Poemas neste tema
Solidão
Manuel Bandeira
Noturno da Mosela
A noite... O silêncio...
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...
Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!
Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.
Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...
No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...
Petrópolis, 1921
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...
Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!
Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.
Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...
No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...
Petrópolis, 1921
1 697
Charles Bukowski
Outra Cama
outra cama
outra mulher
mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha
outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.
todos à procura.
a busca eterna.
você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela...
é tudo tão confortável –
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza...
após ela partir você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.
quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.
você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é quase meio-dia.
– outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
cores, portas, números de telefone.
você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais sensato.
você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para Janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.
outra mulher
mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha
outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.
todos à procura.
a busca eterna.
você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela...
é tudo tão confortável –
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza...
após ela partir você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.
quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.
você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é quase meio-dia.
– outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
cores, portas, números de telefone.
você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais sensato.
você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para Janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.
1 305
Charles Bukowski
Blue Cheese E Chili
essas mulheres supostamente deveriam aparecer
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
1 142
Charles Bukowski
Eu
mulheres não sabem como amar,
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
1 224
Charles Bukowski
Garotas Calmas E Limpas Em Vestidos de Algodão
tudo o que eu sempre conheci sempre foram putas,
[ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres calmas e
gentis – vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que essa paz
é apenas parcial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.
tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.
“nunca traga uma puta junto com você,” eu digo para
[meus
poucos amigos, “eu me apaixonarei por ela.”
“você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?
[ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres calmas e
gentis – vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que essa paz
é apenas parcial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.
tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.
“nunca traga uma puta junto com você,” eu digo para
[meus
poucos amigos, “eu me apaixonarei por ela.”
“você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?
1 264
Manuel Bandeira
41
À quarante et un an (c'est mon àge)!
Je n'ai pas d'enfant. Dieu m'assiste!
Je suis seul. Cela me soulage
Tout en me laissant un peu triste.
Je n'ai pas d'enfant. Dieu m'assiste!
Je suis seul. Cela me soulage
Tout en me laissant un peu triste.
1 130
Manuel Bandeira
O Obelisco
Um obelisco monolítico é a verdade nua em praça pública. A nudez dos obeliscos é mais inteira, mais estreme, mais escorreita, mais franca, mais sincera, mais lisa, mais pura, mais ingênua do que a da mulher mais bem feita.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
1 290
Manuel Bandeira
Cossante
Ondas da praia onde vos vi,
Olhos verdes sem dó de mim,
Ai Avatlântica!
Ondas da praia onde morais,
Olhos verdes intersexuais.
Ai Avatlântica!
Olhos verdes sem dó de mim,
Olhos verdes, de ondas sem fim,
Ai Avatlântica!
Olhos verdes, de ondas sem dó,
Por quem me rompo, exausto e só
Ai Avatlântica!
Olhos verdes, de ondas sem fim,
Por quem jurei de vos possuir,
Ai Avatlântica!
Olhos verdes sem lei nem rei,
Por quem juro vos esquecer,
Ai Avatlântica!
Olhos verdes sem dó de mim,
Ai Avatlântica!
Ondas da praia onde morais,
Olhos verdes intersexuais.
Ai Avatlântica!
Olhos verdes sem dó de mim,
Olhos verdes, de ondas sem fim,
Ai Avatlântica!
Olhos verdes, de ondas sem dó,
Por quem me rompo, exausto e só
Ai Avatlântica!
Olhos verdes, de ondas sem fim,
Por quem jurei de vos possuir,
Ai Avatlântica!
Olhos verdes sem lei nem rei,
Por quem juro vos esquecer,
Ai Avatlântica!
1 510
Manuel Bandeira
Chambre Vide
Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pêse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frêre du silence
Reste encore
Reste auprês de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat
La nuit pêse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Ou sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de Pélectricite
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frere du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprês de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.
Petrópolis, 1925
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pêse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frêre du silence
Reste encore
Reste auprês de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat
La nuit pêse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Ou sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de Pélectricite
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frere du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprês de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.
Petrópolis, 1925
1 756
Manuel Bandeira
Poema Desentranhado de Uma Prosa de Augusto Frederico Schmidt
A luz da tua poesia é triste mas pura.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de S. João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
— Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de S. João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
— Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
786
Manuel Bandeira
O Fauno
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte,
Grita o fauno:
— "Bem que velho,
Te reclamo.
Bem que velho,
Te desejo,
Quero e chamo,
O novelletum quod ludis
In solitudine cordis!
Ó desejada que ainda
Não sabes que és desejada!
Deixa os brancos véus do pejo
E no inóspito jardim
Das oliveiras te cobre
De cilício da paixão!
Respira as auras ardentes,
Cospe fogo,
Vira vento e furacão,
Sopra rijo sobre mim,
Me delabra, me ensorcela,
Ninfa bela!
Não jamais
Ninfomaníaca: és triste,
Ês calada,
És elegíaca.
Por isso mesmo é que te amo,
Te desejo,
Quero e chamo,
"Ninfa! Aonde estás? Aonde?..."
Grita o fauno, mas só o eco
De sua voz lhe responde
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte.
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte,
Grita o fauno:
— "Bem que velho,
Te reclamo.
Bem que velho,
Te desejo,
Quero e chamo,
O novelletum quod ludis
In solitudine cordis!
Ó desejada que ainda
Não sabes que és desejada!
Deixa os brancos véus do pejo
E no inóspito jardim
Das oliveiras te cobre
De cilício da paixão!
Respira as auras ardentes,
Cospe fogo,
Vira vento e furacão,
Sopra rijo sobre mim,
Me delabra, me ensorcela,
Ninfa bela!
Não jamais
Ninfomaníaca: és triste,
Ês calada,
És elegíaca.
Por isso mesmo é que te amo,
Te desejo,
Quero e chamo,
"Ninfa! Aonde estás? Aonde?..."
Grita o fauno, mas só o eco
De sua voz lhe responde
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte.
1 331
Manuel Bandeira
Antologia
A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— À dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.
Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)
Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
À mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Rio, 1965
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— À dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.
Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)
Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
À mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Rio, 1965
1 104
Manuel Bandeira
O Lutador
Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
— À ululante Quimera espavorida!
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado,
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
30 de setembro — 1º de outubro de 1945
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
— À ululante Quimera espavorida!
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado,
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
30 de setembro — 1º de outubro de 1945
1 698
Manuel Bandeira
Poema de Uma Quarta-feira de Cinzas
Entre a turba grosseira e fútil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e de desgraça...
O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,
Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e de desgraça...
O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,
Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...
1 541
Manuel Bandeira
Baladilha Arcaica
Na velha torre quadrangular
Vivia a Virgem dos Devaneios...
Tão alvos braços... Tão lindos seios...
Tão alvos seios por afagar...
A sua vista não ia além
Dos quatro muros que a enclausuravam
E ninguém via — ninguém, ninguém —
Os meigos olhos que suspiravam.
Entanto fora, se algum zagal,
Por noites brancas de lua cheia,
Ali passava, vindo do val,
Em si dizia: — Que torre feia!
Um dia a Virgem desconhecida
Da velha torre quadrangular
Morreu inane, desfalecida,
Desfalecida de suspirar...
Vivia a Virgem dos Devaneios...
Tão alvos braços... Tão lindos seios...
Tão alvos seios por afagar...
A sua vista não ia além
Dos quatro muros que a enclausuravam
E ninguém via — ninguém, ninguém —
Os meigos olhos que suspiravam.
Entanto fora, se algum zagal,
Por noites brancas de lua cheia,
Ali passava, vindo do val,
Em si dizia: — Que torre feia!
Um dia a Virgem desconhecida
Da velha torre quadrangular
Morreu inane, desfalecida,
Desfalecida de suspirar...
1 181
Manuel Bandeira
A Silhueta
Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
1 608
Marina Colasanti
Quem saberá?
Aqui
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
1 086
Manuel Bandeira
Cantilena
O solitude! O pauvreté!
Musset
O céu parece de algodão.
O dia morre. Choveu tanto!
As minhas pálpebras estão
Como embrumadas pelo pranto
Sinto-o descer devagarinho,
Cheio de mágoa e mansidão.
A minha testa quer carinho,
E pede afago a minha mão.
Debalde o rio docemente
Canta a monótona canção:
Minh'alma é um menino doente
Que a ama acalenta mas em vão.
A névoa baixa. A obscuridade
Cresce. Também no coração
Pesada névoa de saudade
Cai. Ó pobreza! Ó solidão!
Clavadel, 1913
Musset
O céu parece de algodão.
O dia morre. Choveu tanto!
As minhas pálpebras estão
Como embrumadas pelo pranto
Sinto-o descer devagarinho,
Cheio de mágoa e mansidão.
A minha testa quer carinho,
E pede afago a minha mão.
Debalde o rio docemente
Canta a monótona canção:
Minh'alma é um menino doente
Que a ama acalenta mas em vão.
A névoa baixa. A obscuridade
Cresce. Também no coração
Pesada névoa de saudade
Cai. Ó pobreza! Ó solidão!
Clavadel, 1913
1 223
Marina Colasanti
Ao largo
Um homem nada
Só
em mar aberto.
Metade do seu corpo nada
em água
metade do seu corpo nada
em céu
e ele todo em azul nada
e mais nada.
Um homem quando nada
não é barco
é casco e passageiro ao mesmo tempo
é moinho de vento
em movimento.
Um homem não tem vela
que o impulsione
tem a esteira de espuma
que o acompanha
e o hélice dos pés que adiante
o leva.
Um homem nada
só
em mar aberto
linha reta traçada
sempre em frente
como se houvesse meta
em seu percurso
ou porto adiante
ou terra.
E adiante é mar somente
e mar às costas
sem ponto de chegada
que se veja
e sem medida outra
que não seja
a braçada.
Só
em mar aberto.
Metade do seu corpo nada
em água
metade do seu corpo nada
em céu
e ele todo em azul nada
e mais nada.
Um homem quando nada
não é barco
é casco e passageiro ao mesmo tempo
é moinho de vento
em movimento.
Um homem não tem vela
que o impulsione
tem a esteira de espuma
que o acompanha
e o hélice dos pés que adiante
o leva.
Um homem nada
só
em mar aberto
linha reta traçada
sempre em frente
como se houvesse meta
em seu percurso
ou porto adiante
ou terra.
E adiante é mar somente
e mar às costas
sem ponto de chegada
que se veja
e sem medida outra
que não seja
a braçada.
1 066
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 072
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 143
Marina Colasanti
A ÚLTIMA ILHA
Neste mundo de pontes virtuais
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
1 020
Marina Colasanti
CERIMÔNIA ACADÊMICA
Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
1 051
Marina Colasanti
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
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