Poemas neste tema
Morte e Luto
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 572
Charles Bukowski
O Vinho da Eternidade
relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 381
Charles Bukowski
História Final
meu deus, lá está ele bêbado de novo
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
1 272
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 132
Charles Bukowski
Algumas Sugestões
além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 088
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
1 075
Charles Bukowski
Meu Primeiro Caso Com Aquela Mulher Mais Velha
quando penso agora
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
1 589
Charles Bukowski
O Falecimento de Um Grande Homem
ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
1 055
Charles Bukowski
Um Mágico Desaparecido...
eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
1 153
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 051
Charles Bukowski
Nem Sempre Funciona
conheci um escritor uma vez
que sempre tentava enxugar suas frases
tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.
mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.
mudava para:
um velho verde caminhava na rua.
mudava para:
velho verde caminhava.
mudava para:
verde caminhava.
por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.
explodia próprio cérebro.
explodia cérebro.
explodia.
que sempre tentava enxugar suas frases
tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.
mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.
mudava para:
um velho verde caminhava na rua.
mudava para:
velho verde caminhava.
mudava para:
verde caminhava.
por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.
explodia próprio cérebro.
explodia cérebro.
explodia.
1 110
Charles Bukowski
Couvert Artístico
Doug e eu pegamos uma mesa na frente,
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
1 079
Charles Bukowski
Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava
, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
1 001
Charles Bukowski
Como São As Coisas
ele morreu num domingo à tarde
e o enterro foi numa quarta;
pouca gente apareceu: sua esposa, seus
filhos, membros da família, um que outro
roteirista mais 3 ou 4 outros;
ele foi descoberto por H.L. Mencken
nos anos 30;
escrevia uma frase clara e simples
uma frase ardente,
belos contos e romances;
foi acometido no fim da vida,
ficou cego, teve ambas as pernas
amputadas, e não paravam de
cortá-lo, operando repetidas
vezes.
no hospital
ele ficou naquela cama por anos;
tinha de ser virado, alimentado,
evacuado,
mas ali
ele ditou um romance totalmente novo
para sua esposa.
jamais desistiu: esse romance foi
publicado.
um dia numa das minhas
visitas
ele me disse “sabe, Hank,
quando estava bem eu tinha um
monte de amigos, e aí... quando isso
aconteceu, eles me largaram, foi como
se eu tivesse lepra...”
e ele sorriu.
havia uma brisa passando pela
janela
e ali estava ele
a luz do sol o cobrindo
pela metade.
aqueles amigos não
o mereciam.
um grande escritor
e um ser humano maior ainda.
John, a multidão nunca terá
o amor dos poucos –
como se eu precisasse dizer isso
a você.
e o enterro foi numa quarta;
pouca gente apareceu: sua esposa, seus
filhos, membros da família, um que outro
roteirista mais 3 ou 4 outros;
ele foi descoberto por H.L. Mencken
nos anos 30;
escrevia uma frase clara e simples
uma frase ardente,
belos contos e romances;
foi acometido no fim da vida,
ficou cego, teve ambas as pernas
amputadas, e não paravam de
cortá-lo, operando repetidas
vezes.
no hospital
ele ficou naquela cama por anos;
tinha de ser virado, alimentado,
evacuado,
mas ali
ele ditou um romance totalmente novo
para sua esposa.
jamais desistiu: esse romance foi
publicado.
um dia numa das minhas
visitas
ele me disse “sabe, Hank,
quando estava bem eu tinha um
monte de amigos, e aí... quando isso
aconteceu, eles me largaram, foi como
se eu tivesse lepra...”
e ele sorriu.
havia uma brisa passando pela
janela
e ali estava ele
a luz do sol o cobrindo
pela metade.
aqueles amigos não
o mereciam.
um grande escritor
e um ser humano maior ainda.
John, a multidão nunca terá
o amor dos poucos –
como se eu precisasse dizer isso
a você.
682
Charles Bukowski
Parabéns, Chinaski
conforme me aproximo dos 70
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
1 104
Charles Bukowski
Árvore Genealógica
nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.
meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.
bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.
meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.
bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
1 253
Charles Bukowski
Bestas Saltando Ao Longo do Tempo –
Van Gogh escrevendo ao irmão pedindo tintas
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
1 290
Charles Bukowski
Aposentado
costeletas de porco, dizia o meu pai, eu adoro
costeletas de porco!
e eu o via enfiar a gordura
na boca.
panquecas, ele dizia, panquecas com
calda, manteiga e bacon!
eu via seus lábios encharcados com
tudo aquilo.
café, ele dizia, eu gosto de café bem quente,
queimando a garganta!
às vezes estava tão quente que ele cuspia o café
na mesa toda.
purê de batatas com molho, ele dizia, eu
adoro purê de batatas com molho!
ele abocanhava aquilo, suas bochechas inchadas
como se tivesse caxumba.
feijão com chili, ele dizia, eu adoro feijão com
chili!
e engolia tudo e peidava por horas
bem alto, sorrindo após cada peido.
bolinho de morango, ele dizia, com sorvete
de baunilha, é assim que se termina uma refeição!
ele sempre falava sobre aposentadoria, sobre
o que faria quando se
aposentasse.
quando não estava falando sobre comida ele falava
sem parar sobre
aposentadoria.
ele não chegou à aposentadoria, ele morreu certo dia
de pé junto à pia
enchendo um copo de água.
esticou o corpo como se tivesse levado
um tiro.
o copo caiu de sua mão
e ele tombou para trás
pousando na horizontal
sua gravata escorregando pela
esquerda.
depois
as pessoas disseram que não conseguiam
acreditar.
ele parecia
ótimo.
distintas suíças
brancas, maço de cigarro no
bolso da camisa, sempre soltando
piadas, talvez um pouco
espalhafatoso e talvez com certo mau
humor
mas no geral
um indivíduo aparentemente
sadio
jamais perdendo um dia
de trabalho.
costeletas de porco!
e eu o via enfiar a gordura
na boca.
panquecas, ele dizia, panquecas com
calda, manteiga e bacon!
eu via seus lábios encharcados com
tudo aquilo.
café, ele dizia, eu gosto de café bem quente,
queimando a garganta!
às vezes estava tão quente que ele cuspia o café
na mesa toda.
purê de batatas com molho, ele dizia, eu
adoro purê de batatas com molho!
ele abocanhava aquilo, suas bochechas inchadas
como se tivesse caxumba.
feijão com chili, ele dizia, eu adoro feijão com
chili!
e engolia tudo e peidava por horas
bem alto, sorrindo após cada peido.
bolinho de morango, ele dizia, com sorvete
de baunilha, é assim que se termina uma refeição!
ele sempre falava sobre aposentadoria, sobre
o que faria quando se
aposentasse.
quando não estava falando sobre comida ele falava
sem parar sobre
aposentadoria.
ele não chegou à aposentadoria, ele morreu certo dia
de pé junto à pia
enchendo um copo de água.
esticou o corpo como se tivesse levado
um tiro.
o copo caiu de sua mão
e ele tombou para trás
pousando na horizontal
sua gravata escorregando pela
esquerda.
depois
as pessoas disseram que não conseguiam
acreditar.
ele parecia
ótimo.
distintas suíças
brancas, maço de cigarro no
bolso da camisa, sempre soltando
piadas, talvez um pouco
espalhafatoso e talvez com certo mau
humor
mas no geral
um indivíduo aparentemente
sadio
jamais perdendo um dia
de trabalho.
1 238
Charles Bukowski
Verrugas
eu me lembro melhor da minha vó
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
1 212
Charles Bukowski
Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler
nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.
eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.
não tenho escrito, Harry, nada de creme,
porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.
cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.
eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.
não tenho escrito, Harry, nada de creme,
porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.
cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
1 182
Charles Bukowski
Bolhas Mornas Na Água
o que eu gosto
é quando estou na banheira
e peido
e esse peido é tão podre
que posso sentir o fedor
dele
subindo pela água.
o prazer do poder:
Mahatma Gandhi morrendo.
a íris travestida.
o amor é maravilhoso
mas o fedor das vísceras
também é,
a manifestação das partes
ocultas.
o peido. a bosta. a morte de
um pulmão.
anéis na banheira, anéis de merda em privadas
touros moribundos arrastados pelo pó mexicano
Benito Mussolini e sua puta Claretta
sendo pendurados pelos calcanhares
e rasgados em pedaços pela multidão –
essas coisas têm glória mais suave
do que qualquer Cristo com Seus
ferimentos perfeitamente situados.
eu li (e já não sei em que lado
foi) que na revolução russa
eles pegavam um homem, talhavam, pregavam
parte de seu intestino numa árvore
e o forçavam a correr em volta
dessa árvore, enrolando seus intestinos no
tronco. não sou sádico. eu provavelmente
choraria se tivesse de ver isso, provavelmente ficaria louco.
mas sei sim que somos bem mais do que
pensamos que somos
muito embora os românticos
se concentrem no ódio/e ou/amor do
coração.
um peido na banheira contém toda uma
história essencial da raça humana.
o amor é tão maravilhoso.
o peido também.
especialmente o meu.
touros moribundos sendo arrastados pelo pó
mexicano e eu na banheira
olhando uma lâmpada de 60 watts e me sentindo numa boa.
é quando estou na banheira
e peido
e esse peido é tão podre
que posso sentir o fedor
dele
subindo pela água.
o prazer do poder:
Mahatma Gandhi morrendo.
a íris travestida.
o amor é maravilhoso
mas o fedor das vísceras
também é,
a manifestação das partes
ocultas.
o peido. a bosta. a morte de
um pulmão.
anéis na banheira, anéis de merda em privadas
touros moribundos arrastados pelo pó mexicano
Benito Mussolini e sua puta Claretta
sendo pendurados pelos calcanhares
e rasgados em pedaços pela multidão –
essas coisas têm glória mais suave
do que qualquer Cristo com Seus
ferimentos perfeitamente situados.
eu li (e já não sei em que lado
foi) que na revolução russa
eles pegavam um homem, talhavam, pregavam
parte de seu intestino numa árvore
e o forçavam a correr em volta
dessa árvore, enrolando seus intestinos no
tronco. não sou sádico. eu provavelmente
choraria se tivesse de ver isso, provavelmente ficaria louco.
mas sei sim que somos bem mais do que
pensamos que somos
muito embora os românticos
se concentrem no ódio/e ou/amor do
coração.
um peido na banheira contém toda uma
história essencial da raça humana.
o amor é tão maravilhoso.
o peido também.
especialmente o meu.
touros moribundos sendo arrastados pelo pó
mexicano e eu na banheira
olhando uma lâmpada de 60 watts e me sentindo numa boa.
1 061
Charles Bukowski
As Condições
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
1 181
Charles Bukowski
Queimando Na Água, Afogando-Se Na Chama
pessoas copiadas em carbono
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
979
Charles Bukowski
Algo Sobre a Ação:
aquele
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
desastre de trem em Nova York foi
algo
bem perto do Natal, não,
Ação de Graças
corpos empilhados com ketchup &
sem falar nada –
depois a faca bolo
nas Filipinas
atacando a mulher
do presidente no palco
câmeras de tv ligadas
ela caiu para trás
ele talhava;
3 dedos quebrados e 75 pontos depois
ela vai se recuperar
ex-rainha de concurso de beleza
ela não será
tão bela assim
agora & então
3 guardas balearam o nojento filho da
puta com a
bolo –
a esposa de um cara disse que ia
largá-lo de uma vez
por todas
então ele disse
“deixa eu passar aí e
a gente tenta resolver”, e
passou lá e os dois
tentaram resolver e
ela disse
“não”, e
ele sacou uma arma e estourou
metade da cabeça dela
então
matou o menino
2 anos de idade
a menina
4 anos de idade
matou
a irmã da esposa
quando ela entrou correndo pela
porta (ela
estava regando as flores
lá fora)
e então ele
foi até a rua e atirou no
primeiro cara que viu
então
pegou a arma e estourou sua
própria
cabeça pela
metade –
um cara
ele devolveu a vida a um homem
morto
tirou o homem direto da tumba
ora
isso sim é de tirar o chapéu e ele também
caminhou sobre a ÁGUA (não o cara
que ganhou a vida de volta mas o
outro cara) &
ele também curou
leprosos &
fez cegos
enxergarem, e
ele disse
Amem uns aos outros e
Acreditem,
aí ele foi pregado
na madeira com grandes
cravos &
ele foi embora e nunca mais
voltou –
um dos homens mais
sábios, ah, ele era
supersábio
ainda dá pra lê-lo
hoje
ele ainda é um cara
bom e sábio de ler
mas certos rapazes
do governo ficaram
incomodados
alegaram principalmente que ele estava corrompendo a
juventude
e o
prenderam
numa cela &
lhe ofereceram um copo de
cicuta que
ele aceitou.
não sei ele
provou o que queria
ele nunca
voltou
tampouco
mas ele está
na biblioteca, seja como for, todo
mundo precisa ir embora, é o que
dizem –
depois
havia uma
belezura
ela
fazia curativos nos
soldados e
cantava cançõezinhas para
eles e
talvez os beijasse atrás das
orelhas
não sei bem o que deu errado
ali, algum
desentendimento, eles
empilharam a lenha
embaixo dela
mandaram brasa
queimaram-na
viva, Joana d’Arc, que grande
puta –
depois
havia um
pintor
ele
pintava como uma criança mas
ele era um
homem
e dizem que
ele pintava superbem
mas ele mal sabia
misturar
as tintas
mas ele sabia
pintar o sol ele o fazia
rodopiar na tela, e
as flores
elas rodopiavam
e as pessoas dele sentavam em cima de
mesas
as pessoas dele sentavam bem esquisitas
em cima de mesas e em
cadeiras, e
os contemporâneos
zombavam dele
e as crianças
jogavam pedras e quebravam suas
janelas,
e o que as pessoas mais lembram
a seu respeito era que ele
cortou fora sua
orelha e a deu para uma
puta, não
Joana d’Arc,
não sei o nome
dela, e
ele saiu pelos campos e
sentou em seu rodopiante
sol e
se matou.
agora você até pode ser capaz de
comprar um Cadillac
mas duvido que você possa
comprar
qualquer uma das pinturas que ele
deixou
para trás, ele era
superbom
pelo que dizem –
depois de 2 e meio
anos de
casamento
então divórcio
minha ex-
esposa me escreveu todos os
Natais por
8 anos,
textinhos um tanto longos:
mas principalmente:
ela dizia:
tenho 2 filhos
agora
meu marido
Yena é muito
sensível,
escrevi um livro sobre
incesto
outro sobre padrões de comportamento infantil
ainda procurando uma
editora
Yena se mudou para São
Francisco talvez eu
volte para o Texas
mãe morreu
2 livros das minhas histórias infantis foram
aceitos
o menino mais velho é muito parecido com
Yena
ainda estou pintando
você sempre gostou das minhas
pinturas mas pintar tira tanto
de mim
ainda estou dando aula em escola pública
eu gosto
tivemos uma tempestade por aqui neste
inverno
absolutamente
trancados por 2
semanas
sem saída por todos os lados
sentados quietinhos e
esperando
barbara
depois de 8 anos ela parou
de escrever
os Natais voltaram ao
normal e
eu limpei a cera
dos meus
ouvidos.
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