Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Fernando Pessoa
Ah, no terrível silêncio do quarto
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
1 474
Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 227
Fernando Pessoa
MEN OF TO-DAY
Men of to‑day and yester's nought,
Before you were the things we see
Who gave a guess or gave a thought
That such as you to‑day should be?
Ah, passers by the common way,
Who thought of ye before to‑day?
Men of to‑day, to‑morrow's dust,
When years have past where shall ye go?
What vulgar daub or hurried lust [...]
Shall chronicle your joy and woe?
Waves on the crest of life's swift sea,
After to‑day who'll think of ye?
Genius alone can rouse the fire
That in your glorious nature lies;
Genius alone can strike the Iyre
And raise your name to mortal skies;
Genius of death can tear the pall
And yester's nought may be an all.
But virtue, fool, like human tears,
By sand of earth too surely drunk,
Sinks in the dust of passing years,
Nor knowest thou where has it sunk.
Let genius then the laurel wear;
To‑morrow's dust may live for e'er.
Before you were the things we see
Who gave a guess or gave a thought
That such as you to‑day should be?
Ah, passers by the common way,
Who thought of ye before to‑day?
Men of to‑day, to‑morrow's dust,
When years have past where shall ye go?
What vulgar daub or hurried lust [...]
Shall chronicle your joy and woe?
Waves on the crest of life's swift sea,
After to‑day who'll think of ye?
Genius alone can rouse the fire
That in your glorious nature lies;
Genius alone can strike the Iyre
And raise your name to mortal skies;
Genius of death can tear the pall
And yester's nought may be an all.
But virtue, fool, like human tears,
By sand of earth too surely drunk,
Sinks in the dust of passing years,
Nor knowest thou where has it sunk.
Let genius then the laurel wear;
To‑morrow's dust may live for e'er.
1 343
Fernando Pessoa
IX - Coroai-me de rosas, [1]
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
Coroai-me em verdade
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
1 432
Fernando Pessoa
Não queiras, Lídia, edificar no espaço [2]
Não queiras, Lídia, edificar no espaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Esta ou aquela vida.
Tu própria és tua vida.
Não te destines. Tu não és futura.
Cumpre hoje, e a gestal taça gosta
A que prevês seguinte
Não gozes na que gozas.
Quem sabe se entre a taça que tu bebes
E a que queres que siga a muda Sorte
Não interpõe, saindo,
Toda (...)
Que figuras futuro, ou prometer-te
Esta ou aquela vida.
Tu própria és tua vida.
Não te destines. Tu não és futura.
Cumpre hoje, e a gestal taça gosta
A que prevês seguinte
Não gozes na que gozas.
Quem sabe se entre a taça que tu bebes
E a que queres que siga a muda Sorte
Não interpõe, saindo,
Toda (...)
860
Fernando Pessoa
A flor que és, não a que dás, eu quero. [2]
Ad juvenem rosam offerentem
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tão curto tempo é a mais longa vida,
E a juventude nela!
Flor vives, vã; porque te flor não cumpres?
Se te sorver esquivo o infausto abismo,
Perene velarás, absurda sombra,
O que não dou buscando.
Na oculta margem onde os lírios frios
Da infera leiva crescem, e a corrente
Monótona, não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tão curto tempo é a mais longa vida,
E a juventude nela!
Flor vives, vã; porque te flor não cumpres?
Se te sorver esquivo o infausto abismo,
Perene velarás, absurda sombra,
O que não dou buscando.
Na oculta margem onde os lírios frios
Da infera leiva crescem, e a corrente
Monótona, não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.
1 530
Fernando Pessoa
DEATH IN LIFE
Another day is past, and while it past,
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.
I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.
Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?
Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.
I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.
Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?
Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
1 568
Fernando Pessoa
SONG
Sun to-day and storm to-morrow.
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
Happiness or woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think thereon!
From delight we pass to sadness
From a smile to tears;
And the boldness of our gladness
Dies within our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
Happiness or woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think thereon!
From delight we pass to sadness
From a smile to tears;
And the boldness of our gladness
Dies within our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!
1 463
Fernando Pessoa
Na ampla sala de jantar das tias velhas
Na ampla sala de jantar das tias velhas
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
1 293
Fernando Pessoa
Depois de quando deixei de pensar em depois
Depois de quando deixei de pensar em depois
Minha vida tornou-se mais calma —
Isto é, menos vida.
Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.
Olho, do alto da janela baixa,
As garotas que dançam a brincar na rua.
O seu destino inevitável
Dói-me.
Vejo-lho no vestido entreaberto nas costas, e dói-me.
Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada
Que está calçada de almas?
(Mas a tua voz interrompe-me
— Voz alta, lá de fora do jardim, rapariga —
E é como se eu deixasse
Cair irresolutamente um livro no chão.)
Não teremos meu amor, nesta dança da vida.
Que fazemos por brincadeira natural,
As mesmas costas desabotoadas
E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja?
Minha vida tornou-se mais calma —
Isto é, menos vida.
Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.
Olho, do alto da janela baixa,
As garotas que dançam a brincar na rua.
O seu destino inevitável
Dói-me.
Vejo-lho no vestido entreaberto nas costas, e dói-me.
Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada
Que está calçada de almas?
(Mas a tua voz interrompe-me
— Voz alta, lá de fora do jardim, rapariga —
E é como se eu deixasse
Cair irresolutamente um livro no chão.)
Não teremos meu amor, nesta dança da vida.
Que fazemos por brincadeira natural,
As mesmas costas desabotoadas
E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja?
873
Fernando Pessoa
Depois de não ter dormido,
Depois de não ter dormido,
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?
822
Fernando Pessoa
RAGE
I feel a rage - ay, a rage!
At time that passes, passes away,
A thirst of life nought can assuage,
An anger that nothing can stay.
And every hour that passes by
And merges into night a day
Makes, when I think, my soul to cry:
«Torture eternal, torture without end!
All days pass and not a deed!
A desire strong as a greed
By an ill of will - oh, misery!
To be a dream of pain condemned!»
I feel a rage! 'tis to feel
Mystery and sadness at one time,
Till the maddened brain doth reel,
Looking on that bodiless curse.
The passing of the world, as one
Paralytic at a deed of blood
Which he hath no power to avert.
I feel a stranger before the sun,
A weeper before field and flood,
A cynic before dirt,
A revolt before God.
At time that passes, passes away,
A thirst of life nought can assuage,
An anger that nothing can stay.
And every hour that passes by
And merges into night a day
Makes, when I think, my soul to cry:
«Torture eternal, torture without end!
All days pass and not a deed!
A desire strong as a greed
By an ill of will - oh, misery!
To be a dream of pain condemned!»
I feel a rage! 'tis to feel
Mystery and sadness at one time,
Till the maddened brain doth reel,
Looking on that bodiless curse.
The passing of the world, as one
Paralytic at a deed of blood
Which he hath no power to avert.
I feel a stranger before the sun,
A weeper before field and flood,
A cynic before dirt,
A revolt before God.
1 493
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 779
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 171
Fernando Pessoa
HORA MORTA
Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...
Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...
Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
1 525
Fernando Pessoa
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
1 125
Fernando Pessoa
V - Ténue, roçando sedas pelas horas,
V
Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...
Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...
Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...
Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...
Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...
Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...
Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
1 367
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [2]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
1 397
Fernando Pessoa
Ó minha menina loura,
Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
1 596
Fernando Pessoa
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
1 353
Fernando Pessoa
Em tempos quis o mundo inteiro.
Em tempos quis o mundo inteiro.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
1 436
Fernando Pessoa
Tenho um relógio parado
Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.
2 192
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera [4]
Olho os campos, Neera
Verdes campos, e sinto
Como virá um dia
Em que não mais os veja.
Par de árvores cobre
O céu aqui sem nuvens
E faz correr mais triste
A viva e alegre linfa.
Mas por um só momento
Fugaz e passageiro
Esta ideia eu emprego
Para o seu uso triste.
Cedo me volve a calma
Com que me faço o espelho
Do céu imperturbado
E da fonte insciente.
Deixa o futuro, — porque
Não está aqui, não é nada;
Só o fugaz presente
Enquanto dura existe.
Vive a imperfeita hora
Sem olhar além dela
E sem nada esperares
Dos homens, nem dos deuses.
Verdes campos, e sinto
Como virá um dia
Em que não mais os veja.
Par de árvores cobre
O céu aqui sem nuvens
E faz correr mais triste
A viva e alegre linfa.
Mas por um só momento
Fugaz e passageiro
Esta ideia eu emprego
Para o seu uso triste.
Cedo me volve a calma
Com que me faço o espelho
Do céu imperturbado
E da fonte insciente.
Deixa o futuro, — porque
Não está aqui, não é nada;
Só o fugaz presente
Enquanto dura existe.
Vive a imperfeita hora
Sem olhar além dela
E sem nada esperares
Dos homens, nem dos deuses.
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Fernando Pessoa
Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Um destino parou; quantos, obtendo
Da meta inesperada
(...)
Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
Nem justos nem injustos
São os Deuses, senão outros.
O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
Dados, ora são desejos
Ora ao (...)
(...)
(...) esperanças breves;
Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.
Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
Salvo se a morte é cega
Do pó do (...)
Um destino parou; quantos, obtendo
Da meta inesperada
(...)
Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
Nem justos nem injustos
São os Deuses, senão outros.
O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
Dados, ora são desejos
Ora ao (...)
(...)
(...) esperanças breves;
Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.
Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
Salvo se a morte é cega
Do pó do (...)
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