Poemas neste tema
Cultura e Tradição
Viriato da Cruz
Makèzú
- "Kuakiè!!!... Makèzú, Makèzú..."
...................................................
O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.
Avó Xima está velhinha,
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumâtico
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...
Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'a Baixa.
Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.
- "Kuakiè... Makèzú... Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."
- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?"
- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegó um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...
E diz ainda pru cima
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu".
- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"
- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."
...................................................
O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.
Avó Xima está velhinha,
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumâtico
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...
Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'a Baixa.
Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.
- "Kuakiè... Makèzú... Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."
- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?"
- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegó um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...
E diz ainda pru cima
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu".
- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"
- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."
8 229
2
Jorge de Lima
Democracia
Punhos
de redes embalaram o meu canto
Para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
Catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
Carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
Moleque me ensinou safadezas,
Massoca, tapioca,pipoca, tudo comi,
Bebi cachaça com caju para limpar-me,
Tive maleita, catapora e ínguas,
Bicho-de-pé, saudade, poesia;
Fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
Dizendo coisas, brincando com as crioulas,
Vendo espiritos, abusões, mães-d água,
Conversando com os malucos, conversando sozinho,
Emprenhando tudo o que encontrava,
Abraçando as cobras pelos matos,
Me misturando, me sumindo, me acabando,
Apara salvar a minha alma benzida
E o meu corpo pintado de urucu,
Tatuado de cruzes, de corações, de mãos ligadas,
De nomes de amor em todas as línguas de branco
De mouro ou pagão.
de redes embalaram o meu canto
Para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
Catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
Carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
Moleque me ensinou safadezas,
Massoca, tapioca,pipoca, tudo comi,
Bebi cachaça com caju para limpar-me,
Tive maleita, catapora e ínguas,
Bicho-de-pé, saudade, poesia;
Fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
Dizendo coisas, brincando com as crioulas,
Vendo espiritos, abusões, mães-d água,
Conversando com os malucos, conversando sozinho,
Emprenhando tudo o que encontrava,
Abraçando as cobras pelos matos,
Me misturando, me sumindo, me acabando,
Apara salvar a minha alma benzida
E o meu corpo pintado de urucu,
Tatuado de cruzes, de corações, de mãos ligadas,
De nomes de amor em todas as línguas de branco
De mouro ou pagão.
8 881
2
Guilherme de Almeida
Prece a Anchieta
Santo: erguestes a cruz na selva escura;
Herói: plantastes nossa velha aldeia;
Mestre: ensinastes a doutrina pura;
Poeta: escrevestes versos sobre a areia!
Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia...
Santo, herói, mestre e poeta: - Pela glória
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.
Pelo bem que quisestes a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!
Herói: plantastes nossa velha aldeia;
Mestre: ensinastes a doutrina pura;
Poeta: escrevestes versos sobre a areia!
Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia...
Santo, herói, mestre e poeta: - Pela glória
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.
Pelo bem que quisestes a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!
3 477
2
Olavo Bilac
O Carnaval no Olimpo
Resplandece o Olimpo. Júpiter está sentado... no Alto da
Serra, mais fulgurante do que um sol. Mercúrio, Apolo, Marte,
Netuno, Minerva, Plutão, estão sentados mais abaixo, em
atitude respeitosa. Gênios alados correm o cenário,
oferecendo aos deuses copos de caldo de cana e caprade.
Júpiter
Não falta nenhum deus? Estamos todos, não?
Vai começar...
Apolo
...A Inana
Júpiter (severo)
Aquiete-se!... A Sessão!
Como sabeis, aí vem o Carnaval. Vejamos:
Não brincaremos também? Não nos fantasiamos?
Quero, entre os ideais com que me preocupo,
Dar um exemplo ao povo, organizando um grupo.
(...)
Se saíssemos nós sem braços e em salmoura
Para representar o Grupo da Lavoura!
Mas não convém baixar o preço do café...
Tome a palavra alguém! Netuno, por quem é...
Salva esta situação!
Netuno
Lá vou! Estou pensando...
Podíamos sair todos sete... imitando
Uns sete Aquidabãs, como um ar aborrecido
Voltando para o porto... antes de ter saído:
Seria essa a alusão melhor do Carnaval!
Plutão
E o nome do Cordão?
Netuno
Grupo Glória Naval!
(...)
Minerva
Eu já tinha pensado em um grande cordão
Com tudo o que se disse aqui num carroção:
Hidra, Aquidabã, Abel, Lavoura e Notas,
E por cima de tudo um mineiro com botas!
Mas, ó povo! Com essa quebradeira
Por que não pensar em simples zé-pereira,
Com três caixas, um bumbo e o nosso bom humor?
(...)
Coro
Se o Padre Santo soubesse
O gostinho que isto tem,
Vinha de Roma até cá
Tocar zabumba também. (Cai o pano.)
In: BILAC, Olavo. Poesia. Org. Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Agir, 1957. p.33-37. (Nossos clássicos, 2
Serra, mais fulgurante do que um sol. Mercúrio, Apolo, Marte,
Netuno, Minerva, Plutão, estão sentados mais abaixo, em
atitude respeitosa. Gênios alados correm o cenário,
oferecendo aos deuses copos de caldo de cana e caprade.
Júpiter
Não falta nenhum deus? Estamos todos, não?
Vai começar...
Apolo
...A Inana
Júpiter (severo)
Aquiete-se!... A Sessão!
Como sabeis, aí vem o Carnaval. Vejamos:
Não brincaremos também? Não nos fantasiamos?
Quero, entre os ideais com que me preocupo,
Dar um exemplo ao povo, organizando um grupo.
(...)
Se saíssemos nós sem braços e em salmoura
Para representar o Grupo da Lavoura!
Mas não convém baixar o preço do café...
Tome a palavra alguém! Netuno, por quem é...
Salva esta situação!
Netuno
Lá vou! Estou pensando...
Podíamos sair todos sete... imitando
Uns sete Aquidabãs, como um ar aborrecido
Voltando para o porto... antes de ter saído:
Seria essa a alusão melhor do Carnaval!
Plutão
E o nome do Cordão?
Netuno
Grupo Glória Naval!
(...)
Minerva
Eu já tinha pensado em um grande cordão
Com tudo o que se disse aqui num carroção:
Hidra, Aquidabã, Abel, Lavoura e Notas,
E por cima de tudo um mineiro com botas!
Mas, ó povo! Com essa quebradeira
Por que não pensar em simples zé-pereira,
Com três caixas, um bumbo e o nosso bom humor?
(...)
Coro
Se o Padre Santo soubesse
O gostinho que isto tem,
Vinha de Roma até cá
Tocar zabumba também. (Cai o pano.)
In: BILAC, Olavo. Poesia. Org. Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Agir, 1957. p.33-37. (Nossos clássicos, 2
4 866
2
Bruno de Menezes
Bruxinha Baiana
(Para as minhas filhas
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
3 463
2
Gilson Babilak
Filhos de Olorum
Somos
NEGROS
meigos...
Porém Quilombolas
Filhos de Olorum
De cabeça
- Ogum
Belos
Feito - Oxum
- somos filhos de OLORUM! João Pessoa, 1981
NEGROS
meigos...
Porém Quilombolas
Filhos de Olorum
De cabeça
- Ogum
Belos
Feito - Oxum
- somos filhos de OLORUM! João Pessoa, 1981
429
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ressurgiremos
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
3 782
2
Jorge Luis Borges
Al vino
En el bronce de Homero resplandece tu nombre,
negro vino que alegras el corazón del hombre.
Siglos de siglos hace que vas de mano en mano
desde el ritón del griego al cuerno del germano.
En la aurora ya estabas. A las generaciones
les diste en el camino tu fuego y tus leones.
Junto a aquel otro río de noches y de días
corre el tuyo que aclaman amigos y alegrías.
Vino que como un Eufrates patriarcal y profundo
vas fluyendo a lo largo de la historia del mundo.
En tu cristal que vive nuestros ojos han visto
una roja metáfora de la sangre de Cristo.
En las arrebatadas estrofas del sufí
eres la cimitarra, la rosa y el rubí.
Que otros en tu Leteo beban un triste olvido;
yo busco en ti las fiestas del fervor compartido.
Sésamo con el cual antiguas noches abro
y en la dura tiniebla, dádiva y candelabro.
Vino del mutuo amor o la roja pelea,
alguna vez te llamaré. Que así sea.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 229 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
negro vino que alegras el corazón del hombre.
Siglos de siglos hace que vas de mano en mano
desde el ritón del griego al cuerno del germano.
En la aurora ya estabas. A las generaciones
les diste en el camino tu fuego y tus leones.
Junto a aquel otro río de noches y de días
corre el tuyo que aclaman amigos y alegrías.
Vino que como un Eufrates patriarcal y profundo
vas fluyendo a lo largo de la historia del mundo.
En tu cristal que vive nuestros ojos han visto
una roja metáfora de la sangre de Cristo.
En las arrebatadas estrofas del sufí
eres la cimitarra, la rosa y el rubí.
Que otros en tu Leteo beban un triste olvido;
yo busco en ti las fiestas del fervor compartido.
Sésamo con el cual antiguas noches abro
y en la dura tiniebla, dádiva y candelabro.
Vino del mutuo amor o la roja pelea,
alguna vez te llamaré. Que así sea.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 229 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 188
1
Pablo Neruda
Canto II - Alturas de Machu Picchu
I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.
(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)
Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.
Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.
II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.
E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.
Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.
Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.
(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)
Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.
Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.
Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?
III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.
IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.
Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.
Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.
Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.
sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.
V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.
Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.
Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.
VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.
Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.
Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.
Mãe de pedra, espuma de condores.
Alto arrecife da aurora humana.
Pá perdida na primeira areia.
Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.
Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.
Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.
Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.
E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.
VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.
Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.
Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.
Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.
Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.
Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.
VIII
Sobe comigo, amor americano.
Beija comigo as pedras secretas.
A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.
Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.
Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.
Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.
Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?
Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?
Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?
Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?
Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?
Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,
as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.
Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.
Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.
O reino morto ainda vive.
E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.
IX
Águia sideral, vinha de bruma.
Bastião perdido, cimitarra cega.
Cinturão estrelado, pão solene.
Escada torrencial, pálpebra imensa.
Túnica triangular, pólen de pedra.
Lâmpada de granito, pão de pedra.
Serpente mineral, rosa de pedra.
Nave enterrada, manancial de pedra.
Cavalo da luz, luz de pedra.
Esquadra equinocial, vapor de pedra.
Geometria final, livro de pedra.
Timbale entre as lufadas lavrado.
Madrépora do tempo submerso.
Muralha peles dedos suavizada.
Teto pelas plumas combatido.
Ramos de espelho, bases de tormenta.
Tronos revirados pelas trepadeiras.
Regime de garra encarniçada.
Vendaval sustentado na vertente.
Imóvel catarata de turquesa.
Sino patriarcal dos adormecidos.
Anel das neves dominadas.
Ferro deixado sobre suas estátuas.
Inacessível temporal fechado.
Mãos de puma, rocha sanguinária.
Torre encapelada, discussão de neve.
Noite erguida em dedos e raízes.
Janela das névoas, pomba endurecida.
Planta noturna, estátua dos trovões.
Cordilheira essencial, teto marinho.
Arquitetura de águias perdidas.
Corda do céu, abelha das alturas.
Nível sangrento, estrela construída.
Borbulha mineral, lua de quartzo.
Serpente andina, rosto de amaranto.
Cúpula de silêncio, pátria pura.
Noiva do mar, árvore de catedrais.
Ramo de sal, cerejeira de asas negras.
Dentadura nevada, trovão frio.
Lua arranhada, pedra ameaçadora.
Cabeleira do frio, ação do ar.
Vulcão de mãos, catarata escura.
Onda de prata, direção do tempo.
X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.
Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?
Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?
Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.
Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.
Dize-me como dormiu quando vivia.
Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.
O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.
mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?
XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.
Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.
Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.
sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.
(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)
Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.
Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.
II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.
E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.
Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.
Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.
(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)
Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.
Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.
Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?
III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.
IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.
Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.
Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.
Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.
sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.
V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.
Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.
Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.
VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.
Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.
Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.
Mãe de pedra, espuma de condores.
Alto arrecife da aurora humana.
Pá perdida na primeira areia.
Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.
Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.
Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.
Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.
E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.
VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.
Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.
Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.
Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.
Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.
Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.
VIII
Sobe comigo, amor americano.
Beija comigo as pedras secretas.
A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.
Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.
Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.
Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.
Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?
Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?
Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?
Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?
Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?
Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,
as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.
Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.
Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.
O reino morto ainda vive.
E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.
IX
Águia sideral, vinha de bruma.
Bastião perdido, cimitarra cega.
Cinturão estrelado, pão solene.
Escada torrencial, pálpebra imensa.
Túnica triangular, pólen de pedra.
Lâmpada de granito, pão de pedra.
Serpente mineral, rosa de pedra.
Nave enterrada, manancial de pedra.
Cavalo da luz, luz de pedra.
Esquadra equinocial, vapor de pedra.
Geometria final, livro de pedra.
Timbale entre as lufadas lavrado.
Madrépora do tempo submerso.
Muralha peles dedos suavizada.
Teto pelas plumas combatido.
Ramos de espelho, bases de tormenta.
Tronos revirados pelas trepadeiras.
Regime de garra encarniçada.
Vendaval sustentado na vertente.
Imóvel catarata de turquesa.
Sino patriarcal dos adormecidos.
Anel das neves dominadas.
Ferro deixado sobre suas estátuas.
Inacessível temporal fechado.
Mãos de puma, rocha sanguinária.
Torre encapelada, discussão de neve.
Noite erguida em dedos e raízes.
Janela das névoas, pomba endurecida.
Planta noturna, estátua dos trovões.
Cordilheira essencial, teto marinho.
Arquitetura de águias perdidas.
Corda do céu, abelha das alturas.
Nível sangrento, estrela construída.
Borbulha mineral, lua de quartzo.
Serpente andina, rosto de amaranto.
Cúpula de silêncio, pátria pura.
Noiva do mar, árvore de catedrais.
Ramo de sal, cerejeira de asas negras.
Dentadura nevada, trovão frio.
Lua arranhada, pedra ameaçadora.
Cabeleira do frio, ação do ar.
Vulcão de mãos, catarata escura.
Onda de prata, direção do tempo.
X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.
Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?
Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?
Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.
Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.
Dize-me como dormiu quando vivia.
Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.
O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.
mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?
XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.
Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.
Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.
sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
2 849
1
Tamara Baroni
Carmem
Suor entre os seios umidade
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
676
1
Inácio José de Alvarenga Peixoto
Sonho Poético
Oh, que sonho, oh, que sonho eu tive nesta
feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d'Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d'Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
5 700
1
Jorge Luis Borges
A Francia
El frontispicio del castillo advertía:
Ya estabas aquí antes de entrar
y cuando salgas no sabrás que te quedas.
Diderot narra la parábola. En ella están mis días,
mis muchos días.
Me desviaron otros amores
y la erudición vagabunda,
pero no dejé nunca de estar en Francia
y estaré en Francia cuando la grata muerte me llame
en un lugar de Buenos Aires.
No diré la tarde y la luna: diré Verlaine.
No diré el mar y la cosmogonía; diré el nombre de Hugo.
No la amistad, sino Montaigne.
No diré el fuego; diré Juana,
y las sombras que evoco no disminuyen
una serie infinita.
¿Con qué verso entraste en mi vida
como aquel juglar del Bastardo
que entró cantando en la batalla,
que entro cantando la Chanson de Roland
y no vio el fin, pero presintió la victoria?
La firme voz rueda de siglo en siglo
y todas las espadas son Durendal.
"Historia de la noche"
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 505 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Ya estabas aquí antes de entrar
y cuando salgas no sabrás que te quedas.
Diderot narra la parábola. En ella están mis días,
mis muchos días.
Me desviaron otros amores
y la erudición vagabunda,
pero no dejé nunca de estar en Francia
y estaré en Francia cuando la grata muerte me llame
en un lugar de Buenos Aires.
No diré la tarde y la luna: diré Verlaine.
No diré el mar y la cosmogonía; diré el nombre de Hugo.
No la amistad, sino Montaigne.
No diré el fuego; diré Juana,
y las sombras que evoco no disminuyen
una serie infinita.
¿Con qué verso entraste en mi vida
como aquel juglar del Bastardo
que entró cantando en la batalla,
que entro cantando la Chanson de Roland
y no vio el fin, pero presintió la victoria?
La firme voz rueda de siglo en siglo
y todas las espadas son Durendal.
"Historia de la noche"
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 505 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
4 296
1
Jorge Luis Borges
Israel, 1969
Temí que en Israel acecharía
con dulzura insidiosa
la nostalgia que las diásporas seculares
acumularon como un triste tesoro
en las ciudades del infiel, en las juderías,
en los ocasos de la estepa, en los sueños,
la nostalgia de aquellos que te anhelaron,
Jerusalén, junto a las aguas de Babilonia,
¿Qué otra cosa eras, Israel, sino esa nostalgia,
sino esa voluntad de salvar,
entre las inconstantes formas del tiempo,
tu viejo libro mágico, tus liturgias,
tu soledad con Dios?
No así. La más antigua de las naciones
es también la más joven.
No has tentado a los nombres con jardines,
con el oro y su tedio
sino con el rigor, tierra última.
Israel les ha dicho sin palabras:
olvidarás quién eres.
Olvidarás al otro que dejaste.
Olvidarás quién fuiste en las tierras
que te dieron sus tardes y sus mañanas
y a las que no darás tu nostalgia.
Olvidarás la lengua de tus padres y aprenderás la lengua del Paraíso.
Serás un israelí, serás un soldado.
Edificarás la patria con ciénagas: la levantarás con desiertos.
Trabajará contigo tu hermano, cuya cara no has visto nunca.
Una sola cosa te prometemos:tu puesto en la batalla.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 323 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
con dulzura insidiosa
la nostalgia que las diásporas seculares
acumularon como un triste tesoro
en las ciudades del infiel, en las juderías,
en los ocasos de la estepa, en los sueños,
la nostalgia de aquellos que te anhelaron,
Jerusalén, junto a las aguas de Babilonia,
¿Qué otra cosa eras, Israel, sino esa nostalgia,
sino esa voluntad de salvar,
entre las inconstantes formas del tiempo,
tu viejo libro mágico, tus liturgias,
tu soledad con Dios?
No así. La más antigua de las naciones
es también la más joven.
No has tentado a los nombres con jardines,
con el oro y su tedio
sino con el rigor, tierra última.
Israel les ha dicho sin palabras:
olvidarás quién eres.
Olvidarás al otro que dejaste.
Olvidarás quién fuiste en las tierras
que te dieron sus tardes y sus mañanas
y a las que no darás tu nostalgia.
Olvidarás la lengua de tus padres y aprenderás la lengua del Paraíso.
Serás un israelí, serás un soldado.
Edificarás la patria con ciénagas: la levantarás con desiertos.
Trabajará contigo tu hermano, cuya cara no has visto nunca.
Una sola cosa te prometemos:tu puesto en la batalla.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 323 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 474
1
Florbela Espanca
Meu Portugal
Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações!
Tens o fado. A canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra aonde mora!
Tu tens também a embriaguez suave
Dos campos, da paisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente...
Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais frescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue!... Às vezes, penso
Que tu és, Pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó Pátria amada
A beleza eterna, a arte, a poesia!...
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações!
Tens o fado. A canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra aonde mora!
Tu tens também a embriaguez suave
Dos campos, da paisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente...
Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais frescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue!... Às vezes, penso
Que tu és, Pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó Pátria amada
A beleza eterna, a arte, a poesia!...
3 840
1
Cleise Mendes
A Poesia no Teatro
Bocas, buchichos, bilhetes,
o beijo, o banzo, o batuque,
bispos, beatos, blasfêmias,
as conversas cavernosas,
cavando caos e castigo,
cartas cárceres carrascos,
cruzes, quilombos, capoeira,
denúncias, depoimentos,
devassas e desventuras,
a danação do degredo.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Filetes deferimentos,
ferros, feitores, fidalgos,
(afã de fazer feitiço!)
garras, garrotes, gadanhos,
galhofas e galicismos,
o gosto das gargalhadas,
o gozo, o guizo, a gandaia,
a justiça justaposta,
gerando jeito, jeitinho
e gente jeremiando.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Lágrimas lavam as leis
e as legiões de lacaios,
os livros em labaredas,
a luz, o lume, a legenda,
iluminismos letais...
masmorras, mortes, miséria,
meirinhos, maçons, muzenza,
o Nordeste, a novembrada,
novidades e novenas,
Napoleão e novelas.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Os póstumos patriotas,
padres, peões, parasitas,
os poderes paralelos,
réus, rebeldes renitentes,
raças, revoltas, revides,
o real e a realeza,
os sambas e as assembléias,
selos, sigilos, segredos,
a sedição e seus sonhos,
o sangue e o suor descendo.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Traidores e titulares,
o trono, a taxa, o tributo,
o tronco, a tortura, a tropa,
velas, vasos e vitrais,
os vassalos e os valentes,
(a vida à vazar das veias)
o xodó e o xingamento,
zona, zunzum, zombaria,
o zumbir da zurzidela,
zoeiras, zangas e zelos.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
o beijo, o banzo, o batuque,
bispos, beatos, blasfêmias,
as conversas cavernosas,
cavando caos e castigo,
cartas cárceres carrascos,
cruzes, quilombos, capoeira,
denúncias, depoimentos,
devassas e desventuras,
a danação do degredo.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Filetes deferimentos,
ferros, feitores, fidalgos,
(afã de fazer feitiço!)
garras, garrotes, gadanhos,
galhofas e galicismos,
o gosto das gargalhadas,
o gozo, o guizo, a gandaia,
a justiça justaposta,
gerando jeito, jeitinho
e gente jeremiando.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Lágrimas lavam as leis
e as legiões de lacaios,
os livros em labaredas,
a luz, o lume, a legenda,
iluminismos letais...
masmorras, mortes, miséria,
meirinhos, maçons, muzenza,
o Nordeste, a novembrada,
novidades e novenas,
Napoleão e novelas.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Os póstumos patriotas,
padres, peões, parasitas,
os poderes paralelos,
réus, rebeldes renitentes,
raças, revoltas, revides,
o real e a realeza,
os sambas e as assembléias,
selos, sigilos, segredos,
a sedição e seus sonhos,
o sangue e o suor descendo.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
Traidores e titulares,
o trono, a taxa, o tributo,
o tronco, a tortura, a tropa,
velas, vasos e vitrais,
os vassalos e os valentes,
(a vida à vazar das veias)
o xodó e o xingamento,
zona, zunzum, zombaria,
o zumbir da zurzidela,
zoeiras, zangas e zelos.
E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:
navegar é preciso
que se aprenda.
861
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Minotauro
Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar
Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses
De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua
Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega
Pinturas ondas colunas e planícies
Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos
Palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar de sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror
Imanentes ao dia —
Caminhei no palácio dual de combate e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde se desune e se reúne
E esta é a dança do ser
Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minóica
São feitos de barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro
Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas —
Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra
Outubro de 1970
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar
Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses
De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua
Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega
Pinturas ondas colunas e planícies
Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos
Palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar de sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror
Imanentes ao dia —
Caminhei no palácio dual de combate e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde se desune e se reúne
E esta é a dança do ser
Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minóica
São feitos de barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro
Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas —
Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra
Outubro de 1970
2 155
1
Castro Alves
JESUÍTAS
(século XIII)
Ó mês frères, je viens vous apporter mon Dieu,
Je viens vous apporter ma tête!
V. Hugo
(Châtiments)
Quando o vento da Fé soprava Europa,
Como o tufão, que impele ao ar a tropa
Das águias, que pousavam no alcantil;
Do zimbório de Roma — a ventania
O bando dos Apostlos sacudia
Aos cerros do Brasil.
Tempos idos! Extintos luzimentos!
O pó da catequese aos quatro ventos
Revoava nos céus...
Floria após na India, ou na Tartária,
No Mississipi, no Peru, na Arábia
Uma palmeira — Deus! —
O navio maltês, do Lácio a vela,
A lusa nau, as quinas de Castela,
Do Holandês a galé
Levava sem saber ao mundo inteiro
Os vândalos sublimes do cordeiro,
Os átilas da fé.
Onde ia aquela nau? — Ao Oriente.
A outra? — Ao pólo. A outra? — Ao ocidente.
Outra? — Ao norte. Outra? — Ao sul.
E o que buscava? A foca além no pólo;
O âmbar, o cravo no indiano solo,
Mulheres em Stambul.
Ouro — na Austrália; pedras — em Misora!. .
"Mentira!" respondia em voz canora
O filho de Jesus...
"Pescadores!... nós vamos no mar fundo
"Pescar almas pra o Cristo em todo mundo,
"Com um anzol — a cruz —!"
Homens de ferro! Mal na vaga fria
Colombo ou Gama um trilho descobria
Do mar nos escarcéus,
Um padre atravessava os equadores,
Dizendo: "Gênios!... sois os batedores
Da matilha de Deus."
Depois as solidões surpresas viam
Esses homens inermes, que surgiam
Pela primeira vez.
E a onça recuando sesgueirava
Julgando o crucifixo... alguma clava
Invencível talvez!
O martírio, o deserto, o cardo, o espinho,
A pedra, a serpe do sertão maninho,
A fome, o frio, a dor,
Os insetos, os rios, as lianas,
Chuvas, miasmas, setas e savanas,
Horror e mais horror ...
Nada turbava aquelas frontes calmas,
Nada curvava aquelas grandes almas
Voltadas pra amplidão...
No entanto eles só tinham na jornada
Por couraça — a sotaina esfarrapada...
E uma cruz — por bordão.
Um dia a taba do Tupi selvagem
Tocava alarma... embaixo da folhagem
Rangera estranho pé...
O caboclo da rede ao chão saltava,
A seta ervada o arco recurvava...
Estrugia o boré.
E o tacape brandindo, a tribo fera
De um tigre ou de um jaguar ficava à espera
Com gesto ameaçador...
Surgia então no meio do terreiro
O padre calmo, santo, sobranceiro,
O Piaga do amor.
Quantas vezes então sobre a fogueira,
Aos estalos sombrios da madeira,
Entre o fumo e a luz...
A voz do mártir murmurava ungida
"Irmãos! Eu vim trazer-vos — minha vida...
Vim trazer-vos — Jesus!"
Grandes homens! Apóstolos heróicos!...
Eles diziam mais do que os estóicos:
"Dor, — tu és um prazer!
"Grelha, — és um leito! Brasa, — és uma gema!
Cravo, — és um cetro! Chama, — um diadema
Ó morte, — és o viver!"
Outras vezes no eterno itinerário
O sol, que vira um dia no Calvário
Do Cristo a santa cruz,
Enfiava de vir achar nos Andes
A mesma cruz, abrindo os braços grandes
Aos índios rubros, nus.
Eram eles que o verbo do Messias
Pregavam desde o vale às serranias,
Do pólo ao Equador...
E o Niagara ia contar aos mares...
E o Chimborazo arremessava aos ares
O nome do Senhor!...
Ó mês frères, je viens vous apporter mon Dieu,
Je viens vous apporter ma tête!
V. Hugo
(Châtiments)
Quando o vento da Fé soprava Europa,
Como o tufão, que impele ao ar a tropa
Das águias, que pousavam no alcantil;
Do zimbório de Roma — a ventania
O bando dos Apostlos sacudia
Aos cerros do Brasil.
Tempos idos! Extintos luzimentos!
O pó da catequese aos quatro ventos
Revoava nos céus...
Floria após na India, ou na Tartária,
No Mississipi, no Peru, na Arábia
Uma palmeira — Deus! —
O navio maltês, do Lácio a vela,
A lusa nau, as quinas de Castela,
Do Holandês a galé
Levava sem saber ao mundo inteiro
Os vândalos sublimes do cordeiro,
Os átilas da fé.
Onde ia aquela nau? — Ao Oriente.
A outra? — Ao pólo. A outra? — Ao ocidente.
Outra? — Ao norte. Outra? — Ao sul.
E o que buscava? A foca além no pólo;
O âmbar, o cravo no indiano solo,
Mulheres em Stambul.
Ouro — na Austrália; pedras — em Misora!. .
"Mentira!" respondia em voz canora
O filho de Jesus...
"Pescadores!... nós vamos no mar fundo
"Pescar almas pra o Cristo em todo mundo,
"Com um anzol — a cruz —!"
Homens de ferro! Mal na vaga fria
Colombo ou Gama um trilho descobria
Do mar nos escarcéus,
Um padre atravessava os equadores,
Dizendo: "Gênios!... sois os batedores
Da matilha de Deus."
Depois as solidões surpresas viam
Esses homens inermes, que surgiam
Pela primeira vez.
E a onça recuando sesgueirava
Julgando o crucifixo... alguma clava
Invencível talvez!
O martírio, o deserto, o cardo, o espinho,
A pedra, a serpe do sertão maninho,
A fome, o frio, a dor,
Os insetos, os rios, as lianas,
Chuvas, miasmas, setas e savanas,
Horror e mais horror ...
Nada turbava aquelas frontes calmas,
Nada curvava aquelas grandes almas
Voltadas pra amplidão...
No entanto eles só tinham na jornada
Por couraça — a sotaina esfarrapada...
E uma cruz — por bordão.
Um dia a taba do Tupi selvagem
Tocava alarma... embaixo da folhagem
Rangera estranho pé...
O caboclo da rede ao chão saltava,
A seta ervada o arco recurvava...
Estrugia o boré.
E o tacape brandindo, a tribo fera
De um tigre ou de um jaguar ficava à espera
Com gesto ameaçador...
Surgia então no meio do terreiro
O padre calmo, santo, sobranceiro,
O Piaga do amor.
Quantas vezes então sobre a fogueira,
Aos estalos sombrios da madeira,
Entre o fumo e a luz...
A voz do mártir murmurava ungida
"Irmãos! Eu vim trazer-vos — minha vida...
Vim trazer-vos — Jesus!"
Grandes homens! Apóstolos heróicos!...
Eles diziam mais do que os estóicos:
"Dor, — tu és um prazer!
"Grelha, — és um leito! Brasa, — és uma gema!
Cravo, — és um cetro! Chama, — um diadema
Ó morte, — és o viver!"
Outras vezes no eterno itinerário
O sol, que vira um dia no Calvário
Do Cristo a santa cruz,
Enfiava de vir achar nos Andes
A mesma cruz, abrindo os braços grandes
Aos índios rubros, nus.
Eram eles que o verbo do Messias
Pregavam desde o vale às serranias,
Do pólo ao Equador...
E o Niagara ia contar aos mares...
E o Chimborazo arremessava aos ares
O nome do Senhor!...
4 570
1
Augusto Meyer
Canção do Negrinho do Pastoreio
Negrinho do Pastoreiro,
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.
Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.
Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.
Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.
Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela dalva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)
Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.
Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.
Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.
Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.
Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.
Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela dalva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)
Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.
Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.
2 633
1
Cristiane Neder
Queria experimentar no seu corpo
(para Lorraine Williams)
Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
869
1
António Manuel Couto Viana
No Bazar
Mergulho-me na vida, na voz deste bazar,
Com lojas, tendas, vendedores de rua:
É um rio de rumor e cor, tentacular,
Que flui, reflui e, de repente, estua.
Afoga-me o fascínio da faiança, do jade,
Dos electrônicos subtis, sofisticados,
Dos adivinhos da felicidade
Com óculos severos de letrados.
Aqui, na margem de um afluente,
Junto de velhos móveis, de ferragens, de moedas,
De um deus irado, de outro sorridente,
Ambos sujos de pó, nuns farrapos de sedas.
De um disco fatigado de rock, da legenda
Que eu não decifro, com provérbios chins,
Senta-se atento à mão que, ávida, se estenda,
homem dos tintins.
(Viu ele um português, pertinaz e sem pressa,
De olhar estranho, magro, a longa barba preta,
Descobrir, entre o inútil, o valor de uma peça,
Com ciência de sábio e arte de poeta ?)
Além, fumega e aromatiza o gosto
A tenda dos petiscos. Tentação!
Como tudo apetece, quando exposto!
Mas, comê-lo… Não sei se sim se não.
Mais além, Hóng-Kông, no templo do Bazar,
Um bom mercado ao mercador promete
Se ele, submisso, lhe vem pôr no altar
A tangerina, a flor, e lhe acende um pivete.
Entro no Loc-Koc, "casa de tomar chá".
No alvor das madrugadas,
É uma gaiola imensa, durante o iam-chá
Sorvido entre gorgeios e asas excitadas.
Lá fora, o riquexó, hoje triciclo, rasa
A multidão: persegue uma nesga de espaço,
Levando a rapariga a caminho de casa,
Com os sacos das compras no regaço.
E, ao ritmo da rua e da emoção,
Os meus olhos descobrem, deslumbrados,
Navegando ao pulsar do coração,
Um navio vermelho de caracteres doirados!
Com lojas, tendas, vendedores de rua:
É um rio de rumor e cor, tentacular,
Que flui, reflui e, de repente, estua.
Afoga-me o fascínio da faiança, do jade,
Dos electrônicos subtis, sofisticados,
Dos adivinhos da felicidade
Com óculos severos de letrados.
Aqui, na margem de um afluente,
Junto de velhos móveis, de ferragens, de moedas,
De um deus irado, de outro sorridente,
Ambos sujos de pó, nuns farrapos de sedas.
De um disco fatigado de rock, da legenda
Que eu não decifro, com provérbios chins,
Senta-se atento à mão que, ávida, se estenda,
homem dos tintins.
(Viu ele um português, pertinaz e sem pressa,
De olhar estranho, magro, a longa barba preta,
Descobrir, entre o inútil, o valor de uma peça,
Com ciência de sábio e arte de poeta ?)
Além, fumega e aromatiza o gosto
A tenda dos petiscos. Tentação!
Como tudo apetece, quando exposto!
Mas, comê-lo… Não sei se sim se não.
Mais além, Hóng-Kông, no templo do Bazar,
Um bom mercado ao mercador promete
Se ele, submisso, lhe vem pôr no altar
A tangerina, a flor, e lhe acende um pivete.
Entro no Loc-Koc, "casa de tomar chá".
No alvor das madrugadas,
É uma gaiola imensa, durante o iam-chá
Sorvido entre gorgeios e asas excitadas.
Lá fora, o riquexó, hoje triciclo, rasa
A multidão: persegue uma nesga de espaço,
Levando a rapariga a caminho de casa,
Com os sacos das compras no regaço.
E, ao ritmo da rua e da emoção,
Os meus olhos descobrem, deslumbrados,
Navegando ao pulsar do coração,
Um navio vermelho de caracteres doirados!
1 321
1
Gilberto Mendonça Teles
Chá das Cinco
A Jorge Amado
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
6 928
1
Luís Guimarães Júnior
A Sertaneja
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês;
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Vinde ver, ó boiadeiros,
Meus vestidos domingueiros,
Meus braços limpos e nus:
Ah! vinde ver-me enfeitada
Com minha sala engomada,
Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos,
Pedis debalde os meus beijos,
Em vão pedis meu amor!
Eu sou a agreste cutia,
Que se expõe à pontaria
E ri-se do caçador!
A sertaneja morena
Bonita, forte, pequena,
Não cai na armadilha, não:
A jaçanã corre e voa
Quando vê sobre a lagoa
A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre,
Vistosa telha não cobre
O lar que herdei de meus pais:
Que importa? Vivo contente:
Ser moça, bela e inocente
É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho,
Quem defende o passarinho,
Quem das mãos espalha o bem,
Quem fez o sol e as estrelas,
Dando a virtude às donzelas,
Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece
Da mais tosca e simples prece
Que voa ao seio de Deus;
Por cada infeliz que chora
Abre na terra uma aurora,
Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos,
Podeis morrer de desejos,
Que eu não me temo de vós!
A sertaneja faceira
É mais que a paca ligeira
Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,
Bem como a onça raivosa
Pronta ao mais leve rumor!
No meu cabelo selvagem
Sente-se a morna bafagem
Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira ,
Melhor, melhor que a trigueira
Maravilha dos sertões?
Que peito mais brando anseia,
Quem mais gentil sapateia,
Quem pisa mais corações?
Ai! Gentes! Ai! Boiadeiros!
Não sois decerto os primeiros
Que o meu olhar cativou:
Desta morena a doçura
É como frecha segura:
Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada,
Como a folha machucada
Da verde malva-maçã:
Nela me embalo sonhando,
E dela salto cantando,
Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas,
Com as madrugadas formosas
Deste formoso sertão:
Meu sonho é como a canoa,
Que voa, que voa e voa
Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado
O rosário abençoado
Que minha mãe me deixou:
Ai! Gentes! Ai! Pastorinhas!
Se estão alvas as continhas
Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra?
Quem mais delícias encerra,
Quem mais feitiços contém?
Vem moreno boiadeiro,
Desafiar meu pandeiro
Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa!
Que barulho na floresta!
Quanto rumor no sertão!
Que céu! que matas cheirosas
Quanto perfume nas rosas,
E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra:
Não há nas brenhas cigarra
Que me acompanhe, — não há!
Trazei, trazei, boiadeiros,
As violas, os pandeiros,
Os búzios, o maracá!
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês:
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês;
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Vinde ver, ó boiadeiros,
Meus vestidos domingueiros,
Meus braços limpos e nus:
Ah! vinde ver-me enfeitada
Com minha sala engomada,
Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos,
Pedis debalde os meus beijos,
Em vão pedis meu amor!
Eu sou a agreste cutia,
Que se expõe à pontaria
E ri-se do caçador!
A sertaneja morena
Bonita, forte, pequena,
Não cai na armadilha, não:
A jaçanã corre e voa
Quando vê sobre a lagoa
A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre,
Vistosa telha não cobre
O lar que herdei de meus pais:
Que importa? Vivo contente:
Ser moça, bela e inocente
É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho,
Quem defende o passarinho,
Quem das mãos espalha o bem,
Quem fez o sol e as estrelas,
Dando a virtude às donzelas,
Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece
Da mais tosca e simples prece
Que voa ao seio de Deus;
Por cada infeliz que chora
Abre na terra uma aurora,
Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos,
Podeis morrer de desejos,
Que eu não me temo de vós!
A sertaneja faceira
É mais que a paca ligeira
Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,
Bem como a onça raivosa
Pronta ao mais leve rumor!
No meu cabelo selvagem
Sente-se a morna bafagem
Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira ,
Melhor, melhor que a trigueira
Maravilha dos sertões?
Que peito mais brando anseia,
Quem mais gentil sapateia,
Quem pisa mais corações?
Ai! Gentes! Ai! Boiadeiros!
Não sois decerto os primeiros
Que o meu olhar cativou:
Desta morena a doçura
É como frecha segura:
Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada,
Como a folha machucada
Da verde malva-maçã:
Nela me embalo sonhando,
E dela salto cantando,
Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas,
Com as madrugadas formosas
Deste formoso sertão:
Meu sonho é como a canoa,
Que voa, que voa e voa
Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado
O rosário abençoado
Que minha mãe me deixou:
Ai! Gentes! Ai! Pastorinhas!
Se estão alvas as continhas
Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra?
Quem mais delícias encerra,
Quem mais feitiços contém?
Vem moreno boiadeiro,
Desafiar meu pandeiro
Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa!
Que barulho na floresta!
Quanto rumor no sertão!
Que céu! que matas cheirosas
Quanto perfume nas rosas,
E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra:
Não há nas brenhas cigarra
Que me acompanhe, — não há!
Trazei, trazei, boiadeiros,
As violas, os pandeiros,
Os búzios, o maracá!
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês:
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
1 938
1
Silvaney Paes
Um Velho Fado
Uma velha
casa, em uma estrada,
Toda de terra, empoeirada.
Era tão bela, aquela casa!
Feita de pedra, tão bem trajada,
Teto de palha.
Que meu caminho, só me levava,
A dita casa.
E bem mais perto, da velha casa.
Na mesma estrada, já tão pisada,
Toda sem graça, desengonçada.
Escuto algo, ou será nada?
Naquela estrada,
Um velho fado!
Na dita casa.
Já na soleira, da velha casa.
Olhando agora, pra sua alma,
Toda singela, despenteada,
Cantava um fado,
Uma velha.
Chapéu de palha,
Dona da casa.
Senti saudades de outra casa,
De outra era, em outra estrada,
Toda molhada, feita de água.
De minha mãe,
Que lá cantava,
Um velho fado, que me ninava.
Na minha casa.
casa, em uma estrada,
Toda de terra, empoeirada.
Era tão bela, aquela casa!
Feita de pedra, tão bem trajada,
Teto de palha.
Que meu caminho, só me levava,
A dita casa.
E bem mais perto, da velha casa.
Na mesma estrada, já tão pisada,
Toda sem graça, desengonçada.
Escuto algo, ou será nada?
Naquela estrada,
Um velho fado!
Na dita casa.
Já na soleira, da velha casa.
Olhando agora, pra sua alma,
Toda singela, despenteada,
Cantava um fado,
Uma velha.
Chapéu de palha,
Dona da casa.
Senti saudades de outra casa,
De outra era, em outra estrada,
Toda molhada, feita de água.
De minha mãe,
Que lá cantava,
Um velho fado, que me ninava.
Na minha casa.
1 078
1
Fernando Rocha Peres
Gregório de Mattos, 360 Anos
Por Fernando da Rocha Peres
Insinua-se nas dobras do tempo, a obra de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695), a despeito de jamais ter sido autografada pelo poeta. Sombras encobriram os escritos hoje atribuídos ao baiano filho de portugueses, entre o século XVII, quando ele viveu e circularam seus poemas satíricos pregados às escondidas por anônimos nas paredes de prédios públicos, e o século XVIII, no qual copistas os perenizaram em códices apógrafos. Neste final do século XX, já há mais luzes sobre a vida e o legado gregorianos. Cronista da sociedade seiscentista, intérprete crítico do seu tempo, religioso, lírico, herético, Gregório de Mattos e Guerra estava longe de ser figura unânime na sociedade seiscentista. O que, como defende João Carlos Teixeira Gomes, estudioso da obra do poeta, talvez o tenha impedido publicar em Portugal seus poemas "bem comportados". Tais desmedidas motivaram preconceitos contra a poesia satírica, erótica e escatológica de Gregório de Mattos até o início deste século, como observa o historiador Fernando da Rocha Peres. O resgate do corpus gregoriano só viria a ocorrer com o lançamento de Gregório de Mattos — Obra Poética, organizada por James Amado, em 1968, hoje disponível em dois volumes pela editora Record. As portas do século XXI, Gregório de Mattos está em voga, através de mídias inimagináveis no período em que viveu. Ele navegará no cyberspace da Internet através de uma home-page, com textos sobre o poeta, poemas em português e vertidos para o alemão, chinês e italiano, bibliografia básica e material iconográfico. Seus poemas ganharam o suporte de um compact disc, na voz da atriz Nilda Spencer. Seu nome foi refrão de um rap defendido pelo cineasta Edgard Navarro num festival de música popular. Proliferam as publicações acerca do poeta e sua obra, tendo sido a mais recente de autoria da professora da UFBA e dramaturga Cleise F. Mendes. Há 360 anos de seu nascimento, Gregório de Mattos e Guerra é, mais do que nunca, personagem para o futuro. Em torno da data e com o tema o poeta renasce a cada ano. No evento, serão lançados carimbo comemorativo da data, o livro Sete poemas, de amor e desespero, de Maria dos Povos, à partida do poeta Gregório de Mattos para o degredo em Angola, de Myriam Fraga (edições Macunaíma) e o CD Boca do Inferno, coordenado por Maria da Conceição Paranhos, com interpretação de Nilda Spencer e música de Nico Rezende (edições Cidade da Luz). Organizador do evento, o historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que a aproximação temática entre a obra do poeta do século XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
F.R.P. - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos? O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
F.R.P. - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1865. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
F.R.P. - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia, estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas dá Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi Procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram Publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
E sobre o magistrado Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em Portugal — na Torre do Tombo ou na Biblioteca Nacional de Lisboa. É o caso do documento do casamento dele em Lisboa, que era absolutamente ignorado. É um documento autógrafo no qual ele diz ter 25 anos, em 1661, o que resolveu a questão da data de nascimento. Outro documento precioso é o de batismo de uma filha natural que ele teve em Lisboa, com uma mulher chamada Francisca. Os arquivos portugueses são organizados. No Brasil, lamentavelmente, não guardaram essa documentação dos séculos XVI e XVII. Está quase toda ela destruída pelo tempo, pela umidade, pelos insetos, pelos fungos, pelo desleixo.
Há pesquisadores portugueses debruçados sobre a biografia de Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre a biografia, não que eu saiba. Está havendo hoje em Portugal e, podemos dizer, em grande parte da Europa — na Itália, Alemanha, Noruega, Espanha — um interesse pela obra do poeta. Pela obra apógrafa que ficou guardada nos manuscritos existentes em Portugal, no Brasil, na Biblioteca Nacional, e pelo manuscrito agora existente na Bahia, datado de 1775. São manuscritos feitos por copistas portugueses ou baianos. Acredito que os documentos fundamentais já estejam suficientemente assentados, levantados. Mas, poderá surgir, em um ou outro arquivo ainda não organizado, público ou particular, uma documentação que venha a esclarecer determinados detalhes da vida de Gregório de Mattos.
Há uma polêmica entre críticos, quanto a situar Gregório de Mattos com poeta brasileiro. É possível que expressões do nosso vernáculo e a incorporação de vocábulos africanos e indígenas — elementos presentes nos poemas de Gregório — tenham ocorrido nos apógrafos e não partido do poeta?
F.R.P. - Não, evidentemente estes poemas, na sua grande maio
Insinua-se nas dobras do tempo, a obra de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695), a despeito de jamais ter sido autografada pelo poeta. Sombras encobriram os escritos hoje atribuídos ao baiano filho de portugueses, entre o século XVII, quando ele viveu e circularam seus poemas satíricos pregados às escondidas por anônimos nas paredes de prédios públicos, e o século XVIII, no qual copistas os perenizaram em códices apógrafos. Neste final do século XX, já há mais luzes sobre a vida e o legado gregorianos. Cronista da sociedade seiscentista, intérprete crítico do seu tempo, religioso, lírico, herético, Gregório de Mattos e Guerra estava longe de ser figura unânime na sociedade seiscentista. O que, como defende João Carlos Teixeira Gomes, estudioso da obra do poeta, talvez o tenha impedido publicar em Portugal seus poemas "bem comportados". Tais desmedidas motivaram preconceitos contra a poesia satírica, erótica e escatológica de Gregório de Mattos até o início deste século, como observa o historiador Fernando da Rocha Peres. O resgate do corpus gregoriano só viria a ocorrer com o lançamento de Gregório de Mattos — Obra Poética, organizada por James Amado, em 1968, hoje disponível em dois volumes pela editora Record. As portas do século XXI, Gregório de Mattos está em voga, através de mídias inimagináveis no período em que viveu. Ele navegará no cyberspace da Internet através de uma home-page, com textos sobre o poeta, poemas em português e vertidos para o alemão, chinês e italiano, bibliografia básica e material iconográfico. Seus poemas ganharam o suporte de um compact disc, na voz da atriz Nilda Spencer. Seu nome foi refrão de um rap defendido pelo cineasta Edgard Navarro num festival de música popular. Proliferam as publicações acerca do poeta e sua obra, tendo sido a mais recente de autoria da professora da UFBA e dramaturga Cleise F. Mendes. Há 360 anos de seu nascimento, Gregório de Mattos e Guerra é, mais do que nunca, personagem para o futuro. Em torno da data e com o tema o poeta renasce a cada ano. No evento, serão lançados carimbo comemorativo da data, o livro Sete poemas, de amor e desespero, de Maria dos Povos, à partida do poeta Gregório de Mattos para o degredo em Angola, de Myriam Fraga (edições Macunaíma) e o CD Boca do Inferno, coordenado por Maria da Conceição Paranhos, com interpretação de Nilda Spencer e música de Nico Rezende (edições Cidade da Luz). Organizador do evento, o historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que a aproximação temática entre a obra do poeta do século XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
F.R.P. - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos? O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
F.R.P. - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1865. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
F.R.P. - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia, estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas dá Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi Procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram Publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
E sobre o magistrado Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em Portugal — na Torre do Tombo ou na Biblioteca Nacional de Lisboa. É o caso do documento do casamento dele em Lisboa, que era absolutamente ignorado. É um documento autógrafo no qual ele diz ter 25 anos, em 1661, o que resolveu a questão da data de nascimento. Outro documento precioso é o de batismo de uma filha natural que ele teve em Lisboa, com uma mulher chamada Francisca. Os arquivos portugueses são organizados. No Brasil, lamentavelmente, não guardaram essa documentação dos séculos XVI e XVII. Está quase toda ela destruída pelo tempo, pela umidade, pelos insetos, pelos fungos, pelo desleixo.
Há pesquisadores portugueses debruçados sobre a biografia de Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre a biografia, não que eu saiba. Está havendo hoje em Portugal e, podemos dizer, em grande parte da Europa — na Itália, Alemanha, Noruega, Espanha — um interesse pela obra do poeta. Pela obra apógrafa que ficou guardada nos manuscritos existentes em Portugal, no Brasil, na Biblioteca Nacional, e pelo manuscrito agora existente na Bahia, datado de 1775. São manuscritos feitos por copistas portugueses ou baianos. Acredito que os documentos fundamentais já estejam suficientemente assentados, levantados. Mas, poderá surgir, em um ou outro arquivo ainda não organizado, público ou particular, uma documentação que venha a esclarecer determinados detalhes da vida de Gregório de Mattos.
Há uma polêmica entre críticos, quanto a situar Gregório de Mattos com poeta brasileiro. É possível que expressões do nosso vernáculo e a incorporação de vocábulos africanos e indígenas — elementos presentes nos poemas de Gregório — tenham ocorrido nos apógrafos e não partido do poeta?
F.R.P. - Não, evidentemente estes poemas, na sua grande maio
2 093
1