Poemas neste tema

Arte

Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Homenagem ao Itabirano

Teu aniversário, Poeta, no escuro
não se comemora. Antes, se celebra
no claro enigma das horas.

Tentas nos fugir. Em vão.
Tua poesia nos persegue
e revertida te alcança
como o sonho persegue
o sonhador fujão.

Podes te alojar — barroco e torto —
dentro de um santo de pau oco,
como aqueles que, em Minas,
ocultam a riqueza clandestina
de seu dono. Podes fingir
a indiferença do corpo
quando se refugia no sono.

Podes partir para Buenos Aires
Bombaim
ou Tapajós.
Não te deixaremos a sós,
pois ensinaste ao leitor mudo
a emoção da própria voz.

Independente de ti,
na luz renascente do dia,
como tua poesia, teu aniversário
se irradia.
Neste dia
não há vanguarda e academia,
prosa e poesia, nem à direita
e à esquerda, ideologia.
Teus versos se instalaram
nas dobras dos lençóis e cartas,
se infiltraram nos jornais,
viraram slogans, provérbios
e senhas matinais.
Não há quem te não saiba de cor.
A abelha de teus versos
segrega em nós o nosso mel melhor.

Hoje o jornaleiro
entregará na esquina
um jornal mais leve e limpo
onde a poesia abre espaço
nas guerras do dia-a-dia.
O porteiro de teu prédio
amanhecerá engalanado
como guarda da rainha,
protegendo-te do assédio
de quem quer te ver de perto.

O carteiro de tua rua
qual hércules moderno
trará pacotes, malotes
e pirâmides de afeto.

Certo, hoje não sairás à beira-mar, puro recato.
Mas as ondas, sabidas, guardarão para amanhã
as cabriolas e saltos, que brincalhonas
darão à tua passagem
— no calçadão da avenida.

Quando nasceu o poeta? Em 1902?
No ontem de Itabira? Ou depois
que alguma poetisa se iluminou
em reunião e epifania?
Como nasceu o poeta? Antes
do primeiro poema, quando ele ardia
a dor do mundo sozinho? Ou no dia
da primeira topada da crítica
com a "pedra no meio do caminho"?

Quem é esse poeta ambíguo e exilado
no umbigo do grande mundo
como um avesso Crusoé?
Qual a sua melhor máscara?
A de Carlos? O elefante de paina?
A letra K? Ou o absurdo José?

Ah, drummontanhosa criatura,
difícil esfinge de orgulho e ferro,
ostra enrodilhada no inexistente mar de Minas.

Pena que não te veja teu pai,
nesta hora nacional. Imagino-o
chegando de chapéu, com as botas dos currais
e encontrando na sala da fazenda
essa multidão de brasileiros
a louvar o filho gauche
— franzino e tímido —
num canto do salão.

Poeta, pai involuntário
de tantos poetas voluntários.
Teus descendentes literários te saúdam
e te beijam vivo
com aquele amor, que, em Minas, contido,
só se exibe diante do morto, no imaginário.

Não podemos esperar que partas em ausências
para te amar melhor. Nosso amor
se ilumina à luz de tua presença.
O amor, como a poesia, tem urgências.
Te amamos e não te ocultamos nosso gesto.
Te amamos como indivíduo — sozinhos e discretos
ou como um grande país
— com alarde e afeto.



Publicado no livro A catedral de Colônia e outros poemas (1985).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Tortura Eterna

Impotência cruel, ó vã tortura!
Ó Força inútil, ansiedade humana!
Ó círculos, dantescos da loucura!
Ó luta, ó luta secular, insana!

Que tu não possas, Alma soberana,
Perpetuamente refulgir na Altura,
na Aleluia da Luz, na clara Hosana
do Sol, cantar, imortalmente pura.

Que tu não possas, Sentimento ardente,
viver, vibrar nos brilhos do ar fremente,
por entre as chamas, os clarões supernos.

Ó Sons intraduzíveis, Formas, Cores!...
Ah! que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos mármores eternos!


Publicado no livro Broquéis (1893).

In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
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Maciel Monteiro

Maciel Monteiro

Formosa

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pode ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais no céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O que Alécio vê

A voz lhe disse (uma secreta voz):
— Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por teu olhar o sentimento das formas,
que é o sentimento primeiro — e último — da vida.

E Alécio vai e vê
o natural das coisas e das gentes,
o dia, em sua novidade não sabida,
a inaugurar-se todas as manhãs,
o cão, o parque, o traço da passagem
de pessoas na rua, o idílio
jamais extinto sob as ideologias,
a graça umbilical do nu feminino,
conversas de café, imagens
de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco
para depositar-se numa folha
sobre a pedra do cais
ou para sorrir nas telas clássicas de museu
que se sabem contempladas
pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas,
ou ainda
para dispersar-se e concentrar-se
no jogo eterno das crianças.

Ai, as crianças… Para elas,
há um mirante iluminado no olhar de Alécio
e sua objetiva.
(Mas a melhor objetiva não serão os olhos líricos de Alécio?)
Tudo se resume numa fonte
e nas três menininhas peladas que a completam,

soberba, risonha, puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade,
hino matinal à criação
e à continuação do mundo em esperança.
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Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Poema Antigo

O
homem que percorro
com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio


o oceano
penso paralelo - ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio

ciclames-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo - bússola
com raiz - grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto
a lua que concebo.

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Haroldo de Campos

Haroldo de Campos

Nomeação do Azul-Volpi

um
rouxinegro
canta
no azul-
volpi

uma
asa
violeta
a escanteio
triângula
no
branco

volpinveste
um vermelho
de vermelhos
e iça a
bandeira
branca

roságua o
rosa
e abre
para este
canto
onde
o rouxinegro
azula
ogivando-se
e
:
quadrosquadros
zulminâncias
volpilúminos


julho 72

Poema integrante da série 6 Metapinturas e 1 Meta-Retrato.

In: CAMPOS, Haroldo de. A educação dos cinco sentidos: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 92-93
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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

MISSAL (trecho- ORAÇÃO DO MAR)

                                                               ORAÇÃO DO MAR


Ó Mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do mundo, turbilhões de pérolas e turbilhões de músicas! Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de todas as plangências e dolências...
Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial!
Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas, como castas adolescentes!
Mar dos sóis purpurais, sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio virgem, de onde derivam as correntes cristalinas da Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes, estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas.   

Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre vivificante, Eles seperpetuarão, sem mácula, à saúde das tuas águas mucilaginosas onde geram-se prodígios como de uma luz imortal fecundadora.
Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam eternamente, estes Pensamentos acerbos viverão para sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos.
Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! Para que conserves no íntimo da tu'alma heróica e ateniense toda esta dolorosa Via-Láctea de sensações e idéias, emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido afeto nas infinitas aléias do Ideal, para perfumar e florir, num Abril e Maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte.
Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão estes Pensamentos melhor guardados do que no fundo das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes...
Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas, sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as manchem, os olhos sem entendimento, indiferentes e desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e claridade, que as leiam...
Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas alacridades salgadas, picantes,  primaveris e elétricas que os matinais esplendores derramam, alastram sobre o teu dorso, em pompas; pelas convulsas e mefistofélicas orquestrações das borrascas; pelo epilético chicotear, pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais que te revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e choram nas harpas da cordoalha dos Navios, Ó Mar! guarda nos recônditos Sacrários d'esmeralda as Idéias que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler às meditadoras Estrelas, à emoção dos Ângelus espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras olímpicas dos teus ocasos...


Publicado em Missal (Fevereiro de 1893)
 

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Ronaldo Azeredo

Ronaldo Azeredo

Velocidade

                            V V V V V V V V V V
                            V V V V V V V V V E
                            V V V V V V V V E L
                            V V V V V V V E L O
                            V V V V V V E L O C 
                            V V V V V E L O C I
                            V V V V E L O C I D 
                            V V V E L O C I D A
                            V V E L O C I D A D 
                            V E L O C I D A D E
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Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Cinema

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
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Sousândrade

Sousândrade

Canto Décimo [II

(...)

(Comissários em Filadélfia expondo a CARIOCA
de PEDRO AMÉRICO, QUAKERS admirados:)

— Antedilúvio 'plesiosaurus,'
Indústria nossa na Exposição...
— Oh Ponza! que coxas!
Que trouxas!
De azul vidro é o sol patagão!

(...)


In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
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José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

POESIA III

Com pés de aragem

andou toda a noite uma Mulher

a colar folhas na paisagem

e invenções de flores

no chão desnudo



Depois...



(E esta mania que eu tenho

de pôr mulheres em tudo?)

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Vôo Sobre As Igrejas

Vamos até à Matriz de Antônio Dias
onde repousa, pó sem esperança, pó sem lembrança, o Aleijadinho.
Vamos subindo em procissão a lenta ladeira.
Padres e anjos, santos e bispos nos acompanham
e tornam mais rica, tornam mais grave a romaria de assombração.

Mas já não há fantasmas no dia claro,
tudo é tão simples,
tudo tão nu,
as cores e cheiros do presente são tão fortes e tão urgentes
que nem se percebem catingas e rouges, boduns e ouros do século 18.

Vamos subindo, vamos deixando a terra lá em baixo.
Nesta subida só serafins, só querubins fogem conosco,
de róseas faces, de nádegas róseas e rechonchudas,
empunham coroas, entoam cantos, riscam ornatos no azul autêntico.

Este mulato de gênio
lavou na pedra-sabão
todos os nossos pecados,
as nossas luxúrias todas,
e esse tropel de desejos,
essa ânsia de ir para o céu
e de pecar mais na terra;
esse mulato de gênio
subiu nas asas da fama,
teve dinheiro, mulher,
escravo, comida farta,
teve também escorbuto
e morreu sem consolação.

Vamos subindo nessa viagem, vamos deixando
na torre mais alta o sino que tange, o som que se perde,
devotas de luto que batem joelhos, o sacristão que limpa os altares,
os mortos que pensam, sós, em silêncio, nas catacumbas e sacristias,
São Jorge com seu ginete,
o deus coberto de chagas, a virgem cortada de espadas,
e os passos da paixão, que jazem inertes na solidão.

Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Mariana, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades
e o Aleijadinho era uma vez.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Emprego e Desemprego do Poeta

Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos
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Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Ópera do Operário

A ópera
do operário
é um grito sem fim.

É um grito de paz
a ópera do
operário
que é poeta.

Poeta
que rima
a dor à agonia
seu salário à família.

Operário
poeta maior
de todos os dias.

Poeta da vida

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Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

O Oratório de Djanira

(...)

2. OFERTÓRIO

Djanira apresenta seus santos.
Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da madeira,
o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.
São cinco homens e quatro mulheres, pois
a Mãe de Deus aparece sob duas imagens:
a da Imaculada Conceição, que foi como ela nasceu,
e a de Nossa Senhora do Bom Parto, que zela pelas outras nascenças.
Aqui encontrarás, se tiveres nos olhos o coração,
os caminhos da santidade pelos desertos da solidão.
Bento, que lia, e Pedro, que chorava,
com o galo que cantou três vezes, o sudário que enxugava as lágrimas,
e o bastão que governa a Igreja;
Antônio, que trouxe nos braços o Menino;
Matias, o primeiro a ser escolhido pelo povo de Deus e o primeiro a
[sofrer o martírio,
e São José de Botas — as mesmas botas que calçou quando buscou
[refúgio no deserto e nas árvores do Egito.
Entre as mulheres estão Teresa, que sofreu no amor divino
as angústias e o gozo do amor físico,
Rita, que tem a chave dos impossíveis e se dói dos limites da nossa
[condição,
e Sant'Ana, que sempre ensina no livro à filha predestinada para o
[sopro de Deus e a resignação com as Sete Dores.
Piedoso ou carregado de culpas, ajoelha-te ao lado de Djanira e reza
[com ela,
para que todos os barcos cheguem a bom porto,
as crianças brinquem de roda na noite leve,
as casas descansen tranquilas na paisagem,
mar azul, chão de ervas mui verde, olhos d'água, caminhos no morro,
e todas as almas vejam a nudez de Deus no paraíso,
não o Deus que mede, na luz impalpável, etérea,
sem contorno, sem forma e sem limite,
mas o pobre Deus que acabou de nascer Homem,
deitado nas palhas do velho presepe.


Poema integrante da série Arca da Aliança.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
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Konstantínos Kaváfis

Konstantínos Kaváfis

A Bordo

Claro que é parecido este pequeno
retrato dele, a lápis.

Feito num momento, no convés do barco,
numa tarde encantadora.
O mar da Jónia a rodear-nos.

Parece-se com ele. Não era ele mais belo?
Sensível era a ponto de sofrer -
o que seu rosto iluminava.
Mais belo me aparece, agora que,
fora do Tempo, eu o recordo n'alma.

Fora do Tempo. Tudo isto é muito antigo -
o desenho, e o navio, e o entardecer.

[1919]

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Adolfo Casais Monteiro

Adolfo Casais Monteiro

Aurora

A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.

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António de Navarro

António de Navarro

Charleston

O jazz
zurze, risca losangos, gumes,
planos, ângulos, sonoros motes
arrancados de dentro da pandeiretas, cornetas, timballs,serrotes
tocados por Hotentotes saltitantes
que rasgam o espaço côncavo
com os fortes botes
dos sonoros motes volantes
do jazz-band dHo-ten-to-tes...

Andam no ar jogos malabares de fogos de Bengala
num batuque dHotentotes... dHo-ten-to-tes
sal-ti-tan-tes no redondel duma senzala.
E ela surge, toda nua,
sob a poalha luminosa e crua
dum foco darco voltaico,
que, incendiando o mosaico
de sua pele tatuada a cores,
lhe dá o aspecto bizarro
dum bronze colorido,
dum manipanso Hotentote.
O seu corpo, asa que desgarra,
esmurra, esbarra,
em movimentos ágeis,
elétricos,
com os sons do jazz
pensamentos alados de Ferrabraz
que esvoaçam, velozes, velozes no espaço.
As pernas são apenas
dois movimentos instáveis,
trêmulos, nos espaços,
em malabárico jogo.
E os braços,
duas antenas
vibráteis, duas
asas de fogo
e cor
numa pluma de labareda.
Os olhos são duas puas,
acerados gumes,
agudos ângulos,
orgias de fogos e lumes,
facas de prestigitador
sonâmbulo.

Seu corpo, cansado e bambo
— tomba
sobre almofadas de Damasco, Raz,
e penas de Trebisonda.
E o jazz
continua, já lassa a pele dos bombos,
bambas as cordas dos banjos.
Entretanto o jazz zurze, risca
o espaço também já lasso e bambo.

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Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

História

Toda história tem seu texto
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.

Tem um sujeito que a escolhe
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe
qui tollis peccata mundi.

Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.

Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
R tem a essência que muda
e permanece, calada.

Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar pelo avesso,
ler o que está subscrito.

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Manoel de Barros

Manoel de Barros

Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Antonio Cicero

Antonio Cicero

Guardar

Guardar uma coisa
não é escondê-la
ou trancá-la.

Em cofre não se guarda
coisa alguma
Em cofre perde-se
a coisa à vista
Guardar uma coisa é
olhá-la, fitá-la, mirá-la
por
admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela
iluminado
Guardar uma coisa é
vigiá-la, isto é,
fazer vigília
por
ela, isto é, velar por ela,
isto é, estar acordando
por ela,
isto é, estar por ela ou ser
por ela.

Por isso melhor se guarda
o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.

Por isso se escreve, por
isso se diz, por isso
se publica,
por isso se declara
e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele,
por sua vez,
guarde o que guarda:
Guarde o que quer
que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que quer guardar.

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Olavo Bilac

Olavo Bilac

Benedicite

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

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Mário Cesariny

Mário Cesariny

Poema podendo servir de posfácio

ruas onde o perigo é evidente
braços verdes de práticas ocultas
cadáveres à tona de água
girassóis
e um corpo
um corpo para cortar as lâmpadas do dia
um corpo para descer uma paisagem de aves
para ir de manhã cedo e voltar muito tarde
rodeado de anões e de campos de lilases
um corpo para cobrir a tua ausência
como uma colcha
um talher
um perfume

isto ou o seu contrário, mas de certa maneira hiante
e com muita gente à volta a ver o que é
isto ou uma população de sessenta mil almas devorando almofadas escarlates a caminho do mar
e que chegam, ao crepúsculo,
encostadas aos submarinos

isto ou um torso desalojado de um verso
e cuja morte é o orgulho de todos
ó pálida cidade construída
como uma febre entre dois patamares!
vamos distribuir ao domicílio
terra para encher candelabros
leitos de fumo para amantes erectos
tabuinhas com palavras interditas
– uma mulher para este que está quase a perder o gosto à vida – tome lá –
dois netos para essa velha aí no fim da fila – não temos mais –
saquear o museu dar um diadema ao mundo e depois obrigar a repor no mesmo sítio
e para ti e para mim, assentes num espaço útil,
veneno para entornar nos olhos do gigante

isto ou um rosto um rosto solitário como barco em demanda de vento calmo para a noite
se nós somos areia que se filtre
a um vento débil entre arbustos pintados
se um propósito deve atingir a sua margem como as correntes da terra náufragos e tempestade
se o homem das pensões e das hospedarias levanta a sua fronte de cratera molhada
se na rua o sol brilha como nunca
se por um minuto
vale a pena
esperar
isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso
aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas
isto ou a alegria dita o avião de cartas
entrada pela janela saída pelo telhado
ah mas então a pirâmide existe?
ah mas e então a pirâmide diz coisas?
então a pirâmide é o segredo de cada um com o mundo?

sim meu amor a pirâmide existe
a pirâmide diz muitíssimas coisas
a pirâmide é a arte de bailar em silêncio

e em todo o caso

há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar


© 1957, Mário Cesariny
in Manual de Prestidigitação
Assírio & Alvim

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Foed Castro Chamma

Foed Castro Chamma

As Sombras Correm

As sombras correm soltas pela noite
à cata de suas formas apagadas,
tecendo solidões que são abismos,
sinais que são multiplicadas máscaras

de uma face movida pela luz
que desata do feixe o movimento
e se dispersa em fugas para atar-se
à unidade que flui do proprio tempo.

Os cabelos transformam-se em ramagens,
as árvores caminham. As florestas
combatem. Exercita a quadratura
do circulo o artesão moldando a pedra,

polindo arestas, desenhando a fórmula
da sombra em sua ordenação geométrica
como um todo partido que se reúne
pelo esforço que move o vento, a terra.

As águas correm negras, desatadas
das formas, com seus silvos de serpentes
nervosas sobre o leito das estradas,
luzindo a cor sinistra das correntes.

(...)

Sobre a boca formosa adormecida
tímidas aves, asas assustadas
sobrevoavam ligeiras com os bicos
famintos, a procura do arrozal

perdido na quietude da calada
planície verde agora adormecida
pela brisa da morte tal um mar
de pedra a desafiar a clara vida.

O rosto transformara-se em metal
e recusava dar-se ao movimento
dos círculos em vôo a procura
da cantora partida: apenas vinha

com a quietude amarga o frio som
de prata antiga da serena chuva
a derramar-se em finas linhas de água
nas figuras sonâmbulas da rua.

Eu a vi por detrás da clara máscara
armada para a vida com bandeiras
desfraldadas no corpo. A face dura
denunciava a cantora, ave guerreira.

Vi pedrarias na corrente verde
da fala, o brilho de esmeralda ardia
e inundava de líquidas vogais
a sala prisioneira da poesia.

(...)

Eu vi a palavra fora de sua boca
desenrolar o manto da poesia.
O som criava pássaros alegres
que voavam e desapareciam.

O encanto era tal que se perdia
a imagem verdadeira, e vi a palavra
transformar-se de nítido metal
em labareda, em fogo, em sombra alada,

com as asas abertas sobre nós:
o rumor da poesia urdia a voz
e o pássaro incendiava-se na luz
que sua fala espargia (negro sol).

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