Poemas neste tema
Animais e Natureza
Charles Bukowski
Um Mágico Desaparecido
eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
939
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Marina
minha menina tem 8 anos
e isso é idade suficiente para pensar
bem ou mal ou
qualquer coisa
então relaxo em volta dela e
ouço várias coisas espantosas
sobre sexo
a vida em geral e a vida em particular;
na maior parte é muito
fácil
exceto que eu me tornei pai quando os homens na maioria
se tornam avôs, sou um iniciante muito tardio
em tudo,
e eu me deito na grama e na areia
e ela arranca dentes-de-leão
e os coloca no meu
cabelo
enquanto eu cochilo sob a brisa marítima.
eu desperto
me sacudo
falo: “que diabo?”
e flores caem sobre os meus olhos e sobre o meu nariz
e sobre os meus lábios.
eu as removo com a mão
e ela se senta em cima de mim
dando risadinhas.
filha,
certo ou errado,
eu te amo, sim,
é só que às vezes eu ajo como se
você não estivesse presente,
mas houve brigas com mulheres
bilhetes deixados em cômodas
trabalhos em fábricas
pneus furados em Compton às 3 da manhã,
todas essas coisas que impedem as pessoas de
conhecer umas às outras e
pior do que
isso.
obrigado pelas
flores.
e isso é idade suficiente para pensar
bem ou mal ou
qualquer coisa
então relaxo em volta dela e
ouço várias coisas espantosas
sobre sexo
a vida em geral e a vida em particular;
na maior parte é muito
fácil
exceto que eu me tornei pai quando os homens na maioria
se tornam avôs, sou um iniciante muito tardio
em tudo,
e eu me deito na grama e na areia
e ela arranca dentes-de-leão
e os coloca no meu
cabelo
enquanto eu cochilo sob a brisa marítima.
eu desperto
me sacudo
falo: “que diabo?”
e flores caem sobre os meus olhos e sobre o meu nariz
e sobre os meus lábios.
eu as removo com a mão
e ela se senta em cima de mim
dando risadinhas.
filha,
certo ou errado,
eu te amo, sim,
é só que às vezes eu ajo como se
você não estivesse presente,
mas houve brigas com mulheres
bilhetes deixados em cômodas
trabalhos em fábricas
pneus furados em Compton às 3 da manhã,
todas essas coisas que impedem as pessoas de
conhecer umas às outras e
pior do que
isso.
obrigado pelas
flores.
1 323
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 124
Charles Bukowski
Você Já Beijou Uma Pantera?
essa mulher acha que é uma pantera
e às vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea desfrutando
o ato do amor?
você não amou, amigo.
você com suas loirinhas tingidas
você com seus esquilos e tâmias
e elefantes e ovelhas.
você deveria dormir com uma pantera
nunca mais você vai querer
esquilos, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando a sala
a pantera fêmea atravessando a sua alma;
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em você
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fêmea é o sonho que chegou real
e não há como voltar atrás
ou querer voltar –
a pelagem roçando em você,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e você fica preso diante dos olhos de uma pantera.
e às vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea desfrutando
o ato do amor?
você não amou, amigo.
você com suas loirinhas tingidas
você com seus esquilos e tâmias
e elefantes e ovelhas.
você deveria dormir com uma pantera
nunca mais você vai querer
esquilos, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando a sala
a pantera fêmea atravessando a sua alma;
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em você
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fêmea é o sonho que chegou real
e não há como voltar atrás
ou querer voltar –
a pelagem roçando em você,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e você fica preso diante dos olhos de uma pantera.
1 224
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 406
Charles Bukowski
A Lâmina
não havia estacionamento perto da agência dos correios onde
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
1 146
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 198
Charles Bukowski
Usando a Coleira
moro com uma dama e quatro gatos
e há certos dias em que todos nos damos
bem.
há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.
há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.
outros dias,
três.
há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos
e a
dama:
dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
e há certos dias em que todos nos damos
bem.
há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.
há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.
outros dias,
três.
há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos
e a
dama:
dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
1 306
Charles Bukowski
A Festa Acabou
depois que você arrancou a toalha de mesa com
os pratos cheios de comida
e quebrou as janelas
e tirou a máscara dos
idiotas
e falou verdadeiras e terríveis
palavras
e
enxotou a turba porta
afora –
aí vem o grande e
sereno momento: você se senta sozinho
e
serve aquela quieta dose.
o mundo é melhor sem
eles.
só as plantas e os animais são
verdadeiros camaradas.
eu bebo à saúde deles e com
eles.
eles esperam enquanto encho seus
copos.
os pratos cheios de comida
e quebrou as janelas
e tirou a máscara dos
idiotas
e falou verdadeiras e terríveis
palavras
e
enxotou a turba porta
afora –
aí vem o grande e
sereno momento: você se senta sozinho
e
serve aquela quieta dose.
o mundo é melhor sem
eles.
só as plantas e os animais são
verdadeiros camaradas.
eu bebo à saúde deles e com
eles.
eles esperam enquanto encho seus
copos.
1 405
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 132
Charles Bukowski
O Vinho da Eternidade
relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 381
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 159
Charles Bukowski
Invasão
eu não sabia que
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
1 264
Charles Bukowski
Um Mágico Desaparecido...
eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
1 153
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 126
Charles Bukowski
O Tempora! o Mores!
venho recebendo revistas de mulherzinha no correio porque
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
1 188
Charles Bukowski
Chip Intel 8088 de 16 Bits
com um Apple Macintosh
você não pode rodar os programas do Radio Shack
em seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
consegue ler um arquivo
que você criou num
IBM Personal Computer.
os computadores Kaypro e Osborne usam ambos
o sistema operacional CP/M
mas não conseguem ler as caligrafias
um do outro
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não consegue usar a maioria dos programas produzidos para
o IBM Personal Computer
a menos que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre
Savannah
e na primavera
o urubu-caçador marcha e
se pavoneia diante de suas
fêmeas.
você não pode rodar os programas do Radio Shack
em seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
consegue ler um arquivo
que você criou num
IBM Personal Computer.
os computadores Kaypro e Osborne usam ambos
o sistema operacional CP/M
mas não conseguem ler as caligrafias
um do outro
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não consegue usar a maioria dos programas produzidos para
o IBM Personal Computer
a menos que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre
Savannah
e na primavera
o urubu-caçador marcha e
se pavoneia diante de suas
fêmeas.
1 048
Charles Bukowski
Outro Acidente
gato foi atropelado
agora parafuso de prata mantendo unido um fêmur
quebrado
perna direita
envolta em rubra e brilhante
atadura
trouxe meu gato de volta do veterinário
tirei meu olho
dele por
um instante
ele correu pelo piso
arrastando sua rubra
perna
perseguindo a
gata
pior coisa que o
filho da puta podia
fazer
está preso
de castigo
agora
esfriando
a cabeça
ele é igualzinho ao
resto de
nós
ele tem uns grandes
olhos amarelos
fitando fixamente
querendo apenas
viver a
vida
boa.
agora parafuso de prata mantendo unido um fêmur
quebrado
perna direita
envolta em rubra e brilhante
atadura
trouxe meu gato de volta do veterinário
tirei meu olho
dele por
um instante
ele correu pelo piso
arrastando sua rubra
perna
perseguindo a
gata
pior coisa que o
filho da puta podia
fazer
está preso
de castigo
agora
esfriando
a cabeça
ele é igualzinho ao
resto de
nós
ele tem uns grandes
olhos amarelos
fitando fixamente
querendo apenas
viver a
vida
boa.
1 175
Charles Bukowski
Dando Um Jeito
nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
1 458
Charles Bukowski
Má Sorte
há boas coisas em volta se você
procurar bem.
eu me lembro de uma vez no campo de concentração alemão
em que agarramos um veado
eles vêm a calhar quando não há mulher disponível
e nós cagamos ele a pau primeiro
e aí passamos ele de mão em mão
e fizemos ele chupar o pau de um cara
enquanto o outro cara arrombava ele
e até mesmo um dos guardas alemães se juntou
e aproveitou um pouco – que noite!
e aquele veado não conseguiu andar por um mês
e certa noite ele foi morto a tiros
tentando escapar pelo arame
e eu me lembro do Harry gemendo
enquanto via o corpo do bicha sendo carregado
com aqueles 2 buracos na cabeça:
“lá se vai o melhor rabo que eu já
peguei!”
procurar bem.
eu me lembro de uma vez no campo de concentração alemão
em que agarramos um veado
eles vêm a calhar quando não há mulher disponível
e nós cagamos ele a pau primeiro
e aí passamos ele de mão em mão
e fizemos ele chupar o pau de um cara
enquanto o outro cara arrombava ele
e até mesmo um dos guardas alemães se juntou
e aproveitou um pouco – que noite!
e aquele veado não conseguiu andar por um mês
e certa noite ele foi morto a tiros
tentando escapar pelo arame
e eu me lembro do Harry gemendo
enquanto via o corpo do bicha sendo carregado
com aqueles 2 buracos na cabeça:
“lá se vai o melhor rabo que eu já
peguei!”
1 370
Charles Bukowski
A Corda de Vidro
o velho era mais velho do que eu
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
1 080
Charles Bukowski
Eu Era Merda
pesar, as paredes sangram de tanto pesar e quem se importa?
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
1 408
Charles Bukowski
Gorjeio No
gorjeio no melro de minha noite
por entre respiração de pechblenda,
e que os condados aumentem seus impostos
e o lenhador sinta coceiras em seu sono;
gorjeio no melro de minha noite,
e que os exércitos se vistam para dançar
nas ruas, e garotinhas
beijem as frutas que enchem suas barrigas;
gorjeio no melro de minha noite,
esgote os seus verões em grunhidos e gemidos,
belisque os caules dos lírios quando
o coração do câncer queimar o amor;
gorjeio no melro de minha noite,
gorjeio na nota,
meu país é alto para cair
a ferrugem dos dias
de Moscou a Nova York
acrescenta um terror de horas
mas não reclamo
os dez mil beijos
ou os paus e as pedras
ou Roma quebrada,
mas espero a sua nota,
meus dedos arranham
a mesa iluminada de sol.
por entre respiração de pechblenda,
e que os condados aumentem seus impostos
e o lenhador sinta coceiras em seu sono;
gorjeio no melro de minha noite,
e que os exércitos se vistam para dançar
nas ruas, e garotinhas
beijem as frutas que enchem suas barrigas;
gorjeio no melro de minha noite,
esgote os seus verões em grunhidos e gemidos,
belisque os caules dos lírios quando
o coração do câncer queimar o amor;
gorjeio no melro de minha noite,
gorjeio na nota,
meu país é alto para cair
a ferrugem dos dias
de Moscou a Nova York
acrescenta um terror de horas
mas não reclamo
os dez mil beijos
ou os paus e as pedras
ou Roma quebrada,
mas espero a sua nota,
meus dedos arranham
a mesa iluminada de sol.
1 070
Charles Bukowski
Briga de Cachorro
é um bicho raquítico
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
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