Poemas neste tema
Vida
António Ramos Rosa
Encontro
Como nasceste? Amadurecia o mundo. Ó impaciência
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
1 025
António Ramos Rosa
Antes Que Tudo Seja
Por ela os animais entram tão íntimos e lentos
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
539
António Ramos Rosa
Terraço de Alegria
Há um terraço de alegria onde desperta
o corpo do sono e onde se amplia
a substância do vento e a nua perfeição
de estar a uma mesa aberta ao horizonte
e em volta unânime a vegetal frescura.
Tudo apresenta campo ao corpo ardente
que em seus meandros busca o coração
do jogo cintilante e vivo. Uma estria
vinca-se ao ritmo da distância lúcida
que no centro se abre em transparência azul.
Inebriada a inteligência singra a superfície
em que se esquece e esquecendo-se respira
as pausas da residência imóvel da alegria
que habita como se fosse a história viva
que está suspensa e no entanto principia.
o corpo do sono e onde se amplia
a substância do vento e a nua perfeição
de estar a uma mesa aberta ao horizonte
e em volta unânime a vegetal frescura.
Tudo apresenta campo ao corpo ardente
que em seus meandros busca o coração
do jogo cintilante e vivo. Uma estria
vinca-se ao ritmo da distância lúcida
que no centro se abre em transparência azul.
Inebriada a inteligência singra a superfície
em que se esquece e esquecendo-se respira
as pausas da residência imóvel da alegria
que habita como se fosse a história viva
que está suspensa e no entanto principia.
1 051
António Ramos Rosa
Extremamente Nua
Extremamente nua. E através dela a sombra
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
1 086
António Ramos Rosa
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
923
António Ramos Rosa
Um País, Um Poema
Um país se delimita nas mudanças do vento.
Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta.
Sinuosas continuidades, dunas de pensamento,
por vezes um abrigo, ninho de primavera,
por vezes um polvo ardendo nas areias.
Sobre uma espádua escrevo e no tremor de um corpo
cintilam os animais. Este é o âmbito destinado
em inteira nudez de forma e vida.
Desperto estou em ti movido pela luz
numa terra imóvel, liso como uma folha leve.
Um país se delimita e são vocábulos e pedras,
maciços obscuros, pátria de tantos rumores,
lenta germinação de lâmpadas de terra.
Um poema oculta a metáfora de si mesmo
no seu sopro e em nenhum saber culmina.
Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta.
Sinuosas continuidades, dunas de pensamento,
por vezes um abrigo, ninho de primavera,
por vezes um polvo ardendo nas areias.
Sobre uma espádua escrevo e no tremor de um corpo
cintilam os animais. Este é o âmbito destinado
em inteira nudez de forma e vida.
Desperto estou em ti movido pela luz
numa terra imóvel, liso como uma folha leve.
Um país se delimita e são vocábulos e pedras,
maciços obscuros, pátria de tantos rumores,
lenta germinação de lâmpadas de terra.
Um poema oculta a metáfora de si mesmo
no seu sopro e em nenhum saber culmina.
1 155
António Ramos Rosa
Corpo de Argila
Aqui, para que se abram os poros na floresta.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
1 126
António Ramos Rosa
Os Campos Paralelos
Que chuvas despertam os campos paralelos?
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
555
António Ramos Rosa
Um Discurso Transparente
Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
637
António Ramos Rosa
Omnipresença Imediata
Ela é nuvem, omnipresença imediata,
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
530
António Ramos Rosa
Figuras do Ar E da Terra
A língua liberta-se no silêncio e no espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
1 141
António Ramos Rosa
Uma Mão Vazia
Uma mão vazia que poderia ser, um deslize
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
1 102
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
992
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 021
António Ramos Rosa
Mediadora de Estar
A paz é de sombra. Imóvel
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
1 183
António Ramos Rosa
Mediadora do Opaco
Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
1 043
António Ramos Rosa
Mediadora do Dia
Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
1 007
António Ramos Rosa
Mediadora do Espaço
Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
542
António Ramos Rosa
Pronunciar a Terra
Pronunciar a terra
com as suas estridências.
Rodar com o novo sangue e a sua ignorância.
com as suas estridências.
Rodar com o novo sangue e a sua ignorância.
1 033
António Ramos Rosa
No Centro do Mundo
Oscilante geometria tranquila
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
964
António Ramos Rosa
Ao Sabor do Mundo, Na Deriva
Ao sabor do mundo, na deriva
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
943
António Ramos Rosa
É Um Rumor Apagado Talvez
É um rumor apagado talvez
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
626
António Ramos Rosa
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
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António Ramos Rosa
Palavras Para Viver
Afluem do vento as velas
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
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