Poemas neste tema

Amizade

William Melo Soares

William Melo Soares

Assim Aceso

Eu vivo assim
de corpo e alma
peito aberto
aos meus irmãos.
Esta canção
eu canto
e digo em viva voz
por mim
por ti
por nós
e esta chama
acesa assanha
amor dentro de nós.

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Al vino

En el bronce de Homero resplandece tu nombre,
negro vino que alegras el corazón del hombre.

Siglos de siglos hace que vas de mano en mano
desde el ritón del griego al cuerno del germano.

En la aurora ya estabas. A las generaciones
les diste en el camino tu fuego y tus leones.

Junto a aquel otro río de noches y de días
corre el tuyo que aclaman amigos y alegrías.

Vino que como un Eufrates patriarcal y profundo
vas fluyendo a lo largo de la historia del mundo.

En tu cristal que vive nuestros ojos han visto
una roja metáfora de la sangre de Cristo.

En las arrebatadas estrofas del sufí
eres la cimitarra, la rosa y el rubí.

Que otros en tu Leteo beban un triste olvido;
yo busco en ti las fiestas del fervor compartido.

Sésamo con el cual antiguas noches abro
y en la dura tiniebla, dádiva y candelabro.

Vino del mutuo amor o la roja pelea,
alguna vez te llamaré. Que así sea.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 229 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mário de Andrade Desce Aos Infernos

I
Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
«que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel.

Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,

feito da impureza do minuto
-e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.

II

No chão me deito :à maneira dos desesperados.

Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio,
esqueço que sou um poeta, que não estou sozinho,
preciso aceitar e compor, minhas medidas partiram-se,
mas preciso, preciso, preciso.

Rastejando, entre cacos, me aproximo.
Não quero, mas preciso tocar pele de homem,
avaliar o frio, ver a côr, ver o silêncio,
conhecer um novo amigo e nele me derramar.

Porque é outro amigo. A explosiva descoberta
ainda me atordoa. Estou cego e vejo. Arranco os olhos e vejo.
Furo as paredes e vejo. Através do mar sangüíneo vejo.
Minucioso, implacável, sereno, pulverizado,
é outro amigo. São outros dentes. Outro sorriso.
Outra palavra, que goteja.

III

O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos,
na serrania mineira,
no mangue, no seringal,
nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,nas regiões inventadas,países a que aspiramos,fantásticos,mas certos, inelutáveis,terra de João invencível,a rosa do povo aberta…
IV

A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora
[frágil, pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha,
e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou.

Mais perto, e uma lâmpada. Mais perto, e quadros,
quadros. Portinari aqui esteve, deixou
sua garra. Aqui Cézanne e Picasso,
os primitivos, os cantadores, a gente de pé no chão,
a voz que vem do nordeste, os fetiches, as religiões,
os bichos. . . Aqui tudo se acumulou,
esta é a rua Lopes Chaves, 546,
outrora 108. Para aqui muitas vezes voou
meu pensamento. Daqui vinha a palavra
esperada na dúvida e no cacto.
Aqui nunca pisei. Mas como o chão
sabe a forma dos pés e é liso e beija!
Todas as brisas da saudade balançam a casa,
empurram a casa,
navio de São Paulo no céu nacional,
vai colhendo amigos de Minas e Rio Grande do Sul,
gente de Pernambuco e Pará, todos os apertos de mão,
todas as confidencias a casa recolhe,
embala, pastoreia.

Os que entram e os que saem se cruzam na imensidão dos corredores,
paz nas escadas,
calma nos vidros,
e ela viaja como um lento pássaro, uma notícia postal, uma nuvem pejada.
Casas ancoradas saúdam-na fraternas:
Vai, amiga!
Não te vás, amiga. . .
(Um homem se dá no Brasil mas conserva-se intacto,
preso a uma casa e dócil a seus companheiros
esparsos.)
Súbito a barba deixou de crescer. Telegramas
irrompem. Telefones
retinem. Silêncio
em Lopes Chaves.

Agora percebo que estamos amputados e frios.
Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram,
aura secreta na respiração da cidade.
É um retrato, somente um retrato,
algo nos jornais, na lembrança,
o dia estragado como uma fruta,
um véu baixando, um ríctus,
o desejo de não conversar. É sobretudo uma pausa ôca
e além de todo vinagre.

Mas tua sombra robusta desprende-se e avança.
Desce o rio, penetra os túneis seculares
onde o antigo marcou seus traços funerários,
desliza na água salobra, e ficam tuas palavras
(superamos a morte, e a palma triunfa)
tuas palavras carbúnculo e carinhosos diamantes.
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Daniel Faria

Daniel Faria

Cruz,rosa

Cruz,rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro.Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega.Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trepassado de sede.Árvore
Que bebe do homem.Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva.Verbo
Tão inteiro que se fez espelho

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
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Castro Menezes

Castro Menezes

Calipso

Pela doce paciência de enfermeira
com que procuras encantar-me a vida,
renovando em minha alma a fé perdida
depois de morta a crença derradeira;

Pelo sorriso bom de companheira
que a novas esperanças me convida,
quando vejo, na estrada percorrida
dos meus sonhos a extinta sementeira;

Pela graça de irmã de Caridade
com que teu meigo afeto me persuade
de que lutar confiante é o meu dever;

Bendita sejas Flor de mansuetude,
em cujo seio, finalmente, pude
descansar a cabeça e adormecer...

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
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Guillaume Apollinaire

Guillaume Apollinaire

Le chat

Le chat

Je souhaite dans ma maison :

Une femme ayant sa raison,

Un chat passant parmi les livres,

Des amis en toute saison

Sans lesquels je ne peux pas vivre.

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Otro poema de los dones

Gracias quiero dar al divino
Laberinto de los efectos y de las causa
Por la diversidad de las criaturas
Que forman este singular universo,
Por la razón, que no cesará de soñar
Con un plano del laberinto,
Por el rostro de Elena y la perseverancia de Ulises,
Por el amor, que nos deja ver a los otros
Como los ve la divinidad,
Por el firme diamante y el agua suelta,
Por el álgebra, palacio de preciosos cristales,
Por las místicas monedas de Ángel Silicio,
Por Schopenhauer,
Que acaso descifró el universo,
Por el fulgor del fuego
Que ningún ser humano puede mirar sin un asombro
antiguo,
Por la caoba, el cedo y el sándalo,
Por el pan y la sal,
Por el misterio de la rosa
Que prodiga calor y que no lo ve,
Por ciertas vísperas y días de 1955,
Por los duros troperos que en la llanura
Arrean los animales y el alba,
Por la mañana en Montevideo,
Por el arte de la amistad,
Por el último día de Sócrates,
Por las palabras que en un crepúsculo se dijeron
De una cruz a otra cruz,
Por aquel sueño del Islam que abarco
Mil noches y una noche,
Por aquel otro sueño del infierno,
De la torre del fuego que purifica
Y de las esferas gloriosas,
Por Swedenborg,
Que conversaba con los ángeles en las calles de
Londres,
Por los ríos secretos e inmemoriales
Que convergen en mí,
Por el idioma, que hace siglos, hablé en Nortumbria,
Por la espada y el arpa de los sajones,
Por el mar, que es un desierto resplandeciente
Y una cifra de cosas que no sabemos
Y un epitafio de los vikings,
Por la música verbal de Inglaterra,
Por la música verbal de Alemania,
Por el oro, que relumbra en los versos,
Por el épico invierno,
Por el nombre de un libro que no he leído:
Gesta Dei per Francos,
Por Verlaine, inocente como los pájaros,
Por el prisma de cristal y la pesa de bronce,
Por las rayas del tigre,
Por las altas torres de San Francisco y de la isla de
Manhattan,
Por la mañana en Texas,
Por aquel sevillano que redactó la Epístola Moral
Y cuyo nombre, como él hubiera preferido,
ignoramos,
Por Séneca y Lucano, de Córdoba,
Que antes del español escribieron
Toda la literatura española,
Por el geométrico y bizarro ajedrez,
Por la tortuga de Zenón y el mapa de Royce,
Por el olor medicinal de los eucaliptos,
Por el lenguaje, que puede simular la sabiduría,
Por el olvido, que anula o modifica el pasado,
Por la costumbre,
Que nos repite y nos confirma como un espejo,
Por la mañana, que nos depara la ilusión de un
principio,
Por la noche, su tiniebla y su astronomía,
Por el valor y la felicidad de los otros,
Por la patria, sentida en los jazmines,
O en una vieja espada,
Por Whitman y Francisco de Asís, que se escribieron
el poema,
Por el hecho de que el poema es inagotable
Y se confunde con la suma de las criaturas
Y no llegará jamás al último verso
Y varía según los hombres,
Por Frances Haslam, que pidió perdón a sus hijos
Por morir tan despacio,
Por los minutos que preceden al sueño,
Por el sueño y la muerte,
Esos dos tesoros ocultos,
Por los íntimos dones que no enumero,
Por la música, misteriosa forma del tiempo.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 249, 250 e 251 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016

Nota: consta ser um dos poemas que J. L. Borges mais gostava.
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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo

Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
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Emily Dickinson

Emily Dickinson

Im Nobody! Who are you?

Im Nobody! Who are you?

Im Nobody! Who are you?

Are you--Nobody--Too?

Then theres a pair of us?

Dont tell! theyd advertise--you know!

How dreary--to be--Somebody!

How public--like a Frog--

To tell ones name--the livelong June--

To an admiring Bog!

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Ein traum

Lo sabían los tres.
Ella era la compañera de Kafka.
Kafka la había soñado.
Lo sabían los tres.
Él era el amigo de Kafka.
Kafka lo había soñado.
Lo sabían los tres.
La mujer le dijo al amigo:
Quiero que esta noche me quieras.
Lo sabían los tres.
El hombre le contestó: Si pecamos,
Kafka dejará de soñarnos.
Uno lo supo.
No había nadie más en la tierra.
Kafka se dijo:
Ahora que se fueran los dos, he quedado solo.
Dejaré de soñarme.


"La moneda de hierro" (1975)


Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 463 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de

SONETO JÁ ANTIGO


Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres pra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!


(publicado na Contemporânea, nº 6, Dezembro de 1922)
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Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Mickey

(No seu cinqüentenário)

Pequenino camundongo
dengoso e faceiro
de orelhas enormes,
boca de riso franco
e narinas que sopram
alegria e calor humano.

Ratinho catita,
garrido, elegante,
que troca de roupa
a qualquer hora,
em qualquer lugar,
onde se desenrole
o pano da fantasia.

Amigo querido
da gente pequena.
Rei de sua turma,
namora Minie,
anima o Pateta,
abraça Horácio,
atiça o Pluto,
adora Clarabela
e, com todos eles,
vive aventuras,
sente emoções
e faz estripulias,
representando
incríveis papéis.

Já cinqüentão
está jovem, menino
e será imortal
pela criatividade
do Papai Walt Disney.

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Castro Alves

Castro Alves

A LUÍS

(no dia de seu natalício)
A imaginação, com o vôo ousado,
aspira a principio à eternidade...
Depois um pequeno espaço basta em breve
para os destroços de nossas esperanças iludidas! ...

Goethe

Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino,
Ó meu amigo! que saudade infinda
Tu me trazes dos tempos de menino!

É o ledo enxame de sutis abelhas
Que vem lembrar à flor o mel daurora...
Acres perfumes de uma idade ardente
Quando o lábio sorri... mas nunca chora!

Que tempos idos! que esperanças louras!
Que cismas de poesia e de futuro!
Nas páginas do triste Lamartine
Quanto sonho de amor pousava puro! ...

E tu falavas de um amor celeste,
De um anjo, que depois se fez esposa...
— Moça, que troca os risos de criança
Pelo meigo cismar de mãe formosa.

Oh! meu amigo! neste doce instante
o vento do passado em mim suspira,
E minhalma estremece de alegria,
Como ao beijo da noite geme a lira.

Tu paraste na tenda, ó peregrino!
Eu vou seguindo do deserto a trilha;
Pois bem... que a lira do poeta errante
Seja a bênção do lar e da família.

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Mistério D’Amor

Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minh’alma a descobrir...
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde... houve um fulgor,
Um olhar que brilhou... e mansamente...
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Para o Ernesto Veiga de Oliveira No Dia da Sua Morte

Àquele que hoje morreu tendo sido
Fiel a cada hora do vivido
Trago o poema desse tempo antigo:
Irisado cintilar dos areais
Na breve eternidade desse instante
Que não pode jamais ser repetido

Foi nesse tempo o tempo:
Longas tardes conversas demoradas
No extático fervor adolescente
Das grandes descobertas deslumbradas
Versos dança música pintura
Um mundo vivo em canto e em figura
Que a vida inteira ficará comigo
Agradecendo a graça do ter sido

Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar
1992
1 905 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Carta de Natal a Murilo Mendes

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
— Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade —

E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
— Escrito mesmo na margem do jornal
Na Baixa — entre as compras do Natal

Para ligar o eterno e este dia
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
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Patrícia Clemente

Patrícia Clemente

Seios

Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.

E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.

E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.

E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.

E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.

Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios

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Castro Alves

Castro Alves

Sonetos

Aos Anos do Meu Prezado Diretor

Mancebos! De mil louros triunfantes
Adornai o Moisés da mocidade,
O Anjo que nos guia da verdade
Pelos doces caminhos sempre ovantes.

Coroai de grinaldas verdejantes
Quem rompeu para a Pátria nova idade,
Guiando pelas leis sãs da amizade
Os moços do progresso sempre amantes.

Vê, Brasil, este filho que o teu nome
Sobre o mapa dos povos ilustrados
Descreve qual o forte de Vendôme.

Conhece que os Andradas e os Machados,
Que inda vivem nas asas do renome
Não morrem nestes céus abençoados;

...................

Mestre, Mestre querido, Pai de Amor,
As glórias que conquistas coa razão,
Enchendo de prazer teu coração
Tatraem grandes bençãos do Senhor!

Os teus louros têm mais vivo fulgor,
Que os ganhos ao ribombo do canhão;
Que os de um Aníbal, dum Napoleão,
Alcançados das mortes entre o horror.

Sim! Que os louros terríveis que Mavorte
Ao soldado concede em dura guerra,
Todos murcha a idéia só da morte!

Mas nos teus vero mérito se encerra,
Que não cede do tempo ao braço forte,
E alcançam justo prêmio além da terra!...

1861

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Alice Ruiz

Alice Ruiz

Haicai

primavera
até a cadeira
olha pela janela

luzes acesas
vozes amigas
chove melhor

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Roberto Pontes

Roberto Pontes

Os Ausentes

Ao Frei Tito
Os ausentes necessitam sempre
bilhetes, cartas e coisas
vezes pequenas lembranças
uma gravata, um poema, um postal.

Os ausentes são tão necessitados
que ninguém os lembra
nem só por saudade ou falta.

Os ausentes têm mãos invisíveis
e figura tão diáfana
que os versos para eles
já nascem feitos poemas.

Os ausentes por qualquer acaso
jamais fogem ao nosso convívio
ainda que a distância seja tanta.

Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro e irreal.

( In: Dossier Tito. Lyon- França: Anistia Internacional s.d.;
traduzido para o Francês sob o título Les Absents,
pelos monges do Convento de La Tourette, versão
incluída no livro Verbo Encarnado de RP)

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Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

Convite

venham todos
conversemos numa comunhão vulgar
sobre as mulheres e o mundo
tiremos o paletó e os sapatos
leiamos os jornais em voz alta
brindemos aos fatos imprevistos
entoemos canções ao velho mar

e que a madrugada nos encontre assim
participando rumorosamente
de uma humanidade sem destino

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Luiz de Miranda

Luiz de Miranda

Ferramentas do Tempo

a Lígia Averbuck

Ferramentas do tempo
feito luz de manhã aberta
luzindo à sombra da porta
do próprio corpo
armas luzindo na noite morta
junto aos cadáveres do sonho
e o vento jogando
mundos indecifráveis no ar

Tento reduzir a sina
reduzir o sinal
luzir no fundo da morte
tua presença

Tento reluzir
na pálpebra do verão
no ombro da tarde
e escorre alegria
na alameda fechada do dia

E tudo são papéis, poeira
fiapos de lembrança
pedaços da própria carne
e tudo arde no ar
à luz desamparada das coisas envelhecidas

Ferramentas do tempo
trazem lampiões lamparinas incêndios
trazem o fogo de dentro
da terra e do corpo
a repor memória ao companheiro morto


Publicado no livro Estado de alerta (1981).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.298-29
1 540 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coqueiro de Batistinha

Ausente de meu querido torrão natal, havia muitos anos, quis rever os sítios amenos… Revoltou-me não rever mais o encantador e quase secular coqueiro do saudoso também Batistinha.
Do volante assinado “Um itabirano”, remetido ao autor em 1955
Já não vejo onde se via
aquele esbelto coqueiro
de Batistinha.

Batistinha não nascera,
o coqueiro ali pousava
a esperá-lo.

Queria ser seu amigo.
Com lentidão de coqueiro
espiava ele crescer.

Amizade que não fala,
mas se irradia por tudo
que é silêncio de verdura.

Até que alguém lhe decifra
esse bem-querer de palmas
e chama-lhe:
Coqueiro de Batistinha.

Batistinha vai à Europa,
vê Paris de antes da guerra,
vê o mundo
e a luz que o mundo tinha.
O coqueiro, mui sisudo,
jamais saiu a passeio.
Tomava conta da loja
de Batistinha.

Vem Batistinha contando
as maravilhas da terra.
Maravilha outra, a escutá-lo,
o coqueiro
era coqueiro-viajante
nos passos de Batistinha.

O dia se repetindo
dez mil dias, Batistinha
tem esse amigo a seu lado.

Já se finou Batistinha
com tudo que tinha visto
em giros de mocidade.

Sua loja está fechada.
E resta ao coqueiro? Nada.

De manhã cedo, pois cedo
começa a rodar mineiro,
passando por lá não vejo
nem retrato de coqueiro.

A Prefeitura o cortou?
Ou o raio o siderou,
o caterpilar levou?

No perguntar-se geral,
sabe menos cada qual
do que saberia um coco.
Tão simples,
e ninguém viu:
sem razão de estar ali,
privado de Batistinha,
o seu coqueiro
sumiu.
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