Poemas neste tema
Morte e Luto
Affonso Romano de Sant'Anna
Diálogo Com Os Mortos
Começo a conversar com os mortos amiúde
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
1 092
Affonso Romano de Sant'Anna
Pier Della Vigna
Passo por San Miniato – onde viveu Pier della Vigna
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
1 120
Affonso Romano de Sant'Anna
Arte Mortal
Anda me cercando a morte
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
1 295
Affonso Romano de Sant'Anna
Sedução Mortal
Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
1 204
Affonso Romano de Sant'Anna
A Letra E a Morte
Para Fausto Henrique
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
636
Affonso Romano de Sant'Anna
Jardinagem
Amadureço na morte alheia a minha morte.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
1 029
Affonso Romano de Sant'Anna
Wild Life
Ninguém se arrepende do passado
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
988
Affonso Romano de Sant'Anna
Vou Ficar de Vez Na Porta Deste Cemitério
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
1 164
Affonso Romano de Sant'Anna
O Morto Cresce
O morto cresce estranhamente, logo que morre.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
1 391
Affonso Romano de Sant'Anna
Domingo Nos Campos da Toscana
Domingo nos campos da Toscana:
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
1 105
Affonso Romano de Sant'Anna
Morte do Vizinho
Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
1 146
Affonso Romano de Sant'Anna
Edificando a Morte
Nesta semana
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
1 035
Affonso Romano de Sant'Anna
O Telefone E o Amigo Morto
(Crônica-poema para Hélio Pellegrino)
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
932
Affonso Romano de Sant'Anna
O Deus de Santa Fina
Santa Fina, aos 10 anos, doente,
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
1 184
Affonso Romano de Sant'Anna
Não Estarei Aqui Em Tardes Como Essas
Não estarei aqui em tardes como essas:
– mulheres airosas e suas soberbas coxas sobre areia
que outros olharão com devoção intensa.
Falta não farei, a elas
e aos verões que não verei.
Não estarei aqui em tardes como essas:
– o alarido de andorinhas, o zumbido das cigarras
o branco azul colegial voltando para casa,
o barulhinho do chap-chap da água na enseada.
Como antes, o mundo sobreviverá sem mim.
Nunca mais tocarei a cabeleira do entardecer
e as coxas, e os seios e sua boca.
Há muito que algo em mim começa a se despedir.
Às vezes é nos momentos de mais aguda beleza
que uma parte de mim se vai enquanto
outras ficam num desespero luminoso.
É tocante o espetáculo.
Quando terei a humildade necessária
para sair de cena?
– mulheres airosas e suas soberbas coxas sobre areia
que outros olharão com devoção intensa.
Falta não farei, a elas
e aos verões que não verei.
Não estarei aqui em tardes como essas:
– o alarido de andorinhas, o zumbido das cigarras
o branco azul colegial voltando para casa,
o barulhinho do chap-chap da água na enseada.
Como antes, o mundo sobreviverá sem mim.
Nunca mais tocarei a cabeleira do entardecer
e as coxas, e os seios e sua boca.
Há muito que algo em mim começa a se despedir.
Às vezes é nos momentos de mais aguda beleza
que uma parte de mim se vai enquanto
outras ficam num desespero luminoso.
É tocante o espetáculo.
Quando terei a humildade necessária
para sair de cena?
1 155
Affonso Romano de Sant'Anna
O Que Sei Dos Etruscos
Quase tudo o que se sabe dos etruscos
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
581
Affonso Romano de Sant'Anna
Viva Fera
Não me canso de estudar a morte.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
1 072
Affonso Romano de Sant'Anna
Para Tigrão
Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
1 194
Affonso Romano de Sant'Anna
Vivi 45 Anos
Vivi 45 anos.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
1 135
Affonso Romano de Sant'Anna
Música Nas Cinzas
Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
1 132
Affonso Romano de Sant'Anna
Fim de Século
Ontem enterrei um presidente
seus discursos
seus decretos
e cinco anos de minha vida
em sua mão.
Há três dias enterrei
o maior artista do século
dois romancistas europeus
e um pintor brasileiro.
Todo dia há alguma coisa que enterrar.
Mas agora preparo-me
para uma façanha inédita:
sepultar um século inteiro.
Esta é uma tarefa enorme
terei que achar
alguém pra me ajudar.
seus discursos
seus decretos
e cinco anos de minha vida
em sua mão.
Há três dias enterrei
o maior artista do século
dois romancistas europeus
e um pintor brasileiro.
Todo dia há alguma coisa que enterrar.
Mas agora preparo-me
para uma façanha inédita:
sepultar um século inteiro.
Esta é uma tarefa enorme
terei que achar
alguém pra me ajudar.
1 021
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Tirado do Jornal El Espectador, Bogotá, 27.3.94
Cuando el Che Guevara dejó Cuba
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
1 017
Affonso Romano de Sant'Anna
Biografia Alheia
Cada amigo que morre
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
1 157
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 007