Poemas neste tema
Silêncio
António Ramos Rosa
Mediadora do Sono
É uma nuvem que repousa? Um barco
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.
Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.
Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
1 146
António Ramos Rosa
Mediadora Negra I
A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 057
António Ramos Rosa
É o Lugar. As Cores Rodam
É o lugar. As cores rodam
no silêncio, um leque branco.
Não mais nomes que não se reinventem,
sentindo a delicadeza do ar,
o dorso fascinante tão próximo e longínquo.
no silêncio, um leque branco.
Não mais nomes que não se reinventem,
sentindo a delicadeza do ar,
o dorso fascinante tão próximo e longínquo.
1 067
António Ramos Rosa
Sem Desígnios Sem Pedir Transparências
Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 082
António Ramos Rosa
A Mão Silenciosa Percorre o Dorso Cálido
A mão silenciosa percorre o dorso cálido
que é um adormecer contínuo nos limites.
Nada mais que terra e solidão solar.
Nada treme e tudo está suspenso no vazio.
Nada se diz. É o silêncio da palavra.
que é um adormecer contínuo nos limites.
Nada mais que terra e solidão solar.
Nada treme e tudo está suspenso no vazio.
Nada se diz. É o silêncio da palavra.
1 124
António Ramos Rosa
O Que o Silêncio Não Diz E Permanece
O que o silêncio não diz e permanece
intransferível raiz do espaço.
Vislumbre que se prolonga sem fulgor.
Latência viva que não estala e inicia.
intransferível raiz do espaço.
Vislumbre que se prolonga sem fulgor.
Latência viva que não estala e inicia.
1 046
António Ramos Rosa
Sentindo o Liso da Madeira, o Bosque
Sentindo o liso da madeira, o bosque
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
1 160
António Ramos Rosa
Origem
É preciso queimar os livros e calarmo-nos
Esta é a matéria bárbara a matéria viscosa
Aqui a vida conduz a uma ruptura
a mão procura a suavidade firme
tacteia e segue as suas linhas de força as primícias de um acorde
Fascinante ameaça
veneno que oculta vida nova
uma seiva já
um sabor dos gestos que tremem e que sabem
A palavra mais viva é a mais inesperada é a palavra nua
Eis o domínio interdito e obscuro
impenetrável
balbuciante memória do que não é a memória
luz que irriga as coisas em vez de as iluminar
sinal de uma madrugada de uma irradiação múltipla
Aqui começará o meu ritmo a minha melodia
Respiro já pela garganta do poema
Deixamos a segurança e a certeza
ante o arco da única pergunta
Somos a ruptura e o fluxo na falha
e subimos talvez para
a vertente de um silêncio que ascende constelado
Subversiva é a respiração desta palavra
surpresa de um ritmo e de um espaço
numa terra sem caminho
É um fogo líquido que abrasa este trajecto
Uma fé muscular uma fé lúcida
faz latir estas palavras subterrâneas
Para chegar às palavras que dão vida
Por um desenlace uma inconfessável evidência
Uma plenitude? Uma luz? Uma pobreza?
Numa terra queimada as crianças que brincam na poeira
olham deslumbradas uma palheta de mica
Pára detém-te junto deste muro arruinado
perto de uma pedra Palpa o grão de luz
segregada Toca nessa crepitação porosa
Modela na origem a matéria dos sinais
Escreve mas para dissipar o que está escrito
Esta é a matéria bárbara a matéria viscosa
Aqui a vida conduz a uma ruptura
a mão procura a suavidade firme
tacteia e segue as suas linhas de força as primícias de um acorde
Fascinante ameaça
veneno que oculta vida nova
uma seiva já
um sabor dos gestos que tremem e que sabem
A palavra mais viva é a mais inesperada é a palavra nua
Eis o domínio interdito e obscuro
impenetrável
balbuciante memória do que não é a memória
luz que irriga as coisas em vez de as iluminar
sinal de uma madrugada de uma irradiação múltipla
Aqui começará o meu ritmo a minha melodia
Respiro já pela garganta do poema
Deixamos a segurança e a certeza
ante o arco da única pergunta
Somos a ruptura e o fluxo na falha
e subimos talvez para
a vertente de um silêncio que ascende constelado
Subversiva é a respiração desta palavra
surpresa de um ritmo e de um espaço
numa terra sem caminho
É um fogo líquido que abrasa este trajecto
Uma fé muscular uma fé lúcida
faz latir estas palavras subterrâneas
Para chegar às palavras que dão vida
Por um desenlace uma inconfessável evidência
Uma plenitude? Uma luz? Uma pobreza?
Numa terra queimada as crianças que brincam na poeira
olham deslumbradas uma palheta de mica
Pára detém-te junto deste muro arruinado
perto de uma pedra Palpa o grão de luz
segregada Toca nessa crepitação porosa
Modela na origem a matéria dos sinais
Escreve mas para dissipar o que está escrito
1 143
António Ramos Rosa
A Sede do Silêncio
A sede do silêncio é um fruto do silêncio. A sede da palavra nasce da palavra que nasce do silêncio. A necessidade do silêncio é uma necessidade da palavra que (não) se perde na palavra. Distância, deserto, de árvore em árvore, a eterna sede, a sede do eterno, da frugal transparência do efémero. Terra, toda a distância da terra em cada sílaba, em cada vocábulo sem água. A página é deserto e caminho errante, obstinado. O horizonte do deserto anula a miragem, nega o imaginário. A sede da página é sede da ausência e sede da palavra do horizonte. A ausência é a segunda dimensão do dia, o outro lábio da terra, a verdadeira voz do vocábulo.
1 159
António Ramos Rosa
Sobre a Ignorância Originária
Eu não sei nada, aí está o que eu desejaria dizer.
Tudo o que dizes está para além da ignorância originária. Assim, o que tu não podes ser é esse ignorante que tu negas em cada palavra.
Não porque saiba demais mas porque sei. Como falar a partir dessa ignorância primeira?
Há por vezes um latido verde nas palavras, um latido quase nulo. Outras vezes será talvez um latido branco.
Há uma linguagem originária que é a da própria ignorância animal, a linguagem mais equívoca, tão sinuosa e esquiva como uma serpente.
O desejo da escrita conduz-te, de sombra em sombra, a uma elipse em que a linguagem e o eu se apagam. No silêncio do fogo, ouvem-se então crepitar as consoantes flexíveis, as vogais femininas.
As palavras transfiguram o exílio e constituem o incessante êxodo para a transfiguração da linguagem animal, a linguagem mais densa, mais nua…
A simplicidade é como um olhar aberto sobre o espaço.
Não há então diferença entre o legível e o ilegível.
Transparência do opaco, transparência da ilegibilidade, ou antes legibilidade da linguagem animal?
Tudo o que dizes está para além da ignorância originária. Assim, o que tu não podes ser é esse ignorante que tu negas em cada palavra.
Não porque saiba demais mas porque sei. Como falar a partir dessa ignorância primeira?
Há por vezes um latido verde nas palavras, um latido quase nulo. Outras vezes será talvez um latido branco.
Há uma linguagem originária que é a da própria ignorância animal, a linguagem mais equívoca, tão sinuosa e esquiva como uma serpente.
O desejo da escrita conduz-te, de sombra em sombra, a uma elipse em que a linguagem e o eu se apagam. No silêncio do fogo, ouvem-se então crepitar as consoantes flexíveis, as vogais femininas.
As palavras transfiguram o exílio e constituem o incessante êxodo para a transfiguração da linguagem animal, a linguagem mais densa, mais nua…
A simplicidade é como um olhar aberto sobre o espaço.
Não há então diferença entre o legível e o ilegível.
Transparência do opaco, transparência da ilegibilidade, ou antes legibilidade da linguagem animal?
1 125
António Ramos Rosa
No Limiar
Uma qualidade nocturna e quase amante
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros
É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros
É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.
1 001
António Ramos Rosa
Um Rio No Rio
Onde de súbito desliza a densidade
…………………………………...
Ressurge a energia profunda suave
que entrega à claridade vivo e trémulo
o animal de sombra que respira inteiro
………………………………………
Nada sabemos que não seja estar
na superfície da leveza exacta
Amamos a vertigem lúcida o frémito
do equilíbrio subtil
Longo longo é o tempo do intacto longo
é o tempo do túmido percurso
…………………………………..
Sulcando os sulcos do imprevisível
nas areias repousadas
gozamos o sabor e a cintilação dos frutos
ramos ardentes do ser do espaço livre
………………………………………
Folheamos o corpo da terra no tremor
de um deus longo que se inclina e soletra
as palavras jamais ditas mas ouvidas
no sopro subtil no fogo
aéreo
…………………………………….
Vemos as minúcias do solo vemos a
secreta face silenciosa
nascemos no aqui no seu segredo
indecifrável somos
um imóvel olhar na nitidez do resplendor
………………………………………….
Flui um rio no rio
…………………………………...
Ressurge a energia profunda suave
que entrega à claridade vivo e trémulo
o animal de sombra que respira inteiro
………………………………………
Nada sabemos que não seja estar
na superfície da leveza exacta
Amamos a vertigem lúcida o frémito
do equilíbrio subtil
Longo longo é o tempo do intacto longo
é o tempo do túmido percurso
…………………………………..
Sulcando os sulcos do imprevisível
nas areias repousadas
gozamos o sabor e a cintilação dos frutos
ramos ardentes do ser do espaço livre
………………………………………
Folheamos o corpo da terra no tremor
de um deus longo que se inclina e soletra
as palavras jamais ditas mas ouvidas
no sopro subtil no fogo
aéreo
…………………………………….
Vemos as minúcias do solo vemos a
secreta face silenciosa
nascemos no aqui no seu segredo
indecifrável somos
um imóvel olhar na nitidez do resplendor
………………………………………….
Flui um rio no rio
1 118
António Ramos Rosa
Oscilação No Branco
A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 129
António Ramos Rosa
O Deus Dos Teus Dedos
Repara, o teu deus não é mais que o deus dos teus dedos, o silêncio da tua mão nua.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
1 131
António Ramos Rosa
O Amor da Pedra
O amor da pedra é um amor de sílabas graves, intactas. De uma matéria grave, intacta, ardente e fria. Sílabas densas condensando a sombra e o espaço. Pedra intacta, pedra opaca, fogo e ritmo, água e ritmo da unidade fragmentada. Respira a pedra na palma. Outra palavra se lhe junta: ombro. O espaço inteiro se abre entre a pedra e o ombro. A pedra tem lábios de sombra e o fogo neutro e limpo habita-a no silêncio da sua inimitável pose. A pedra tem lábios de água para quem a ama tal qual no solo ou na palma da mão. As pedras no deserto ou no caminho são companheiras do silêncio e do espaço. Cada pedra é uma palavra viva de uma linguagem única: a linguagem do intacto.
1 311
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 084
António Ramos Rosa
A (I)Legibilidade do Livro
O livro está aberto e há demasiada luz.
Tudo o que tu escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.
Tudo o que tu escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.
1 029
António Ramos Rosa
Terra Aérea
Aqui o livro abriu-se
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
1 134
António Ramos Rosa
Limite da Noite, Princípio do Corpo
Escolho o lugar do vento, o sopro
da lâmina.
Um sulco rasga o corpo. Não há nomes.
Quero os ombros mais rápidos na frescura.
Há uma entrada no chão? Há uma trave.
Esta é a proa de uma ave estilhaçada.
Quem resiste? E onde? Esta pedra é uma ilha.
Caminho acaso ou divago entre sombras?
Eu não sei se caminho, se destruo o lugar.
Cego avanço numa paisagem branca.
Entre ossos e cinza procuro a luz de um templo.
De vértebras estilhaçadas, avanço no interminável
átrio.
As palavras sonham talvez aqui, excessivas, ofegantes
na sua nulidade. Ouve-se acaso
o rumor do sangue? Eu digo e não vejo,
digo este deserto esta sede este sopro nulo.
Quem habita o caminho que se apaga,
procuro o sossego de um silêncio habitável,
o princípio do corpo.
Quem espera ainda um nome? Eu escolhi o lugar
do vento. Para dormir no alto
da folha. Estar com o céu estrelado e as cigarras
no frágil tumulto do silêncio do lugar.
E a nudez do mar, a nudez do corpo vivo.
Estilhaçado vivo ainda, vivo ou morro?
Quem escreve é uma sombra, quem respira é uma sombra?
O corpo não respira. Ardem apenas sílabas
no vento.
Estou vivo na pedra. Entro na página
e sob a cinza atinjo uma palavra nua.
Há um sinal de insecto e uma obscura estrela
no cimo do vagar.
Alguém se detém na noite vertical
e diz: é aqui,
o templo está vivo na poeira.
E eu morro na margem inacessível, escrevo
para as órbitas vazias
para o abismo da morte.
Abjectas sombras ou amorosas sombras.
Luz em excesso, luz da palavra autoritária,
frígida.
Quem pode esperar ou caminhar ou respirar
se tudo em torno apodrece no círculo?
Escrevo no meio do esterco e da cinza.
Que ninguém me responda.
Quem pode erguer o corpo?
Caem amorosas sombras, amorosas, vivas.
O sopro da lâmina para quem perdeu a terra.
O lugar do vento. O lugar da claridade
móvel. Reúne
aqui a fugaz eternidade. Mais
rápidos os ombros na frescura.
E a noite do corpo, a vermelha noite
do corpo
no limiar da terra.
No meio de destroços, de sílabas perdidas,
canto cego e nu.
Quem povoa este deserto, quem partilha o crime
de escrever à margem sem o corpo,
quem ama o templo do instante renascido
da poeira, o silêncio
habitável,
a nudez luminosa além dos ossos e das cinzas?
A voz obscura a voz que cega este caminho branco
enuncia o horror
da violência permanente e do desastre.
Eu digo aqui o amontoado mudo dos sinais
a paragem da roda sinistra
o oco de umas sílabas sem sombra.
Que luz ainda se ergueria que arco de espuma
por que veredas matinais por que colinas
onde as raparigas adormecem com o sol
que nostalgia de palavras ébrias
que trabalho feliz junto das árvores
que coincidência com o movimento da terra
que relação tão vasta e tão serena
não mais que uma passagem tranquila
em que o espaço se dilata espaço lúcido.
Que seria se eu avançasse sem sinais?
Um sinal ainda. No centro, ao lado.
Um animal submerso, uma rapariga nua?
Esquece ou não esqueças. Espera
o imprevisível. Trabalha no obscuro.
Respira com o fogo, respira com a sombra.
Caminha ao encontro das raízes do espaço.
Nada mais que uma relação, uma passagem.
Múltipla de olhos diversos repousada
no centro vazio do movimento
a língua azul e que anéis de claridade
que bálsamo no ventre que primavera de sombra
que segredos que noite tranquila em pleno dia!
da lâmina.
Um sulco rasga o corpo. Não há nomes.
Quero os ombros mais rápidos na frescura.
Há uma entrada no chão? Há uma trave.
Esta é a proa de uma ave estilhaçada.
Quem resiste? E onde? Esta pedra é uma ilha.
Caminho acaso ou divago entre sombras?
Eu não sei se caminho, se destruo o lugar.
Cego avanço numa paisagem branca.
Entre ossos e cinza procuro a luz de um templo.
De vértebras estilhaçadas, avanço no interminável
átrio.
As palavras sonham talvez aqui, excessivas, ofegantes
na sua nulidade. Ouve-se acaso
o rumor do sangue? Eu digo e não vejo,
digo este deserto esta sede este sopro nulo.
Quem habita o caminho que se apaga,
procuro o sossego de um silêncio habitável,
o princípio do corpo.
Quem espera ainda um nome? Eu escolhi o lugar
do vento. Para dormir no alto
da folha. Estar com o céu estrelado e as cigarras
no frágil tumulto do silêncio do lugar.
E a nudez do mar, a nudez do corpo vivo.
Estilhaçado vivo ainda, vivo ou morro?
Quem escreve é uma sombra, quem respira é uma sombra?
O corpo não respira. Ardem apenas sílabas
no vento.
Estou vivo na pedra. Entro na página
e sob a cinza atinjo uma palavra nua.
Há um sinal de insecto e uma obscura estrela
no cimo do vagar.
Alguém se detém na noite vertical
e diz: é aqui,
o templo está vivo na poeira.
E eu morro na margem inacessível, escrevo
para as órbitas vazias
para o abismo da morte.
Abjectas sombras ou amorosas sombras.
Luz em excesso, luz da palavra autoritária,
frígida.
Quem pode esperar ou caminhar ou respirar
se tudo em torno apodrece no círculo?
Escrevo no meio do esterco e da cinza.
Que ninguém me responda.
Quem pode erguer o corpo?
Caem amorosas sombras, amorosas, vivas.
O sopro da lâmina para quem perdeu a terra.
O lugar do vento. O lugar da claridade
móvel. Reúne
aqui a fugaz eternidade. Mais
rápidos os ombros na frescura.
E a noite do corpo, a vermelha noite
do corpo
no limiar da terra.
No meio de destroços, de sílabas perdidas,
canto cego e nu.
Quem povoa este deserto, quem partilha o crime
de escrever à margem sem o corpo,
quem ama o templo do instante renascido
da poeira, o silêncio
habitável,
a nudez luminosa além dos ossos e das cinzas?
A voz obscura a voz que cega este caminho branco
enuncia o horror
da violência permanente e do desastre.
Eu digo aqui o amontoado mudo dos sinais
a paragem da roda sinistra
o oco de umas sílabas sem sombra.
Que luz ainda se ergueria que arco de espuma
por que veredas matinais por que colinas
onde as raparigas adormecem com o sol
que nostalgia de palavras ébrias
que trabalho feliz junto das árvores
que coincidência com o movimento da terra
que relação tão vasta e tão serena
não mais que uma passagem tranquila
em que o espaço se dilata espaço lúcido.
Que seria se eu avançasse sem sinais?
Um sinal ainda. No centro, ao lado.
Um animal submerso, uma rapariga nua?
Esquece ou não esqueças. Espera
o imprevisível. Trabalha no obscuro.
Respira com o fogo, respira com a sombra.
Caminha ao encontro das raízes do espaço.
Nada mais que uma relação, uma passagem.
Múltipla de olhos diversos repousada
no centro vazio do movimento
a língua azul e que anéis de claridade
que bálsamo no ventre que primavera de sombra
que segredos que noite tranquila em pleno dia!
1 233
António Ramos Rosa
Celebração da Terra
Desenhar o sono e o volume da cabeça
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
1 032
António Ramos Rosa
O Corpo Talhado
duro é o silêncio, e são os ossos. duro
é também o veneno dos dias transparentes
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Um sopro nas escadas leves
uma frase inútil
e frágil
a tessitura expõe-se na nudez
a boca do compacto e os seus ouvidos
lentos duro
é o silêncio e são os ossos
onde talharam o corpo e o dobraram
com suas lâmpadas de ferro
escondeu-se o luto da manhã abriu-se a vala
azul do espaço
duro é o destino dos ossos duro é o sol
esta é a pequena noite de uma face
um minúsculo corpo abre a sua ferida sideral
unas são as sombras das pernas traves
silenciosas
o corpo recebe o grande barco do sepulcro
da água
o vento levantou as pálpebras das palavras
um íman novo atraiu imponderáveis
vocábulos animais
de veludo e pedra sobre as dunas
o ar é a sílaba mais viva ouve-se
o desespero de um pássaro soterrado
Já ninguém diz qual a face do vento
obscuro nem qual o ângulo
da água Máscaras do mar
viúvas de sangue
abrem o ventre estéril o simulacro
arroja a sua coroa rubra
Os pés nus pisam o cérebro dos vocábulos
é também o veneno dos dias transparentes
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Um sopro nas escadas leves
uma frase inútil
e frágil
a tessitura expõe-se na nudez
a boca do compacto e os seus ouvidos
lentos duro
é o silêncio e são os ossos
onde talharam o corpo e o dobraram
com suas lâmpadas de ferro
escondeu-se o luto da manhã abriu-se a vala
azul do espaço
duro é o destino dos ossos duro é o sol
esta é a pequena noite de uma face
um minúsculo corpo abre a sua ferida sideral
unas são as sombras das pernas traves
silenciosas
o corpo recebe o grande barco do sepulcro
da água
o vento levantou as pálpebras das palavras
um íman novo atraiu imponderáveis
vocábulos animais
de veludo e pedra sobre as dunas
o ar é a sílaba mais viva ouve-se
o desespero de um pássaro soterrado
Já ninguém diz qual a face do vento
obscuro nem qual o ângulo
da água Máscaras do mar
viúvas de sangue
abrem o ventre estéril o simulacro
arroja a sua coroa rubra
Os pés nus pisam o cérebro dos vocábulos
1 051
António Ramos Rosa
Presença Solar E Sólida Fugidia…
… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
552
António Ramos Rosa
Nudez
O ar circula mais leve em toda a parte
Os sinais transmitem o silêncio habitável
*
É um sonho é um logro e é a presença viva
Brilha o brilho animal do ar imóvel
*
Cálida substância nova une a linguagem e a vida
varandas varandas sobre a água sobre o céu
*
Uma infinita plenitude uma infinita ligeireza
a beleza nua sem exaltação e incandescente
o lugar transparente uma clareira indivisa
*
Torre de pássaros e de barro e de ervas
torre fresquíssima obscura e clara
torre na margem extrema do mistério
tudo se compreende e tudo é incognoscível
Tudo passa tudo deriva e tudo é imóvel
Somos e não somos somos sempre mais
*
Aceita aceita a terra breve a única
que os deuses povoam na transparência breve
Aqui a terra revelou-se um horizonte aberto
e as palavras antigas reacendem-se
*
De novo é a primeira vez e a única
Luz primeira luz da terra primeiros lábios
sopro de fibras mais intensas mais ligeiras
e nomes mais simples mais animais mais nus
Os sinais transmitem o silêncio habitável
*
É um sonho é um logro e é a presença viva
Brilha o brilho animal do ar imóvel
*
Cálida substância nova une a linguagem e a vida
varandas varandas sobre a água sobre o céu
*
Uma infinita plenitude uma infinita ligeireza
a beleza nua sem exaltação e incandescente
o lugar transparente uma clareira indivisa
*
Torre de pássaros e de barro e de ervas
torre fresquíssima obscura e clara
torre na margem extrema do mistério
tudo se compreende e tudo é incognoscível
Tudo passa tudo deriva e tudo é imóvel
Somos e não somos somos sempre mais
*
Aceita aceita a terra breve a única
que os deuses povoam na transparência breve
Aqui a terra revelou-se um horizonte aberto
e as palavras antigas reacendem-se
*
De novo é a primeira vez e a única
Luz primeira luz da terra primeiros lábios
sopro de fibras mais intensas mais ligeiras
e nomes mais simples mais animais mais nus
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António Ramos Rosa
Caos Aberto
Para aquém dos sinais definidos para aquém do silêncio
o fundo à superfície o furor formidável
turbilhão da génese turbulência marinha
multiplicidade sem soma dança flutuações
Marinho deus ou deusa marginal
deus original do clamor ódio primeiro
ódio verde ódio da treva
que ruído pode impor silêncio ao ruído
que furor pode ordenar este furor
…………………………………………….
Detonações sílabas oscilações
Algo começa começa como começa o tempo
Rumor rumor incessante
oiço pelos ouvidos pelas papilas por toda a minha pele
estou mergulhado no som no ar na luz
ó alimento perene vivacidade do rumor
oiço e compreendo cegamente as evidências
O ruído e o furor incessante é quase a deusa branca
sobre o marulho negro
Não não fales a linguagem do rigor
o canal está cheio de ruídos de rumor de imagens
Ao alto o silêncio branco das nuvens silenciosas
O animal ou deus é pouco mais do que água
A crepitação longa do rumor fragmenta-se
flutuações flutuações a língua dança
tudo recomeça tudo cresce tudo morre
O rumor não cessa rumor quase de dança
quase a luz de um corpo e cinza resplandecente
nenhum alvor nenhuma mensagem nenhuma palavra
o furor cresce continua verde e cinza
flutuações flutuações crepitação sem fim
o fundo à superfície o furor formidável
turbilhão da génese turbulência marinha
multiplicidade sem soma dança flutuações
Marinho deus ou deusa marginal
deus original do clamor ódio primeiro
ódio verde ódio da treva
que ruído pode impor silêncio ao ruído
que furor pode ordenar este furor
…………………………………………….
Detonações sílabas oscilações
Algo começa começa como começa o tempo
Rumor rumor incessante
oiço pelos ouvidos pelas papilas por toda a minha pele
estou mergulhado no som no ar na luz
ó alimento perene vivacidade do rumor
oiço e compreendo cegamente as evidências
O ruído e o furor incessante é quase a deusa branca
sobre o marulho negro
Não não fales a linguagem do rigor
o canal está cheio de ruídos de rumor de imagens
Ao alto o silêncio branco das nuvens silenciosas
O animal ou deus é pouco mais do que água
A crepitação longa do rumor fragmenta-se
flutuações flutuações a língua dança
tudo recomeça tudo cresce tudo morre
O rumor não cessa rumor quase de dança
quase a luz de um corpo e cinza resplandecente
nenhum alvor nenhuma mensagem nenhuma palavra
o furor cresce continua verde e cinza
flutuações flutuações crepitação sem fim
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