Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Fernando Pessoa
Cada momento que a um prazer não voto
Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
1 451
Fernando Pessoa
Nada fica de nada. Nada somos. [1]
Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.
1 009
Fernando Pessoa
Let us rest. Every hour is not the next.
Let us rest. Every hour is not the next.
May this wreathe round with more than emptiness
The meaning of the ciphered living text
We owe to living and to thought confess.
Let us rest. Every hour is not the last.
A consolation comes from being late
Even at happiness, lest near winds blast
The present flower and fate still follow fate.
Let us rest. Power is useless and life vain.
To ask means to be answered with not giving.
To move towards pleasure is to walk on pain,
And having to live takes life out of living.
So there is no true thought nor just behest,
Nor pomp worthing having. Let us rest.
May this wreathe round with more than emptiness
The meaning of the ciphered living text
We owe to living and to thought confess.
Let us rest. Every hour is not the last.
A consolation comes from being late
Even at happiness, lest near winds blast
The present flower and fate still follow fate.
Let us rest. Power is useless and life vain.
To ask means to be answered with not giving.
To move towards pleasure is to walk on pain,
And having to live takes life out of living.
So there is no true thought nor just behest,
Nor pomp worthing having. Let us rest.
1 077
Fernando Pessoa
I love this world and all these men because
I love this world and all these men because
I shall not love them long. That we do die
I believe not, bound fast to higher laws,
But that we lose this world do not deny.
This light that in the sea makes many a light,
This breeze so soft when least we feel it most,
May be replaced by a diviner sight
Or by a truer breeze; but these are lost.
Like some strange trick of childhood that was ill
Yet had the childhood, in it I regret
Perchance in some far world sublime and stiIl,
The childhood that I never shall forget —
No, nor these toys of sense —this world, these men —,
Dear now when had because dear when lost then.
I shall not love them long. That we do die
I believe not, bound fast to higher laws,
But that we lose this world do not deny.
This light that in the sea makes many a light,
This breeze so soft when least we feel it most,
May be replaced by a diviner sight
Or by a truer breeze; but these are lost.
Like some strange trick of childhood that was ill
Yet had the childhood, in it I regret
Perchance in some far world sublime and stiIl,
The childhood that I never shall forget —
No, nor these toys of sense —this world, these men —,
Dear now when had because dear when lost then.
1 524
Fernando Pessoa
Como este infante que alourado dorme
Como este infante que alourado dorme
Fui. Hoje sei que há morte.
Lídia, há largas taças por encher
Nosso amor que nos tarda.
Qualquer que seja o amor ou as taças, breve
Ajamos. Teme e desfruta.
Fui. Hoje sei que há morte.
Lídia, há largas taças por encher
Nosso amor que nos tarda.
Qualquer que seja o amor ou as taças, breve
Ajamos. Teme e desfruta.
1 294
Fernando Pessoa
II - Dói viver, nada sou que valha ser.
II
Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.
Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nada do que foi sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.
Assim, nocturna, a áreas indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,
E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.
Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.
Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nada do que foi sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.
Assim, nocturna, a áreas indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,
E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.
1 355
Fernando Pessoa
Quero, da vida, só não conhecê-la.
Quero, da vida, só não conhecê-la.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
As formas sucessórias
Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
Os outros pobres nadas
Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
A mercê passageira
De instantes que não duram.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
As formas sucessórias
Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
Os outros pobres nadas
Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
A mercê passageira
De instantes que não duram.
1 291
Fernando Pessoa
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
1 425
Fernando Pessoa
A tua irmã é pequena,
A tua irmã é pequena,
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?
1 715
Fernando Pessoa
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
1 002
Fernando Pessoa
Tenho pena até... nem sei...
Tenho pena até... nem sei...
Do próprio mal que passei
Pois passei quando passou.
Do próprio mal que passei
Pois passei quando passou.
1 437
Fernando Pessoa
What death doth take for wife is
What Death doth take for wife is
What life has of good and of fair;
The pain of passing's knife is
Not the less that it is everywhere;
All goes, all flows, all life is
But the wreck of its own self for e'er.
Yet hope we that this going
A semblance and lie can but be;
That the river that is flowing
Will find, how far be it, a sea;
That beyond our frail knowing
A deeper life eternally
Keeps all that seems to wither
All that seems to go wits to-day,
And that in a way to bother [?]
Our subtlest thoughts to dismay
Form and matter together
Live e'er in a timeless Alway.
What life has of good and of fair;
The pain of passing's knife is
Not the less that it is everywhere;
All goes, all flows, all life is
But the wreck of its own self for e'er.
Yet hope we that this going
A semblance and lie can but be;
That the river that is flowing
Will find, how far be it, a sea;
That beyond our frail knowing
A deeper life eternally
Keeps all that seems to wither
All that seems to go wits to-day,
And that in a way to bother [?]
Our subtlest thoughts to dismay
Form and matter together
Live e'er in a timeless Alway.
1 479
Fernando Pessoa
Os mortos! Que prodigiosamente
Os mortos! Que prodigiosamente
E com que horrível reminiscência
Vivem na nossa recordação deles!
A minha velha tia na sua antiga casa, no campo
Onde eu era feliz e tranquilo e a criança que eu era...
Penso nisso e uma saudade toda raiva repassa-me...
E, além disso, penso, ela já morreu há anos...
Tudo isto, vendo bem, é misterioso como um lusco-fusco...
Penso, e todo o enigma do universo repassa-me.
Revejo aquilo na imaginação com tal realidade
Que depois, quando penso que aquilo acabou
E que ela está morta,
Encaro com o mistério mais palidamente
Vejo-o mais escuro, mais impiedoso, mais longínquo
E nem choro, de atento que estou ao terror da vida...
Como eu desejaria ser parte da noite,
Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço
Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos,
Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados
E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir...
Aquilo era tão real, tão vivo, tão actual!...
Quando em mim o revejo, está outra vez vivo em mim...
Pasmo de que coisa tão real pudesse passar...
E não existir hoje e hoje ser tão diverso...
Corre para o mar a água do rio, abandona a minha vista,
Chega ao mar e perde-se no mar,
Mas a água perde-se de si-própria?
Uma coisa deixa de ser o que é absolutamente
Ou pecam de vida os nossos olhos e os nossos ouvidos
E a nossa consciência exterior do Universo?
Onde está hoje o meu passado?
Em que baú o guardou Deus que não sei dar com ele?
Quando o revejo em mim, onde é que o estou vendo?
Tudo isto deve ter um sentido — talvez muito simples —
Mas por mais que pense não atino com ele.
E com que horrível reminiscência
Vivem na nossa recordação deles!
A minha velha tia na sua antiga casa, no campo
Onde eu era feliz e tranquilo e a criança que eu era...
Penso nisso e uma saudade toda raiva repassa-me...
E, além disso, penso, ela já morreu há anos...
Tudo isto, vendo bem, é misterioso como um lusco-fusco...
Penso, e todo o enigma do universo repassa-me.
Revejo aquilo na imaginação com tal realidade
Que depois, quando penso que aquilo acabou
E que ela está morta,
Encaro com o mistério mais palidamente
Vejo-o mais escuro, mais impiedoso, mais longínquo
E nem choro, de atento que estou ao terror da vida...
Como eu desejaria ser parte da noite,
Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço
Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos,
Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados
E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir...
Aquilo era tão real, tão vivo, tão actual!...
Quando em mim o revejo, está outra vez vivo em mim...
Pasmo de que coisa tão real pudesse passar...
E não existir hoje e hoje ser tão diverso...
Corre para o mar a água do rio, abandona a minha vista,
Chega ao mar e perde-se no mar,
Mas a água perde-se de si-própria?
Uma coisa deixa de ser o que é absolutamente
Ou pecam de vida os nossos olhos e os nossos ouvidos
E a nossa consciência exterior do Universo?
Onde está hoje o meu passado?
Em que baú o guardou Deus que não sei dar com ele?
Quando o revejo em mim, onde é que o estou vendo?
Tudo isto deve ter um sentido — talvez muito simples —
Mas por mais que pense não atino com ele.
1 433
Fernando Pessoa
TO ONE PLAYING
Play on with that music all lonely
Wandering through me like a breeze
Half‑lost in the calm of night,
A melody half‑heard only
Like the sound of stupendous seas
That in motion feel a delight.
For in thy rhythm soft pealing,
For thou in that meterless rhyme
Awakest in me a spirit stress,
A widening, deadening of feeling
That is to my normal consciousness
As Eternity is to Time.
Wandering through me like a breeze
Half‑lost in the calm of night,
A melody half‑heard only
Like the sound of stupendous seas
That in motion feel a delight.
For in thy rhythm soft pealing,
For thou in that meterless rhyme
Awakest in me a spirit stress,
A widening, deadening of feeling
That is to my normal consciousness
As Eternity is to Time.
1 359
Fernando Pessoa
Chove muito, chove excessivamente...
Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...
1 531
Fernando Pessoa
THE SEPULCHRE
Mystery, mystery is here
That brings a joy with a fear.
Oh, that Death should greater be
Than Time and Space and all we see,
That Change should deeper be than thought
And Time, like a portentous tomb,
Should feel corruption in its womb
Yet itself crumble like its rot!
For e'en the sepulchre's cold stones
Shall have a death like the dead bones
They shut in.
(What coffer can lock
Corruption out? or rottenness
What wit with cell and bolt can mock?)
Ay, even marble shall like bodies die
A death, shall have an end. The passer-by
Shall tread the dust of the stone
That on the grave did lie,
In dust now like each bone.
For to Corruption all must go,
The difference in this alone:
That some things rot quick and some slow.
Ay, the hard stone will wear away
Making the day when it was rock
Unreal as a distant day.
Only a Shadow none do know,
By the lock'd door of Time and Space,
With obscure and peculiar grace
Keeps watch never to go.
That brings a joy with a fear.
Oh, that Death should greater be
Than Time and Space and all we see,
That Change should deeper be than thought
And Time, like a portentous tomb,
Should feel corruption in its womb
Yet itself crumble like its rot!
For e'en the sepulchre's cold stones
Shall have a death like the dead bones
They shut in.
(What coffer can lock
Corruption out? or rottenness
What wit with cell and bolt can mock?)
Ay, even marble shall like bodies die
A death, shall have an end. The passer-by
Shall tread the dust of the stone
That on the grave did lie,
In dust now like each bone.
For to Corruption all must go,
The difference in this alone:
That some things rot quick and some slow.
Ay, the hard stone will wear away
Making the day when it was rock
Unreal as a distant day.
Only a Shadow none do know,
By the lock'd door of Time and Space,
With obscure and peculiar grace
Keeps watch never to go.
1 561
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [c]
PASSAGEM DAS HORAS
Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.
Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).
Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galanteria deposta.
Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.
Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).
Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galanteria deposta.
Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
1 648
Fernando Pessoa
Triste horror d'alma, não evoco já
Triste horror d'alma, não evoco já
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
1 151
Fernando Pessoa
THE LAST OF THINGS
Weep for the last of things,
For the farewell that they give
As if with a glance alone
To the things that remain and live.
Weep for the noble minds
That have past like froth away;
Weep for the bodies fair
Now less than dust or day.
Weep for the smallest trifles
Of our life, that is made of them;
Weep for each unaccomplished,
Each dream known at last a dream.
Weep for nations and kingdoms
That are dreams within the past,
For creeds and for religions,
For idols dim down‑cast.
Though their glory were a vile one
And a blessing their decay,
Yet they are things that have been,
Have been and gone away.
Weep for all joys departed,
For many a departed pain:
The heart one day shall desire
That they could come back again.
Weep for all things that are gone
And for those that are not past,
For the heart that sees them knows
That they also shall not last.
To all that passes pertaineth
A shred of our sympathy,
A tear for all things departed,
For departing things a sigh.
For the farewell that they give
As if with a glance alone
To the things that remain and live.
Weep for the noble minds
That have past like froth away;
Weep for the bodies fair
Now less than dust or day.
Weep for the smallest trifles
Of our life, that is made of them;
Weep for each unaccomplished,
Each dream known at last a dream.
Weep for nations and kingdoms
That are dreams within the past,
For creeds and for religions,
For idols dim down‑cast.
Though their glory were a vile one
And a blessing their decay,
Yet they are things that have been,
Have been and gone away.
Weep for all joys departed,
For many a departed pain:
The heart one day shall desire
That they could come back again.
Weep for all things that are gone
And for those that are not past,
For the heart that sees them knows
That they also shall not last.
To all that passes pertaineth
A shred of our sympathy,
A tear for all things departed,
For departing things a sigh.
2 012
Fernando Pessoa
WAS...
The wave hath burst white upon the beach.
Speak no more of it.
The leaf hath rotted. No more can it teach
But a moral for joy unfit.
The day hath ended. Who speaks of its morn
But must think of its night?
The old corpse is rotting. That it was once born
Seems a lie to the sight.
The heart hath broken; no more can it throb
With deep love or care.
Its voice hath vanished; no more can it sob
In its deep despair.
Thus all things do crumble and all doth pass,
But not always forgot:
For we feel it deep, and in the heart «was»
Meaneth but «is nob».
Speak no more of it.
The leaf hath rotted. No more can it teach
But a moral for joy unfit.
The day hath ended. Who speaks of its morn
But must think of its night?
The old corpse is rotting. That it was once born
Seems a lie to the sight.
The heart hath broken; no more can it throb
With deep love or care.
Its voice hath vanished; no more can it sob
In its deep despair.
Thus all things do crumble and all doth pass,
But not always forgot:
For we feel it deep, and in the heart «was»
Meaneth but «is nob».
1 498
Fernando Pessoa
Dos montes, dos vales,
Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
1 478
Fernando Pessoa
E o sentimento de que a vida passa
E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 437
Fernando Pessoa
FRANZ: Isto de ser soldado
[FRANZ]:
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
OUTRO:
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
[FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
— Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
[FRANZ]:
É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
TODOS:
À saúde do Franz!
[FRANZ]:
Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
(Chora)
OUTRO:
O que é isso?
[FRANZ]:
O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
(cai para debaixo da mesa)
FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
[FRANZ]:
Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
(de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
FAUSTO:
Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
(bebe)
Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
FRITZ:
Mas a vida rapaz?
FAUSTO:
Caguei p'rá vida!
FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
FRANZ:
E depois disso?
FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.
— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
FRITZ:
Que é isso?
FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
OUTRO:
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
[FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
— Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
[FRANZ]:
É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
TODOS:
À saúde do Franz!
[FRANZ]:
Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
(Chora)
OUTRO:
O que é isso?
[FRANZ]:
O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
(cai para debaixo da mesa)
FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
[FRANZ]:
Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
(de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
FAUSTO:
Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
(bebe)
Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
FRITZ:
Mas a vida rapaz?
FAUSTO:
Caguei p'rá vida!
FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
FRANZ:
E depois disso?
FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.
— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
FRITZ:
Que é isso?
FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
1 439
Fernando Pessoa
Ah, estranha vida a de bordo! Cada novo dia
Ah, estranha vida a de bordo! Cada novo dia
Raia mais novo e mais outro que cada dia na terra.
Ruído dos guindastes! Carga em transbordo! Energia
Das coisas (...)
(...) melodia
Para a minha alma que ante o Real o perde e o erra...
No mar, no navegar, — ruído de hélice eterno!
O tempo é outro tempo, o espaço é de outra largura
E cada costa que surge é um dia que raia e é terno
De oco o olhar que abrange a imensidão e nada possui,
E o respirar do ar
Raia mais novo e mais outro que cada dia na terra.
Ruído dos guindastes! Carga em transbordo! Energia
Das coisas (...)
(...) melodia
Para a minha alma que ante o Real o perde e o erra...
No mar, no navegar, — ruído de hélice eterno!
O tempo é outro tempo, o espaço é de outra largura
E cada costa que surge é um dia que raia e é terno
De oco o olhar que abrange a imensidão e nada possui,
E o respirar do ar
1 349