Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Pablo Neruda
16
Este poema é uma paráfrase
do poema 30* d’O Jardineiro
de Rabindranath Tagore.
Em meu céu ao crepúsculo és como uma nuvem
e tua cores e formas são como as que quero.
És minha, tu és minha, mulher de lábios doces,
e em tua vida vivem meus sonhos infinitos.
A lâmpada de minha alma te rubra os pés,
o meu agro vinho é mais doce em teus lábios,
ó ceifeira do meu cântico vespertino,
como te sentem minha os meus sonhos solitários!
És minha, tu és minha, vou gritando entre a brisa
da tarde e o vento arrasta minha voz viúva.
Gatuna do fundo dos meus olhos, teu roubo
estanca como a água teu olhar noturno.
Na rede do meu canto estás presa, amor meu, e
minhas redes de canto são amplas como o céu.
Minha alma nasce à beira de teus olhos de luto.
Em teus olhos de luto começa o país do sonho
______________
*
És como a nuvem da tarde
flutuando no céu do meu sonho.
Posso criar-te e modelar-te segundo
os caprichos do meu amor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos infinitos.
Os teus pés estão orvalhados pela glória
do meu desejo, ó respingadora dos meus cânticos
da tarde. Os teus lábios tornaram-se amargos e doces
pelo vinho da minha dor.
E és minha, ó habitante dos meus sonhos solitários.
É a sombra das minhas paixões que torna
sombrios os teus olhos. És a alucinação do
meu olhar.
Eis que te prendi e envolvi nas malhas dos
meus cânticos, ó meu amor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos imortais.
do poema 30* d’O Jardineiro
de Rabindranath Tagore.
Em meu céu ao crepúsculo és como uma nuvem
e tua cores e formas são como as que quero.
És minha, tu és minha, mulher de lábios doces,
e em tua vida vivem meus sonhos infinitos.
A lâmpada de minha alma te rubra os pés,
o meu agro vinho é mais doce em teus lábios,
ó ceifeira do meu cântico vespertino,
como te sentem minha os meus sonhos solitários!
És minha, tu és minha, vou gritando entre a brisa
da tarde e o vento arrasta minha voz viúva.
Gatuna do fundo dos meus olhos, teu roubo
estanca como a água teu olhar noturno.
Na rede do meu canto estás presa, amor meu, e
minhas redes de canto são amplas como o céu.
Minha alma nasce à beira de teus olhos de luto.
Em teus olhos de luto começa o país do sonho
______________
*
És como a nuvem da tarde
flutuando no céu do meu sonho.
Posso criar-te e modelar-te segundo
os caprichos do meu amor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos infinitos.
Os teus pés estão orvalhados pela glória
do meu desejo, ó respingadora dos meus cânticos
da tarde. Os teus lábios tornaram-se amargos e doces
pelo vinho da minha dor.
E és minha, ó habitante dos meus sonhos solitários.
É a sombra das minhas paixões que torna
sombrios os teus olhos. És a alucinação do
meu olhar.
Eis que te prendi e envolvi nas malhas dos
meus cânticos, ó meu amor.
E és minha, ó habitante dos meus
sonhos imortais.
1 520
Pablo Neruda
LVI
Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?
Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?
E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?
Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
preservam lua em suas corcovas?
Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?
E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?
Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
1 233
Pablo Neruda
LV
Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?
Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras
não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
e as tartarugas à lua?
Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras
não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
1 031
Pablo Neruda
LVII
Não será bom proibir
os beijos interplanetários?
Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?
E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?
As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?
os beijos interplanetários?
Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?
E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?
As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?
1 022
Pablo Neruda
LIV
É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
1 177
Pablo Neruda
XII
Para quem sorri o arroz
com infinitos dentes brancos?
Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?
Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?
Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
com infinitos dentes brancos?
Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?
Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?
Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
1 121
Pablo Neruda
Noite - LXXXIII
É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 292
Pablo Neruda
XIII
É verdade que só na Austrália
há crocodilos voluptuosos?
Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?
Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?
É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?
há crocodilos voluptuosos?
Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?
Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?
É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?
579
Pablo Neruda
Os sonhos
Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 159
Pablo Neruda
XLVIII
São os seios das sereias
os redondos caracóis?
Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?
Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?
Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
os redondos caracóis?
Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?
Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?
Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
1 021
Pablo Neruda
XI
Até quando falam os outros
se nós temos falado?
Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?
Quantos anos tem novembro?
Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?
Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?
se nós temos falado?
Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?
Quantos anos tem novembro?
Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?
Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?
549
Pablo Neruda
Manhã - XXI
Oh que todo o amor propague em mim sua boca,
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido
que busca entre as folhas da noite tuas mãos,
o contato do trigo que tu me comunicas,
um rapto cintilante de sombra e energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido
que busca entre as folhas da noite tuas mãos,
o contato do trigo que tu me comunicas,
um rapto cintilante de sombra e energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
1 551
Pablo Neruda
Noite - LXXXI
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
1 282
Pablo Neruda
V
Que guardas sob tua corcova?
disse um camelo a uma tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?
Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
disse um camelo a uma tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?
Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
1 206
Pablo Neruda
II - o Rio
Eu entrei em Florença. Era
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
1 334
Pablo Neruda
XX
É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
1 070
Pablo Neruda
XXIII
Converte-se em peixe voador
se transmigra a borboleta?
Então não era verdade
que vivia Deus na lua?
De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
se transmigra a borboleta?
Então não era verdade
que vivia Deus na lua?
De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
1 159
Pablo Neruda
XIV
E que disseram os rubis
ante o jugo das granadas?
Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?
Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?
Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
ante o jugo das granadas?
Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?
Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?
Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
1 075
Pablo Neruda
XXI
E quando se fundou a luz
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
1 293
Pablo Neruda
XXXII
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
1 067
Pablo Neruda
XIX
Contaram o ouro que tem
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
1 043
Pablo Neruda
XXIX
Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?
Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?
Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?
É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
há entre o sol e as laranjas?
Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?
Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?
É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
1 067