Poemas neste tema
Silêncio
Fernando Pessoa
A estrada inteiramente insubjectiva
A estrada inteiramente insubjectiva
Branca, branca, sem pensamento algum
Branca, branca, sem pensamento algum
1 502
Fernando Pessoa
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
1 471
Fernando Pessoa
Já oiço o impetuoso
Já oiço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja — que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir — ah dormir! — num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja — que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir — ah dormir! — num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
1 252
Fernando Pessoa
Meu coração. o almirante errado
Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
882
Fernando Pessoa
(Depois do amor — na treva)
Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 326
Fernando Pessoa
Sem impaciência.
Sem impaciência.
Sem curiosidade,
Sem atenção
Vejo-o crochet que com ambas as mãos combinadas
Fazes.
Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano...
Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual é a razão que assiste a eu te criticar
Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar...
Malhas sobre malhas formando um todo sem todo
Um pano que não sei se é para um vestido ou p'ra nada
Uma alma que não sei se é para sentir ou viver...
Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti...
Crochet, almas, filosofia...
Todas as religiões do mundo...
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos...
Dois marfins, uma volta, o silêncio...
Sem curiosidade,
Sem atenção
Vejo-o crochet que com ambas as mãos combinadas
Fazes.
Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano...
Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual é a razão que assiste a eu te criticar
Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar...
Malhas sobre malhas formando um todo sem todo
Um pano que não sei se é para um vestido ou p'ra nada
Uma alma que não sei se é para sentir ou viver...
Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti...
Crochet, almas, filosofia...
Todas as religiões do mundo...
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos...
Dois marfins, uma volta, o silêncio...
1 414
Fernando Pessoa
O luar parece que se torna mais álgido, mais branco,
O luar parece que se torna mais álgido, mais branco, mais morto, as sombras mais escondidas em si, mais negras, o silêncio maior. Um vento frio faz sussurrar os pinhais e casando-se com a algidez do luar (...) De vez em quando renasce, sussurra e passa, sussurrando. A estrada, ao luar, é luar até onde se perde, de repente, curvando, nas sombras que o pinheiral projecta no caminho.
1 486
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 113
Fernando Pessoa
Então vindas d’Além de Deus
(Então vindas d’Além de Deus, como um arrepio, mesmo do Ser sem falar; insinuam-se no vácuo estas palavras:)
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
1 387
Fernando Pessoa
Desejava querer fugir de mim.
ali. ali. ali
e...e...e...
Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
Uma palavra,
Pouco mais que um som.
E um som?
Nada.
e...e...e...
Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
Uma palavra,
Pouco mais que um som.
E um som?
Nada.
1 522
Fernando Pessoa
Sinto horror
Sinto horror
À significação que olhos humanos
Contêm;
À prescrutação que dum ser fazem
Revelado de gestos e palavras
As almas.
Não quero entregar-lhes, pois,
Em desmando ou abertura do meu ser
O que em mim me faz meu. Sinto preciso
Ocultar o meu íntimo aos olhares
E aos prescrutamentos que olhares mostram;
Não quero que ninguém saiba o que sinto,
Além de que o não posso a alguém dizer,
Mais há que aquilo que dizer não se pode.
Não se pode dizer porque não se pode.
À significação que olhos humanos
Contêm;
À prescrutação que dum ser fazem
Revelado de gestos e palavras
As almas.
Não quero entregar-lhes, pois,
Em desmando ou abertura do meu ser
O que em mim me faz meu. Sinto preciso
Ocultar o meu íntimo aos olhares
E aos prescrutamentos que olhares mostram;
Não quero que ninguém saiba o que sinto,
Além de que o não posso a alguém dizer,
Mais há que aquilo que dizer não se pode.
Não se pode dizer porque não se pode.
1 414
Fernando Pessoa
Há verdades que se dizem
Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.
877
Fernando Pessoa
Não sei em que coisa pensas
Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
1 448
Fernando Pessoa
5 - GOBLIN DANCE
First there was but the moon
And the black‑tramelled trees
In the lunar lagoon
Of the forgotten breeze.
Then some unseen thing stirred
Where the moon‑silence snowed
And a vague whirl unheard
Vacantly tip‑toed.
Slowly, idly, alone,
Beyond the eyes of sight,
Somewhere invisibly shown,
They danced their delight.
Their far vagueness wound
Round the heart a pain,
A phantom fear found
Voluble and vain.
The heart remembered lives
Before loves and homes,
Whose rare memory revives
Only when this dance comes.
A wish for a vague thing soon,
A loosened sense of selves,
A thing in the soul like moon,
Aught in the hopes like elves -
Tip‑toe aerial gliding
Shadow‑lunar blent,
Bending, mingling, hiding,
To and fro they went.
Left and right, belonging
To no place, they swayed.
A low pipe, like longing,
To their dancing played.
There, in the silence dropped
Like a thing on the ground,
Whirled they awhile, then stopped,
Then renewed their round,
Till with their slowing turns
The cold air grows more bare.
Then the mere moonlight returns
And there had been nothing there.
And the black‑tramelled trees
In the lunar lagoon
Of the forgotten breeze.
Then some unseen thing stirred
Where the moon‑silence snowed
And a vague whirl unheard
Vacantly tip‑toed.
Slowly, idly, alone,
Beyond the eyes of sight,
Somewhere invisibly shown,
They danced their delight.
Their far vagueness wound
Round the heart a pain,
A phantom fear found
Voluble and vain.
The heart remembered lives
Before loves and homes,
Whose rare memory revives
Only when this dance comes.
A wish for a vague thing soon,
A loosened sense of selves,
A thing in the soul like moon,
Aught in the hopes like elves -
Tip‑toe aerial gliding
Shadow‑lunar blent,
Bending, mingling, hiding,
To and fro they went.
Left and right, belonging
To no place, they swayed.
A low pipe, like longing,
To their dancing played.
There, in the silence dropped
Like a thing on the ground,
Whirled they awhile, then stopped,
Then renewed their round,
Till with their slowing turns
The cold air grows more bare.
Then the mere moonlight returns
And there had been nothing there.
1 591
Fernando Pessoa
Caiu no chão o novelo
Caiu no chão o novelo
E foi-se desenrolando.
Passas a mão no cabelo.
Não sei em que estás pensando.
E foi-se desenrolando.
Passas a mão no cabelo.
Não sei em que estás pensando.
1 832
Fernando Pessoa
IV - Doura o dia. Silente, o vento dura.
........IV
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
1 311
Fernando Pessoa
Quando há música, parece
Quando há música, parece
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece
Acordo, e não me falas.
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece
Acordo, e não me falas.
1 564
Fernando Pessoa
Ah, que extraordinário,
Ah, que extraordinário,
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
2 183
Fernando Pessoa
É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio.
É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio.
Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande —
Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda,
Entre nós não houve, vai para uma hora,
Senão os olhares de uma só vontade de dizer.
Renovávamos, apenas, os cigarros — o novo no aceso do velho
E continuávamos a conversa silenciosa,
Interrompida apenas pelo desejo olhado de falar...
Sim, é inútil,
Mas tudo, até a vida dos campos é igualmente inútil
Há coisas que são difíceis de dizer...
Este problema, por exemplo.
De qual de nós é que ela gosta? Como é que podemos chegar a discutir isso?
Nem falar nela, não é verdade?
E sobretudo não ser o primeiro a pensar em falar nela!
A falar nela ao impassível outro e amigo...
Caiu a cinza do teu cigarro no teu casaco preto —
Ia advertir-te, mas para isso era preciso falar...
Entreolhámo-nos de novo, como transeuntes cruzados.
E o pecado mútuo que não cometemos
Assomou ao mesmo tempo ao fundo dos dois olhares.
De repente espreguiças-te, semi-ergues-te — Escusas de falar...
"Vou-me deitar!" dizes, porque o vais dizer.
E tudo isto, tão psicológico, tão involuntário,
Por causa de uma empregada de escritório agradável e solene.
Ah, vamo-nos deitar!
Se fizer versos a respeito disto, já sabes, é desprezo!
Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande —
Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda,
Entre nós não houve, vai para uma hora,
Senão os olhares de uma só vontade de dizer.
Renovávamos, apenas, os cigarros — o novo no aceso do velho
E continuávamos a conversa silenciosa,
Interrompida apenas pelo desejo olhado de falar...
Sim, é inútil,
Mas tudo, até a vida dos campos é igualmente inútil
Há coisas que são difíceis de dizer...
Este problema, por exemplo.
De qual de nós é que ela gosta? Como é que podemos chegar a discutir isso?
Nem falar nela, não é verdade?
E sobretudo não ser o primeiro a pensar em falar nela!
A falar nela ao impassível outro e amigo...
Caiu a cinza do teu cigarro no teu casaco preto —
Ia advertir-te, mas para isso era preciso falar...
Entreolhámo-nos de novo, como transeuntes cruzados.
E o pecado mútuo que não cometemos
Assomou ao mesmo tempo ao fundo dos dois olhares.
De repente espreguiças-te, semi-ergues-te — Escusas de falar...
"Vou-me deitar!" dizes, porque o vais dizer.
E tudo isto, tão psicológico, tão involuntário,
Por causa de uma empregada de escritório agradável e solene.
Ah, vamo-nos deitar!
Se fizer versos a respeito disto, já sabes, é desprezo!
1 534
Fernando Pessoa
IV - Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
IV
Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára....
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...
Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára....
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...
1 469
Manuel António Pina
Tanto silêncio
Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
1 480
Fernando Pessoa
I - PLENILÚNIO
FICÇÕES DO INTERLÚDIO
I
PLENILÚNIO
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
I
PLENILÚNIO
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
1 952
Florbela Espanca
Sem Palavras
Brancas, suaves, doces mãos de irmã
Que são mais doces do que as das rainhas,
Hão-de poisar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.
E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há-de poisar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.
Meus olhos hão-de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!
E nunca se amará ninguém melhor:
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!...
Que são mais doces do que as das rainhas,
Hão-de poisar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.
E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há-de poisar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.
Meus olhos hão-de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!
E nunca se amará ninguém melhor:
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!...
2 293
Fernando Pessoa
XIV - Como uma voz de fonte que cessasse
XIV
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
1 188