Poemas neste tema
Solidão
Charles Bukowski
Queimando E Queimando E Queimando
eu costumava cruzar com um holandês num bar da Filadélfia
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
1 008
Charles Bukowski
Os Homens do Lixo
aí vêm eles
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
1 070
Charles Bukowski
As Garotas
estive olhando para
a mesma
pantalha
por
5 anos
e ela acumulou
uma poeira de solteiro
e
as garotas que entram aqui
estão ocupadas
demais
para limpá-la
mas não dei bola
estive bastante
ocupado
para notar
até agora
que a luz
brilha
mal
através
de 5 anos
de acúmulos.
a mesma
pantalha
por
5 anos
e ela acumulou
uma poeira de solteiro
e
as garotas que entram aqui
estão ocupadas
demais
para limpá-la
mas não dei bola
estive bastante
ocupado
para notar
até agora
que a luz
brilha
mal
através
de 5 anos
de acúmulos.
645
Charles Bukowski
John Dillinger E Le Chasseur Maudit
é uma desgraça, e simplesmente não é o estilo, mas não estou nem aí:
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
634
Charles Bukowski
Agora
eu tinha bolhas do tamanho de tomates
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
1 145
Charles Bukowski
Não Apareça Por Aqui, Mas Se Você Vier...
sim, claro, estarei por aqui a não ser que tenha saído
não bata se as luzes estiverem apagadas
ou se ouvir vozes ou quando eu
possa estar lendo Proust
se alguém tiver passado um Proust por debaixo da porta
ou algum dos ossos dele para o meu ensopado,
e não posso emprestar dinheiro ou
o telefone
ou o que resta do meu carro
embora eu possa conseguir para você o jornal de ontem
uma velha camisa ou um sanduíche à bolonhesa
ou um sofá para dormir
se você não é de gritar à noite
e pode falar sobre suas coisas
isso é normal;
tempos difíceis se abatem sobre todos nós
a diferença é que não estou tentando criar uma família
para mandar para Harvard
ou comprar propriedades de caça,
não estou mirando alto
tento apenas me manter vivo
um pouco mais de tempo,
assim se você às vezes bater à porta
e eu não responder
e não houver uma mulher por aqui
talvez eu tenha quebrado a mandíbula
e esteja atrás de um arame
ou atrás das borboletas no meu
papel de parede,
quero dizer que se eu não atendo
eu não atendo, e o motivo é que
ainda não estou pronto para matar você
ou amar ou mesmo aceitar você,
significa que não quero falar
que estou ocupado, louco, satisfeito
ou preparando uma corda para o enforcamento;
então mesmo que você veja as luzes acesas
e escute algum som
de respiração ou reza ou cantoria
de um rádio ou dos dados rolando
ou da máquina de escrever –
vá embora, não é o dia
a noite, a hora certa;
não se trata da ignorância da falta de polidez,
não quero machucar ninguém, nem mesmo um inseto
mas é que às vezes eu reúno evidências de um certo tipo
que requer alguma classificação
e seus olhos azuis, sejam eles azuis
e seus cabelos, se você os tem
ou sua mente – eles não podem entrar
até que a corda esteja cortada ou atada
ou até que eu tenha me barbeado
em novos espelhos, até que o mundo
tenha parado ou se aberto
para sempre.
não bata se as luzes estiverem apagadas
ou se ouvir vozes ou quando eu
possa estar lendo Proust
se alguém tiver passado um Proust por debaixo da porta
ou algum dos ossos dele para o meu ensopado,
e não posso emprestar dinheiro ou
o telefone
ou o que resta do meu carro
embora eu possa conseguir para você o jornal de ontem
uma velha camisa ou um sanduíche à bolonhesa
ou um sofá para dormir
se você não é de gritar à noite
e pode falar sobre suas coisas
isso é normal;
tempos difíceis se abatem sobre todos nós
a diferença é que não estou tentando criar uma família
para mandar para Harvard
ou comprar propriedades de caça,
não estou mirando alto
tento apenas me manter vivo
um pouco mais de tempo,
assim se você às vezes bater à porta
e eu não responder
e não houver uma mulher por aqui
talvez eu tenha quebrado a mandíbula
e esteja atrás de um arame
ou atrás das borboletas no meu
papel de parede,
quero dizer que se eu não atendo
eu não atendo, e o motivo é que
ainda não estou pronto para matar você
ou amar ou mesmo aceitar você,
significa que não quero falar
que estou ocupado, louco, satisfeito
ou preparando uma corda para o enforcamento;
então mesmo que você veja as luzes acesas
e escute algum som
de respiração ou reza ou cantoria
de um rádio ou dos dados rolando
ou da máquina de escrever –
vá embora, não é o dia
a noite, a hora certa;
não se trata da ignorância da falta de polidez,
não quero machucar ninguém, nem mesmo um inseto
mas é que às vezes eu reúno evidências de um certo tipo
que requer alguma classificação
e seus olhos azuis, sejam eles azuis
e seus cabelos, se você os tem
ou sua mente – eles não podem entrar
até que a corda esteja cortada ou atada
ou até que eu tenha me barbeado
em novos espelhos, até que o mundo
tenha parado ou se aberto
para sempre.
1 173
Charles Bukowski
Vivendo
quero dizer, apenas dormi
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
1 112
Charles Bukowski
7O Páreo Quando Os Anjos Balançam Lentos E Queimados
eu olhava o painel de apostas e o 6 caiu para 9
depois de um primeiro lampejo de 18 numa linha de partida
de 12... dois minutos para apostar e um gordão
seguia me empurrando pelas costas, mas consegui,
apostei 20 na vitória e me afastei em direção à plataforma
olhando meu programa:
quartos púrpuras e cereja, mangas cor de cereja
e boné; b.f.3, Vermelho Indiano – Impetuoso, de Alta Linhagem,
e as pessoas seguiam caminhando em minha direção
ainda que não houvesse nenhum lugar para ir,
estavam alinhando os cavalos no portão
e as pessoas seguiam caminhando como formigas sobre açúcar
derramado,
a máquina os havia engolido em suas engrenagens
e eles seguiam cegos para a morte,
e agora à altura do 7o páreo
irrompia medonho o cheiro fedido de suor
perfurante
impossível retornar ao caminho do sonho,
e os cavalos partiram pelo portão
e eu procurei por minhas cores –
eu as vi, e o jóquei parecia montar meio de lado
conduzia o cavalo por dentro e lhe puxava a cabeça
em direção à guarda externa,
e eu podia dizer pelo modo como o cavalo avançava
que ele estava fora;
a ação havia sido totalmente equivocada
e caminhei em direção ao bar
enquanto os vencedores seguiam para a chegada
e eles faziam as últimas apostas enquanto eu pedia minha bebida,
e eu me debrucei ali pensando
certa vez eu conhecia lugares que gritavam com doçura
suas vozes das paredes
onde os espelhos me mostravam o acaso,
certa vez eu me entristecia quando um entardecer se tornava
finalmente uma noite para mergulhar no sono
– o atendente do bar disse, ouvi dizer que eles vão colocar
o cavalo 7 no próximo.
certa vez eu cantei óperas e acendi velas
num lugar que se fazia sagrado por nada além de mim
e o que quer que lá estivesse.
– nunca aposto em éguas no verão,
eu lhe disse.
então a multidão entrou
reclamando
explicando
garganteando
pensando em suicídio ou bebedeira ou sexo,
e eu dei uma olhada em volta
como um homem que acorda na cadeia
e o que quer que lá estivesse
assim ficou,
e eu terminei minha bebida
e saí dali.
depois de um primeiro lampejo de 18 numa linha de partida
de 12... dois minutos para apostar e um gordão
seguia me empurrando pelas costas, mas consegui,
apostei 20 na vitória e me afastei em direção à plataforma
olhando meu programa:
quartos púrpuras e cereja, mangas cor de cereja
e boné; b.f.3, Vermelho Indiano – Impetuoso, de Alta Linhagem,
e as pessoas seguiam caminhando em minha direção
ainda que não houvesse nenhum lugar para ir,
estavam alinhando os cavalos no portão
e as pessoas seguiam caminhando como formigas sobre açúcar
derramado,
a máquina os havia engolido em suas engrenagens
e eles seguiam cegos para a morte,
e agora à altura do 7o páreo
irrompia medonho o cheiro fedido de suor
perfurante
impossível retornar ao caminho do sonho,
e os cavalos partiram pelo portão
e eu procurei por minhas cores –
eu as vi, e o jóquei parecia montar meio de lado
conduzia o cavalo por dentro e lhe puxava a cabeça
em direção à guarda externa,
e eu podia dizer pelo modo como o cavalo avançava
que ele estava fora;
a ação havia sido totalmente equivocada
e caminhei em direção ao bar
enquanto os vencedores seguiam para a chegada
e eles faziam as últimas apostas enquanto eu pedia minha bebida,
e eu me debrucei ali pensando
certa vez eu conhecia lugares que gritavam com doçura
suas vozes das paredes
onde os espelhos me mostravam o acaso,
certa vez eu me entristecia quando um entardecer se tornava
finalmente uma noite para mergulhar no sono
– o atendente do bar disse, ouvi dizer que eles vão colocar
o cavalo 7 no próximo.
certa vez eu cantei óperas e acendi velas
num lugar que se fazia sagrado por nada além de mim
e o que quer que lá estivesse.
– nunca aposto em éguas no verão,
eu lhe disse.
então a multidão entrou
reclamando
explicando
garganteando
pensando em suicídio ou bebedeira ou sexo,
e eu dei uma olhada em volta
como um homem que acorda na cadeia
e o que quer que lá estivesse
assim ficou,
e eu terminei minha bebida
e saí dali.
1 047
Charles Bukowski
Pobreza
é o homem que você nunca viu que
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
1 135
Charles Bukowski
Multa
abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
1 187
Charles Bukowski
História Verdadeira
eles o encontraram caminhando ao longo da autoestrada
coberto de vermelho
na frente
ele apanhara uma lata enferrujada
e cortara seu maquinário
sexual
como a dizer –
vejam o que fizeram
comigo? vocês bem poderiam ficar com o
resto.
e ele colocou uma parte de si
num dos bolsos e
outra parte de si
no outro
e foi assim que o encontraram,
seguindo em
frente.
eles o encaminharam para os
médicos
que tentaram costurar de volta
as
partes
mas as partes estavam
bastante satisfeitas
de estarem como
estavam.
às vezes eu penso em todos os bons
caras
que se transformam
nos monstros do
mundo.
talvez tenha sido sua forma de protestar contra
isto ou
protestar
contra
tudo.
um homem solitário
A Marcha da Liberdade
que nunca se espremeu
entre
as críticas de concertos e os
resultados do
beisebol.
Deus, ou alguém,
o
abençoe.
coberto de vermelho
na frente
ele apanhara uma lata enferrujada
e cortara seu maquinário
sexual
como a dizer –
vejam o que fizeram
comigo? vocês bem poderiam ficar com o
resto.
e ele colocou uma parte de si
num dos bolsos e
outra parte de si
no outro
e foi assim que o encontraram,
seguindo em
frente.
eles o encaminharam para os
médicos
que tentaram costurar de volta
as
partes
mas as partes estavam
bastante satisfeitas
de estarem como
estavam.
às vezes eu penso em todos os bons
caras
que se transformam
nos monstros do
mundo.
talvez tenha sido sua forma de protestar contra
isto ou
protestar
contra
tudo.
um homem solitário
A Marcha da Liberdade
que nunca se espremeu
entre
as críticas de concertos e os
resultados do
beisebol.
Deus, ou alguém,
o
abençoe.
1 034
Charles Bukowski
Quente
ela era quente, era tão quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
1 093
Charles Bukowski
O Eu Singular
há esses pequenos penhascos
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
826
Charles Bukowski
Poeta Velho
eu preferiria, claro, estar com uma raposa entre as samambaias
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
735
Charles Bukowski
Cerveja
não sei quantas garrafas de cerveja
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.
enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.
bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.
cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.
enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.
bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.
cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
1 771
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
716
Charles Bukowski
Medo
ele se aproxima do meu Fusca
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
737
Charles Bukowski
Cerveja Às 2 da Tarde
nada importa
senão desabar em um colchão
com sonhos baratos e uma cerveja
enquanto as folhas morrem e os cavalos morrem
e as senhorias ficam plantadas nos saguões;
fortifique a música das persianas baixadas,
a caverna do último homem
em uma eternidade de enxame
e explosão;
nada senão a goteira pingando,
a garrafa vazia,
euforia,
juventude cautelosa,
esfaqueada ou barbeada,
palavras ensinadas
sustentadas
para morrer.
senão desabar em um colchão
com sonhos baratos e uma cerveja
enquanto as folhas morrem e os cavalos morrem
e as senhorias ficam plantadas nos saguões;
fortifique a música das persianas baixadas,
a caverna do último homem
em uma eternidade de enxame
e explosão;
nada senão a goteira pingando,
a garrafa vazia,
euforia,
juventude cautelosa,
esfaqueada ou barbeada,
palavras ensinadas
sustentadas
para morrer.
1 044
Charles Bukowski
A Tragédia Das Folhas
despertei para a aridez e as samambaias estavam mortas,
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
1 204
Charles Bukowski
Balancem Comigo
balancem comigo, todas as coisas tristes –
loucos em casas de pedra
sem portas,
leprosos vertendo amor e canção
sapos tentando vislumbrar
o céu;
balancem comigo, coisas tristes –
dedos decepados numa forja
a velhice como ovos cozidos de café da manhã
livros usados, pessoas usadas
flores usadas, amores usados
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês:
esta coisa fugiu
como um cavalo ou um cão,
morto ou perdido
ou implacável.
loucos em casas de pedra
sem portas,
leprosos vertendo amor e canção
sapos tentando vislumbrar
o céu;
balancem comigo, coisas tristes –
dedos decepados numa forja
a velhice como ovos cozidos de café da manhã
livros usados, pessoas usadas
flores usadas, amores usados
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês:
esta coisa fugiu
como um cavalo ou um cão,
morto ou perdido
ou implacável.
1 257
Charles Bukowski
A Casa
estão construindo uma casa
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
1 146
Charles Bukowski
Mama
aqui estou
no chão
minha boca
aberta
e
não posso sequer dizer
mama,
e
os cachorros correm e param e mijam
em minha lápide; consigo de tudo
exceto sol
e meu terno está com um aspecto
péssimo
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo se foi
muito pouco resta, uma espécie de harpa
sem música.
um bêbado
em sua cama com um cigarro
pode ao menos acionar 5 caminhões
de bombeiros e
33 homens.
já eu
não
posso
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na tumba
ao lado pensa apenas em Mozart e doces
larvas.
ele é
uma péssima
companhia.
no chão
minha boca
aberta
e
não posso sequer dizer
mama,
e
os cachorros correm e param e mijam
em minha lápide; consigo de tudo
exceto sol
e meu terno está com um aspecto
péssimo
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo se foi
muito pouco resta, uma espécie de harpa
sem música.
um bêbado
em sua cama com um cigarro
pode ao menos acionar 5 caminhões
de bombeiros e
33 homens.
já eu
não
posso
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na tumba
ao lado pensa apenas em Mozart e doces
larvas.
ele é
uma péssima
companhia.
1 156
Charles Bukowski
Não Toque Nas Garotas
ela está lá em cima vendo meu médico
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
850
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 118