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Poemas neste tema

Morte e Luto

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tristeza no Ar

aqui estou eu sentado sozinho
feito um frouxo
ouvindo Chopin
o vento notumo soprando
através das
cortinas rasgadas.
hoje ganhei 546 dólares nas corridas mas
agora estou pensando que
morrer é uma coisa tão
estranha e ordinária.
só espero nunca precisar
de uma dentadura postiça antes de
ir embora.
Wm. Holden arrebentou sua cabeça
em uma mesa de café
quando bêbado e
sangrou até morrer;
duro e teso por 4 dias
antes de ser encontrado.
pergunto-me: como Chopin se foi?
as coisas passam, isso não é
novidade.
aqui em L.A.
vi tantos bons
lutadores mexicanos
chegarem e irem
subindo pelas
cordas
jovens e cintilantes de
ambição
e depois
se desvanecerem.
para onde eles vão?
onde estão esta noite
enquanto ouço Chopin?
quem sabe se eu não estou em um negócio
melhor?
eu não acho.
escritores também vão embora
depressa
esquecem como criar
uma
frase reta e firme.
então dão aulas
escrevem artigos de crítica
lamentam-se
ficam estragados
somem.
Holden escorregou em
uma passadeira
sua cabeça batendo no criado-mudo
ele tinha um nível de álcool
de .22 no sangue.
quanto a mim
já desabei
muitas vezes usualmente
sobre um fio de telefone.
odeio telefones
de todo modo
sempre que algum toca
eu dou um pulo.
pessoas me perguntam: "por que você
dá um pulo quando o telefone
toca?"
se elas não sabem
você não pode responder
está esfriando.
eu vou fechar a janela.
eu fecho a janela.
Chopin continua.
quando você bebe sozinho
como Wm. Holden
às vezes você tem
alguma coisa em mente
que não se pode contar
a ninguém.
em muitos casos é
melhor ficar
quieto.
não fomos colocados aqui para
gozar dias e noites
tranquilas.
e quando o telefone
toca
você também saberá que
todos nós
estamos no negócio errado.
e se você não souber
o que isso significa
você não sentirá a
tristeza no ar.
1 033
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Lei

veja, ele me disse,
todas essas criancinhas morrendo nas árvores,
e eu disse, o quê?
e ele disse, veja,
e eu fui até a janela
e, com certeza, lá estavam elas dependuradas nas árvores,
mortas e moribundas.
e eu disse, o que isso significa?
e ele disse, eu não sei mas foi autorizado.
no dia seguinte quando despertei
eles haviam colocado cães nas árvores
mortos e dependurados e moribundos,
e eu me voltei para meu amigo e disse,
o que isso significa?
e ele disse, não se preocupe,
as coisas são assim, houve uma votação,
foi resolvido,
e no dia seguinte foram gatos,
não entendo como eles pegaram todos aqueles gatos com tamanha
rapidez
e os dependuraram nas árvores
mas eles fizeram isso,
e no dia seguinte foram cavalos e não foi nada bom
pois muitos galhos quebraram,
e depois do bacon com ovos no dia seguinte,
meu amigo me apontou uma pistola
por cima do café e disse,
vamos,
e saímos
e lá estavam todos esses homens e mulheres nas
árvores, a maioria deles mortos ou
moribundos, e ele pegou a corda, e eu disse,
o que significa isso? e ele disse, não se preocupe,
foi autorizado, é constitucional, foi aprovado pelo
voto majoritário, e ele amarrou minhas mãos às minhas costas,
depois abriu o laço.
não sei quem vai me enforcar, ele disse,
quando eu terminar com você. suponho, no fim das contas,
que só vai sobrar um de nós
e ele terá que se enforcar
a Si mesmo.
supondo que ele não faça isso?, eu perguntei.
ele terá que fazer isso, ele disse, foi autorizado.
ó, eu disse, bem, vamos em frente
com isso
então.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sobre Latas De Cerveja E Embalagens De Açúcar

o boi, eu,
eu estou com frio esta noite
esta manhã
as 4 da madrugada
só com uma lata de cerveja e 2
charutos;
mulher e criança saindo
quarta-feira;
o rádio toca uma ária escocesa e
o velho aquecedor solta
gás, gás, gás,
se eu apenas conseguisse dormir.
eu não consigo dormir.
a morte nem sempre chega como uma bomba
ou uma puta gorda
às vezes a morte rasteja polegada a polegada
como uma pequena aranha rastejando na sua barriga
enquanto você
dorme.
isso não é novidade para você,
eu sei.
as mãos do meu esqueleto rezam esta noite
rezam por algo
não sei
o quê.
minhas mãos seguram este charuto
sobre meu sonho
esvaziado.
eu sou
meio que uma piada suja
contada vezes demais contada tarde demais
quando as pessoas não conseguem mais
rir.
há uma embalagem na mesa.
leio seu rótulo, diz:
medidas de açúcar: 1 libra de pó igual a
4 e 1/2 xícaras coadas; 1 libra granulada igual a
2 e 1/2 xícaras etc.
agora, aí está um novo mundo! eu fico sentado e olho de soslaio a caixa,
esquecendo de tudo:
General Grant
sopa de ervilhas
etc.
o boi, eu, estou com frio esta noite.
amanhã vou à mercearia arrumar embalagens de cartolina vazias
para que eles possam empacotar suas
coisas. a mulher guarda toda espécie de cartas, retalhos,
fotografias. a garotinha, é claro, tem seus
brinquedos de garotinha.
preciso de mais para ler. leio minha lata de cerveja. diz:
fermentada com água pura de fonte da primavera de Rocky Mountain
que se converte em mijo; fermentada da carne que
se converte em repasto para vermes;
fermentada com amor que se converte em nada; minha terra e
sua terra; meu túmulo e seu túmulo; um gosto de
mel; um sonho de uma noite de ouro; eu vim por esse caminho por
um tempo e depois parti: fermentado, ferrado,
emprestado, cedido e mentido em nome da
Vida.
eu tomo essa cerveja.
paguei por
ela.
agora são 5:30 da manhã e muita gente fodeu e
dormiu e agora está saindo de seus pequenos sonhos enquanto
o homem no rádio pergunta se eu quero dinheiro emprestado por
minha casa.
consigo dormir com isso. consigo dormir pensando que
quem sabe na próxima vez em que houver tumultos nas ruas
quem sabe eles me deixem participar
mesmo minha pele sendo da cor errada
e enquanto eles estão lutando por Cadillacs e
TVs a cores
eu estarei lutando por outra coisa -
para quê
neste momento
não está claro para
mim.
mas pode ser que quando eu despertar tudo isso esteja claro
neste momento
é terminar o charuto
esperar pela mercearia abrir e
trocar esses shorts
sujos.
1 070
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Suicídio

eu havia recentemente enterrado uma mulher com a qual vivi
por três anos
estava entre empregos
meus dentes apodrecendo na minha boca
(liquidei a dor com aspirina e
cerveja)
eu estava sentado no sofá quebrado
olhando o entardecer transformar-se em noite
quando o telefone tocou.
era Morrie.
"sim, Morrie?"
"ouça, Mark está aqui. ele diz que tem que
vê-lo! ele diz que vai cometer
suicídio!"
"ponha-o na linha..."
"não, ele não pode falar, ele
pirou!"
pisei em uma barata que passava.
"passe-me seu pai", eu lhe disse.
Bernie pegou o fone.
"escute, Bernie", eu disse, "que besteira
é essa sobre Mark?"
"é verdade! ele disse que se você não
vier já para cá ele vai se matar!
ele precisa de ajuda, Hank!"
"você acha que ele realmente vai
fazer isso?"
"eu não brincaria com uma coisa
dessas!"
"é longe até San Bernardino."
"são apenas 50 milhas! você pode fazer
em 45 minutos."
"tudo certo, Bernie..."
terminei minha cerveja, andei até meu
carro velho de 12 anos.
deu partida e peguei a
autoestrada.
foi uma viagem longa, sombria e estúpida.
Mark era uma dessas pessoas que
sempre insistiam que nossa amizade
era de verdade
pouco importando quanto esforço eu
fizesse para
ficar longe dele.
eu finalmente parei na frente da
casa.
desci do carro, bati na porta.
Morrie atendeu à porta.
ele tinha um tique na cabeça.
quando algo o aborrecia sua
cabeça começava a pular.
ela estava pulando por toda a
entrada da casa.
"Mark tem estado conosco",
ele disse, "pelas últimas duas
semanas."
entrei.
Mark estava sentado no sofá
segurando uma cerveja.
sorriu para mim.
estava usando o velho roupão
de Bernie.
não aparentava
estar
contemplando
suicídio.
"onde está seu pai?", perguntei
a Morrie.
"foi dormir. foi para a
cama. ele não está
passando bem."
"são apenas 7: 30."
"ele não está passando bem."
eu me sentei. havia um fogo aceso
na lareira.
"que tal uma cerveja?", Morrie perguntou,
sua cabeça pulando.
"com certeza. cadê sua mãe?"
"ela não está em casa."
Mark pigarreou. então, em sua
voz calma, começou a falar sobre a
escrita dele: agora estava fixado em serial killers. ele
havia escrito um romance. tinha uma
agente. fora vê-la naquela
tarde. ela tinha uma piscina.
haviam nadado juntos na piscina. ela
era um pedação de mulher com grandes conexões.
entendia que sua escrita era excepcional.
ela ia assumir sua carreira e
torná-lo famoso e...
desliguei enquanto ele seguia em frente e seguia em frente.
ele estava usando um lenço de seda ao redor de seu pescoço
gordo.
terminei minha cerveja e Morrie levantou-se de um pulo,
a cabeça saltitando, e me deu outra.
então ouvi de novo a voz de Mark. "sua
escrita me lembra muito a
minha!"
Morrie me deu a cerveja. tomei um bom
gole e olhei a lareira. um
pedaço de madeira estalou naquele momento, uma
fagulha vermelha se soltou, subiu e caiu
para trás.
aquilo foi bonito. aquilo foi bonito e de algum modo
tranquilizador
"gostaria que você lesse um capítulo do meu
romance", Mark disse. "você tem aquela pasta
azul, Morrie?"
Morrie tinha. ele a pôs cuidadosamente em meu
colo.
eu a abri, fui para a primeira página
e comecei a ler...
Mark não sabia escrever, nunca soube.
eu continuei lendo, meus dentes começando a doer.
perguntei para Morrie,
"você tem algum uísque?"
Morrie foi buscar enquanto Mark permanecia sentado ereto
no roupão velho de Morrie, esperando
por minhas palavras de elogio.
eu acharia um jeito de deixá-lo pra lá facilmente
tomara que
sem mentir.
o uísque chegou e tomei um trago
segui na leitura
bebendo
olhando o fogo.
a cabeça de Morrie continuava a pular.
por que certos indivíduos nunca percebem o quanto
são chatos?
ou eles sabem e simplesmente não
ligam?
continuei a ler, desesperançada-
mente.
1 353
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
657
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Licença Médica

aqui estou deitado de barriga para baixo, Hem está morto, Shake está
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
764
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora

"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 582
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Confissão

à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama
sinto terrivelmente por
minha esposa
ela verá este
corpo
duro e
branco
vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
“Hank!”
Hank não
responderá.
não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas
e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.

Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. Victor Norman sentava-se a algumas mesas da nossa. Depois que Sarah e eu nos sentamos, apareceu o garçom com nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.
Esvaziei meu copo e fiz sinal com a cabeça, chamando o garçom para tornar a enchê-lo.
Percebi que Victor me observava.
O pessoal ia chegando aos poucos. Vi o famoso ator do bronzeado perpétuo. Soubera que ele ia a quase todas as festas de Hollywood, em toda parte.
Sarah me deu uma cutucada. Era Jim Serry, o velho guru da droga da década de 60. Também ele ia a muitas festas. Parecia cansado, triste, esgotado. Senti pena dele. Ia de mesa em mesa. Chegou à nossa. Sarah deu um sorriso de prazer. Era uma filha dos anos 60. Apertei a mão dele.
– Oi, baby – eu disse.
A casa começava a lotar rapidamente. Eu não conhecia a maioria das pessoas. Acenava constantemente ao garçom para trazer mais vinho. Ele terminou trazendo uma garrafa inteira, e a pôs na mesa.
– Quando acabarem essa, trago outra.
– Obrigado, cara...
Sarah embrulhara um presentinho para Harry Friedman. Eu o tinha no colo.
Jon chegou e sentou-se à nossa mesa.
– Estou feliz por você e Sarah terem podido vir – disse. – Veja, está enchendo, este lugar está cheio de gângsters e matadores, os piores!
Ele adorava aquilo. Tinha alguma imaginação. Isso o ajudava a atravessar os dias e as noites.
Então surgiu um sujeito de aparência muito importante. Ouvi alguns aplausos.
Saltei de pé com o presente de aniversário. Me aproximei dele.
– Sr. Friedman, feliz...
Jon correu a me agarrar por detrás. Me puxou de volta à mesa.
– Não! Não! Esse não é Friedman! É o Fischman!
– Oh...
Sentei-me.
Notei Victor Norman me observando. Imaginei que desistisse dentro de pouco tempo. Quando tornei a olhar, ele ainda me encarava. Me olhava como se não acreditasse nos próprios olhos.
– Tudo bem, Victor – eu gritei –, e daí se eu faço cocô nas calças? Quer fazer disso uma Guerra Mundial?
Ele desviou o olhar.
Eu me levantei e procurei o banheiro dos homens.
Ao sair de lá, me perdi e entrei na cozinha. Encontrei um ajudante de garçom fumando um cigarro. Meti a mão na carteira e puxei uma nota de dez dólares. Coloquei-a no bolso da camisa dele.
– Não posso aceitar, senhor.
– Por que não?
– Não posso.
– Todo mundo recebe gorjetas. Por que não o ajudante de garçom? Eu sempre quis ser um ajudante de garçom.
Afastei-me, tornei a encontrar a sala principal e a mesa.
Quando me sentei, Sarah se curvou para mim e sussurrou:
– Victor Norman veio aqui quando você saiu. Disse que foi muito legal de você não falar nada da literatura dele.
– Fui bom, não fui, Sarah?
– Foi.
– Não fui um bom menino?
– Foi.
Olhei para Victor Norman, atraindo sua atenção. Fiz-lhe um aceno de cabeça, pisquei o olho.
Nesse momento entrava o verdadeiro Harry Friedman. Algumas pessoas se levantaram e aplaudiram. Outras pareciam entediadas.
Friedman sentou-se à sua mesa e serviu-se de comida. Massa. A massa correu a roda. Harry Friedman recebeu a sua e atacou-a logo. Parecia um bom garfo. Era largo, sem dúvida. Usava um terno velho, os sapatos gastos. Cabeça grande, bochechudo. Enfiava a massa naquelas bochechas. Tinha grandes olhos redondos, olhos tristes e cheios de desconfiança. Ai, viver no mundo! Faltava um botão da camisa branca amassada, perto da barriga, que se estufava para fora. Parecia um bebezão que de algum modo se soltara, crescera depressa e quase se tornara um homem. Tinha charme, mas podia ser perigoso acreditar naquele charme – ele seria usado contra a gente. Não usava gravata. Feliz aniversário, Harry Friedman!
Surgiu uma jovem vestida de policial. Encaminhou-se diretamente para a mesa dele.
– VOCÊ ESTÁ PRESO! – gritou.
Harry Friedman parou de comer e sorriu, os lábios molhados de massa.
A policial tirou o casaco e a blusa. Tinha seios enormes. Balançou-os debaixo do nariz de Harry Friedman.
– VOCÊ ESTÁ PRESO – gritou.
Todo mundo aplaudiu. Não sei por quê.
Friedman fez sinal à policial para que se abaixasse. Ela se abaixou e ele sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ninguém soube o que era.
Me leve pra sua casa. Vamos ver o que acontece?
Esqueceu seu cassetete. Cuido disso? Você vem me ver. Te levo no cinema?
A policial tornou a vestir a blusa, o casaco, e se mandou.
As pessoas aproximavam-se da mesa de Friedman e diziam-lhe coisinhas. Ele as olhava como se não soubesse quem eram. Em breve acabara de comer e bebia vinho. Manejava bem o vinho. Gostei disso.
Realmente tinha um fraco por vinho. Depois de algum tempo, saiu de mesa em mesa, curvando-se, falando com as pessoas.
– Nossa – eu disse a Sarah –, veja só aquilo!
– Quê?
– Ele está com um pedaço de massa num dos cantos da boca e ninguém lhe diz nada. Está ali pendurado!
– Estou vendo! Estou vendo! – disse Jon.
Harry Friedman continuava indo de mesa em mesa, curvando-se, falando. Ninguém o avisava.
Finalmente, ele se aproximou. Estava mais ou menos a uma mesa da nossa quando eu me levantei e me aproximei dele.
– Sr. Friedman – disse.
Ele me olhou com aquele rosto de bebê monstruoso.
– Sim?
– Fique parado.
Estendi a mão, peguei o fiapo de massa e puxei. A coisa se soltou.
– O senhor estava andando por aí com isso pendurado. Eu não aguentava mais.
– Obrigado – ele disse.
Voltei pra minha mesa.
– Bem, bem – perguntou Jon –, que acha dele?
– Acho ele um encanto.
– Eu te disse. Não conheci ninguém como ele depois de Lido Mamin...
– De qualquer modo – disse Sarah –, foi bacana da sua parte tirar a massa da cara dele, já que ninguém mais tinha coragem de fazer isso. Foi muito bacana.
– Obrigado, eu sou um cara muito bacana, na verdade.
– Oh, é? Que mais você fez de bacana ultimamente?
Nossa garrafa de vinho estava vazia. Chamei o garçom. Ele franziu o cenho para mim e adiantou-se com outra garrafa.
E não consegui pensar em nada bacana que tivesse feito. Ultimamente.
– Hollywood
1 310
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Globulárias e Latadas

claro, posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
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