Poemas neste tema
Noite e Lua
Fernando Pessoa
HORA MORTA
Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...
Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...
Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
1 525
Fernando Pessoa
IV - MINUETE INVISÍVEL
IV
MINUETE INVISÍVEL
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar..
Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...
Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...
Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...
E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...
Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar...
MINUETE INVISÍVEL
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar..
Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...
Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...
Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...
E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...
Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar...
851
Fernando Pessoa
V - HIEMAL
V
HIEMAL
Baladas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas ainda aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...
Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...
E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas, e as estrelas
São delas... Ei-las alheadas...
E são fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...
Toadas afastadas, irreais, de baladas...
Ais...
HIEMAL
Baladas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas ainda aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...
Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...
E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas, e as estrelas
São delas... Ei-las alheadas...
E são fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...
Toadas afastadas, irreais, de baladas...
Ais...
1 369
Fernando Pessoa
Linda noite a desta lua,
Linda noite a desta lua,
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
1 663
Fernando Pessoa
Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.
801
Fernando Pessoa
5 - GOBLIN DANCE
First there was but the moon
And the black‑tramelled trees
In the lunar lagoon
Of the forgotten breeze.
Then some unseen thing stirred
Where the moon‑silence snowed
And a vague whirl unheard
Vacantly tip‑toed.
Slowly, idly, alone,
Beyond the eyes of sight,
Somewhere invisibly shown,
They danced their delight.
Their far vagueness wound
Round the heart a pain,
A phantom fear found
Voluble and vain.
The heart remembered lives
Before loves and homes,
Whose rare memory revives
Only when this dance comes.
A wish for a vague thing soon,
A loosened sense of selves,
A thing in the soul like moon,
Aught in the hopes like elves -
Tip‑toe aerial gliding
Shadow‑lunar blent,
Bending, mingling, hiding,
To and fro they went.
Left and right, belonging
To no place, they swayed.
A low pipe, like longing,
To their dancing played.
There, in the silence dropped
Like a thing on the ground,
Whirled they awhile, then stopped,
Then renewed their round,
Till with their slowing turns
The cold air grows more bare.
Then the mere moonlight returns
And there had been nothing there.
And the black‑tramelled trees
In the lunar lagoon
Of the forgotten breeze.
Then some unseen thing stirred
Where the moon‑silence snowed
And a vague whirl unheard
Vacantly tip‑toed.
Slowly, idly, alone,
Beyond the eyes of sight,
Somewhere invisibly shown,
They danced their delight.
Their far vagueness wound
Round the heart a pain,
A phantom fear found
Voluble and vain.
The heart remembered lives
Before loves and homes,
Whose rare memory revives
Only when this dance comes.
A wish for a vague thing soon,
A loosened sense of selves,
A thing in the soul like moon,
Aught in the hopes like elves -
Tip‑toe aerial gliding
Shadow‑lunar blent,
Bending, mingling, hiding,
To and fro they went.
Left and right, belonging
To no place, they swayed.
A low pipe, like longing,
To their dancing played.
There, in the silence dropped
Like a thing on the ground,
Whirled they awhile, then stopped,
Then renewed their round,
Till with their slowing turns
The cold air grows more bare.
Then the mere moonlight returns
And there had been nothing there.
1 591
Fernando Pessoa
2 - THE ISLAND
Weep, violin and viol,
Low flute and fine bassoon.
Lo, an enchanted isle
Moon‑bound beneath the moon!
My dream‑feet rustle through it
Chequered by shade and beam.
Oh, could my soul but woo it
From being but a dream!
Violin, viol and flute.
Lo, the isle hangs in air!
Through it I wander, mute
With too much loss of care.
And the air where't doth float
No air's, but light of moon.
Its paths are known to each note
Of viol and bassoon.
Yet is it real, that isle,
As our clear islands mortal?
Do flute, bassoon and viol
But ope with sound a portal,
And show, somehow, somewhere,
To what looks out from me
That pendulous island rare
In a moon‑woven sea?
Maybe 'tis truer than ours.
How true are these? But lo!
That isle that knows no hours
Nor needeth hours to know,
And that hath truth and root
Somewhere known of the moon,
Fades in the fading of flute,
Violin and bassoon.
Low flute and fine bassoon.
Lo, an enchanted isle
Moon‑bound beneath the moon!
My dream‑feet rustle through it
Chequered by shade and beam.
Oh, could my soul but woo it
From being but a dream!
Violin, viol and flute.
Lo, the isle hangs in air!
Through it I wander, mute
With too much loss of care.
And the air where't doth float
No air's, but light of moon.
Its paths are known to each note
Of viol and bassoon.
Yet is it real, that isle,
As our clear islands mortal?
Do flute, bassoon and viol
But ope with sound a portal,
And show, somehow, somewhere,
To what looks out from me
That pendulous island rare
In a moon‑woven sea?
Maybe 'tis truer than ours.
How true are these? But lo!
That isle that knows no hours
Nor needeth hours to know,
And that hath truth and root
Somewhere known of the moon,
Fades in the fading of flute,
Violin and bassoon.
1 485
Fernando Pessoa
OH, SOLITARY STAR
Oh, solitary star, that with bright ray
Lookst from the bosom of envolving night,
Loveliest that none contests thy spaceful way
Now when with rivals is the sky not dight.
Vouch safe on me to keep thy tiny stare
Blinking at night as if in sleepy joy,
Or as the sleepy eyes of some young fair
Who chides their closing to her thought's warm toy.
That there are other stars I well do know
And others that may shine more bright and true;
And yet I wish them not, for one doth so
Outwit decision and attention sue.
And if from this thou can no lesson learn.
Much hast thou spurned that Goodness may not spurn
Lookst from the bosom of envolving night,
Loveliest that none contests thy spaceful way
Now when with rivals is the sky not dight.
Vouch safe on me to keep thy tiny stare
Blinking at night as if in sleepy joy,
Or as the sleepy eyes of some young fair
Who chides their closing to her thought's warm toy.
That there are other stars I well do know
And others that may shine more bright and true;
And yet I wish them not, for one doth so
Outwit decision and attention sue.
And if from this thou can no lesson learn.
Much hast thou spurned that Goodness may not spurn
1 544
Fernando Pessoa
Was it the lyrical nightingale
Was it the lyrical nightingale
Forgot this music or told this tale?
A murmur of sorrow within me moves
Among the ghosts of unfound loves,
A breath of loss; like a lily faded,
By nought but the spell of that music aided.
I dream, and the sadness of being alive
Is like a mist round the things that strive
For an uttered word or a sense of being.
What sickness of having no seeing but seeing
Haunts with a murmur, thrills with a fear
The unnatural sense of my being here?
Nothing: the moonlight. Nothing: the breeze.
For sure there are, on remoter seas
Than mere containing of thoughts and dreams,
More earthless sorrows, less lucid gleams.
Care, and the fret of not having aught
If there, yet weigh not on life and thought.
Was it the music that came or ended?
Was it that it lost me or that it blended
With that of me that was born to hear it?
A voiceless sighing incarnate spirit,
A murmur of waters that somewhere shine,
A moonlight of dreaming it, a curious wine,
A splendour of opening vision to stars
No separateness from seeing them mars,
A clarion of moon-morn issuing from
The earliest place before love and home —
This, and the music I scarce can hear …
Lie still, my heart! be a dream, my fear!
Forgot this music or told this tale?
A murmur of sorrow within me moves
Among the ghosts of unfound loves,
A breath of loss; like a lily faded,
By nought but the spell of that music aided.
I dream, and the sadness of being alive
Is like a mist round the things that strive
For an uttered word or a sense of being.
What sickness of having no seeing but seeing
Haunts with a murmur, thrills with a fear
The unnatural sense of my being here?
Nothing: the moonlight. Nothing: the breeze.
For sure there are, on remoter seas
Than mere containing of thoughts and dreams,
More earthless sorrows, less lucid gleams.
Care, and the fret of not having aught
If there, yet weigh not on life and thought.
Was it the music that came or ended?
Was it that it lost me or that it blended
With that of me that was born to hear it?
A voiceless sighing incarnate spirit,
A murmur of waters that somewhere shine,
A moonlight of dreaming it, a curious wine,
A splendour of opening vision to stars
No separateness from seeing them mars,
A clarion of moon-morn issuing from
The earliest place before love and home —
This, and the music I scarce can hear …
Lie still, my heart! be a dream, my fear!
1 443
Fernando Pessoa
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
995
Fernando Pessoa
I have outwatched the Lesser Wain, and seen
I have outwatched the Lesser Wain, and seen
The remnant stars grow pale; but the used night
Has to the thought that used it sterile been,
Nor lost that use by pressure of delight.
My fixed, impatient thought no reason read;
What I scarce read my unthought thought made stray;
My soul between the living and the dead
Was a blown vapour, without place or way.
What the morn brought or took I cannot tell,
That had no use to bring or use to find.
All night I lay under the barren spell.
The day cannot dispel what the void wind
Ruinous built in the shorn night: its glow
Can but the night's made desert brightly show.
The remnant stars grow pale; but the used night
Has to the thought that used it sterile been,
Nor lost that use by pressure of delight.
My fixed, impatient thought no reason read;
What I scarce read my unthought thought made stray;
My soul between the living and the dead
Was a blown vapour, without place or way.
What the morn brought or took I cannot tell,
That had no use to bring or use to find.
All night I lay under the barren spell.
The day cannot dispel what the void wind
Ruinous built in the shorn night: its glow
Can but the night's made desert brightly show.
1 412
Fernando Pessoa
Desperto de sonhar-te
Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.
Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.
Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.
Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.
Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
1 394
Fernando Pessoa
Não fales alto que isto aqui é vida —
Não fales alto que isto aqui é vida —
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos...
Somos todos aquilo...
Bamboleamos, moscas, com asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas...
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me faz carne os ossos...
Somos todos aquilo...
Bamboleamos, moscas, com asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.
1 476
Fernando Pessoa
INSOMNIA
Last night I had not the blessing
Of a deep or a quiet slumber,
For thoughts most wild and distressing
Every woe and fear expressing
My drowsy sense did encumber.
And the clock, with its curst possession
Of night with its monotone,
Is a madman mad with a word-obsession,
Sorrowfully lone.
A thousand times a reeling
Of reason around my world,
And around reason feeling
The very darkness wheeling
In a blacker darkness hurled.
And the clock! Ah, its curst possession
Of night with its monotone!
How it treasured well its word-obsession
Dolorously lone!
If I slept awhile, without number
Came the dreams, and I had not the grace
Of the shade of a shadow of slumber.
I fell in descent from reason steep,
In consciousness pale disgrace;
There was a fall half-senseless and deep
And I woke with a start from sleep
For I struck the bottom of space.
And I woke to the clocks's possession
Of night with its monotone,
Chuckling a meaning past its obsession,
Maniacally lone.
Of a deep or a quiet slumber,
For thoughts most wild and distressing
Every woe and fear expressing
My drowsy sense did encumber.
And the clock, with its curst possession
Of night with its monotone,
Is a madman mad with a word-obsession,
Sorrowfully lone.
A thousand times a reeling
Of reason around my world,
And around reason feeling
The very darkness wheeling
In a blacker darkness hurled.
And the clock! Ah, its curst possession
Of night with its monotone!
How it treasured well its word-obsession
Dolorously lone!
If I slept awhile, without number
Came the dreams, and I had not the grace
Of the shade of a shadow of slumber.
I fell in descent from reason steep,
In consciousness pale disgrace;
There was a fall half-senseless and deep
And I woke with a start from sleep
For I struck the bottom of space.
And I woke to the clocks's possession
Of night with its monotone,
Chuckling a meaning past its obsession,
Maniacally lone.
1 869
Fernando Pessoa
Onde a serenata?
Onde a serenata?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...
Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...
Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...
Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...
Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…
E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?
O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...
Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...
Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...
Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...
Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…
E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?
O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
988
Fernando Pessoa
Tudo se funde no movimento
Tudo se funde no movimento
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.
A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.
A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
1 466
Fernando Pessoa
Cantos, sois sombras da minha alma. Todos
Cantos, sois sombras da minha alma. Todos
Sois ilusões; minha alma canta em vós
Pedindo esse descanso que não tem.
Fugir de mim não posso.
VOZ LÍMPIDA:
Venho d'além das estrelas,
Sou mais bela do que elas,
Cantar-te, Fausto,
Canções mais tristes que o mundo,
Cheias dum vagar profundo,
Té sorrir teu coração
Exausto.
Esta minha melodia
Fará abrir, como dia
No seu raiar,
Teu coração entornando
O seu fel antigo e brando
Como uma flor[?] e a ilusão
Voltar.
OUTRA:
Eu chorarei sobre ti
Lágrimas de redenção.
Os meus cabelos compridos
Em que tantos envolvi
Tua face envolverão.
Nunca mais tu sentirás
Dentro em ti a sensação
De desolada desgraça;
És meu e comigo virás
Para a terra da ilusão.
No meu seio de luar
Ganharás como um perdão
Por tanta mágoa. Teus olhos
Dormirão, e ao acordar
Outra vez se cerrarão,
Ao sono te voltarão.
(Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.)
Sois ilusões; minha alma canta em vós
Pedindo esse descanso que não tem.
Fugir de mim não posso.
VOZ LÍMPIDA:
Venho d'além das estrelas,
Sou mais bela do que elas,
Cantar-te, Fausto,
Canções mais tristes que o mundo,
Cheias dum vagar profundo,
Té sorrir teu coração
Exausto.
Esta minha melodia
Fará abrir, como dia
No seu raiar,
Teu coração entornando
O seu fel antigo e brando
Como uma flor[?] e a ilusão
Voltar.
OUTRA:
Eu chorarei sobre ti
Lágrimas de redenção.
Os meus cabelos compridos
Em que tantos envolvi
Tua face envolverão.
Nunca mais tu sentirás
Dentro em ti a sensação
De desolada desgraça;
És meu e comigo virás
Para a terra da ilusão.
No meu seio de luar
Ganharás como um perdão
Por tanta mágoa. Teus olhos
Dormirão, e ao acordar
Outra vez se cerrarão,
Ao sono te voltarão.
(Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.)
1 528
Fernando Pessoa
Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
1 786
Fernando Pessoa
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
861
Fernando Pessoa
Ó mera brancura
Ó mera brancura
Do luar que se esfolha,
Ó rio da alvura
Do luar que te molha -
Montanhas que ao longe
Não têm um grito,
Todas um só monge
No claustro infinito -
Murmúrio das águas
Que ao luar que as não vê
É sombra, sem mágoas,
Macieza que é
A alma da noite,
A sombra do luar...
Ó nunca eu me afoite
Até não sonhar!...
Wardour + Pessoa
Do luar que se esfolha,
Ó rio da alvura
Do luar que te molha -
Montanhas que ao longe
Não têm um grito,
Todas um só monge
No claustro infinito -
Murmúrio das águas
Que ao luar que as não vê
É sombra, sem mágoas,
Macieza que é
A alma da noite,
A sombra do luar...
Ó nunca eu me afoite
Até não sonhar!...
Wardour + Pessoa
1 507
Fernando Pessoa
SONNET OF A SCEPTIC
Long ere now Phoebus sunk in western skies
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
1 593
Fernando Pessoa
Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço.
Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço.
Houve em mim um momento de vida diferente entre sono e sono.
Se ninguém condecora o sol por dar luz,
Para que condecoram quem é herói?
Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo
Nesse momento em que acordei, dei por todo o mundo —
Uma grande noite incluindo tudo
Só para fora
Houve em mim um momento de vida diferente entre sono e sono.
Se ninguém condecora o sol por dar luz,
Para que condecoram quem é herói?
Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo
Nesse momento em que acordei, dei por todo o mundo —
Uma grande noite incluindo tudo
Só para fora
1 424
Fernando Pessoa
A noite desce, o calor soçobra um pouco.
A noite desce, o calor soçobra um pouco.
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação do sentido secundário chamado a vista,
A vista por onde me separo das coisas,
E m'aproximo das estrelas e de coisas distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se.
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação do sentido secundário chamado a vista,
A vista por onde me separo das coisas,
E m'aproximo das estrelas e de coisas distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se.
1 446
Fernando Pessoa
I - PLENILÚNIO
FICÇÕES DO INTERLÚDIO
I
PLENILÚNIO
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
I
PLENILÚNIO
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
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