Poemas neste tema
Amor Romântico
Charles Bukowski
O Soldado, Sua Mulher e o Vagabundo
eu vivia como um vagabundo em São Francisco mas certa vez consegui
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.
1 125
Charles Bukowski
Uma Parada Na Viagem
fazer amor ao sol, debaixo do sol da manhã
num quarto de hotel
sobre um beco
onde homens pobres se empurram por garrafas;
fazer amor ao sol
fazer amor sobre um carpete mais vermelho que nossos sangues,
fazer amor enquanto os garotos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazer amor sobre uma fotografia de Paris
e um pacote aberto de Chesterfields,
fazer amor enquanto outros homens – pobres diabos –
trabalham.
Desse momento – para agora...
talvez anos no modo como medem,
mas há apenas uma sentença que segue em minha cabeça –
há tantos dias
em que a vida faz uma parada e se levanta e se senta
e aguarda como um trem sobre os trilhos.
passo pelo hotel às 8
e às 5; há gatos pelo beco
e garrafas e mendigos,
e eu ergo meus olhos pra janela e penso,
já não sei mais onde você está,
e eu sigo em frente e me pergunto onde
a vida vai
quando faz uma parada.
num quarto de hotel
sobre um beco
onde homens pobres se empurram por garrafas;
fazer amor ao sol
fazer amor sobre um carpete mais vermelho que nossos sangues,
fazer amor enquanto os garotos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazer amor sobre uma fotografia de Paris
e um pacote aberto de Chesterfields,
fazer amor enquanto outros homens – pobres diabos –
trabalham.
Desse momento – para agora...
talvez anos no modo como medem,
mas há apenas uma sentença que segue em minha cabeça –
há tantos dias
em que a vida faz uma parada e se levanta e se senta
e aguarda como um trem sobre os trilhos.
passo pelo hotel às 8
e às 5; há gatos pelo beco
e garrafas e mendigos,
e eu ergo meus olhos pra janela e penso,
já não sei mais onde você está,
e eu sigo em frente e me pergunto onde
a vida vai
quando faz uma parada.
1 169
Charles Bukowski
Para a Pequena
ela está no andar de baixo cantando, tocando seu
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
1 091
Charles Bukowski
Jane E Droll
estávamos num barraco apertado na
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
1 022
Charles Bukowski
Um Poema de Amor
todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas,
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens, algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido, algumas amam
bem, outras nem
tanto, as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas, todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas,
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens, algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido, algumas amam
bem, outras nem
tanto, as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas, todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.
1 555
Charles Bukowski
Confissões
esperando pela morte
como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitíssimo pela
minha esposa
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, então
talvez
de novo:
“Hank!”
Hank não vai
responder
não é a minha morte que
me preocupa, é a minha esposa
deixada sozinha com este
monte
de nada.
eu quero que
ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
a seu lado
e mesmo as inúteis
discussões
foram coisas
totalmente esplêndidas
e as palavras
duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitíssimo pela
minha esposa
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, então
talvez
de novo:
“Hank!”
Hank não vai
responder
não é a minha morte que
me preocupa, é a minha esposa
deixada sozinha com este
monte
de nada.
eu quero que
ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
a seu lado
e mesmo as inúteis
discussões
foram coisas
totalmente esplêndidas
e as palavras
duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
1 114
Charles Bukowski
Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio
“o amor é como um sino
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
1 019
Charles Bukowski
O Amor É Uma Forma de Egoísmo
vadiagem, a trompa de eustáquio e a hera verde insetomorta
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
1 165
Charles Bukowski
Metendo Até As Bolas
metendo até as bolas
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo às quatro da manhã
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glória,
ó bolas, ó trombeta e bolas
ó chicote branco e bolas, ó
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bêbado sóbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que não metem não sabem.
os que não podem meter são semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e árvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tão tranquila quanto
possível agora.
enquanto isso, ó bolas, ó bolas, ó belas, ó belas bolas, bolas
belas, ó bolas metidas bolas ó metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lágrimas, eu amo
vocês
mulheres, eu amo vocês.
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo às quatro da manhã
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glória,
ó bolas, ó trombeta e bolas
ó chicote branco e bolas, ó
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bêbado sóbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que não metem não sabem.
os que não podem meter são semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e árvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tão tranquila quanto
possível agora.
enquanto isso, ó bolas, ó bolas, ó belas, ó belas bolas, bolas
belas, ó bolas metidas bolas ó metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lágrimas, eu amo
vocês
mulheres, eu amo vocês.
4 088
Charles Bukowski
Mulher Adormecida
fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
740
Charles Bukowski
Corcunda
momentos de danação e momentos de glória
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladíolo,
se bem que não tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso é uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mãos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crânio que vai carregar todos esses
olhos rumo à morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
não pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quê?
mulheres caídas por homens como porcos
mulheres caídas por homens com mãos como galhos secos
mulheres caídas por homens que trepam mal
mulheres caídas por coisas de homens
mulheres caídas
caídas
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequência decidem fugir da
desordem e da confusão.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas não estou morto.
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladíolo,
se bem que não tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso é uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mãos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crânio que vai carregar todos esses
olhos rumo à morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
não pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quê?
mulheres caídas por homens como porcos
mulheres caídas por homens com mãos como galhos secos
mulheres caídas por homens que trepam mal
mulheres caídas por coisas de homens
mulheres caídas
caídas
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequência decidem fugir da
desordem e da confusão.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas não estou morto.
1 126
Charles Bukowski
Algo Pra Valer, Uma Boa Mulher
ficam sempre escrevendo sobre os touros, os toureiros,
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.
976
Charles Bukowski
O Banho
nós gostamos de tomar banho depois
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
1 755
Charles Bukowski
Escala
Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.
1 028
Charles Bukowski
Inflamados de Amor (Para N.W.)
pequena garota morena de
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
1 218
Charles Bukowski
O Melhor Poema de Amor Que Posso Escrever No Momento
ouça, eu disse a ela,
por que você não enfia sua língua
no meu
cu?
não, ela disse.
bem, eu disse, se eu enfiar minha língua
no seu cu primeiro
aí você enfia a sua língua
no meu
cu?
tá bom, ela disse.
mergulhei de cabeça lá embaixo
e dei uma olhada,
abri uma parte,
então projetei minha língua...
aí não, ela disse,
ah, hahaha, aí não, esse não é
o lugar certo!
vocês mulheres têm mais buracos do que
queijo suíço...
não quero que você
faça
isso.
por quê?
bem, aí eu vou ter que fazer
também e aí na próxima festa
você vai contar às pessoas que eu lambi o seu cu
com a minha língua.
e se eu prometer que não vou
contar?
você vai ficar bêbado, você vai
contar.
o.k., eu disse, vire o corpo,
vou enfiar no
outro lugar.
ela se virou e eu enfiei minha língua
naquele outro lugar.
estávamos apaixonados
estávamos apaixonados
exceto por aquilo que eu falava nas
festas
e não estávamos apaixonados
pelos cus
um do outro.
ela quer que eu escreva um poema de amor
mas acho que se as pessoas
não conseguem amar os cus
umas das outras
e os peidos e as merdas e as partes terríveis
assim como amam
as partes boas,
isso não é o amor completo.
então até onde podem chegar os poemas de amor,
até onde chegamos nós,
este poema vai ter que
servir.
ISSO É O QUE VOCÊ GANHA PELO SEU SEXISMO
por que você não enfia sua língua
no meu
cu?
não, ela disse.
bem, eu disse, se eu enfiar minha língua
no seu cu primeiro
aí você enfia a sua língua
no meu
cu?
tá bom, ela disse.
mergulhei de cabeça lá embaixo
e dei uma olhada,
abri uma parte,
então projetei minha língua...
aí não, ela disse,
ah, hahaha, aí não, esse não é
o lugar certo!
vocês mulheres têm mais buracos do que
queijo suíço...
não quero que você
faça
isso.
por quê?
bem, aí eu vou ter que fazer
também e aí na próxima festa
você vai contar às pessoas que eu lambi o seu cu
com a minha língua.
e se eu prometer que não vou
contar?
você vai ficar bêbado, você vai
contar.
o.k., eu disse, vire o corpo,
vou enfiar no
outro lugar.
ela se virou e eu enfiei minha língua
naquele outro lugar.
estávamos apaixonados
estávamos apaixonados
exceto por aquilo que eu falava nas
festas
e não estávamos apaixonados
pelos cus
um do outro.
ela quer que eu escreva um poema de amor
mas acho que se as pessoas
não conseguem amar os cus
umas das outras
e os peidos e as merdas e as partes terríveis
assim como amam
as partes boas,
isso não é o amor completo.
então até onde podem chegar os poemas de amor,
até onde chegamos nós,
este poema vai ter que
servir.
ISSO É O QUE VOCÊ GANHA PELO SEU SEXISMO
3 110
Charles Bukowski
Lua Azul, Ó Luuuuuaaazuuuullll, Te Adoro Tanto!
gosto de você, querida, eu te amo,
a única razão por que trepei com L. é porque você trepou
com Z. e aí eu trepei com R. e você trepou com N.
e porque você trepou com N. eu precisei trepar
com Y. Mas penso em você constantemente, sinto você
aqui na minha barriga como um bebê, amor é como eu chamaria isso,
não importa o que aconteça eu chamaria isso de amor, e então
você trepou com C. e então antes que eu pudesse me mexer de novo
você trepou com W., então aí eu tive que trepar com D. Mas
quero que você saiba que eu te amo, penso em você
constantemente, acho que nunca amei alguém
como amo você.
uau au uau au au
uau au uau au au
a única razão por que trepei com L. é porque você trepou
com Z. e aí eu trepei com R. e você trepou com N.
e porque você trepou com N. eu precisei trepar
com Y. Mas penso em você constantemente, sinto você
aqui na minha barriga como um bebê, amor é como eu chamaria isso,
não importa o que aconteça eu chamaria isso de amor, e então
você trepou com C. e então antes que eu pudesse me mexer de novo
você trepou com W., então aí eu tive que trepar com D. Mas
quero que você saiba que eu te amo, penso em você
constantemente, acho que nunca amei alguém
como amo você.
uau au uau au au
uau au uau au au
979
Charles Bukowski
Um Poema de Amor Para Todas As Mulheres Que Eu Conheci
todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
1 221
Charles Bukowski
Para Aquelas 3
enlouquecendo
sentado de bobeira ouvindo valsas
de Chopin, tendo dormido com 3 mulheres diferentes
em 3 diferentes estados
em duas semanas, o ritmo tem sido
difícil, sentado em bares de aeroporto
de mãos dadas com lindas mulheres
que leram Tolstói, Turguêniev e
Bukowski.
espantoso quão completamente uma mulher pode dar seu
amor – quando quer
fazer isso.
agora as mulheres estão longínquas
e fico aqui sentado de pés descalços
barba por fazer, bebendo cerveja e
ouvindo essas valsas
de Chopin, e
pensando em cada uma das mulheres
e me pergunto se elas pensam em mim
ou será que eu sou só um livro de poemas
perdido no meio de outros livros de poemas?
perdido no meio de Turguêniev e Tolstói.
não importa. elas deram o bastante.
quando tocarem meu livro agora
vão reconhecer os contornos do meu corpo
vão reconhecer minha risada e meu amor e
minha tristeza.
meus agradecimentos.
sentado de bobeira ouvindo valsas
de Chopin, tendo dormido com 3 mulheres diferentes
em 3 diferentes estados
em duas semanas, o ritmo tem sido
difícil, sentado em bares de aeroporto
de mãos dadas com lindas mulheres
que leram Tolstói, Turguêniev e
Bukowski.
espantoso quão completamente uma mulher pode dar seu
amor – quando quer
fazer isso.
agora as mulheres estão longínquas
e fico aqui sentado de pés descalços
barba por fazer, bebendo cerveja e
ouvindo essas valsas
de Chopin, e
pensando em cada uma das mulheres
e me pergunto se elas pensam em mim
ou será que eu sou só um livro de poemas
perdido no meio de outros livros de poemas?
perdido no meio de Turguêniev e Tolstói.
não importa. elas deram o bastante.
quando tocarem meu livro agora
vão reconhecer os contornos do meu corpo
vão reconhecer minha risada e meu amor e
minha tristeza.
meus agradecimentos.
1 035
Charles Bukowski
A Deusa de Um Metro E Oitenta (Para S.D.)
sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela uma abundância para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lábio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de você. não voei até
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu despenco
e nós dormimos.
ela é selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no íntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
não está aqui.
COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela uma abundância para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lábio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de você. não voei até
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu despenco
e nós dormimos.
ela é selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no íntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
não está aqui.
COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES
1 257
Charles Bukowski
Resposta Para Certa Espécie de Crítica
uma dama talvez se encontre com um homem
por causa do jeito como ele escreve
e logo a dama já poderia estar sugerindo
outro jeito de escrever.
mas se o homem amar a dama
ele vai continuar escrevendo do jeito que escreve
e se o homem amar o poema
ele vai continuar escrevendo do jeito que deve
e se o homem amar a dama e o poema
ele sabe o que é o amor
duas vezes mais do que qualquer outro homem
eu sei o que é o amor.
este poema é para dizer isso à dama.
por causa do jeito como ele escreve
e logo a dama já poderia estar sugerindo
outro jeito de escrever.
mas se o homem amar a dama
ele vai continuar escrevendo do jeito que escreve
e se o homem amar o poema
ele vai continuar escrevendo do jeito que deve
e se o homem amar a dama e o poema
ele sabe o que é o amor
duas vezes mais do que qualquer outro homem
eu sei o que é o amor.
este poema é para dizer isso à dama.
1 375
Charles Bukowski
2 Cravos
meu amor me trouxe 2 cravos
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
1 033
Charles Bukowski
Quente
ela era quente, ela era tão quente
eu não queria que ninguém mais ficasse com ela,
e quando eu não chegava em casa a tempo
ela já tinha se mandado, e eu não suportava isso –
eu enlouquecia...
era ridículo, eu sei, infantil,
mas eu estava preso naquilo, eu estava preso.
entreguei a correspondência toda
e aí Henderson me colocou na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
o maldito troço começou a esquentar na metade da coleta
e a noite avançava
eu pensando sobre a minha quente Miriam
e pulando pra dentro e pra fora do caminhão
enchendo malotes de correspondência
o motor cada vez mais aquecido
o ponteiro da temperatura estava no máximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu saltava pra dentro e pra fora
só mais 3 coletas e na estação
eu estaria, meu carro
esperando pra me levar até Miriam sentada em meu sofá azul
uísque com gelo na mão
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como de costume,
só mais duas coletas...
o caminhão enguiçou num semáforo, era o inferno
tomando conta
de novo...
eu precisava estar em casa às 8, 8 era o horário limite para Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou numa sinaleira
a ½ quadra da estação...
o motor não pegava, não tinha como pegar...
tranquei as portas, tirei a chave e fui correndo até a
estação...
joguei as chaves na mesa... registrei minha saída...
“o seu maldito caminhão está enguiçado na sinaleira,
Pico com Western...”
...atravessei o corredor às pressas, enfiei a chave na porta,
abri... o copo da bebida estava lá com um bilhete:
filho da puta:
eu esperei até oito e 5
cê não me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
fiquei esperando dia todo
Miriam
eu servi um drinque e deixei a água ir enchendo a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
procurando por Miriam
seu ursinho de pelúcia roxo segurava o bilhete
recostado num travesseiro
dei um drinque para o ursinho, um drinque para mim
e entrei na água
quente.
eu não queria que ninguém mais ficasse com ela,
e quando eu não chegava em casa a tempo
ela já tinha se mandado, e eu não suportava isso –
eu enlouquecia...
era ridículo, eu sei, infantil,
mas eu estava preso naquilo, eu estava preso.
entreguei a correspondência toda
e aí Henderson me colocou na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
o maldito troço começou a esquentar na metade da coleta
e a noite avançava
eu pensando sobre a minha quente Miriam
e pulando pra dentro e pra fora do caminhão
enchendo malotes de correspondência
o motor cada vez mais aquecido
o ponteiro da temperatura estava no máximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu saltava pra dentro e pra fora
só mais 3 coletas e na estação
eu estaria, meu carro
esperando pra me levar até Miriam sentada em meu sofá azul
uísque com gelo na mão
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como de costume,
só mais duas coletas...
o caminhão enguiçou num semáforo, era o inferno
tomando conta
de novo...
eu precisava estar em casa às 8, 8 era o horário limite para Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou numa sinaleira
a ½ quadra da estação...
o motor não pegava, não tinha como pegar...
tranquei as portas, tirei a chave e fui correndo até a
estação...
joguei as chaves na mesa... registrei minha saída...
“o seu maldito caminhão está enguiçado na sinaleira,
Pico com Western...”
...atravessei o corredor às pressas, enfiei a chave na porta,
abri... o copo da bebida estava lá com um bilhete:
filho da puta:
eu esperei até oito e 5
cê não me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
fiquei esperando dia todo
Miriam
eu servi um drinque e deixei a água ir enchendo a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
procurando por Miriam
seu ursinho de pelúcia roxo segurava o bilhete
recostado num travesseiro
dei um drinque para o ursinho, um drinque para mim
e entrei na água
quente.
1 129
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
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