão que talvez se julgasse adormecida sobe da colcha.
Nunca esteve tão acordada, nunca foi tão forte — aquela mão de rapazinho deitado.
Desabotoa a camisa — ela, a mão, a mão que sabe — e tira o pano para fora.
É sobre um rosto de olhos fechados que essa mão parece voar docemente, com o pano vermelho bem agarrado.
A mão desce sobre o rosto, e o que se poderia ver seria um fremir de narinas, e um tremer de lábios.
O odor tão vivo daquele sangue morto enche-o, passa pelo olfacto e enche-o turvamente.
Sim, sim, também isso, também isso é verdade: um beijo — o beijo do amor.
E, pelas pálpebras fechadas, lágrimas para que não há nome.
Quando ele abre os olhos, talvez ninguém saiba, mas abre-os para a alegria — a mais terrível das alegrias.
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Herberto Helder
Os Ritmos 9
Uma pessoa estava sentada no meio de outras, num quarto iluminado.
As belas luzes envolviam-lhe o pescoço e caíam sobre as mãos repousadas no vestido.
Falava-se, e o silêncio atravessava os blocos do diálogo.
O diálogo avançava e recuava.
Movia-se para os lados.
E de novo o silêncio o atravessava de um lado a outro.
A pessoa fez um movimento vagaroso em torno de uma dessas pausas e as vozes recomeçaram, mais quentes.
A mulher consumia-se.
Estava no centro da conversa e do calor.
Consumia toda a espécie de dons humanos.
Uma criança sorriu em baixo, sentada no tapete.
Qualquer paixão obscura parecia tomar conta de toda a gente, porque se viam os gestos rápidos dos braços e os troncos inclinando-se para diante.
Depois o riso fazia ferver as gargantas.
Ao lado da janela estava um tripé de madeira escura com um grande vaso de avencas em cima.
Para a criança era um mundo de colunas ascendentes iluminadas ao alto.
A mulher pôs-se a falar do piano.
Disse: está desafinado, é preciso mandar vir o afinador.
Era um piano vertical, negro, instalado ao fundo da sala.
Estou a ficar com os dedos presos, disse uma rapariga, gostaria de tocar todos os dias.
E os outros sorriram, um pouco divertidos, um pouco solenes.
E então deslocaram-se para trás e ficaram na periferia da luz, onde não eram tão vivos.
A atmosfera tornou-se subtil.
E as pessoas deviam estar a pensar.
Alguém suspirou.
Um motor trabalhava, alimentando as pessoas caladas, um pequeno motor silencioso.
E tudo isto avançou pelo tempo dentro, até que a mulher se retirou para outro quarto defendido por altos muros.
Nutria-se de uma solidão inexpugnável, uma coisa fria e sumptuosa que excluía os outros.
Estava doente.
Alimentava-se da sua doença — fascinava-se.
E ninguém compreendia a fascinação.
Era repugnante, escandalosa.
A atmosfera inumana, onde a doente desenvolvia o seu novo talento, afastava todos os propósitos vitais.
Era um espaço rarefeito em que as mãos das pessoas arrefeciam e a linguagem se tornava absurda.
Os que deviam cuidar da doente arranjavam uma couraça de diamante, atravessavam friamente a doença e, na sua solicitude, não deixavam transparecer as violentas qualidades de seres vivos.
Não se concediam.
Cercavam a mulher de uma atmosfera antisséptica e, dentro dela, executavam gestos puros e precisos.
A sua ternura pelo corpo isolado da outra era uma ternura antisséptica, limpa da calorosa eloquência do mundo.
A doente afastava-se com a sua doença.
Abandonava as pessoas que riam, girando entre massas de luz e sombra, e que ficavam depois a pensar.
Vai morrer, diziam, e sentiam pelo corpo emparedado uma piedade irritada.
Mas quem poderia conceber a morte dele, do corpo?
A mulher não deveria afastar-se com a horrível maquinação da sua doença.
Era uma solidão revoltante.
Abriam-se as janelas do quarto ao lado.
Violenta, a luz batia contra as coisas.
E era o barulho do mar, e a salsugem picava as narinas.
A espuma envolvia as rochas, e passavam barcos de pesca com faixas amarelas e vermelhas.
Então alguém sorriu irresistivelmente e depois tornou-se muito sério.
Porque a doença estava no outro quarto, e não se sabia decifrar a situação.
Quando os garotos passavam na rua e gritavam debaixo do sol, e quando se ouviam as vozes dos operários que voltavam do outro lado da cidade e as gargalhadas quase impudicas das mulheres do povo — então sentia-se perplexidade, confusão, uma espécie de terror.
Como se podia trazer no meio de tudo isto uma mulher que cada dia mais se destinava à morte?
Ao fundo retumbava o mar.
Era dia de vento, e o vento metia-se na água, enchia-a de força.
O sol metia-se atrás do vento, e a água do mar levantava-se e estendia-se em grandes ondas de luz.
Alguém sorriu.
A mulher esgotava-se atrás dos muros.
Riam, falavam na rua.
Gritavam na rua.
O fundo era de água — como direi? — água de uma alegria trágica.
Depois disseram: morreu.
As belas luzes envolviam-lhe o pescoço e caíam sobre as mãos repousadas no vestido.
Falava-se, e o silêncio atravessava os blocos do diálogo.
O diálogo avançava e recuava.
Movia-se para os lados.
E de novo o silêncio o atravessava de um lado a outro.
A pessoa fez um movimento vagaroso em torno de uma dessas pausas e as vozes recomeçaram, mais quentes.
A mulher consumia-se.
Estava no centro da conversa e do calor.
Consumia toda a espécie de dons humanos.
Uma criança sorriu em baixo, sentada no tapete.
Qualquer paixão obscura parecia tomar conta de toda a gente, porque se viam os gestos rápidos dos braços e os troncos inclinando-se para diante.
Depois o riso fazia ferver as gargantas.
Ao lado da janela estava um tripé de madeira escura com um grande vaso de avencas em cima.
Para a criança era um mundo de colunas ascendentes iluminadas ao alto.
A mulher pôs-se a falar do piano.
Disse: está desafinado, é preciso mandar vir o afinador.
Era um piano vertical, negro, instalado ao fundo da sala.
Estou a ficar com os dedos presos, disse uma rapariga, gostaria de tocar todos os dias.
E os outros sorriram, um pouco divertidos, um pouco solenes.
E então deslocaram-se para trás e ficaram na periferia da luz, onde não eram tão vivos.
A atmosfera tornou-se subtil.
E as pessoas deviam estar a pensar.
Alguém suspirou.
Um motor trabalhava, alimentando as pessoas caladas, um pequeno motor silencioso.
E tudo isto avançou pelo tempo dentro, até que a mulher se retirou para outro quarto defendido por altos muros.
Nutria-se de uma solidão inexpugnável, uma coisa fria e sumptuosa que excluía os outros.
Estava doente.
Alimentava-se da sua doença — fascinava-se.
E ninguém compreendia a fascinação.
Era repugnante, escandalosa.
A atmosfera inumana, onde a doente desenvolvia o seu novo talento, afastava todos os propósitos vitais.
Era um espaço rarefeito em que as mãos das pessoas arrefeciam e a linguagem se tornava absurda.
Os que deviam cuidar da doente arranjavam uma couraça de diamante, atravessavam friamente a doença e, na sua solicitude, não deixavam transparecer as violentas qualidades de seres vivos.
Não se concediam.
Cercavam a mulher de uma atmosfera antisséptica e, dentro dela, executavam gestos puros e precisos.
A sua ternura pelo corpo isolado da outra era uma ternura antisséptica, limpa da calorosa eloquência do mundo.
A doente afastava-se com a sua doença.
Abandonava as pessoas que riam, girando entre massas de luz e sombra, e que ficavam depois a pensar.
Vai morrer, diziam, e sentiam pelo corpo emparedado uma piedade irritada.
Mas quem poderia conceber a morte dele, do corpo?
A mulher não deveria afastar-se com a horrível maquinação da sua doença.
Era uma solidão revoltante.
Abriam-se as janelas do quarto ao lado.
Violenta, a luz batia contra as coisas.
E era o barulho do mar, e a salsugem picava as narinas.
A espuma envolvia as rochas, e passavam barcos de pesca com faixas amarelas e vermelhas.
Então alguém sorriu irresistivelmente e depois tornou-se muito sério.
Porque a doença estava no outro quarto, e não se sabia decifrar a situação.
Quando os garotos passavam na rua e gritavam debaixo do sol, e quando se ouviam as vozes dos operários que voltavam do outro lado da cidade e as gargalhadas quase impudicas das mulheres do povo — então sentia-se perplexidade, confusão, uma espécie de terror.
Como se podia trazer no meio de tudo isto uma mulher que cada dia mais se destinava à morte?
Ao fundo retumbava o mar.
Era dia de vento, e o vento metia-se na água, enchia-a de força.
O sol metia-se atrás do vento, e a água do mar levantava-se e estendia-se em grandes ondas de luz.
Alguém sorriu.
A mulher esgotava-se atrás dos muros.
Riam, falavam na rua.
Gritavam na rua.
O fundo era de água — como direi? — água de uma alegria trágica.
Depois disseram: morreu.
1 093
Herberto Helder
Os Epílogos
Vou enlouquecer, sussurrou ele para o mestre que o olhava do outro lado da mesa.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.
Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.
Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.
Ou ainda:
Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:
É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.
É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.
Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.
Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.
Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.
Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.
A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.
Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.
As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.
Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.
Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.
Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.
Ou ainda:
Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:
É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.
É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.
Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.
Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.
Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.
Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.
A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.
Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.
As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.
Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
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Herberto Helder
Os Ritmos 12
Pendurada pelos cabelos, no meio do estúdio, há uma cabeça decepada que pensa: é este o meu filho?
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
1 051
Herberto Helder
Os Ritmos 10
O meu estúdio é uma espécie de túnel: longo e estreito, com o tecto muito baixo em forma de ferradura.
Ao fundo há uma janela, sugerindo que se pode escapar, pela visão de uma paisagem assente, cheia de equilíbrio — verde e branca.
No decorrer dos anos, a assinalar a minha caminhada pela sabedoria, fui escrevendo nas paredes frases obscuras, palavras soltas, anúncios de jornais, obscenidades, passagens de autores desconhecidos.
Escrevi também nomes de países que não existem, indicando por baixo a fauna e a flora, e as fontes da sua pobreza.
O estúdio transborda de objectos inúteis e a poeira, cobrindo-os, deu-lhes tempo, gratuidade — uma dignidade mítica.
Encontram-se elevados a um nível de beleza indecifrável, fora do seu clima.
Há uma porta — uma só.
Fica no lado oposto à janela.
Quando entro tenho a visão súbita e global do estúdio: as suas possibilidades e dificuldades.
Ao meio deste túnel, pendurada pelos cabelos obscenamente compridos, está uma cabeça.
Foi decepada pela base do pescoço.
O rosto volta-se para a porta.
Se uma corrente de ar se estabelece entre a janela e a porta, a cabeça balança, move-se, pretende às vezes apresentar-se de perfil, fugitivamente.
São tão longos os cabelos que, se eu avançasse da porta em direcção à janela, não poderia evitar que a cabeça fria roçasse pela minha, a boca morta batesse na minha, me beijasse — aquela boca escurecida pelo tempo, quase negra.
Negra.
De resto, os caçadores de cabeças da América do Sul estão cheios de medo.
Eles pensam: é preciso ocultar, disfarçar estas cabeças, desembaraçarmo-nos delas.
Quebram o crânio.
Extraem os fragmentos pelo buraco do pescoço decepado.
Lavam as cabeças mortas e deitam-lhes dentro areia quente.
As cabeças vão-se reduzindo, aos poucos, até ficarem do tamanho de um punho.
As feições mantêm-se fiéis, na nova escala.
Dentro dessa escala, cortam as pestanas.
A boca é cosida com linha forte, para que nada revele.
Trata-se de vender aquilo ao turista empolgado por uma espécie de conivência no pequeno crime índio.
É o folclore.
É um souvenir da América do Sul.
A pessoa pode ter, barato, o seu arrepio de horror, europeiamente em casa, durante o ano comercial.
Mas a cabeça do meu estúdio possuía uma boca livre, poderia talvez falar, tinha os olhos abertos — e como olhavam.
Estavam vivos, vivos — luzindo da feroz inteligência de quem está ali para compreender, testemunhar, para agir.
Além disso, parecia maior que o natural.
Quando se encontrava completamente imóvel, pendurada pelos longos cabelos cor de mel, exoftálmica, quase sorrindo com a boca negra, não me deixando passar até à janela, onde, à janela onde, sei lá, onde eu poderia respirar, ver as árvores e as nuvens e o rio lá em baixo — às vezes parecia enorme, vibrando de colérica ironia — autónoma, inteligente, presente, suspensa.
Meu Deus, seria sempre assim, sempre?
Imagino que durante o ano há alguns dias de primavera.
É uma suposição.
Pelo menos, assim acontecia antigamente.
Havia manhãs em que as folhas das árvores tremiam e a luz se desenvolvia pelas avenidas fora, com as casas no meio, parecendo mais altas, e um cheiro vegetal que vinha não se sabia de que sítios.
Se a gente conseguia apanhar o ritmo destes dias, era possível descobrir muitas coisas.
Nos arrabaldes apareciam cavalos brancos, havia cães que andavam de um lado para outro, como se tivessem várias ideias para decifrar os labirintos de um mundo de cães.
Era possível ver as pessoas por toda a parte, e eram um espanto os vestidos das mulheres.
Junto da porta, procurando escamotear a cabeça pendurada pelos cabelos, o meu olhar tentava descobrir pela janela esses dias hipotéticos.
Mas como era possível?
Os olhos da cabeça fixavam os meus, liam-me, e eu ficava fascinado.
Dizia: ela pensa que ainda existe em mim qualquer esperança.
E então encostava-me à porta e perguntava se seria sempre assim.
Um dia, enchera-me de coragem, avançara pelo túnel, até junto da cabeça.
Pensava eu que pretendia chegar à janela, ver ao menos se ainda existia a cidade, com as casas, roupa a secar, ruas, automóveis, pessoas, as pessoas em baixo.
A cabeça encostara-se à minha, era como se tremesse contra o meu rosto que absorvia esse tremor frio.
Meu Deus, pensava eu, será sempre assim, sempre, sempre?
Esperei porventura ouvir uma voz.
Enfim, a boca dela não fora cosida, era uma cabeça normal, ainda que decepada.
Tinha ouvidos, olhos, boca.
Olhava-me, estava encostada ao meu rosto e, embora gelada, quase negra, estremecia de encontro ao meu rosto de homem desesperado.
Não, não era a cidade que eu desejava observar, do alto da minha janela.
Desejaria fazer um pacto com aquela cabeça?
E que pacto?
Não existia já um pacto?
Ah, não sei.
Que pacto existiria já?
Pensei também: é uma cabeça morta, não pode entrar em pactos.
Morta?
E então comecei a chorar em silêncio, e as minhas lágrimas quentes molhavam também o rosto, o outro rosto, iam-no ensopando, e parece que ele tremia cada vez mais.
Talvez fosse do vento que entrava pela janela.
Que posso eu fazer, eu, um homem desesperado que escreve coisas absurdas nas paredes do seu estúdio, eu que não durmo nunca, nem amo, que já tudo desaprendi?
Eu que apenas possuo uma cabeça decepada, suspensa pelos cabelos do tecto do meu estúdio?
Que apenas possuo a cabeça de minha mãe.
É a cabeça de minha mãe, e de uma coisa tenho a certeza: fui eu mesmo quem a decepou.
Não sei quando, mas fui eu quem a cortou de um só golpe.
Mas atirei-a fora, penso que a atirei ao rio, de noite, embrulhada num jornal.
Contudo, ela voltou, a cabeça, teatral, verdadeira.
Suponho que foi ela própria que se pendurou no tecto, no meio do estúdio, entre a porta e a janela, e será sempre assim — nunca de lá sairá.
Começo a pensar, como os tribunais, que o crime não compensa.
E a cabeça olha-me, quase docemente, por este meu pensamento.
Ah, meu Deus, e se a polícia tivesse razão, se o crime na verdade não compensa?
E cada vez mais doce, mais pendurada e horrível, aquela cabeça inteligente no meio da minha vida.
Suspensa.
Sorri?
Há entre mim e ela uma cumplicidade tenebrosa.
Ao fundo há uma janela, sugerindo que se pode escapar, pela visão de uma paisagem assente, cheia de equilíbrio — verde e branca.
No decorrer dos anos, a assinalar a minha caminhada pela sabedoria, fui escrevendo nas paredes frases obscuras, palavras soltas, anúncios de jornais, obscenidades, passagens de autores desconhecidos.
Escrevi também nomes de países que não existem, indicando por baixo a fauna e a flora, e as fontes da sua pobreza.
O estúdio transborda de objectos inúteis e a poeira, cobrindo-os, deu-lhes tempo, gratuidade — uma dignidade mítica.
Encontram-se elevados a um nível de beleza indecifrável, fora do seu clima.
Há uma porta — uma só.
Fica no lado oposto à janela.
Quando entro tenho a visão súbita e global do estúdio: as suas possibilidades e dificuldades.
Ao meio deste túnel, pendurada pelos cabelos obscenamente compridos, está uma cabeça.
Foi decepada pela base do pescoço.
O rosto volta-se para a porta.
Se uma corrente de ar se estabelece entre a janela e a porta, a cabeça balança, move-se, pretende às vezes apresentar-se de perfil, fugitivamente.
São tão longos os cabelos que, se eu avançasse da porta em direcção à janela, não poderia evitar que a cabeça fria roçasse pela minha, a boca morta batesse na minha, me beijasse — aquela boca escurecida pelo tempo, quase negra.
Negra.
De resto, os caçadores de cabeças da América do Sul estão cheios de medo.
Eles pensam: é preciso ocultar, disfarçar estas cabeças, desembaraçarmo-nos delas.
Quebram o crânio.
Extraem os fragmentos pelo buraco do pescoço decepado.
Lavam as cabeças mortas e deitam-lhes dentro areia quente.
As cabeças vão-se reduzindo, aos poucos, até ficarem do tamanho de um punho.
As feições mantêm-se fiéis, na nova escala.
Dentro dessa escala, cortam as pestanas.
A boca é cosida com linha forte, para que nada revele.
Trata-se de vender aquilo ao turista empolgado por uma espécie de conivência no pequeno crime índio.
É o folclore.
É um souvenir da América do Sul.
A pessoa pode ter, barato, o seu arrepio de horror, europeiamente em casa, durante o ano comercial.
Mas a cabeça do meu estúdio possuía uma boca livre, poderia talvez falar, tinha os olhos abertos — e como olhavam.
Estavam vivos, vivos — luzindo da feroz inteligência de quem está ali para compreender, testemunhar, para agir.
Além disso, parecia maior que o natural.
Quando se encontrava completamente imóvel, pendurada pelos longos cabelos cor de mel, exoftálmica, quase sorrindo com a boca negra, não me deixando passar até à janela, onde, à janela onde, sei lá, onde eu poderia respirar, ver as árvores e as nuvens e o rio lá em baixo — às vezes parecia enorme, vibrando de colérica ironia — autónoma, inteligente, presente, suspensa.
Meu Deus, seria sempre assim, sempre?
Imagino que durante o ano há alguns dias de primavera.
É uma suposição.
Pelo menos, assim acontecia antigamente.
Havia manhãs em que as folhas das árvores tremiam e a luz se desenvolvia pelas avenidas fora, com as casas no meio, parecendo mais altas, e um cheiro vegetal que vinha não se sabia de que sítios.
Se a gente conseguia apanhar o ritmo destes dias, era possível descobrir muitas coisas.
Nos arrabaldes apareciam cavalos brancos, havia cães que andavam de um lado para outro, como se tivessem várias ideias para decifrar os labirintos de um mundo de cães.
Era possível ver as pessoas por toda a parte, e eram um espanto os vestidos das mulheres.
Junto da porta, procurando escamotear a cabeça pendurada pelos cabelos, o meu olhar tentava descobrir pela janela esses dias hipotéticos.
Mas como era possível?
Os olhos da cabeça fixavam os meus, liam-me, e eu ficava fascinado.
Dizia: ela pensa que ainda existe em mim qualquer esperança.
E então encostava-me à porta e perguntava se seria sempre assim.
Um dia, enchera-me de coragem, avançara pelo túnel, até junto da cabeça.
Pensava eu que pretendia chegar à janela, ver ao menos se ainda existia a cidade, com as casas, roupa a secar, ruas, automóveis, pessoas, as pessoas em baixo.
A cabeça encostara-se à minha, era como se tremesse contra o meu rosto que absorvia esse tremor frio.
Meu Deus, pensava eu, será sempre assim, sempre, sempre?
Esperei porventura ouvir uma voz.
Enfim, a boca dela não fora cosida, era uma cabeça normal, ainda que decepada.
Tinha ouvidos, olhos, boca.
Olhava-me, estava encostada ao meu rosto e, embora gelada, quase negra, estremecia de encontro ao meu rosto de homem desesperado.
Não, não era a cidade que eu desejava observar, do alto da minha janela.
Desejaria fazer um pacto com aquela cabeça?
E que pacto?
Não existia já um pacto?
Ah, não sei.
Que pacto existiria já?
Pensei também: é uma cabeça morta, não pode entrar em pactos.
Morta?
E então comecei a chorar em silêncio, e as minhas lágrimas quentes molhavam também o rosto, o outro rosto, iam-no ensopando, e parece que ele tremia cada vez mais.
Talvez fosse do vento que entrava pela janela.
Que posso eu fazer, eu, um homem desesperado que escreve coisas absurdas nas paredes do seu estúdio, eu que não durmo nunca, nem amo, que já tudo desaprendi?
Eu que apenas possuo uma cabeça decepada, suspensa pelos cabelos do tecto do meu estúdio?
Que apenas possuo a cabeça de minha mãe.
É a cabeça de minha mãe, e de uma coisa tenho a certeza: fui eu mesmo quem a decepou.
Não sei quando, mas fui eu quem a cortou de um só golpe.
Mas atirei-a fora, penso que a atirei ao rio, de noite, embrulhada num jornal.
Contudo, ela voltou, a cabeça, teatral, verdadeira.
Suponho que foi ela própria que se pendurou no tecto, no meio do estúdio, entre a porta e a janela, e será sempre assim — nunca de lá sairá.
Começo a pensar, como os tribunais, que o crime não compensa.
E a cabeça olha-me, quase docemente, por este meu pensamento.
Ah, meu Deus, e se a polícia tivesse razão, se o crime na verdade não compensa?
E cada vez mais doce, mais pendurada e horrível, aquela cabeça inteligente no meio da minha vida.
Suspensa.
Sorri?
Há entre mim e ela uma cumplicidade tenebrosa.
607
Herberto Helder
As Palavras 2
A pessoa escolhe a parte mais fria, e dispõe absolutamente a camélia ou a viva madeira da viola.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
663
Erorci Santana
XXVI
Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.
(...)
Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.
(...)
Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
628
Matilde Campilho
Gnomon
Eu queria tudo como
no livro monogramado
A musa
As crianças
A discussão à chuva
que nos obrigaria a perceber
a circularidade mística
de algumas árvores
O choro
O recado escondido de Chillida
Queria tudo como
no lenço das aparições
O gengibre assustando-nos
de vez em quando os pratos
O morro da Lopes Quintas
que você nunca chegaria a ver
Mas que certamente verá
Só não mais por meus olhos
(como você ainda disse:
o caleidoscópio através
do qual sucedia o mundo)
Queria tudo sobre o pano
de um chapéu de tirolês
Tudo tão importante quanto
a descoberta grega
do ângulo de noventa graus
Queria tudo em jeito de promessa
de um acontecimento que mudaria
a perceção da sombra humana
Mas você insistiu em morrer
Você sempre insistia em morrer
e finalmente conseguiu
Acontece que agora
Mil anos depois
do enterro de sua bandeira
Depois do choro
Depois da impressionante mudança
nas ocorrências diárias do mundo
Você fica se queixando
Sobre a queda da musa
Sobre a saudade das crianças
Sobre a reprodução profícua
de certas árvores no jardim.
As coisas que a gente aprende
depois dos 30 anos: sempre achei
que os mortos fossem mudos
E afinal os mortos se descontrolam
no exercício alto da sintaxe.
no livro monogramado
A musa
As crianças
A discussão à chuva
que nos obrigaria a perceber
a circularidade mística
de algumas árvores
O choro
O recado escondido de Chillida
Queria tudo como
no lenço das aparições
O gengibre assustando-nos
de vez em quando os pratos
O morro da Lopes Quintas
que você nunca chegaria a ver
Mas que certamente verá
Só não mais por meus olhos
(como você ainda disse:
o caleidoscópio através
do qual sucedia o mundo)
Queria tudo sobre o pano
de um chapéu de tirolês
Tudo tão importante quanto
a descoberta grega
do ângulo de noventa graus
Queria tudo em jeito de promessa
de um acontecimento que mudaria
a perceção da sombra humana
Mas você insistiu em morrer
Você sempre insistia em morrer
e finalmente conseguiu
Acontece que agora
Mil anos depois
do enterro de sua bandeira
Depois do choro
Depois da impressionante mudança
nas ocorrências diárias do mundo
Você fica se queixando
Sobre a queda da musa
Sobre a saudade das crianças
Sobre a reprodução profícua
de certas árvores no jardim.
As coisas que a gente aprende
depois dos 30 anos: sempre achei
que os mortos fossem mudos
E afinal os mortos se descontrolam
no exercício alto da sintaxe.
990
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Bernardo Pinto de Almeida
No bicentenário de Kant
Sim —
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.
Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.
Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.
Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.
Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.
Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.
Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
624
Bernardo Pinto de Almeida
Os mortos 1
Murmura-se pela casa
as crianças são afastadas para quartos
onde brincam e lhes pedem silêncio
graves criadas murmuram e restolham aventais
rangem as tábuas nos soalhos. Os mortos são assim
a tudo impõem sua regra de espanto
a morte é uma sucção de tudo à volta
como se a todos apontasse um dedo acusador.
Da sala para o quarto, do quarto para a cozinha
os passos avançam como se envergonhados. Morreu?
ainda está vivo? Ninguém sabe ao certo
quando as agulhas do relógio designam pontiagudas
horas que arrefecem nos cristais
sobre a toalha.
A mesa estava posta, os convidados próximos
vieram irmãos e familiares de longe
para saudar outra vez aquele que parte
não têm que dizer-se nesse encontro perplexo
que o tempo não ajustou senão por cerimónia
e olham-se uns aos outros numa vertigem cega
de se sentirem apoiados num qualquer sentimento,
um consentimento que os ligue a si, aos outros, ao seu tempo
porque aquele que morre os suga para dentro de outro tempo.
Assim a morte vai enchendo as nossas vidas
nem melhores nem piores, cada vez mais vazias,
vazias de si mesmas vazias de sentidos
que nos outros prolonguem o que já antes fomos:
numa fotografia entre laços, a infância,
nesta outra a correr e uma bola fugindo,
numa outra ainda um triciclo, depois no acampamento,
uma carta de curso, entre outros no quartel.
Mas inexorável o tempo nos apaga esses rostos
onde o espanto se fixava onde tudo era branco
nada se escrevia senão um gesto atento
uma delicadeza para com um outro olhar:
a mãe que se afastava, a namorada frágil
ou num grupo de amigos junto a um carro polido
um cigarro pendendo negligente dos lábios
um pull-over que ficou a preto e branco e
ela a sorrir ainda, a tia que se suicidou
antes do tempo.
Agora o morto está deitado sobre a cama
dir-se-ia que respira, dir-se-ia a sorrir,
mas no rictus imóvel ele já não está ali
partiu para qualquer lado deixa-nos de sobreaviso
vagos de nós mesmos como quartos devolutos
numa pensão de província que já ninguém frequenta.
Entre os vestidos pretos há um rosto que soluça
em que o silêncio faz de fogo cada lágrima
sob uma madeixa branca uma saudade traz
um qualquer suplemento a todo este vazio:
um filho que aproxima o corpo do pai ido
beijo que se troca de luto partilhado
abraço que ressoa do casaco apertado
da gravata com mofo no fundo de um armário.
A todos os convoca o morto neste dia
em que a todos dispensa silêncio por igual
pois todos se lhe tornam familiares na morte
mesmo o que passa ao acaso para entregar uma carta.
E uma porta se abre, uma janela que passa
deixa entrever um breve clarão de azul
um sol que cai a pique na hora do meio dia
faz destas horas graves um tempo quase esférico
de tão redondo, tão vazio,
tão, para sempre, inapreensível.
as crianças são afastadas para quartos
onde brincam e lhes pedem silêncio
graves criadas murmuram e restolham aventais
rangem as tábuas nos soalhos. Os mortos são assim
a tudo impõem sua regra de espanto
a morte é uma sucção de tudo à volta
como se a todos apontasse um dedo acusador.
Da sala para o quarto, do quarto para a cozinha
os passos avançam como se envergonhados. Morreu?
ainda está vivo? Ninguém sabe ao certo
quando as agulhas do relógio designam pontiagudas
horas que arrefecem nos cristais
sobre a toalha.
A mesa estava posta, os convidados próximos
vieram irmãos e familiares de longe
para saudar outra vez aquele que parte
não têm que dizer-se nesse encontro perplexo
que o tempo não ajustou senão por cerimónia
e olham-se uns aos outros numa vertigem cega
de se sentirem apoiados num qualquer sentimento,
um consentimento que os ligue a si, aos outros, ao seu tempo
porque aquele que morre os suga para dentro de outro tempo.
Assim a morte vai enchendo as nossas vidas
nem melhores nem piores, cada vez mais vazias,
vazias de si mesmas vazias de sentidos
que nos outros prolonguem o que já antes fomos:
numa fotografia entre laços, a infância,
nesta outra a correr e uma bola fugindo,
numa outra ainda um triciclo, depois no acampamento,
uma carta de curso, entre outros no quartel.
Mas inexorável o tempo nos apaga esses rostos
onde o espanto se fixava onde tudo era branco
nada se escrevia senão um gesto atento
uma delicadeza para com um outro olhar:
a mãe que se afastava, a namorada frágil
ou num grupo de amigos junto a um carro polido
um cigarro pendendo negligente dos lábios
um pull-over que ficou a preto e branco e
ela a sorrir ainda, a tia que se suicidou
antes do tempo.
Agora o morto está deitado sobre a cama
dir-se-ia que respira, dir-se-ia a sorrir,
mas no rictus imóvel ele já não está ali
partiu para qualquer lado deixa-nos de sobreaviso
vagos de nós mesmos como quartos devolutos
numa pensão de província que já ninguém frequenta.
Entre os vestidos pretos há um rosto que soluça
em que o silêncio faz de fogo cada lágrima
sob uma madeixa branca uma saudade traz
um qualquer suplemento a todo este vazio:
um filho que aproxima o corpo do pai ido
beijo que se troca de luto partilhado
abraço que ressoa do casaco apertado
da gravata com mofo no fundo de um armário.
A todos os convoca o morto neste dia
em que a todos dispensa silêncio por igual
pois todos se lhe tornam familiares na morte
mesmo o que passa ao acaso para entregar uma carta.
E uma porta se abre, uma janela que passa
deixa entrever um breve clarão de azul
um sol que cai a pique na hora do meio dia
faz destas horas graves um tempo quase esférico
de tão redondo, tão vazio,
tão, para sempre, inapreensível.
688
Valter Hugo Mãe
o homem que já não sou
não me olhes agora que estou
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão
esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto
deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão
esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto
deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
757
Matilde Campilho
Obituário de J. Anderson Pritt, Pela Mão da Viúva
um pedaço de aço?
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
917
Matilde Campilho
We’Ve Changed, Honey Boo
Como estava previsto nos registos, agora você é muito mais dada à astrologia e eu ao estudo dos cafés servidos nas beiras de estrada. A polícia não nos procura mais. O tribunal dos seiscentos dias resolveu que a misturada que fizemos com os nomes dos pássaros já não é uma questão para a segurança interna. Mensagens encriptadas na bula dos medicamentos, aromas desleais enfiados à socapa nos pacotinhos de sorvete, assobio nos ouvidos do sinaleiro- tudo parou. Quase nos prendiam por tráfico de influências, mas agora as urbanizações andam muito sossegadas. Daniel, entretanto, está morto. Walter emudeceu no caminho da composição e os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos. Junto àquelas figuras de aviões e homens fardados aparece o nome do décimo sexto mês. Mudou tudo, honey, e a distância entre nós não foi certamente a causa para toda a explosão. Existem mais de trinca e nove marcas diferentes de café, isso sem contar as misturas solúveis. As professoras de Westbridge preferem-no forte. Os astronautas fora de missão bebem cafezinho claro, não vá acontecer uma emergência qualquer — quem entende de gravidade está muito consciente da ligação entre leveza e sono. Antes do horóscopo e dos mapas você prestava alguma atenção ao despertar do soldado. Acho que tinha qualquer coisa a ver com luz ou com melancolia, tinha certamente tudo a ver com crença. Quero dizer, tu trabalhavas na tipografia e eu ainda guardo a revista onde plantaste o retrato do barcalhão fazendo a vênia à alvorada. Falávamos muito de príncipes nessa época, e os príncipes pertencem às manhãs. Cada motel serve um café diferente, raios. Distingo os ares da China do vento do Cazaquistão num minuto. We’ve changed, honey boo, mas os climogramas permanecem.
1 028
Pero da Ponte
Mort'é Dom Martim Marcos, Ai Deus! Se É Verdade
Mort'é Dom Martim Marcos, ai Deus! Se é verdade
sei ca, se el é morto, morta é torpidade,
morta é bavequia e morta neiciidade,
morta é covardia e morta é maldade.
Se Dom Martinh'é morto, sem prez e sem bondade,
oimais, maos costumes, outro senhor catade;
mais non'o acharedes de Roma atá cidade;
se tal senhor queredes, alhu'lo demandade.
Pero um cavaleiro sei eu, par caridade,
que vos ajudari'a tolher del soidade;
mais [queredes] que vos diga ende bem verdade?
Nom é rei nem conde, mais é-x'outra podestade,
que nom direi, que direi, que nom direi...
sei ca, se el é morto, morta é torpidade,
morta é bavequia e morta neiciidade,
morta é covardia e morta é maldade.
Se Dom Martinh'é morto, sem prez e sem bondade,
oimais, maos costumes, outro senhor catade;
mais non'o acharedes de Roma atá cidade;
se tal senhor queredes, alhu'lo demandade.
Pero um cavaleiro sei eu, par caridade,
que vos ajudari'a tolher del soidade;
mais [queredes] que vos diga ende bem verdade?
Nom é rei nem conde, mais é-x'outra podestade,
que nom direi, que direi, que nom direi...
668
Pero da Ponte
Que Mal S'este Mundo Guisou
Que mal s'este mundo guisou
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
369
Fernão Garcia Esgaravunha
Des Hojemais Já Sempr'eu Rogarei
Des hojemais já sempr'eu rogarei
Deus por mia mort', e se mi a dar quiser,
que mi a dê cedo, ca m'é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
E já eu sempre serei rogador
des hojemais pola mia mort'a Deus,
chorando muito destes olhos meus,
pois per vós sei, fremosa mia senhor,
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Ca enquant'eu cuidei ou entendi
ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca Lh'eu quis por mia morte rogar;
mais, mia senhor, já per vós sei assi
ca nom há Deus sobre vos tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Deus por mia mort', e se mi a dar quiser,
que mi a dê cedo, ca m'é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
E já eu sempre serei rogador
des hojemais pola mia mort'a Deus,
chorando muito destes olhos meus,
pois per vós sei, fremosa mia senhor,
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Ca enquant'eu cuidei ou entendi
ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca Lh'eu quis por mia morte rogar;
mais, mia senhor, já per vós sei assi
ca nom há Deus sobre vos tal poder
per que me faça vosso bem haver.
584
Pero da Ponte
Agora Me Part'eu Mui Sem Meu Grado
Agora me part'eu mui sem meu grado
de quanto bem hoj'eu no mund'havia,
ca 'ssi quer Deus e mao meu pecado,
ai eu!
De mais, se mi nom val Santa Maria,
d'haver coita muito tenh'eu guisado;
mais rog'a Deus que mais d'hoj'este dia
nom viva eu, se m'El nom dá conselho.
Nom viva eu, se m'El nom dá conselho,
nem viverei, nem é cousa guisada,
ca pois nom vir meu lum'e meu espelho,
ai eu!
já por mia vida nom daria nada,
mia senhor; e digo-vos em concelho
que, se eu morr'assi desta vegada,
que a vó'lo demande meu linhage!
Que a vó'lo demande meu linhage,
senhor fremosa, ca vós me matades,
pois voss'amor em tal coita me trage,
ai eu!
e sol nom quer Deus que mi o vós creades
e nom me val i preito nem menage.
E ides-vos e me desamparades;
desampare-vos Deus, a que o eu digo!
Desampare-vos Deus, a que o eu digo,
ca mal per fic'hoj'eu desamparado!
De mais nom hei parente nem amigo,
ai eu!
que m'aconselh'! E desaconselhado
fic'eu sem vós e nom ar fica migo,
senhor, senom gram coita e cuidado.
Ai Deus! Valed'a homem que d'amor morre!
de quanto bem hoj'eu no mund'havia,
ca 'ssi quer Deus e mao meu pecado,
ai eu!
De mais, se mi nom val Santa Maria,
d'haver coita muito tenh'eu guisado;
mais rog'a Deus que mais d'hoj'este dia
nom viva eu, se m'El nom dá conselho.
Nom viva eu, se m'El nom dá conselho,
nem viverei, nem é cousa guisada,
ca pois nom vir meu lum'e meu espelho,
ai eu!
já por mia vida nom daria nada,
mia senhor; e digo-vos em concelho
que, se eu morr'assi desta vegada,
que a vó'lo demande meu linhage!
Que a vó'lo demande meu linhage,
senhor fremosa, ca vós me matades,
pois voss'amor em tal coita me trage,
ai eu!
e sol nom quer Deus que mi o vós creades
e nom me val i preito nem menage.
E ides-vos e me desamparades;
desampare-vos Deus, a que o eu digo!
Desampare-vos Deus, a que o eu digo,
ca mal per fic'hoj'eu desamparado!
De mais nom hei parente nem amigo,
ai eu!
que m'aconselh'! E desaconselhado
fic'eu sem vós e nom ar fica migo,
senhor, senom gram coita e cuidado.
Ai Deus! Valed'a homem que d'amor morre!
638
Pero da Ponte
Ora Já Nom Poss'eu Creer
Ora já nom poss'eu creer
que Deus ao mundo mal nom quer
e querrá, mentre lhi fezer
qual escárnio lhi sol fazer
e qual escárnio lh'ora fez:
leixou-lhi tant'home sem prez
e foi-lhi dom Lopo tolher!
E oimais bem pode dizer
tod'home, que esto souber,
que o mundo nom há mester,
pois que o quer Deus confonder;
ca, par Deus!, mal o confondeu
quando lhi dom Lopo tolheu,
que o soía manteer!
E oimais quen'o manterá,
por dar i tanto rico dom,
caval'e armas a baldom?
Ou des oimais quen'o dará,
pois dom Lopo Diaz mort'é
- o melhor dom Lopo, a la fé,
que foi nem jamais nom será?
E pero pois assi é já,
façamos atal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o salve, que en poder há.
E Deus, que o pode salvar,
esse o lev'a bom lugar,
pelo gram poder que end'há!
Amen! Amen! Aquest'amen
jamais nom si m'obridará!
que Deus ao mundo mal nom quer
e querrá, mentre lhi fezer
qual escárnio lhi sol fazer
e qual escárnio lh'ora fez:
leixou-lhi tant'home sem prez
e foi-lhi dom Lopo tolher!
E oimais bem pode dizer
tod'home, que esto souber,
que o mundo nom há mester,
pois que o quer Deus confonder;
ca, par Deus!, mal o confondeu
quando lhi dom Lopo tolheu,
que o soía manteer!
E oimais quen'o manterá,
por dar i tanto rico dom,
caval'e armas a baldom?
Ou des oimais quen'o dará,
pois dom Lopo Diaz mort'é
- o melhor dom Lopo, a la fé,
que foi nem jamais nom será?
E pero pois assi é já,
façamos atal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o salve, que en poder há.
E Deus, que o pode salvar,
esse o lev'a bom lugar,
pelo gram poder que end'há!
Amen! Amen! Aquest'amen
jamais nom si m'obridará!
645
Pero da Ponte
Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora
Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
688
Pero da Ponte
Pois de Mia Morte Gram Sabor Havedes
Pois de mia morte gram sabor havedes,
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
655
Nuno Fernandes Torneol
Ai Mia Senhor! U Nom Jaz Al
Ai mia senhor! U nom jaz al,
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
654
Rui Queimado
Agora Viv'eu Como Querria
Agora viv'eu como querria
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!
E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria
quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria
muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;
e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!
E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria
quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria
muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;
e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
609