Poemas neste tema
Amor Romântico
Charles Bukowski
Você
você é uma fera, ela disse
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?
1 199
Charles Bukowski
A Música Suave
vence o amor porque nela não há
feridas: pela manhã
a mulher liga o rádio, Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart. ferve os
ovos contando em voz alta os segundos: 56,
57, 58... descasca os ovos, os traz
para mim na cama. depois do café da manhã é
a mesma cadeira e ouvir a música
clássica. A mulher está no seu primeiro copo de
scotch e no seu terceiro cigarro. digo-lhe
que preciso ir ao hipódromo. ela
está aqui há 2 noites e 2 dias. “quando
voltarei a vê-la?” pergunto. ela
sugere que fique a meu critério.
aceno com a cabeça e Mozart toca.
feridas: pela manhã
a mulher liga o rádio, Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart. ferve os
ovos contando em voz alta os segundos: 56,
57, 58... descasca os ovos, os traz
para mim na cama. depois do café da manhã é
a mesma cadeira e ouvir a música
clássica. A mulher está no seu primeiro copo de
scotch e no seu terceiro cigarro. digo-lhe
que preciso ir ao hipódromo. ela
está aqui há 2 noites e 2 dias. “quando
voltarei a vê-la?” pergunto. ela
sugere que fique a meu critério.
aceno com a cabeça e Mozart toca.
1 233
Charles Bukowski
Provaremos As Ilhas E o Mar
sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
1 210
Charles Bukowski
Sandra
é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
1 362
Charles Bukowski
Já Vi Mendigos Demais Com Os Olhos Vidrados Bebendo Vinho Barato Debaixo da Ponte
você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
1 372
Charles Bukowski
A Deusa de Um Metro E Oitenta
sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.
depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.
ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.
ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.
depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.
ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.
ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
1 241
Charles Bukowski
Eu
mulheres não sabem como amar,
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
1 224
Charles Bukowski
Texana
ela é do Texas e pesa
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
1 270
Charles Bukowski
Problemas Relacionados À Outra Mulher
eu tinha lançado todo meu charme sobre ela
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”
ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.
aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”
ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.
aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
1 178
Charles Bukowski
Garotas Calmas E Limpas Em Vestidos de Algodão
tudo o que eu sempre conheci sempre foram putas,
[ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres calmas e
gentis – vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que essa paz
é apenas parcial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.
tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.
“nunca traga uma puta junto com você,” eu digo para
[meus
poucos amigos, “eu me apaixonarei por ela.”
“você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?
[ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres calmas e
gentis – vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que essa paz
é apenas parcial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.
tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.
“nunca traga uma puta junto com você,” eu digo para
[meus
poucos amigos, “eu me apaixonarei por ela.”
“você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?
1 264
Charles Bukowski
M.T.
M.T.[1] ela morava em Galveston e fazia
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
1 142
Charles Bukowski
Esta Noite
“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
1 284
Manuel Bandeira
Raquel
Raquel, angélica flor
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
1 158
Manuel Bandeira
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 232
Manuel Bandeira
Imagens de Juiz de Fora
I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
1 107
Manuel Bandeira
Mote e Glosas
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria?
Como poderei viver
Sem a tua companhia?
(Toada de Diamantina)
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Estrela, por que me deixas
Sem a tua companhia?
Sonho contigo de noite,
Sonho contigo de dia:
Foi no que deu esta vida
Sem a tua companhia.
Água fria fica quente,
Água quente fica fria.
Mas eu fico sempre frio
Sem a tua companhia.
Nunca mais vou no meu bote
Pescar peixe na baía:
Não quero saber de pesca
Sem a tua companhia.
Viver fora da água fria?
Como poderei viver
Sem a tua companhia?
(Toada de Diamantina)
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Estrela, por que me deixas
Sem a tua companhia?
Sonho contigo de noite,
Sonho contigo de dia:
Foi no que deu esta vida
Sem a tua companhia.
Água fria fica quente,
Água quente fica fria.
Mas eu fico sempre frio
Sem a tua companhia.
Nunca mais vou no meu bote
Pescar peixe na baía:
Não quero saber de pesca
Sem a tua companhia.
3 598
Manuel Bandeira
Epitalâmio para Maria da Glória e Rodolfo
Cantei Maria da Glória
recém-nascida. Hoje canto
a mesma na plena glória
de mulher recém-casada
— adorável e adorada.
Ela, pelo seu encanto,
acabou por alcançar
com quem o mais pelo par
de que no mundo há memória
fazer. Assim Deus os fez
e os uniu. Glória ao marquês
Rodolfo! e as bênçãos não cessem
dos céus aos dois, pois merecem.
recém-nascida. Hoje canto
a mesma na plena glória
de mulher recém-casada
— adorável e adorada.
Ela, pelo seu encanto,
acabou por alcançar
com quem o mais pelo par
de que no mundo há memória
fazer. Assim Deus os fez
e os uniu. Glória ao marquês
Rodolfo! e as bênçãos não cessem
dos céus aos dois, pois merecem.
636
Manuel Bandeira
Temas e Voltas
Em brigas não tomo parte,
À morros não subo não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
No amor ainda tomo parte,
Mas não me esbaldo, isso não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
De Eros a arriscada arte
Sempre usei com discrição:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Bem que desejara amar-te
Sem medida nem razão.
Mas qual! Se não tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
À morros não subo não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
No amor ainda tomo parte,
Mas não me esbaldo, isso não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
De Eros a arriscada arte
Sempre usei com discrição:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Bem que desejara amar-te
Sem medida nem razão.
Mas qual! Se não tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
1 175
Manuel Bandeira
Madrigal Epitalâmico
Ady Marinho,
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,
Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,
Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
1 103
Manuel Bandeira
A Moussy
De John o agrado mais terno,
De Tontje o olhar mais risonho
Tomo e com eles componho
Alguma coisa de eterno,
De fino, de leve — um sonho,
Um pensamento, um perfume,
À carícia mais querida,
— Um beijo, em que se resume
Toda a afeição de uma vida.
De Tontje o olhar mais risonho
Tomo e com eles componho
Alguma coisa de eterno,
De fino, de leve — um sonho,
Um pensamento, um perfume,
À carícia mais querida,
— Um beijo, em que se resume
Toda a afeição de uma vida.
1 058
Manuel Bandeira
Dois Anúncios
I- RONDÓ DE EFEITO
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
1 112
Manuel Bandeira
Marie-claude
Quelque chose de doux, três doux,
Três (j em ai Pâme toute chaude)
Sinsinue en moi tout à coup:
C'est que je pense à Marie-Claude.
Três (j em ai Pâme toute chaude)
Sinsinue en moi tout à coup:
C'est que je pense à Marie-Claude.
1 037
Manuel Bandeira
Madrigal Muito Fácil
Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.
Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.
Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.
Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.
Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.
Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.
Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
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