Poemas neste tema
Morte e Luto
Fernando Pessoa
NIRVANA
A non-existence deeply within Being,
A sentient nothingness ethereal,
A more than real Ideality, agreeing
Of subject and of object, all in all.
Nor Life, nor Death, nor sense nor senselessness,
But a deep feeling of not feeling aught;
A calm how deep! ‑ much deeper than distress,
Haply as thinking is without the thought.
Beauty and ugliness, and love and hate,
Virtue and vice ‑ all these nowise will be;
That peace all quiet shall eliminate
Our everlasting life ‑ uncertainty.
A quietness of all our human hopes,
An end as of a feverish, tired breath...
For fit expressions vainly the soul gropes;
It is beyond the logic of our faith.
An opposite of joy's stir, of the deep
Disconsolation that our life doth give,
A waking to the slumber that we sleep,
A sleeping to the living that we live.
All difference unto the life we have,
All other to the thoughts that through us roam;
It is a home if our life be a grave,
It is a grave if our life be a home.
All that we weep, all to which we aspire
Is there, and like an infant on the breast,
We shall e'er be with more than we desire
And our accursed souls at last shall rest.
A sentient nothingness ethereal,
A more than real Ideality, agreeing
Of subject and of object, all in all.
Nor Life, nor Death, nor sense nor senselessness,
But a deep feeling of not feeling aught;
A calm how deep! ‑ much deeper than distress,
Haply as thinking is without the thought.
Beauty and ugliness, and love and hate,
Virtue and vice ‑ all these nowise will be;
That peace all quiet shall eliminate
Our everlasting life ‑ uncertainty.
A quietness of all our human hopes,
An end as of a feverish, tired breath...
For fit expressions vainly the soul gropes;
It is beyond the logic of our faith.
An opposite of joy's stir, of the deep
Disconsolation that our life doth give,
A waking to the slumber that we sleep,
A sleeping to the living that we live.
All difference unto the life we have,
All other to the thoughts that through us roam;
It is a home if our life be a grave,
It is a grave if our life be a home.
All that we weep, all to which we aspire
Is there, and like an infant on the breast,
We shall e'er be with more than we desire
And our accursed souls at last shall rest.
1 660
Fernando Pessoa
Tão linda e finda a memoro!
Tão linda e finda a memoro!
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
1 346
Fernando Pessoa
Quê? Eu morrer?
Quê? Eu morrer?
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
1 283
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
1 302
Fernando Pessoa
Subiste à glória pela descida abaixo.
Subiste à glória pela descida abaixo.
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
1 203
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 113
Fernando Pessoa
A vida é má e o pensamento é mau,
A vida é má e o pensamento é mau,
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.
Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.
Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...
Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!
(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.
Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.
Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...
Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!
(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
1 006
Fernando Pessoa
BUILD ME A COTTAGE
Build me a cottage deep
In a forest, a simple, silent home,
Like a breath in a sleep,
Where all wish may be never to roam
And a pleasure all smallness may keep.
A palace high then build,
With confusion of lights and of rooms,
A strange sense to yield,
Whither my desire from the cottage's glooms
May go, to return, unfulfilled.
Then dig me a grave,
That what cottage nor palace can give
I at length may have,
That the weariness of all ways to live
May cease like the last of a wave.
In a forest, a simple, silent home,
Like a breath in a sleep,
Where all wish may be never to roam
And a pleasure all smallness may keep.
A palace high then build,
With confusion of lights and of rooms,
A strange sense to yield,
Whither my desire from the cottage's glooms
May go, to return, unfulfilled.
Then dig me a grave,
That what cottage nor palace can give
I at length may have,
That the weariness of all ways to live
May cease like the last of a wave.
1 440
Fernando Pessoa
HORROR
In the darkness of my soul,
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
1 858
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 171
Fernando Pessoa
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
625
Fernando Pessoa
A terra é sem vida, e nada
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
2 482
Fernando Pessoa
Ah, o horror de morrer!
Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
1 469
Fernando Pessoa
Morto, hei-de estar a teu lado
Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
1 411
Fernando Pessoa
A PARTIDA [c]
A PARTIDA
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 989
Fernando Pessoa
Many an evil, many a bliss
Many an evil, many a bliss
Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
To live and to know it well.
Since this from life at once we see
Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
To die and know oneself dead?
That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
To live and to know it well.
Since this from life at once we see
Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
To die and know oneself dead?
That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
1 246
Fernando Pessoa
Quando for a Grande Partida,
Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 357
Fernando Pessoa
Não sei se a alma no Além vive...
Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
1 430
Fernando Pessoa
A PARTIDA [b]
A PARTIDA
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
1 149
Fernando Pessoa
Enquanto nesta vida
Enquanto nesta vida
É possível, com subterfúgios mil,
Esquecer-se (...) não pensar,
Fechar-se em imaginações (...)
Mas na morte — oh horror que mais eu temo! —
O grande Facto iniludível jaz.
Este perpétuo, dorido hesitar
Do pensamento temo e (...)
Não me horroriza tanto, como o ter
De resolver na Morte esse problema.
O Mistério é um Facto: eis o horror,
Eis todo o horror expresso.
É um Facto no qual vida, universo,
Seres, (...)
Cidades com seus comércios, lidas
É um livro de sonho aberto.
Proporções gigantescas e interiores
Tomam do sonho a ilusão e a aparência.
Não é a dúvida que me tortura;
É a certeza do (...) Facto,
Para o qual me é impossível ou cerrar
Ou pensar em cerrar os olhos d'alma.
E a existência desse Facto inerente
A tudo que aparece e que (...)
Uma irrealidade transparente,
Horrorosa, (...) perturbadora,
Onde mão invisível vai escrevendo
Desconhecido lema suspeitado
De horror inconcebido.
A consciência clara deste Facto,
Mais que imanente, alheia-me de tudo
E de todos, raivoso e (...)
Ao vê-los como vão, rindo e chorando
Felizes! — outros
Não haverá maneira d'esquivar-nos
D'encontrar o que houver?
É haver esse Facto e encontrá-lo
Que faz o horror da minha vida inteira
(Olhei de frente a frente a Verdade
Para poder sequer fingir sorrir.)
Pudesse eu a sonhar passar a vida
Mas ao Facto (...) da Morte
É impossível fugir. Queira, não queira,
Acorrentado à inevitabilidade
O homem sobe inconsciente ou (...)
Para ela.
É possível, com subterfúgios mil,
Esquecer-se (...) não pensar,
Fechar-se em imaginações (...)
Mas na morte — oh horror que mais eu temo! —
O grande Facto iniludível jaz.
Este perpétuo, dorido hesitar
Do pensamento temo e (...)
Não me horroriza tanto, como o ter
De resolver na Morte esse problema.
O Mistério é um Facto: eis o horror,
Eis todo o horror expresso.
É um Facto no qual vida, universo,
Seres, (...)
Cidades com seus comércios, lidas
É um livro de sonho aberto.
Proporções gigantescas e interiores
Tomam do sonho a ilusão e a aparência.
Não é a dúvida que me tortura;
É a certeza do (...) Facto,
Para o qual me é impossível ou cerrar
Ou pensar em cerrar os olhos d'alma.
E a existência desse Facto inerente
A tudo que aparece e que (...)
Uma irrealidade transparente,
Horrorosa, (...) perturbadora,
Onde mão invisível vai escrevendo
Desconhecido lema suspeitado
De horror inconcebido.
A consciência clara deste Facto,
Mais que imanente, alheia-me de tudo
E de todos, raivoso e (...)
Ao vê-los como vão, rindo e chorando
Felizes! — outros
Não haverá maneira d'esquivar-nos
D'encontrar o que houver?
É haver esse Facto e encontrá-lo
Que faz o horror da minha vida inteira
(Olhei de frente a frente a Verdade
Para poder sequer fingir sorrir.)
Pudesse eu a sonhar passar a vida
Mas ao Facto (...) da Morte
É impossível fugir. Queira, não queira,
Acorrentado à inevitabilidade
O homem sobe inconsciente ou (...)
Para ela.
850
Fernando Pessoa
Entremos na morte com alegria! Caramba
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
1 451
Fernando Pessoa
Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.
Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.
Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos.
Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos
Como se aquilo ainda fosse eles
E não o grande maillot interior que a nascença nos deu.
Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos.
Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos
Como se aquilo ainda fosse eles
E não o grande maillot interior que a nascença nos deu.
1 551
Fernando Pessoa
A PARTIDA [a]
A PARTIDA
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
1 723
Fernando Pessoa
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
1 125