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Poemas neste tema

Sucesso e Fracasso

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Saboreio As Cinzas de Tua Morte

as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.

Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é

Jack entrou e encontrou o maço de cigarros junto à lareira. Ann estava no sofá lendo um exemplar da Cosmopolitan. Jack acendeu um cigarro e sentou-se. Faltavam dez minutos para a meia-noite.
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Geração Falida

era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.

e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.

tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time

era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.

e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.

você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.

era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.

agora

agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.

quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.

volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?

a Geração Falida?

eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade

e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.

gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.

D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.

G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.

Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.

e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.

enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,

agora

agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...

se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.

mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.

era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo

agora

há tantos de nós.

Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja

embora

-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir

eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).

de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.

nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.

meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão

e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.

era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.

e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo

já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.

mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.

depois
pra quem mais?

o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.

e o editor da Esquire

e a Atlantic Monthly

e Harper’s.

“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...

e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.

pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...

levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.

pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:

vivo para escrever e agora estou
morrendo.

e
cada dia
eu achava que seria
meu último.

eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.

eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.

eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.

um dia frio era seguido por outro,
lentamente.

a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum

conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”

então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”

ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?

e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.

mas Caresse
Crosby?
black sun press?

eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”

dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”

no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.

só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.

é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...

e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.

não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.

vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 256
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Única Vida

eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.

ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.

ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 031
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Longo Dia Quente No Hipódromo

o dia todo lá no hipódromo queimando no sol
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.

eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”

sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.

ele seguia falando da quarta esposa...

a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.

“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”

“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”

ele começou de novo com a quarta esposa.

“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”

o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.

“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.

“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”

ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.

“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”

“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.

“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”

a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.

desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.

eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte

a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.

pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.

andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
1 108
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para Mim Mesmo

Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo

Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo

Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado

Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios

Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50

Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground

Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski

Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho

Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã

Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que

Charles Bukowski estava fazendo lá?

Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista

Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano

quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri

e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe

e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz

Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...

Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.

Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada

já era
a noite está se mostrando

Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
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