Poemas neste tema
Morte e Luto
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assim Os Claros Filhos do Mar Largo
Atingidos no sonho mais secreto
Caíram de um só golpe sobre a terra
E foram possuídos pela morte.
Caíram de um só golpe sobre a terra
E foram possuídos pela morte.
1 171
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Liberdade Que Dos Deuses Eu Esperava
Quebrou-se. As rosas que eu colhia,
Transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.
Transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.
1 302
Adélia Prado
A Que Não Existe
Meus pais morreram,
posso conferir na lápide,
nome, data e a inscrição: SAUDADES!
Não me consolo dizendo
‘em minha lembrança permanecem vivos’,
é pouco, é fraco, frustrante como o cometa
que ninguém viu passar.
De qualquer língua, a elementar gramática
declina e conjuga o tempo,
nos serve a vida em fatias,
a eternidade em postas.
Daí acharmos que se findam as coisas,
os espessos cabelos, os quase verdes olhos.
O que chamamos morte
é máscara do que não há.
Pois apenas repousa
o que não pulsa mais.
posso conferir na lápide,
nome, data e a inscrição: SAUDADES!
Não me consolo dizendo
‘em minha lembrança permanecem vivos’,
é pouco, é fraco, frustrante como o cometa
que ninguém viu passar.
De qualquer língua, a elementar gramática
declina e conjuga o tempo,
nos serve a vida em fatias,
a eternidade em postas.
Daí acharmos que se findam as coisas,
os espessos cabelos, os quase verdes olhos.
O que chamamos morte
é máscara do que não há.
Pois apenas repousa
o que não pulsa mais.
1 185
Adélia Prado
Capela Sistina
Expropriando a palavra
do ‘r’ impossível à sua língua gentia,
o padre falava perturbado de pânico:
‘Eternidade! Palavra horível! Preparai-vos!’
Circundava-o e a nós no apertado redil
a própria mão de Deus.
Então o que fazer com pastos,
grinalda de nuvens sobre os morros,
neblina criando abismos,
inefáveis belezas entre véus?
Que palavras escuras eram aquelas
sopesadas de raios?
Eternidade? E a relva?
E repousar nela sem interdições,
sem ninguém me gritar: ô preguiçosa.
Céu de estrelas, sustos novos,
calores bons e esquisitos à vista de meninos.
As axilas da mãe me protegiam,
virtuoso amuleto o cinto com que o pai me batia.
Eles não iam morrer.
Estávamos seguros contra Deus e a eternidade horrível.
Até que dormiram pela última vez
e pela primeira vez eu fiquei velha.
Minha casamata agora,
as axilas do Deus de Michelangelo,
profundas, musculosas, bravas,
abundantes do suor de quem trabalha duro.
— Uma doutrina severa faz sofrer,
mas a ninguém perderá se for doutrina bela.
do ‘r’ impossível à sua língua gentia,
o padre falava perturbado de pânico:
‘Eternidade! Palavra horível! Preparai-vos!’
Circundava-o e a nós no apertado redil
a própria mão de Deus.
Então o que fazer com pastos,
grinalda de nuvens sobre os morros,
neblina criando abismos,
inefáveis belezas entre véus?
Que palavras escuras eram aquelas
sopesadas de raios?
Eternidade? E a relva?
E repousar nela sem interdições,
sem ninguém me gritar: ô preguiçosa.
Céu de estrelas, sustos novos,
calores bons e esquisitos à vista de meninos.
As axilas da mãe me protegiam,
virtuoso amuleto o cinto com que o pai me batia.
Eles não iam morrer.
Estávamos seguros contra Deus e a eternidade horrível.
Até que dormiram pela última vez
e pela primeira vez eu fiquei velha.
Minha casamata agora,
as axilas do Deus de Michelangelo,
profundas, musculosas, bravas,
abundantes do suor de quem trabalha duro.
— Uma doutrina severa faz sofrer,
mas a ninguém perderá se for doutrina bela.
839
Adélia Prado
Rapto
À hora em que nada parece estar errado,
nem os monturos com seus sacos plásticos,
o invisível te arrepia os pelos.
Uma vez, num bando de passarinhos
disputando sementes.
Hoje, na grama baixa onde cabras pastavam.
Quando a máxima atenção te deixa distraído,
o sequestrador te pega
e diferente daqui
conhecerás o lugar
onde quem desperta repousa.
nem os monturos com seus sacos plásticos,
o invisível te arrepia os pelos.
Uma vez, num bando de passarinhos
disputando sementes.
Hoje, na grama baixa onde cabras pastavam.
Quando a máxima atenção te deixa distraído,
o sequestrador te pega
e diferente daqui
conhecerás o lugar
onde quem desperta repousa.
1 002
Adélia Prado
O Hospedeiro
Ainda que nasça em mim, não me pertence.
Tal qual um olho ou braço esta piedade,
o purgatório de ver a pena alheia
como se não sofresse eu mesma.
Só pode ser Deus a morte,
tão aterrorizante em seu mistério,
em seu mutismo. A opaca.
Mórbida congênita, me apodam,
este é o preço por teu nascimento
no centro do miolo de Minas.
Eu sei. E sou mais,
melancólica, quase triste.
Padeci muito vergonhas paralisantes,
nem por isso civilizei minha fome,
dentes pra destroçar bananas,
carnes roídas até os ossos.
Me esforço por olhar nos olhos
quem desde que nasci me olha fixo
esperando de mim um assentimento
— ainda que humana e fracamente,
ainda que inepto e bruto —,
um sim.
Tem braços acolhedores
e vem cheia de vida.
É Deus a poderosa morte.
Tal qual um olho ou braço esta piedade,
o purgatório de ver a pena alheia
como se não sofresse eu mesma.
Só pode ser Deus a morte,
tão aterrorizante em seu mistério,
em seu mutismo. A opaca.
Mórbida congênita, me apodam,
este é o preço por teu nascimento
no centro do miolo de Minas.
Eu sei. E sou mais,
melancólica, quase triste.
Padeci muito vergonhas paralisantes,
nem por isso civilizei minha fome,
dentes pra destroçar bananas,
carnes roídas até os ossos.
Me esforço por olhar nos olhos
quem desde que nasci me olha fixo
esperando de mim um assentimento
— ainda que humana e fracamente,
ainda que inepto e bruto —,
um sim.
Tem braços acolhedores
e vem cheia de vida.
É Deus a poderosa morte.
856
Adélia Prado
Distrações No Velório
Felipa ainda quente no caixão
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
1 169
Adélia Prado
Sacramental
É um modo de expiação a que nada escapa,
a árvore seca, o padre cansado
tomando comprimidos pra dormir,
a esforçada alegria de quem não sabe que é triste.
Vidas a meu encargo, interpoladas de excesso, falhas
por onde altissonante o vozerio dos mortos nos avisa.
Mas no grande Bazar ninguém escuta,
a semijoia, a missa temática
falam a mesma língua e têm o mesmo preço
do ‘Concurso de miss pra criancinhas’.
Dia após dia,
o homem cuidou de sua irmã enferma
e no dia em que ela morreu foi à cozinha
como sempre fazia àquela hora da tarde
e tomou duas cervejas.
Não pegou em armas contra o aguilhão da morte.
Ó Deus, perdoai-me o equivocado zelo em Vos servir,
o não tomar cerveja por orgulho
de ser a mãe perfeita dos viventes.
a árvore seca, o padre cansado
tomando comprimidos pra dormir,
a esforçada alegria de quem não sabe que é triste.
Vidas a meu encargo, interpoladas de excesso, falhas
por onde altissonante o vozerio dos mortos nos avisa.
Mas no grande Bazar ninguém escuta,
a semijoia, a missa temática
falam a mesma língua e têm o mesmo preço
do ‘Concurso de miss pra criancinhas’.
Dia após dia,
o homem cuidou de sua irmã enferma
e no dia em que ela morreu foi à cozinha
como sempre fazia àquela hora da tarde
e tomou duas cervejas.
Não pegou em armas contra o aguilhão da morte.
Ó Deus, perdoai-me o equivocado zelo em Vos servir,
o não tomar cerveja por orgulho
de ser a mãe perfeita dos viventes.
1 295
Adélia Prado
O Enfermo
O doente quer ir-se
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
1 134
Adélia Prado
Antes do Alvorecer
O morto não morre,
não há colo nem cruz
onde repouse o que palpita cego
e lancinante pervaga.
Sei que me olha de uma fenda quântica,
mas eu o queria aqui junto comigo,
delirante, fraco, mas comigo,
junto comigo, o meu querido irmão.
Numa carta longínqua me escreveu
‘Somos de Deus, irmã’.
Uma bela antífona ao choro desta noite
até que chegue a manhã.
não há colo nem cruz
onde repouse o que palpita cego
e lancinante pervaga.
Sei que me olha de uma fenda quântica,
mas eu o queria aqui junto comigo,
delirante, fraco, mas comigo,
junto comigo, o meu querido irmão.
Numa carta longínqua me escreveu
‘Somos de Deus, irmã’.
Uma bela antífona ao choro desta noite
até que chegue a manhã.
1 249
Adélia Prado
História Que Me Contaram
Vozes, lamparinas
e o cheiro de querosene da pobreza.
O órfão de um ano debatendo-se
choramingava no seu mar de fezes.
Deus está me mostrando o que será minha vida,
gemeu o viúvo,
arrepanhando o lençol por suas pontas.
Teve depois um sonho:
chegava em casa com uma nova mulher
e viu, da porteira, os filhos indo embora.
Ficou tão abalado, chorou tanto
que fez uma promessa: nunca mais casar-se.
Tinha beleza e fogo.
Mesmo sendo na história
me apaixonei pelo homem,
mesmo sem esperança.
e o cheiro de querosene da pobreza.
O órfão de um ano debatendo-se
choramingava no seu mar de fezes.
Deus está me mostrando o que será minha vida,
gemeu o viúvo,
arrepanhando o lençol por suas pontas.
Teve depois um sonho:
chegava em casa com uma nova mulher
e viu, da porteira, os filhos indo embora.
Ficou tão abalado, chorou tanto
que fez uma promessa: nunca mais casar-se.
Tinha beleza e fogo.
Mesmo sendo na história
me apaixonei pelo homem,
mesmo sem esperança.
1 102
Adélia Prado
As Demoras de Deus
Quero coisas pro corpo,
o que se suja sozinho
e diligente produz sua própria escória.
Por astúcia Vos lembro, ó Criador,
apesar de eterno e eu histórica,
tendes também um corpo.
Portanto, feitos um para o outro,
Vosso ouvido e minha língua.
Ouvi-me pois,
antes que, de tanto pedir-Vos,
do céu da boca me desabem os dentes.
o que se suja sozinho
e diligente produz sua própria escória.
Por astúcia Vos lembro, ó Criador,
apesar de eterno e eu histórica,
tendes também um corpo.
Portanto, feitos um para o outro,
Vosso ouvido e minha língua.
Ouvi-me pois,
antes que, de tanto pedir-Vos,
do céu da boca me desabem os dentes.
1 105
Adélia Prado
Como Um Parente Meu, Um Riobaldo
Olho grande deve ter Deus,
para enxergar de um só lance
de Grão-Mogol até Córrego Dantas,
passando por Diamantina, Curvelo
e outros vastos espaços de só pedras,
mato, rio sem nada na beira
e gentes, barranco, aranha saindo de buraco
onde ninguém pôs sentido
e mais meu tropel fugindo da vista d’Ele.
Queria, ainda que em tico à toa de tempo,
gozar chefia de minha própria pessoa,
apreciar um descanso. E o que não relatei:
tatarana no avesso das folhas e os mortos,
os defuntos nossos que andaram na terra
falando nome de lugares, contando histórias
como se não fossem morrer.
Deus há! E pode que haja o diabo,
o que não tem é morte.
O olho de quem só tem um
não deixaria reinando o esvoaçante esqueleto
com sua foice afiada.
Queria fazer sem medo o que Ele me obriga a fazer:
obedecer por gosto Sua poderosa vontade,
sem entristecer de nódia o pano branco da alegria.
para enxergar de um só lance
de Grão-Mogol até Córrego Dantas,
passando por Diamantina, Curvelo
e outros vastos espaços de só pedras,
mato, rio sem nada na beira
e gentes, barranco, aranha saindo de buraco
onde ninguém pôs sentido
e mais meu tropel fugindo da vista d’Ele.
Queria, ainda que em tico à toa de tempo,
gozar chefia de minha própria pessoa,
apreciar um descanso. E o que não relatei:
tatarana no avesso das folhas e os mortos,
os defuntos nossos que andaram na terra
falando nome de lugares, contando histórias
como se não fossem morrer.
Deus há! E pode que haja o diabo,
o que não tem é morte.
O olho de quem só tem um
não deixaria reinando o esvoaçante esqueleto
com sua foice afiada.
Queria fazer sem medo o que Ele me obriga a fazer:
obedecer por gosto Sua poderosa vontade,
sem entristecer de nódia o pano branco da alegria.
989
Adélia Prado
Sítio Arqueológico
As múmias me viram,
daí meu desassossego.
A vida, ainda que no Vale Sagrado
coberto de milharais,
está ligada às sorridentes caveiras,
ao seixo, a mim,
à folha que vi desprender-se
e me provocou arrepios.
Quis minha mãe morta há cinquenta anos e ela
à distância de um grito respondeu-me.
E nenhuma de nós abrira a boca.
daí meu desassossego.
A vida, ainda que no Vale Sagrado
coberto de milharais,
está ligada às sorridentes caveiras,
ao seixo, a mim,
à folha que vi desprender-se
e me provocou arrepios.
Quis minha mãe morta há cinquenta anos e ela
à distância de um grito respondeu-me.
E nenhuma de nós abrira a boca.
1 002
Adélia Prado
O Penitente
Nunca tive um rapto como Santa Teresa,
só um pequeno desmaio devido a dores agudas
e por três vezes seguidas
a sensação de estar fora do tempo.
Palavras são meu consolo.
Meu pai fez planos, morreu.
Minha mãe privou-se, morreu.
Provo grande vergonha
se o caminhão de São Paulo grita no alto-falante:
‘Alô, alô, dona Maria, vem pegar sua melancia.’
Carminha desenhava na terra
meio grão de café, forçando na rachadura:
‘Lá na gente é assim, sua boba!’
Não sentia vergonha, só um calor esquisito.
Sou ingrata?
Pergunto-Vos e já me sei perdoada,
como se Vos tivesse imolado pelos meus e por mim.
E só Vos dei palavras, ó Deus santo.
Quando achei que exigíeis
cabeças sanguinolentas,
um punhado de versos aplacou-nos.
só um pequeno desmaio devido a dores agudas
e por três vezes seguidas
a sensação de estar fora do tempo.
Palavras são meu consolo.
Meu pai fez planos, morreu.
Minha mãe privou-se, morreu.
Provo grande vergonha
se o caminhão de São Paulo grita no alto-falante:
‘Alô, alô, dona Maria, vem pegar sua melancia.’
Carminha desenhava na terra
meio grão de café, forçando na rachadura:
‘Lá na gente é assim, sua boba!’
Não sentia vergonha, só um calor esquisito.
Sou ingrata?
Pergunto-Vos e já me sei perdoada,
como se Vos tivesse imolado pelos meus e por mim.
E só Vos dei palavras, ó Deus santo.
Quando achei que exigíeis
cabeças sanguinolentas,
um punhado de versos aplacou-nos.
1 159
Adélia Prado
Epigráfico
A anelante argila
põe brincos de diamante
porque ama a Beleza
e nisto é tenaz,
na fé de sobreviver à morte,
a que não existe.
Pois vêm da vida os mortos
falar à alma o que só ela escuta.
Contra o que se sente
toda filosofia é mesmo vã,
o livro é sagrado
quando o que apregoa
é revelado na carne
onde os joelhos vacilam
e os pelos crescem.
Ter medo é saber do inaudito,
ninguém até hoje explica
por que batem as pálpebras.
põe brincos de diamante
porque ama a Beleza
e nisto é tenaz,
na fé de sobreviver à morte,
a que não existe.
Pois vêm da vida os mortos
falar à alma o que só ela escuta.
Contra o que se sente
toda filosofia é mesmo vã,
o livro é sagrado
quando o que apregoa
é revelado na carne
onde os joelhos vacilam
e os pelos crescem.
Ter medo é saber do inaudito,
ninguém até hoje explica
por que batem as pálpebras.
1 393
Adélia Prado
No Jardim
Sob sol quente, no jardim flamejante
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
1 377
Adélia Prado
Expiatório
Meus ancestrais levantam-se das tumbas,
tiram o dia pra me flagelar.
O que tinha apego a moedas,
a que morreu num parto de trigêmeos,
tão pobre,
mal coube no casebre seu caixão.
Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética:
‘Vai calçar um trem,
agora mesmo a casa enche de gente.’
Urge consolar os mortos,
fazer por eles a oferenda da tarde
para que voltem, espectros, às suas tumbas
e chegando a noite
me permitam dormir.
tiram o dia pra me flagelar.
O que tinha apego a moedas,
a que morreu num parto de trigêmeos,
tão pobre,
mal coube no casebre seu caixão.
Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética:
‘Vai calçar um trem,
agora mesmo a casa enche de gente.’
Urge consolar os mortos,
fazer por eles a oferenda da tarde
para que voltem, espectros, às suas tumbas
e chegando a noite
me permitam dormir.
727
Adélia Prado
O Encontro
Jonathan,
se resolvermos que o céu
é este lugar onde ninguém nos ouve,
quem poderá salvar-nos?
Quanto tempo resistiríamos
sem falar a ninguém deste acontecimento?
Acompanhei com os dedos
o desenho miraculoso do teu lábio,
contornei-lhe as gengivas,
bati-lhe no dente escuro
como em um cavalo,
um cavalo meu na campina.
Pedi-lhe: faz com tua unha um risco
na minha cara,
o amor da morte instigando-nos
com nunca vista coragem.
Vamos morrer juntos
antes que o corpo alardeie
sua mísera condição.
Agora, Jonathan,
neste lugar tão ermo,
neste lugar perfeito.
se resolvermos que o céu
é este lugar onde ninguém nos ouve,
quem poderá salvar-nos?
Quanto tempo resistiríamos
sem falar a ninguém deste acontecimento?
Acompanhei com os dedos
o desenho miraculoso do teu lábio,
contornei-lhe as gengivas,
bati-lhe no dente escuro
como em um cavalo,
um cavalo meu na campina.
Pedi-lhe: faz com tua unha um risco
na minha cara,
o amor da morte instigando-nos
com nunca vista coragem.
Vamos morrer juntos
antes que o corpo alardeie
sua mísera condição.
Agora, Jonathan,
neste lugar tão ermo,
neste lugar perfeito.
1 439
Adélia Prado
A Boa Morte
Dona Dirce chorava a morte da filha
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha, admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também eu quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha, admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também eu quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.
1 203
Adélia Prado
Pedido de Adoção
Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
1 596
Adélia Prado
A Seduzida
Por causa de Jonathan
minha idade regride.
Por certo morrerei
se insistir em só amar,
sem comer nem dormir.
Amor e morte são casados
e moram no abismo trevoso.
Seus filhos,
o que se chama Felicitas
tem o apelido de Fel.
O centro da luz é escuro
do negrume de Deus,
é sombra espessa de dia,
de noite tudo reluz.
Comigo os séculos porfiam
na encarnação de Jesus.
minha idade regride.
Por certo morrerei
se insistir em só amar,
sem comer nem dormir.
Amor e morte são casados
e moram no abismo trevoso.
Seus filhos,
o que se chama Felicitas
tem o apelido de Fel.
O centro da luz é escuro
do negrume de Deus,
é sombra espessa de dia,
de noite tudo reluz.
Comigo os séculos porfiam
na encarnação de Jesus.
1 164
Adélia Prado
A Discípula
Bendita a espécie extinta,
a que voltou ao repouso em sua origem
e não peregrina mais,
benditos todos que no cativeiro
por ânsia de eternidade multiplicam-se,
bendito o modo como tudo é feito.
Ancestrais, luxuoso nome
para quem apenas errou antes de nós!
Benditos,
bendita a hora da tarde
em que uma serva repousa
descansada de dor e de consolo.
a que voltou ao repouso em sua origem
e não peregrina mais,
benditos todos que no cativeiro
por ânsia de eternidade multiplicam-se,
bendito o modo como tudo é feito.
Ancestrais, luxuoso nome
para quem apenas errou antes de nós!
Benditos,
bendita a hora da tarde
em que uma serva repousa
descansada de dor e de consolo.
1 207
Adélia Prado
Sesta Com Flores
Temporal para Ofélia
é chuva que dura tempos.
Voltou de novo, no ouvido,
o barulhinho de telégrafo.
Vaca é nome invasivo,
o nome só, a vaca é boa.
Sofro de aristocracismo,
logo eu,
nascida em Córrego da Ferrosa.
Invadi filho uma vez,
quero ficar sem minha língua,
a repetir o que fiz.
À porta da escola
um menino doente
ajudava o outro a subir,
homem é muleta de Deus.
Não há descanso aqui,
estamos no exílio,
edificando móbiles na areia.
Os galos sabem,
cantam fora de hora
querendo apressar o dia,
tem deus, tem deus, tem deus
gritam os recém-nascidos
e as dálias
com seu cheiro de morte e virgindade.
O barulhinho de telégrafo continua,
mas até faz dormir:
tem deus, tem deus, tem deus.
é chuva que dura tempos.
Voltou de novo, no ouvido,
o barulhinho de telégrafo.
Vaca é nome invasivo,
o nome só, a vaca é boa.
Sofro de aristocracismo,
logo eu,
nascida em Córrego da Ferrosa.
Invadi filho uma vez,
quero ficar sem minha língua,
a repetir o que fiz.
À porta da escola
um menino doente
ajudava o outro a subir,
homem é muleta de Deus.
Não há descanso aqui,
estamos no exílio,
edificando móbiles na areia.
Os galos sabem,
cantam fora de hora
querendo apressar o dia,
tem deus, tem deus, tem deus
gritam os recém-nascidos
e as dálias
com seu cheiro de morte e virgindade.
O barulhinho de telégrafo continua,
mas até faz dormir:
tem deus, tem deus, tem deus.
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