Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Fernando Pessoa
O ar do campo vem brando,
O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 544
Fernando Pessoa
29 - ENNUI
Under a low and sullen sky,
Frowned on by lone winds that moan by
And palely sick for light from high
Till the landscape's soul doth sigh forever,
Forever sigh,
A black and calmness‑haunted river,
That doth a town from itself sever,
Runs with an inner fear and shiver
Like a dim fate forever nigh,
Nigher forever.
Ay, through that landscape lapsed from dream
Into a horrid truth doth gleam
That self‑absorbed, self‑empty stream
That bears a dream of dreams' emotion
To emotion's dream!
Runs from a land whence is no motion
Towards a possible far ocean;
And they, whose eyes anguished sans motion
Bathe in it, take emotion's dream
For dreams' emotion.
Frowned on by lone winds that moan by
And palely sick for light from high
Till the landscape's soul doth sigh forever,
Forever sigh,
A black and calmness‑haunted river,
That doth a town from itself sever,
Runs with an inner fear and shiver
Like a dim fate forever nigh,
Nigher forever.
Ay, through that landscape lapsed from dream
Into a horrid truth doth gleam
That self‑absorbed, self‑empty stream
That bears a dream of dreams' emotion
To emotion's dream!
Runs from a land whence is no motion
Towards a possible far ocean;
And they, whose eyes anguished sans motion
Bathe in it, take emotion's dream
For dreams' emotion.
1 407
Fernando Pessoa
O moinho que mói trigo
O moinho que mói trigo
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.
2 386
Fernando Pessoa
RESOLUTION
Why do I waste in dreams fruitless and vain
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?
Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.
High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;
I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?
Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.
High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;
I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
1 045
Fernando Pessoa
Os deuses desterrados [2]
Os deuses desterrados
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…
Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…
Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...
1 316
Fernando Pessoa
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
1 362
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 158
Fernando Pessoa
BEGINNING
Darkness and storm outside make inward gloom,
Quiet and home within and useless pain
Weigh down upon me as a wasted life,
Save where from the vile tomb
Of day there comes a semblance of a strife
Through the blown varying of the pallid rain.
Before the thunder shall the mansion shake
A blankly‑smiling day informs our eyne,
And there is here a ghastness and a gale
That make my frail form quake;
And strange to me who think all things must quail,
A voice is raised in joy - alas! not mine.
Why cannot youth be joyous, full of love?
Why am I made the corpse that woes and fears
And problems grim and world‑enigmas dire
Should like a body wove
Close to my nature, in which is a fire
The feverous source of Iying pains and tears?
Blow hard, thou wind; look pale, thou awful day!
Ye cannot in your dread and horror match
The thing that I bear in me and is me,
These idle thoughts that stray
Subordinate to the deep agony
Of him who hears the gate of reason's latch
Fall with a sound of termination,
As of a thing locked past and for e'er done.
Quiet and home within and useless pain
Weigh down upon me as a wasted life,
Save where from the vile tomb
Of day there comes a semblance of a strife
Through the blown varying of the pallid rain.
Before the thunder shall the mansion shake
A blankly‑smiling day informs our eyne,
And there is here a ghastness and a gale
That make my frail form quake;
And strange to me who think all things must quail,
A voice is raised in joy - alas! not mine.
Why cannot youth be joyous, full of love?
Why am I made the corpse that woes and fears
And problems grim and world‑enigmas dire
Should like a body wove
Close to my nature, in which is a fire
The feverous source of Iying pains and tears?
Blow hard, thou wind; look pale, thou awful day!
Ye cannot in your dread and horror match
The thing that I bear in me and is me,
These idle thoughts that stray
Subordinate to the deep agony
Of him who hears the gate of reason's latch
Fall with a sound of termination,
As of a thing locked past and for e'er done.
1 477
Fernando Pessoa
Há cortejos, pompas, discursos,
Há cortejos, pompas, discursos,
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
1 009
Fernando Pessoa
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
856
Fernando Pessoa
CONVENTION
Mother of slaves and fools, Thou who dost hold
Within Thine iron chains enslaved mankind,
Old in Thy yoke and in their slavery blind,
Harden'd to grief and woo, corrupt and cold,
But in the craven following, as of old,
Of those old ways, unwise, unfirm, unkind,
Bound ever in the animal bonds that bind
Fish, bird and beast in flock and herd and fold.
The light hath fallen of many a cherished name,
And many a land of love hath been the nurse,
But man's worn heart is evermore the same -
Unwilling ever to shake off the curse,
Once self‑inflicted, and the time‑grown shame
That loads the weary, lightless universe.
Within Thine iron chains enslaved mankind,
Old in Thy yoke and in their slavery blind,
Harden'd to grief and woo, corrupt and cold,
But in the craven following, as of old,
Of those old ways, unwise, unfirm, unkind,
Bound ever in the animal bonds that bind
Fish, bird and beast in flock and herd and fold.
The light hath fallen of many a cherished name,
And many a land of love hath been the nurse,
But man's worn heart is evermore the same -
Unwilling ever to shake off the curse,
Once self‑inflicted, and the time‑grown shame
That loads the weary, lightless universe.
1 438
Fernando Pessoa
No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
1 391
Fernando Pessoa
CANÇÃO ABRUPTA
CANÇÃO ABRUPTA
O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual
Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)
Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual
Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)
Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
1 385
Fernando Pessoa
Meu coração. o almirante errado
Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
882
Fernando Pessoa
O pensar, e o pensar sempre
O pensar, e o pensar sempre
Dá-me uma forma íntima e (...)
De sentir, que me torna desumano.
Já irmanar não posso o sentimento
Com o sentimento doutros, misantropo
Inevitavelmente e em minha essência.
Toda a alegria me gela, me faz ódio,
Toda a tristeza alheia me aborrece,
Absorto eu na minha, maior muito
Que outras. E a alegria faz-me odiar
Porque eu alegre já não posso ser,
E, conquanto o não queira assim sentir
Sinto em mim que a minha alma não tolera
Que seja alguém do que ela mais feliz.
O rir insulta-me por existir,
Que eu sinto que não quero que alguém ria
Enquanto eu não puder! Se acaso tento
Sentir, querer, só quero incoerências
De indefinida aspiração imensa,
Que mesmo no seu sonho é desmedida.
E às vezes com pensar sinto crescer
Em mim loucuras de (...)
E impulsos que me transem de terror
Mas são apenas (...) e passam.
Mais de sempre é em mim (quando não penso
E estou no pensamento obscurecido)
Uma vaga e (...) aspiração
Quiescente, febril e dolorosa
Nascida do (...) pensamento
E acompanhando-o comovidamente
Nas inércias obscuras do meu ser.
Dá-me uma forma íntima e (...)
De sentir, que me torna desumano.
Já irmanar não posso o sentimento
Com o sentimento doutros, misantropo
Inevitavelmente e em minha essência.
Toda a alegria me gela, me faz ódio,
Toda a tristeza alheia me aborrece,
Absorto eu na minha, maior muito
Que outras. E a alegria faz-me odiar
Porque eu alegre já não posso ser,
E, conquanto o não queira assim sentir
Sinto em mim que a minha alma não tolera
Que seja alguém do que ela mais feliz.
O rir insulta-me por existir,
Que eu sinto que não quero que alguém ria
Enquanto eu não puder! Se acaso tento
Sentir, querer, só quero incoerências
De indefinida aspiração imensa,
Que mesmo no seu sonho é desmedida.
E às vezes com pensar sinto crescer
Em mim loucuras de (...)
E impulsos que me transem de terror
Mas são apenas (...) e passam.
Mais de sempre é em mim (quando não penso
E estou no pensamento obscurecido)
Uma vaga e (...) aspiração
Quiescente, febril e dolorosa
Nascida do (...) pensamento
E acompanhando-o comovidamente
Nas inércias obscuras do meu ser.
1 837
Fernando Pessoa
Quem passa e me olha ou me conhece mal sabe
Quem passa e me olha ou me conhece mal sabe
Vendo-me apenas um cansado e triste
O que em mim há distante disto tudo!
Como é que a negra e lúcida verdade
Pode chegar às almas
Que na luz concebem? Tudo o que vive
Ao sol deste existir e quer o sol
Brilhe sem nuvens, anuviado seja
Ou (...) — vive à luz
E não suspeita o que é a escuridão
Das cavernas da alma, esquecida
De luz e vida, e onde a existência íntima
Tem outra forma, outro ser e outro (...)
Vendo-me apenas um cansado e triste
O que em mim há distante disto tudo!
Como é que a negra e lúcida verdade
Pode chegar às almas
Que na luz concebem? Tudo o que vive
Ao sol deste existir e quer o sol
Brilhe sem nuvens, anuviado seja
Ou (...) — vive à luz
E não suspeita o que é a escuridão
Das cavernas da alma, esquecida
De luz e vida, e onde a existência íntima
Tem outra forma, outro ser e outro (...)
1 200
Fernando Pessoa
Temo a verdade.
Temo a verdade.
Ignorar é amar. Toda esta terra,
Estes montes (...) não os amara tanto
Se soubera o que são, e enfim os vira
Como os não vejo. Pudesse eu sem termo
Gozar, sofrendo embora a ilusão
Sem que a quebrasse. Como são tristes
Os sonhos meus, inda que lhes pese,
Só porque sonhos são, que não a vida,
Assim serem. [?]
Ignorar é amar. Toda esta terra,
Estes montes (...) não os amara tanto
Se soubera o que são, e enfim os vira
Como os não vejo. Pudesse eu sem termo
Gozar, sofrendo embora a ilusão
Sem que a quebrasse. Como são tristes
Os sonhos meus, inda que lhes pese,
Só porque sonhos são, que não a vida,
Assim serem. [?]
936
Fernando Pessoa
HERE AND THERE
Here is the same as there, my friend,
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
1 396
Fernando Pessoa
SONG
Sun to-day and storm to-morrow.
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
Happiness or woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think thereon!
From delight we pass to sadness
From a smile to tears;
And the boldness of our gladness
Dies within our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
Happiness or woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think thereon!
From delight we pass to sadness
From a smile to tears;
And the boldness of our gladness
Dies within our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!
1 463
Fernando Pessoa
Quando se amam, vívidos,
Quando se amam, vívidos,
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
1 263
Fernando Pessoa
Fausto perante o povo alegre
Alegres camponeses, raparigas
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
1 513
Fernando Pessoa
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
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Fernando Pessoa
Estou escrevendo sonetos regulares
Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
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Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
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