Poemas neste tema

Mudança e Transformação

Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Flagrante

Eu não tinha este ar preocupado.
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...

( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990

919
Herberto Helder

Herberto Helder

2G

Depois de atravessar altas pedras preciosas,
saía a arder.
Aparecia em chaga de corpo inteiro.
Era agora uma estrela carbonizada, uma aterradora estrela
de grandeza principal,
quando se olhava da terra.
1 111
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Nada de muito óbvio

Nada de muito óbvio mas havia
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu

episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes

com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
893
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Voz Inicial

Quem sou já não interessa
se o disse na certeza
que começa outro ser
676
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se o Mar Entrar

Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó

O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
555
Herberto Helder

Herberto Helder

4K

O mármore maduro desabrocha, move-o pelo meio
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
1 127
Renato Russo

Renato Russo

Depois do começo

Vamos deixar as janelas abertas
Deixar o equilíbrio ir embora
Cair como um saxofone na calçada
Amarrar um fio de cobre no pescoço

Acender um intervalo pelo filtro
Usar um extintor como lençol
Jogar pólo-aquático na cama
Ficar deslizando pelo teto
Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou
Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes

Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem já desapareceu
Deus, Deus, somos todos ateus
Vamos cortar os cabelos do príncipe
E entregá-los a um deus plebeu

E depois do começo
O que vier vai começar a ser o fim.

1 213
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Árvore

Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
1 073
Herberto Helder

Herberto Helder

Não Te Queria

Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
— aterrada pela riqueza —
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som e unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra.

Nome do mundo, diadema.
578
Elisabeth Veiga

Elisabeth Veiga

Enigma

Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.

E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.

Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.

Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?

Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.

A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?

811
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminhando

Um passo largo
que me enche
de ar

uma certeza rápida
e fresca
sem memória

a face gasta
sob os pés

um solo de grãos onde trepida o branco
1 032
Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Milagres

O milagre da uva
virar vinho
e o vinho virar
vinagre

O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore

O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia

E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
766
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 9

Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
554
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fechei À Chave

Fechei à chave todos os meus cavalos
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
1 321
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Rapariga E a Praia

Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento

Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento

E tudo espalha com suas mãos o vento
1 276
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ariane Em Naxos

Tu Teseu que abandonadas amadas
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul

Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu

E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
1 329
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

CINCO SONETETOS GROTESCOS V

É a mais nova versão do real.
Não tão bela quanto a anterior,
que no último verão fez furor
e não deixou vestígio. É natural.

Esta de agora, tímida e avara,
já bate as asas, feito um estertor,
e alça vôo. É a nossa cara.
745
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. de Novo Em Delphos o Python Emerge

De novo em Delphos o Python emerge
Do sono sob os séculos contido
As águias afastaram o seu voo
Só as abelhas zumbem ainda no flanco da montanha seu vozear de bronze
Sob negras nuvens e mórbidos estios o Python emerge
A ordem natural do divino é deslocada
De novo cresce o poder do monstruoso
De novo cresce o poder do «Apodrecido»
De novo o corpo de Python é reunido
Nenhum deus respira no respirar das coisas
As máquinas crescem o Python emerge
Sob o húmido interior da terra movem-se devagar os seus anéis
Ventos da Ásia em sua boca trazem
O estridente clamor da fúria tantra
Tudo vai rolar na violência do instante
Nenhuma coisa é construída em pedra
1 152
Elisa Sayeg

Elisa Sayeg

Ode à Palavra

Muda
saga
de larvas

e bagos
de uva,
roxas

gotas
sonoras
de chuva.

816
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Tôdalas Cousas Eu Vejo Partir

Tôdalas cousas eu vejo partir
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
       do meu amigo de mi querer bem.

Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
       do meu amigo de mi querer bem.

Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
       do meu amigo de mi querer bem.
734
Esther Moura

Esther Moura

Piedosa Mutação

Pedi aos Deuses do fogo,
do Inferno e do Trovão,
queimassem os sonhos passados,
que estavam no coração.

Os Deuses tiveram dó,
e, vendo meu sofrimento,
queimaram os sonhos doridos,
no fogo mais violento!

As chamas subiram aos céus,
nas asas fortes do Vento!
São hoje rosas vermelhas,
brilhando no firmamento!

687
Emílio Moura

Emílio Moura

Renúncia

Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.

Meus olhos já não compreendem outra realidade.

A realidade que amei dorme na sombra.

1 067
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para Sair da Pedra

Para sair da pedra
e desse frio instante jamais ultrapassado
oh que rosa de pedra
que aranha dura
extrema
final em cada pico
ó mole horror desse sorriso

Para sair da terra
morta na base
a haste
a raiz arranhando a parede ratada
a flácida nostalgia da timidez curvada
para sair no fim de cada indecisão
do adiado princípio
uma garra de fumo cobardia ante o ódio
ó praia sufocada ó impossível praia
nitidamente desenhada como um adeus-princípio

Um começar de água
a iluminar os dedos
em cada sulco árido
no ouvido da mão a rebentar o sol
a abandonada menina achada num sonho
é o sol do navio
o rouxinol na espuma
e o sabugo da rosa
o rebentar da pedra
e a andorinha
dizia o menino

O escuro rumor da casa
o miúdo calar de cada coisa
o claro romper das palavras
verticalmente duras

É preciso roer séculos para ajudar o verde
1 186
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Venice, Calif., Nov. 1977:

leary se foi faz tempo e a área dos desajustados que ele criou:
os drogados, os doidos, os fanáticos, o afluxo
de idiotas em geral há muito foi corrigido pelas
instituições, incluindo a instituição da morte.
lsd está quase fora, anfetamina é padrão, barbitúricos são raros,
baseados não são valentes, cocaína e H são caras demais,
patins e raquetebol estão na moda; menos violões,
menos bongôs, menos negros; os nativos agora mascateiam bagagem
e pequenas mercadorias em vans enquanto seus estéreos
já não tocam Bob Dylan, eles viraram pequenos
capitalistas, nada exaustivo, só uma febre, e a
bicicleta de dez marchas, eles pedalam a bicicleta de dez marchas como
no sonho, todas as revoluções acabaram mas resta
um ou outro anarquista sob as palmeiras, calcando seus
cachimbos e planejando explodir qualquer coisa em absoluto por
nenhuma razão em absoluto e o mar vem e vai, vai e vem,
e em Santa Monica os musculosos continuam lá,
embora não sejam os mesmos musculosos, e o mar
vem e vai, e não há Vietnã para protestar, praticamente
nada pra fazer, raquetebol, patins e dez marchas,
e trepar é quase uma chatice, dá problema, sabe,
e vinho barato está na moda, e você pode lavar o carro no
faça-você-mesmo por vinte e cinco centavos.
1 009