Poemas neste tema

Ciência e Razão

Franz Kafka

Franz Kafka

O pião

Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.

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Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXIV

O 4 é 4 para todos?
São iguais todos os setes?

Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?

Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?

Que monarquia ocidental
se embandeira com papoulas?
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!... E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Q’rer apagar no Céu – Ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, como o vento!...

E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: “O que te resta?...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
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Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

O Provérbio Latino, dez 1981

o provérbio latino
ferrum natare doces
(ensinar
ferro a nadar /
querer
o impossível)

tornou-se
com a máquina a vapor de watt
letra
morta

deixando
galeras e caravelas
mar e rio
a ver navios


In: BONVICINO, Régis. Sósia da cópia, 1978/1983. São Paulo: Max Limonad, 1983
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Miguel de Couto Guerreiro

Miguel de Couto Guerreiro

Lisboa Emaraçada, no Século Iluminado

I — Como passa o mau por bom

Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.

II — Século iluminado

O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.

III — Dos sabichões do tempo

Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.

IV — Da causa de muitos erros

Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.

( in Antologia de Poetas Alentejanos)

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Maria Rita Kehl

Maria Rita Kehl

recurso

O método faz milagres.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.

O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——

quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.

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Bocage

Bocage

Sanhudo, inexorável Despotismo

"Sanhudo, inexorável Despotismo
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
Obra da Iniquidade e do Ateísmo:

Assanhas o danado Fanatismo,
Porque te escore o trono onde te enlevas;
Por que o sol da Verdade envolva em trevas
E sepulte a Razão num denso abismo.

Da sagrada Virtude o colo pisas,
E aos satélites vis da prepotência
De crimes infernais o plano gizas,

Mas, apesar da bárbara insolência,
Reinas só no ext'rior, não tiranizas
Do livre coração a independência."

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Franz Kafka

Franz Kafka

O Escudo da Cidade

Quando se começou a construir a Torre de Babel, tudo estava muito em ordem; e talvez a ordem fôsse excessiva; pensava-se demais em indicadores de caminhos, intérpretes; alojamentos para trabalhadores e rotas de enlace, como se se dispusesse de séculos e outras tantas probalidades de trabalhar livremente. A opiniâo então reinante chegava até a estabelecer que toda lentidão para construir seria pouca; não era preciso exagerar muito esta opinião para retroceder ante a própria idéia de pôr as bases. Argumentava-se deste modo: em toda a empresa, o positivo é a idéia de construir uma torre que chege ao céu. Diante desta idéia o resto é acessório. Uma vez captado o pensamento em toda sua grandeza, não pode desaparecer já: enquanto existem os homens, perdurará o desejo intenso de terminar a construção da torre. Neste sentido não há o que temer pelo futuro, pois antes do mais, o saber da humanidade vai em aumento, a arte da construção fez progressos e fará ainda outros novos; um trabalho para o qual necessitamos uma ano, será realizado dentro de um século, talvez em apenas seis meses e, por acrescentamento, melhor e mais duradouramente. Por que esgotar-se, pois, desde já até o litime das forças? Isso teria sentido se se pudesse esperar que a torre fôsse construída num lapso de uma geração. Isto, contudo, de nenhum modo era dado acreditá-lo. Pois bem, poderia pensar-se que a próxima geração, com seus mais amplo saber, haveria de achar mau o trabalho da geração precedente e que teria de demolir o construído para tornar a começar. Pensamentos deste gênero paralisavam as forças, e a edificação da cidade operária deslocava a construção da torre. Cada grupo regional queria possuir o bairro mais formoso, pelo que sobrevieram quizílias que redundaram em sangrentos combates. Estas lutas eram incessantes; o que serviu de argumento aos chefes para que, por falta da necessária concentração, a torre fosse erguida muito lentamente, ou, melhor ainda, apenas ao fim de estipulada uma paz geral. Mas não se perdeu tempo tão somente em combates, pois durante as tréguas se embelezou a cidade, o que deu origem a novas invejas e novas lutas. Assim transcorreu o lapso da primeira geração, mas nenhuma das que seguiram foi diferente; apenas a destreza ia em aumento constante e, com ela, a sede de luta. A isso veio somar-se que a segunda ou terceira geração reconheceram a insensatez da construção da torre, mas os vínculos mútuos eram já demasiado fortes como para que se pudesse deixar a cidade. Tudo quanto está entroncado com a lenda e a conção que surgisse na cidade está cheio da nostagia para o anunciado dia no qual a cidade seria aniquilada por cinco breves golpes e sucessivamente descarregados sobre ela por um punho gigantesco. Por isso tem a cidade um punho no escudo.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se nada houvesse para além da morte,

Se nada houvesse para além da morte,
Nada, e o que o espírito é pronto a querer
O que a imaginação em vão procura
Não fosse nada... E só um vácuo inteiro
No mundo, o enorme mundo perceptível,
Não fosse, nem o azulado das ondas
Nem a antecâmara da Realidade
Não outra coisa que o oco dele próprio,
E vazio do ser implodindo
Éter da ininteligibilidade
Onde o erro da razão sobre montes e vagas
Sem nexo em existir sem leis flutua.

Quem sabe se o supremo e ermo mistério
Do universo não é ele existir
Com inteireza tal em existir
Que não tenha sentido nem razão
Nem mesmo uma existência, de tão única,
Concebível... Meu espírito, corrompe-se
Ao místico furor do pensamento..
De horror sem dor

Se o mundo inteiro, — abismo sem começo,
Poço sem paredes, negro absurdo
Aberto noutro absurdo ainda mais negro —
Não tem possível interpretação
Nem intertemporalidade num futuro
Da razão, ou da alma, ou do universo
Ele-próprio.
Ah o ocaso sobre os montes
Com que réstia de luz nos faz de longe
O gesto lento de nos abençoar...
E nem sombra, nem mesmo definida
Tristeza dói...

Ó sempre mesma dor do pensamento.
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Almir Fonseca

Almir Fonseca

Soneto

Olhando a vastidão do céu, eu, desde jovem,
Admiro do Universo os mistérios profundos,
E desejo saber por que milhões de mundos
Sustentam-se no espaço e em órbitas se movem...

Com a Ciência examino os teoremas rotundos
Que os sábios, através dos séculos, promovem,
E não vejo quaisquer resoluções que provem
Os Planetas e o Sol de onde são oriundos...

Procuro e não encontro em toda a Astronomia,
Nas leis fundamentais dos grandes Galileus,
Onde acaba o Universo e o Cosmo principia...

E creio, concluindo os pensamentos meus,
Que, embora contrariando a vã Cosmogonia,
— Não há fim nem começo — em tudo existe Deus...

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Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Helenismo

Não sei por onde vou, por onde passo.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.

Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.

Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.

Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A ciência, a ciência, a ciência...

A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!

Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!

A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.

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Susana Thénon

Susana Thénon

Onde

"Só o mistério
Nos faz viver.
Só o mistério."
F. García Lorca

Abaixo a teoria da gestalt
as estatísticas anuais
o observador no pólo
os conselhos de controle.
Abaixo o sol meteorológico
o tetranitrato de pentaeritritol
a força motriz aproveitável
e o robô eletrônico.
Abaixo o predicado nominal
a glossemática de Hjelmslev
o catálogo de códigos e documentos
a patogenia do coma hepático.
Abaixo as categorias dimensionais
a soma dos ângulos interiores de um sonho
a cosmovisão do eu
os graus do amor cibernético
como seguir
o que ser
onde morrer
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Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

INVESTIGAÇÃO DA VIDA

Falamos da mesma coisa, você e eu
só que você possui a estranha luz
dos que já sacaram tudo
coisa serena que brota da sabedoria
enquanto eu
movimento as mãos, quase choro
busco a veemência, a atitude
de drama que me ensinaram de criança
sou arrogante, intolerante
minha impaciência não se justifica.
Talvez porque eu seja daqueles que acreditam
que se muda o curso do mundo
com uma ideia
e se luta e se rebela e essas coisas todas
que sempre me pareceram dignas e justas
e me inflamaram
e me deram um rumo.
Agora já não sei. Tento evitar o caminho da descrença
e não tenho ainda a sua lucidez.
Talvez seja esse o difícil minuto
que antecede o fruto.
Talvez.
Falamos de um só sentido, uma mesma consciência
pequenos e humanos, às vezes um pouco tristes.
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Alexandre de Gusmão

Alexandre de Gusmão

A Júpiter Supremo Deus do Olimpo

Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?

Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?

Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;

Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.

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Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Ofício e Morada

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rotuais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.

De comércio sabemos.
Com âncoras e astro
lábios medimos
nossa rota inscrita
na retina. Exaustos,
entre aquáticas
florestas, perseguimos
os veados do sol
e da vertigem. Por
obscuras silícias
e cretas navegamos.

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Affonso Ávila

Affonso Ávila

Os Insurgentes

O LÚRIDO JOIO DO REVERSO

(...)

onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste

onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável

onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo

onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo

onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo

O LÚCIDO JOGO DO REVÉS


In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.

NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
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Donizete Galvão

Donizete Galvão

Falésias e falácias

De tempos em tempos, nos deparamos com ensaios, artigos ou entrevistas com opiniões de poetas, romancistas ou críticos falando da falésia Joyce, do abismo Mallarmé ou do enigma Valéry. Já virou lugar comum dizer que não há romance possível depois de Joyce ou que Mallarmé levou a poesia a um reino de refinamento que não pode ser alcançado. Um desses colunistas que pululam na imprensa chegou a determinar de forma ditatorial que o romance acabou em Joyce, o teatro em Racine e a pintura em Velázquez. Qualquer tentativa de levar adiante qualquer uma dessas artes resultará, para esses adoradores de ídolos, em fracasso. O romance acabou. Não existe mais pintura. E a poesia está em extinção.
O engraçado é que os mesmos que colocam esses autores no panteão de super-homens continuam escrevendo. Portanto, não fazem exercício de modéstia diante da grandeza desses autores. Na minha infância havia um caderno muito comum, usado pelas crianças pobres, que trazia na capa um moleque carregando uma enorme bandeira onde se lia Avante! A impressão é de que essas pessoas carregam essa bandeira levando sempre na vanguarda as conquistas dos artistas acima citados. Estamos no final do século e ainda insistem que sejam seguidos os evangelhos de Pound ou Mallarmé.
Uma passada rápida pela literatura do século XX mostra que muitos autores não se sentiram intimidados ou obrigados a seguir uma linha programática em suas obras. Yeats, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Seféris, Rilke, Paul Celan, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes não teriam criado suas obras fundamentais se acreditassem nesse falso impasse. E nomes como Herrmann Broch, Elias Canetti, Lawrence Durrell, Guimarães Rosa ou Julio Cortázar jamais teriam escrito seus romances se julgassem que nada mais havia para ser criado depois de Ullisses ou Finnegans Wake. Mesmo autores influenciados por Joyce, como Anthony Burgess, não se recusaram a criar, esbirrados pela grandiosidade do irlandês.
Dante Milano num curto e brilhante ensaio chamado Mallarmé e sua influência chama muito bem a atenção para o problema daqueles que querem superar o poeta. Aponta a excessiva idealização da arte como um produto divino, artificial, um bibelô estético. Presos a essa corrente que faz do poema um artefato e do poeta uma máquina de fazer poemas, muitos giram em falso em sua esterilidade. Muitos tentam imitar sua técnica, sem conseguir chegar à sua poética.
Os angustiados pela sua influência buscam sem sucesso atingir seu refinamento. Tiram da poesia tudo que há de humano, de vivacidade, de espírito e, digamos a temida palavra, de pensamento. Tontos pelo slogan de que poesia "não se faz com idéias, mas com palavras," jogam-nas aos quatro cantos da página, imaginando que esse lance de dados vá inaugurar a poesia. Pensar pode ser, sim, um ato poético. Dão prova disso a poesia de Leopardi, W. H. Auden e a do próprio Milano. Jovens poetas bem intencionados tentam seguir os mesmos slogans de make it new, ostinato rigore, miglior fabbro, sem saber que eles passam pelo conhecimento e diálogo com a tradição.
Parte desse emaranhado conceitual resulta numa poesia sem tutano, diluída e livresca. Perde-se, assim, sua ligação com a língua e a identificação com os leitores que não são especialistas. Tentando cortar gorduras, cortam a carne e os ossos do poema. Embora produzam faíscas de beleza, não conseguem ir além do flash, do insight, da charada sutil. Nesses casos, a brevidade deixa de ser concisão como bem observou Waly Salomão no poema em que fala de João Cabral de Melo Neto. De citação em citação, de colagem em colagem, de slogans e trocadilhos surge uma poesia desprovida de qualquer voz própria ou cor, que pode ser chamada conversação entre homens inteligentes e elegantes.
Nós, poetas, herdeiros de uma geração fortíssima estamos com medo do grande salto. Insistimos muitas vezes no apuro técnico, na brevidade, por receio de parecermos líricos, indulgentes, rídiculos. Muito da poesia dos poetas de 30 a 40 anos peca pelo excesso de delicadeza, pela busca exagerada de um tom poético, pela intricada rede de desleituras. Como bem observou Cioran o excesso de poesia também faz mal à poesia. Essa contenção, embora produza poemas de qualidade média, tolhe vôos maiores.
Além disso, parte dos recursos que eram considerados radicais estão completamente banalizados. A fragmentação, as colagens, as elipses tornaram-se lugar comum da publicidade e da dita estética MTV. Poetas que insistem em usar o Corel Draw ou o Page Maker fazem produções muito inferiores em termos de qualidade técnica a qualquer videoclip.
Hoje, o que choca não é a pintora performática que pinta seus quadros com o sangue de sua menstruação ou o artista que corta a língua como ato estético. Causaria mais espanto um jovem que aparecesse desenhando como Picasso ou, no caso do Brasil, tivesse o traço de um Flávio de Carvalho ou Marcelo Grassmann. Deve ser por isso que as pinturas de um Francis Bacon ou de um Lucien Freund ganham uma nova dimensão. Depois de tanta obra conceitual e interativa nada como um quadro bem pintado por quem tem uma visão densa das coisas para nos mostrar que até mesmo auto-retratos não estão fora de moda. Ressalte-se aqui que a arte abstrata atinge sim uma região do sublime. Kandinsky, Paul Klee, Yves Klein e, mais recentemente, Anish Kapoor provocam-nos um mergulho na origem sagrada, há um fio espiritual conduzindo suas obras. Espiritual, reafirmo, não exlusivamente mental ou conceitual. Deve ser por isso que Jackson Pollock só teve imitadores, nunca seguidores que atingissem o seu grau de intensidade.
Vivemos um período em que nos enriquecemos por traduções de nomes importantes. Descobrimos a poesia de outros países. Foi uma abertura de fronteiras. Somos gratos aos tradutores como os irmãos Campos, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Aíla da Silva Gomes, Paulo Vizioli, Dora Ferreira da Silva e tantos outros que nos permitiram o acesso às obras de poetas importantes. Como diz um ditado mineiro, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Bem, nos lambuzamos e nos deliciamos com tantos ares novos. Certamente, o saldo será altamente benéfico para a poesia. A língua portuguesa ganhou muito com essas traduções.
Houve, entretanto, um efeito colateral. Deixamos de lado nomes importantes da poesia brasileira. Esquecemo-nos muito rapidamente deles. E passamos a ter necessidade de dialogar com a poesia norte-americana contemporânea. Estarão esses interessados em dialogar com a poesia brasileira? O que observamos é que mesmo os poetas mais experimentais dos EUA sempre mantiveram um diálogo com sua tradição de Whitmam a Emily Dickinson. Prova disso são os estudos cada vez mais amplos sobre esses poetas. Suas obras hoje são canônicas e ninguém se sente antiquado por lê-las.
No Brasil, até há pouco tempo caçávamos obras de Murilo Mendes nos sebos. Graças ao belo trabalho de Isabel Lacerda, na Nova Aguilar, temos as obras completas dele publicadas. Ele está sendo descoberto com encantamento por um público jovem. Pecisamos, portanto, fazer circular novamente a obra de poetas importantes que foram um tanto sombreados pelos mais famosos. Peço licença para puxar a sardinha para poetas de minha predileção como Emílio Moura, Dante Milano, Mario Faustino e Cassiano Ricardo. Mesmo uma poeta celebrada como Cecília Meireles não é muito estudada em nossas universidades. Precisamos dar valor aos nossos criadores. Sem medo de parecermos provincianos. Caipira é quem está deslumbrado com a globalização e faz questão de ecoar com alarde a última novidade de Manhattan.
Nem todo mundo, entretanto, foi iludido por essas falácias e ficou com medo de cair nas falésias. Entre os poetas do meu conhecimento cito Floriano Martins, Paulo Henriques Britto, Alexei Bueno, Ruy Espinheira Filho, Fábio Weintraub, Paulo Octa
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Antero de Quental

Antero de Quental

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que há de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o desatino!

Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degrêdo, o céu destino.

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Gosto das palavras exactas

Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.
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Colombina

Colombina

Espírito

Não! A verdade és tu! A tua flama pura
sobre a matéria e além dos séculos cintila!
Plasmas o sonho e dás à humana criatura
forças para vencer a própria triste argila.

Conduzes ao saber; a ti pertence a altura;
tudo que é belo vem da tua luz tranquila.
Sem ti seria o mundo uma caverna escura;
nem a morte cruel te vence ou te aniquila.

Revelação de Deus, de toda a sua imensa
sabedoria, que dizendo ao homem "Pensa!"
no cérebro lhe pôs a forja das idéias.

Sim, a verdade és tu, espírito que elevas
as criaturas; tu, que enches de luz as trevas,
transformando a miséria e a dor em epopéias!


Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O ferrageiro de Carmona

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.
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Nelson Ascher

Nelson Ascher

Hölderlin

p/ Antonio Medina Rodrigues
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.

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Amadeu Amaral

Amadeu Amaral

22 - Em Meditação Introspectiva

Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.

Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.

Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.

E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.

16 de setembro de 1922


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
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