Poemas neste tema

Chuva e Tempestades

Nuno Júdice

Nuno Júdice

Proserpina (variante)

É na terra que se encontra a matéria do poema,
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
694
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Au Gratin

Fumo um cigarro fino
Como um palito
O calor do Rio é ridículo
Calor de chuva enrustida
Calor do céu oprimido
De inferno mar resolvido
Que não sabe se queima esse cara
Ou o assa ao ponto
Um calor filho da puta
Um calor de estufa
E eu sem nem ser judia
Sofro aos pouquinhos
Sofro esse zé pagodinho
Ardo nesse pecado que não cometi
Nesse forno onde me meti
Por uma apimentada dica
De um nordestino
Que me mostrou uma placa citada, tinhosa:

"CIDADE MARAVILHOSA"

Eu vim.

2 010
Elisa Sayeg

Elisa Sayeg

Ode à Palavra

Muda
saga
de larvas

e bagos
de uva,
roxas

gotas
sonoras
de chuva.

816
Adélia Prado

Adélia Prado

Cabeça

Quando eu sofria dos nervos,
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter de lavar minha boca com cinza.
Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje, que sarei, tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.
Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou de manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de ATENÇÃO! que eu escrevo
e ponho perto. Um bispo, quando tem zelo
apostólico, é uma coisa charmosa.
Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando: ‘minha filha, minha filha’,
ele pensa que é Woman’s Lib, pensa
que a fé tá lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim,
ninguém entende. Gritava até parar,
quando eu sofria dos nervos.
1 222
Adélia Prado

Adélia Prado

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso,
com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
2 048
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Música Das Almas

Le mal est dans le monde comme un esclave qui monte l’eau.
Claudel


Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a
terra...

Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos...
Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.
1 117
Carla Dias

Carla Dias

Chove

Chove tuas lágrimas ...
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.

Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.

Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.

Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.

Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?

Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.

907
Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Alguém

Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.

1 445
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nova Estação

Toda a gente passou a cumprimentar-nos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.

É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.

A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.

Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.

O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
1 026
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

Canção

Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...

Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!

1 144
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Mágico

Diante do mágico a multidão boquiaberta se esquece. Não há mais lugar na
Grande Praça: as ruas adjacentes se cobrem de uma negra onda humana.
Em todas as casas a curiosidade do mistério abriu todas as janelas. A
espantosa fachada da Catedral se apinha de garotos acrobatas que se
penduram nos relevos como anjos. É talvez Paris do Terror, porque os
velhos pardieiros como que se inclinam para o espetáculo incessante e na
porta das hospedarias há velhas tabuletas pendentes, mas também pode ser
uma vila alemã, onde as campainhas das lojas tilintam alegremente, ou
mesmo o Rio do tempo dos Vice-Reis, com os seus Capitães-Mores
traficando em suas redes e fitando duramente o artista.

O mágico está sobre o antigo pelourinho ou forca ou guilhotina por onde
muitas gerações passaram.

As abas da sua casaca vão ao vento — é uma negra andorinha saltitante! As
brancas mãos se misturam em ondulantes movimentos de dança.

É de tarde, hora do trabalho. Na primeira fila estão os senhores e na última
os escravos do dever. Os senhores procuram adivinhar, os escravos
procuram rir. O mágico se diverte com a multidão, a multidão se diverte
com o mágico. Um filósofo e um dançarino perdidos confundem a multidão
com o mágico e aguardam.

Todos se divertem à sua maneira.

*

Silêncio, o mágico fala, todos escutam! “Ahora, presentaré el famoso
entretenimiento de las palomas.” A dama oriental faz uma pirueta ágil e
mostra ao público a cartola milagrosa. O mágico faz passes, cobre a cartola
com um lenço vermelho de seda. “Un dos y...!” voam pombas brancas para
o céu de safira. A multidão olha para cima, as mãos aparando o sol. O
movimento prossegue. Toda a praça, toda a rua, toda a cidade olha para
cima, o subúrbio olha para cima, os camponeses olham para cima. “O que
estará para acontecer? Dizem que um tufão caminha do levante!” Acendem-
se ícones nas isbás da estepe russa, fazem-se procissões em Portugal. O
chefe guerreiro da tribo vê o sinal da guerra no céu, rugem os trocanos. O
mágico joga a cartola para a multidão, que aplaude. O poeta apanha a
cartola e recolhe nela o encantamento que se processou. As pombas
invisíveis voltam, o poeta as contempla. Só elas são o Íntimo da Vida.

*

E o tufão cai de súbito, vindo do Levante. Os garotos escorrem pelas
colunas, formigam pelas escadarias, escondem-se nos nichos. O povo se
escoa como uma água lodosa pelas portas das casas que abrem e fecham. A
um gesto de guignol todas as janelas se retraem e após um minuto de rumor
intenso desce uma eternidade de silêncio. Uma procelária passando em
busca do mar só vê da cidade as suas torres acima do grande nevoeiro. Os
rios rugem, as pontes desabam, nas sarjetas boiam cadáveres de crianças
ciganas. O dilúvio leva a música do mágico, leva as pinturas do mágico,
leva as bonecas do mágico, só não leva o mágico na torrente.
O poeta sobe ao palanque, castiga o mágico, possui a mulher do mágico,
apresenta ao alto a cabeça e o coração, onde surgem e desaparecem pombas
brancas e onde a realidade efêmera floresce no mistério perpétuo.
Mágico do inescrutável, o poeta aguarda o raio de Deus.
884
Ruy Belo

Ruy Belo

Tempora nubila

Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos

Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me  a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos

Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)

E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu

Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 290
Charles Bukowski

Charles Bukowski

E As Triviais Vidas da Realeza Nunca Me Empolgaram Tampouco...

nunca me importei de ficar molhado, várias vezes eu entrava em
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.

mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”

“seu sapato esquerdo está desamarrado...”

“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”

“seu carro precisa de uma lavagem...”

quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.

os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
1 080
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Prece do Brasileiro

Meu Deus,
só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho, que se veste
de humildade e esperança
e vos suplica: Olhai para o Nordeste,
onde há fome, Senhor, e desespero
rodando nas estradas
entre esqueletos de animais.

Em Iguatu, Parambu, Baturité,
Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?),
vede as espectrais
procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns
arrombados e — o que é pior — não tinham nada.
Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo, soa
qual cantata de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído
no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.

Fazei chover, Senhor, e já!, numa certeira
ordem às nuvens. Ou desobedecem
a vosso mando, as revoltosas? Tudo
é pois contestação? Fosse eu Vieira
(o padre) e vos diria, malcriado,
muitas e boas… mas sou vosso fã
omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e, matreiro, rogo, não
ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre),
mas ao Deus que Bandeira, com carinho,
botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.
E mudo até o tratamento: por que vós,
tão gravata-e-colarinho, tão
vossa excelência?
O você comunica muito mais
e, se agora o trato de você,
ficamos perto, vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um, puro; o outro, aquela coisa,
quase que maldito,
mas amizade é isso mesmo: salta
o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará
sofrer em ciclo a mesma eterna pena?

E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa, não.
Você tem a Sudene abrindo frentes
de trabalho de emergência, antes fechadas.
Tem a ONU, que manda toneladas
de pacotes à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida
no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.

No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema,
até um livro de vez em quando lê,
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia),
desertos se transformam em jardins,
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.

Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?

Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.
Fiquei, confesso, muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.
Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar
noutro caso, mais sério, mais urgente.

Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão, a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo, a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
a uma bola no campo e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça
sem milagre ou com ele nos pertença
para sempre, assim seja… Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche a minha crônica.
30/05/1970
5 174
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Pedra do navio

Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).

Mas porquê, como e quando?

Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?

O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.

Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)

Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.

Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.

Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.

0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.

Negra, a nave navega.

Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.

Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.

Que vê, de madrugada?

Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
221
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
1 891
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - Ritual da Chuva

Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Entre as andorinhas,
andorinhas azuis
que gritam, que gritam,
vem a chuva,
vem a ohuva comigo.

Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
1 122
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Nus Se Banharam Em Grandes Praias Lisas

Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais
1982
1 269
Daniel Francoy

Daniel Francoy

UMA TERRA COMO ESSA

Não chamo deserto uma terra como essa.
Sob o sol que brilha como calcário
não vislumbro os ferozes e magros
homens cobertos de negro, abutres
que caminham e não encontro
as serpentes e os escorpiões
e tampouco a noite reverbera
o enluarado uivo dos chacais
ou o riso das hienas à espreita.

Por isso me pergunto onde estou
quando me encontro sob a canícula, sem
que o meu corpo projete sombra,
a garganta incendiada, o rosto fustigado
por uma das muitas tempestades de areia
que se erguem do ventre da terra
ou quando observo com que velocidade
desaparecem os sinais dos meus passos.
750
José Saramago

José Saramago

Aos Deuses Sem Fiéis

Talvez a hora escura, a chuva lenta,
Ou esta solidão inconformada.

Talvez porque a vontade se recolha
Neste findar de tarde sem remédio.

Finjo no chão as marcas dos joelhos
E desenho o meu vulto em penitente.

Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,
E pergunto a que venho e o que sou.

Ouvem-me calados os deuses e prudentes,
Sem um gesto de paz ou de recusa.

Entre as mãos vagarosas vão passando
A joeira do tempo irrecusável.

Um sorriso, por fim, passa furtivo
Nos seus rostos de fumo e de poeira.

Entre os lábios ressecos brilham dentes
De rilhar carne humana desgastados.

Nada mais que o sorriso retribui
O corpo ajoelhado em que não estou.

Anoitece de todo, os deuses mordem,
Com seus dentes de névoa e de bolor,
A resposta que aos lábios não chegou.
1 061
Daniel Francoy

Daniel Francoy

OS LIMITES DO INVERNO

Serpenteio, nos limites do inverno,
por uma alameda de condomínios
com nomes de principados e prédios
com nomes de ilhas mediterrâneas.
Entre mim e o outro, intransponível,
uma fria e úmida aragem.
A cidade aparece lá embaixo
sob a garoa: opaca, névoa leitosa.
A imensidão é uma força que fracassa
e a chuva é alheia ao cão que arrasta a pata,
ao cadáver enterrado na semana passada,
às rachaduras na parede da casa de família,
ao pássaro gris que luta para se manter em voo
e ao lixo na margem do rio
em meio à bruxa assassinada.
707
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

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In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Carlos Frydman

Carlos Frydman

Garoa em Pequim

Cai uma lânguida chuva em Pequim,
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.

Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.

Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.

Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Daniel Gonçalves

Daniel Gonçalves

a poesia veio ter comigo

a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento

olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti

aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio

comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar

enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos

a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
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