Poemas neste tema
Morte e Luto
Charles Bukowski
O Eu Singular
há esses pequenos penhascos
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
826
Charles Bukowski
Nenhuma Lady Godiva
ela chegou bêbada a minha casa
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
606
Charles Bukowski
Visão a Partir da Tela
cruzo a peça
até a última parede
a última janela
o último sol cor-de-rosa
com seus braços em torno do mundo
com seus braços em torno de mim
escuto o sussurro surdo da garça
os pensamentos ósseos das coisas do mar
que são quase feitas de pedra;
esta tela escavada como uma alma
e garatujada de moscas,
minhas tensões e danações
são as de um porco,
sol rosa sol rosa
odeio sua completude
rastejando a cruz áurea de vida
enquanto meus dedos e pés e rosto
terminam assim
dormindo com a puta da sua esposa sofisticada
você deve um dia morrer por causa nenhuma
como eu
vivi.
até a última parede
a última janela
o último sol cor-de-rosa
com seus braços em torno do mundo
com seus braços em torno de mim
escuto o sussurro surdo da garça
os pensamentos ósseos das coisas do mar
que são quase feitas de pedra;
esta tela escavada como uma alma
e garatujada de moscas,
minhas tensões e danações
são as de um porco,
sol rosa sol rosa
odeio sua completude
rastejando a cruz áurea de vida
enquanto meus dedos e pés e rosto
terminam assim
dormindo com a puta da sua esposa sofisticada
você deve um dia morrer por causa nenhuma
como eu
vivi.
1 267
Charles Bukowski
Mama
aqui estou
no chão
minha boca
aberta
e
não posso sequer dizer
mama,
e
os cachorros correm e param e mijam
em minha lápide; consigo de tudo
exceto sol
e meu terno está com um aspecto
péssimo
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo se foi
muito pouco resta, uma espécie de harpa
sem música.
um bêbado
em sua cama com um cigarro
pode ao menos acionar 5 caminhões
de bombeiros e
33 homens.
já eu
não
posso
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na tumba
ao lado pensa apenas em Mozart e doces
larvas.
ele é
uma péssima
companhia.
no chão
minha boca
aberta
e
não posso sequer dizer
mama,
e
os cachorros correm e param e mijam
em minha lápide; consigo de tudo
exceto sol
e meu terno está com um aspecto
péssimo
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo se foi
muito pouco resta, uma espécie de harpa
sem música.
um bêbado
em sua cama com um cigarro
pode ao menos acionar 5 caminhões
de bombeiros e
33 homens.
já eu
não
posso
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na tumba
ao lado pensa apenas em Mozart e doces
larvas.
ele é
uma péssima
companhia.
1 156
Charles Bukowski
Poeta Velho
eu preferiria, claro, estar com uma raposa entre as samambaias
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
735
Charles Bukowski
Para Marilyn M.
deslizando intensamente sobre luminosas cinzas,
alvo de lágrimas de baunilha
seu corpo certeiro acende velas para os homens
em noites escuras,
e agora sua noite é mais escura
do que podem as velas
e nós vamos esquecer você, de alguma maneira,
e isso não é justo
mas os corpos reais estão mais perto
e enquanto os vermes resfolegam por seus ossos,
de modo que eu gostaria de lhe dizer
que isso acontece a ursos e a elefantes
a tiranos e a heróis e a formigas
e aos sapos,
ainda assim, você nos trouxe alguma coisa
um tipo de pequena vitória,
e para isso eu digo: bom
e deixe que larguemos mão do pesar;
como uma flor seca e jogada fora,
esquecemos, relembramos,
esperamos. criança, criança, criança,
ergo minha bebida um minuto inteiro
e sorrio.
alvo de lágrimas de baunilha
seu corpo certeiro acende velas para os homens
em noites escuras,
e agora sua noite é mais escura
do que podem as velas
e nós vamos esquecer você, de alguma maneira,
e isso não é justo
mas os corpos reais estão mais perto
e enquanto os vermes resfolegam por seus ossos,
de modo que eu gostaria de lhe dizer
que isso acontece a ursos e a elefantes
a tiranos e a heróis e a formigas
e aos sapos,
ainda assim, você nos trouxe alguma coisa
um tipo de pequena vitória,
e para isso eu digo: bom
e deixe que larguemos mão do pesar;
como uma flor seca e jogada fora,
esquecemos, relembramos,
esperamos. criança, criança, criança,
ergo minha bebida um minuto inteiro
e sorrio.
1 129
Charles Bukowski
Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...
nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 132
Charles Bukowski
Hurra Dizem As Rosas
hurra dizem as rosas, hoje é culpa-feira
e estamos vermelhas como sangue.
hurra dizem as rosas, hoje é quarta-feira
e florescemos onde caíram os soldados,
e também os amantes,
e a cobra devorou a palavra.
hurra dizem as rosas, a escuridão chega
de uma só vez, como luzes que se apagam,
o sol deixa continentes escuros
e filas de pedras.
hurra dizem as rosas, canhões e espirais,
pássaros, abelhas, bombardeiros, hoje é sexta-feira
a mão segura uma medalha para fora da janela,
uma mariposa passa, a meia milha por hora,
hurra hurra
hurra dizem as rosas
temos impérios em nossas hastes,
o sol move a boca:
hurra hurra hurra
e é por isso que vocês gostam de nós.
e estamos vermelhas como sangue.
hurra dizem as rosas, hoje é quarta-feira
e florescemos onde caíram os soldados,
e também os amantes,
e a cobra devorou a palavra.
hurra dizem as rosas, a escuridão chega
de uma só vez, como luzes que se apagam,
o sol deixa continentes escuros
e filas de pedras.
hurra dizem as rosas, canhões e espirais,
pássaros, abelhas, bombardeiros, hoje é sexta-feira
a mão segura uma medalha para fora da janela,
uma mariposa passa, a meia milha por hora,
hurra hurra
hurra dizem as rosas
temos impérios em nossas hastes,
o sol move a boca:
hurra hurra hurra
e é por isso que vocês gostam de nós.
1 195
Charles Bukowski
Vegas
havia uma árvore congelada que eu queria pintar
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
799
Charles Bukowski
O Pássaro
com os olhos vermelhos e tonto como eu
o pássaro chegou voando
após percorrer o caminho todo desde o Egito
às cinco da manhã,
e Maria quase tropeçou nos sapatos de salto:
o que foi isso, um foguete?
e nós subimos.
servi duas taças de porto
e ficamos ali sentados enquanto os sovinas
são expelidos de seus ninhos miseráveis
e Maria entrou e lançou água
no vaso
e eu me sentei ali cofiando minha barba de três dias
pensando no pássaro louco
e foi assim que saiu:
tudo o que de fato importava era
ir para algum lugar
quanto mais rápido melhor
porque isso reduz a espera
pela morte. Maria voltou
e puxou as cobertas
e eu arranquei minhas roupas sebosas
e me arrastei para dentro dos lençóis suados,
fechando meus olhos para o som e a luz do sol,
e ouvi o modo como se desfez dos sapatos de salto
e seus dedos gelados percorreram a parte de trás de minhas panturrilhas
e eu batizei o pássaro de
Sr. América
e então caí no sono com rapidez.
o pássaro chegou voando
após percorrer o caminho todo desde o Egito
às cinco da manhã,
e Maria quase tropeçou nos sapatos de salto:
o que foi isso, um foguete?
e nós subimos.
servi duas taças de porto
e ficamos ali sentados enquanto os sovinas
são expelidos de seus ninhos miseráveis
e Maria entrou e lançou água
no vaso
e eu me sentei ali cofiando minha barba de três dias
pensando no pássaro louco
e foi assim que saiu:
tudo o que de fato importava era
ir para algum lugar
quanto mais rápido melhor
porque isso reduz a espera
pela morte. Maria voltou
e puxou as cobertas
e eu arranquei minhas roupas sebosas
e me arrastei para dentro dos lençóis suados,
fechando meus olhos para o som e a luz do sol,
e ouvi o modo como se desfez dos sapatos de salto
e seus dedos gelados percorreram a parte de trás de minhas panturrilhas
e eu batizei o pássaro de
Sr. América
e então caí no sono com rapidez.
1 170
Charles Bukowski
A Bela Jovem Passando Pelo Cemitério –
paro meu carro no semáforo
vejo-a passando pelo cemitério –
enquanto ela segue junto à grade de ferro
posso ver para além das barras
vejo as lápides
e o gramado verde.
o corpo dela se mexe em frente à grade de ferro
as lápides não se mexem.
penso,
será que mais alguém vê isso?
penso,
será que ela vê essas lápides?
se vê,
ela possuiu uma sabedoria de que não disponho
pois parece ignorá-las.
seu corpo se move com
mágica fluidez
e sua longa cabeleira é iluminada
pelo sol das 3 da tarde.
o sinal muda
ela cruza a rua na direção oeste
dirijo para oeste.
sigo costeando o oceano
desço
e corro pra lá e pra cá
em frente ao mar por 35 minutos
vendo pessoas aqui e acolá
com olhos e ouvidos e dedos
e várias outras partes.
ninguém parece se importar.
vejo-a passando pelo cemitério –
enquanto ela segue junto à grade de ferro
posso ver para além das barras
vejo as lápides
e o gramado verde.
o corpo dela se mexe em frente à grade de ferro
as lápides não se mexem.
penso,
será que mais alguém vê isso?
penso,
será que ela vê essas lápides?
se vê,
ela possuiu uma sabedoria de que não disponho
pois parece ignorá-las.
seu corpo se move com
mágica fluidez
e sua longa cabeleira é iluminada
pelo sol das 3 da tarde.
o sinal muda
ela cruza a rua na direção oeste
dirijo para oeste.
sigo costeando o oceano
desço
e corro pra lá e pra cá
em frente ao mar por 35 minutos
vendo pessoas aqui e acolá
com olhos e ouvidos e dedos
e várias outras partes.
ninguém parece se importar.
1 185
Charles Bukowski
Os Gêmeos
às vezes ele insinuava que eu era um canalha e eu lhe dizia para ouvir
Brahms, para aprender a pintar e a beber e a não ser
dominado por mulheres ou dólares
mas ele gritava, pelo amor de Deus pense na sua mãe,
pense no seu país,
você vai nos matar!...
vago pela casa de meu pai (na qual ele devia $ 8 mil depois de 20
anos no mesmo emprego) e olho para seus sapatos mortos
o modo como seus pés curvaram o couro, como se plantasse rosas em fúria,
e era o que ele fazia, e olho para seu cigarro morto, seu último cigarro
e a última cama em que dormiu naquela noite, e sinto que deveria refazê-la
mas não posso, porque um pai é sempre o mestre mesmo quando já se foi;
suponho que essas coisas tenham acontecido vez após vez mas não posso deixar de pensar
morrer no chão da cozinha às 7 da manhã
enquanto outras pessoas fritam ovos
não é tão brutal
a menos que aconteça com você.
vou para o lado de fora e apanho uma laranja e retiro a casca brilhante;
as coisas seguem vivas; a grama cresce muito bem,
o sol despeja seus raios circundado por um satélite russo,
um cão late sem razão em alguma parte, vizinhos espiam pelas persianas.
sou um estranho aqui, e devo ter sido (suponho) de algum jeito um filho da puta,
e não tenho dúvida de que ele me pintou direitinho (o garotão e eu
brigávamos como leões da montanha) e eles dizem que ele deixou tudo para uma mulher em Duarte mas estou cagando – que ela fique com tudo: ele era o meu velho
e está morto.
lá dentro, experimento um terno azul-claro
muito melhor do que qualquer coisa que eu já tenha vestido
e balanço os braços como um espantalho ao vento
mas de nada adianta:
não posso mantê-lo vivo
não importa o quanto odiássemos um ao outro.
temos exatamente o mesmo aspecto, poderíamos ter sido gêmeos
o velho e eu: é isso o que eles
dizem. ele tinha seus bulbos na tela
prontos para serem plantados
enquanto eu me deitava com uma puta da rua 3.
muito bem. deixem-nos ter este momento: parado diante de um espelho
vestindo o terno de meu pai morto
esperando também
para morrer.
Brahms, para aprender a pintar e a beber e a não ser
dominado por mulheres ou dólares
mas ele gritava, pelo amor de Deus pense na sua mãe,
pense no seu país,
você vai nos matar!...
vago pela casa de meu pai (na qual ele devia $ 8 mil depois de 20
anos no mesmo emprego) e olho para seus sapatos mortos
o modo como seus pés curvaram o couro, como se plantasse rosas em fúria,
e era o que ele fazia, e olho para seu cigarro morto, seu último cigarro
e a última cama em que dormiu naquela noite, e sinto que deveria refazê-la
mas não posso, porque um pai é sempre o mestre mesmo quando já se foi;
suponho que essas coisas tenham acontecido vez após vez mas não posso deixar de pensar
morrer no chão da cozinha às 7 da manhã
enquanto outras pessoas fritam ovos
não é tão brutal
a menos que aconteça com você.
vou para o lado de fora e apanho uma laranja e retiro a casca brilhante;
as coisas seguem vivas; a grama cresce muito bem,
o sol despeja seus raios circundado por um satélite russo,
um cão late sem razão em alguma parte, vizinhos espiam pelas persianas.
sou um estranho aqui, e devo ter sido (suponho) de algum jeito um filho da puta,
e não tenho dúvida de que ele me pintou direitinho (o garotão e eu
brigávamos como leões da montanha) e eles dizem que ele deixou tudo para uma mulher em Duarte mas estou cagando – que ela fique com tudo: ele era o meu velho
e está morto.
lá dentro, experimento um terno azul-claro
muito melhor do que qualquer coisa que eu já tenha vestido
e balanço os braços como um espantalho ao vento
mas de nada adianta:
não posso mantê-lo vivo
não importa o quanto odiássemos um ao outro.
temos exatamente o mesmo aspecto, poderíamos ter sido gêmeos
o velho e eu: é isso o que eles
dizem. ele tinha seus bulbos na tela
prontos para serem plantados
enquanto eu me deitava com uma puta da rua 3.
muito bem. deixem-nos ter este momento: parado diante de um espelho
vestindo o terno de meu pai morto
esperando também
para morrer.
1 310
Charles Bukowski
O Lado do Sol
os touros são grandes como o lado do sol
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
1 197
Charles Bukowski
Penicos
nos hospitais em que estive
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas
é o sinal para aceitar o inevitável
mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar
enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.
o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.
você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar
como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.
mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis
então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...
a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno
algumas vezes isso pode ser feito
mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas
é o sinal para aceitar o inevitável
mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar
enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.
o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.
você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar
como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.
mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis
então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...
a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno
algumas vezes isso pode ser feito
mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
1 135
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
985
Charles Bukowski
Subindo Seu Rio Amarelo
uma mulher contou a um homem
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
1 058
Charles Bukowski
Inverno
um cachorro grande, sujo e ferido
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
1 134
Charles Bukowski
O Pior E o Melhor
nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
1 136
Charles Bukowski
Para Al…
não se preocupe com rejeições, parceiro,
eu já fui rejeitado
antes.
algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.
mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã
a coloque pagando 30 por um.
tenho que pensar na morte mais e mais
senilidade
muletas
poltronas
escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando
quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.
não se preocupe com rejeições, parceiro.
fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.
o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
eu já fui rejeitado
antes.
algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.
mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã
a coloque pagando 30 por um.
tenho que pensar na morte mais e mais
senilidade
muletas
poltronas
escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando
quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.
não se preocupe com rejeições, parceiro.
fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.
o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
1 489
Charles Bukowski
Isso Então...
é o mesmo que antes
ou que da outra vez
ou da vez anterior a essa.
eis um pau
e eis uma boceta
e eis um problema.
a cada vez
você pensa
bem eu aprendi desta vez:
vou dizer a ela que faça isso
e eu farei isto,
já não quero a coisa toda,
só um pouco de conforto
e um pouco de sexo
e apenas um mínimo de
amor.
agora novamente espero
e os anos vão escasseando.
tenho meu rádio
e as paredes da cozinha
são amarelas.
sigo esvaziando as garrafas
à espera
dos passos.
espero que a morte reserve
menos do que isto.
ou que da outra vez
ou da vez anterior a essa.
eis um pau
e eis uma boceta
e eis um problema.
a cada vez
você pensa
bem eu aprendi desta vez:
vou dizer a ela que faça isso
e eu farei isto,
já não quero a coisa toda,
só um pouco de conforto
e um pouco de sexo
e apenas um mínimo de
amor.
agora novamente espero
e os anos vão escasseando.
tenho meu rádio
e as paredes da cozinha
são amarelas.
sigo esvaziando as garrafas
à espera
dos passos.
espero que a morte reserve
menos do que isto.
1 527
Charles Bukowski
Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
1 286
Charles Bukowski
Fotografias
elas o fotografam em sua varanda
e no seu sofá
e você de pé no quintal
ou encostado em seu carro
essas fotógrafas
mulheres com rabos enormes
que lhe parecem melhores
que seus olhos ou suas almas
– este jogo com o autor
na verdade não passa de um
número barato à Hemingway
e James Joyce
mas veja –
lá estão os livros
você os escreveu
nunca esteve em Paris
mas escreveu todos aqueles livros
atrás de você
(e outros que não estão ali,
perdidos ou roubados)
tudo o que você tem que fazer
é se parecer com o Bukowski
para as câmeras
mas
você segue de olho
naqueles
rabos enormes e magníficos
e pensando –
outra pessoa os está faturando
“olhe aqui nos meus olhos”
elas dizem e disparam suas câmeras
acionam o flash de suas câmeras
e acariciam suas câmeras
Hemingway costumava boxear ou
pescar ou ir às touradas
mas depois que elas se vão
você bate uma debaixo dos lençóis
e toma um banho quente
elas nunca mandam as fotos
como prometem
e seus rabos magníficos se vão
para sempre
e você se comportou como um ótimo literato –
ainda vivo
logo em breve morto
olhando fundo para seus olhos e almas
e tudo mais.
e no seu sofá
e você de pé no quintal
ou encostado em seu carro
essas fotógrafas
mulheres com rabos enormes
que lhe parecem melhores
que seus olhos ou suas almas
– este jogo com o autor
na verdade não passa de um
número barato à Hemingway
e James Joyce
mas veja –
lá estão os livros
você os escreveu
nunca esteve em Paris
mas escreveu todos aqueles livros
atrás de você
(e outros que não estão ali,
perdidos ou roubados)
tudo o que você tem que fazer
é se parecer com o Bukowski
para as câmeras
mas
você segue de olho
naqueles
rabos enormes e magníficos
e pensando –
outra pessoa os está faturando
“olhe aqui nos meus olhos”
elas dizem e disparam suas câmeras
acionam o flash de suas câmeras
e acariciam suas câmeras
Hemingway costumava boxear ou
pescar ou ir às touradas
mas depois que elas se vão
você bate uma debaixo dos lençóis
e toma um banho quente
elas nunca mandam as fotos
como prometem
e seus rabos magníficos se vão
para sempre
e você se comportou como um ótimo literato –
ainda vivo
logo em breve morto
olhando fundo para seus olhos e almas
e tudo mais.
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Charles Bukowski
Quando Me Penso Morto
penso em automóveis estacionados
nas vagas
quando me penso morto
penso em panelas de fritura
quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto
quando me penso morto
respiro com dificuldade
quando me penso morto
penso em todas as pessoas que esperam pela morte
quando me penso morto
penso que nunca mais poderei beber água
quando me penso morto
o ar fica completamente puro
as baratas na minha cozinha
tremem
e alguém terá que jogar
fora minhas cuecas limpas e
sujas
nas vagas
quando me penso morto
penso em panelas de fritura
quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto
quando me penso morto
respiro com dificuldade
quando me penso morto
penso em todas as pessoas que esperam pela morte
quando me penso morto
penso que nunca mais poderei beber água
quando me penso morto
o ar fica completamente puro
as baratas na minha cozinha
tremem
e alguém terá que jogar
fora minhas cuecas limpas e
sujas
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Charles Bukowski
Sinais de Trânsito
os velhos camaradas jogam
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
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