Citações neste tema
Vida e Existência
Mário Quintana
Basta havermos lido Dostoiévski e Tolstoi (como fizeram todos os da minha geração) para não duvidar de que o povo russo é profundamente religioso. Nós, não. E por isso mesmo jamais poderíamos cair, como eles, por transferência, na implacável mística do ateísmo. Eles são fanaticamente ateus. Nós não somos fanaticamente religiosos. Moral da História: o trunfo é nosso.
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Mário Quintana
E quando um acidentado acorda, perplexo, no Outro Mundo, e indaga dos Anjos que horas são, muito mais perplexos ficam os Anjos.
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Mário Quintana
Uma das coisas que não consigo absolutamente compreender são os que se convertem a outras religiões. Para que mudar de dúvidas?
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Mário Quintana
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.
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Mário Quintana
As épocas de transição nunca foram idades de ouro, séculos de ouro. São apenas épocas de arame. Que a gente tem de atravessar como o bamboleante fio estendido de um lado a outro do circo. E isto, note-se bem, sem rede de segurança. (Lá embaixo, na arena, estão rugindo as feras.)
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Mário Quintana
São Tomé — que, como todo o mundo sabe, foi o precursor da dúvida cartesiana — jamais perdeu a obsessão das verdades palpáveis e por isso foi parar no Inferno. Ora, os mais infelizes dentre os infernados são os arrependidos e um destes censurou tristemente a Tomé: — Viste? Só de teimoso tu perdeste o Céu. E Tomé: — O Céu? Não sejas doido... Só existe o Inferno!
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Mário Quintana
Não, não foi por humor negro que pus no que leste acima o título de Conto Azul. Costumamos pintar sempre de azul tudo o que se passou nos nossos quinze anos — talvez por um instinto de compensação. Mas a infância, ó poetas, não é mesmo azul? Quanto a mim, eu venho há muito desconfiando de que a infância é uma invenção do adulto. E o passado uma invenção do presente. Por isso é tão bonito sempre, ainda quando foi uma lástima... A memória tem uma bela caixa de lápis de cor.
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Mário Quintana
Não, não foi por humor negro que pus no que leste acima o título de Conto Azul. Costumamos pintar sempre de azul tudo o que se passou nos nossos quinze anos — talvez por um instinto de compensação. Mas a infância, ó poetas, não é mesmo azul? Quanto a mim, eu venho há muito desconfiando de que a infância é uma invenção do adulto. E o passado uma invenção do presente. Por isso é tão bonito sempre, ainda quando foi uma lástima... A memória tem uma bela caixa de lápis de cor.
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Mário Quintana
Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma.
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Mário Quintana
Quando guri, eu tinha de me calar, à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem.
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Mário Quintana
— Os Anjos existem? — Devem existir, por certo, em vista da insistência com que aparecem em meus poemas.
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Mário Quintana
Certa vez, tinha eu quinze anos, inventei uma história que principiava assim: “A primeira coisa que fazem os defuntos, depois de enterrados, é abrirem novamente os olhos.” Mas fiquei tão horrorizado com essa espantosa revelação que não me animei a seguir avante e a história gorou no berço, isto é, no túmulo.
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Mário Quintana
O mal dos que estudam as superstições é não acreditarem nelas. Isso os torna tão suspeitos para tratar do assunto como um biologista que não acreditasse em micróbios.
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Mário Quintana
A sensação póstuma com que folheamos essas revistas atrasadas na sala de espera dos consultórios médicos.
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Mário Quintana
Com a adição de mais um dia nos anos bissextos — esse indesejado 29 de fevereiro — a gente sempre desconfia que na verdade foi vítima de uma subtração.
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Mário Quintana
Ainda há gente que, por preço nenhum, se animaria a entrar num cemitério à noite. Bobagem. Somente no Dia de Finados é que exsurge dentre aqueles mármores um que outro fantasma. E mesmo esses poucos não prestam a mínima atenção a qualquer vivente — tão ocupados se acham eles em limpar do limo suas próprias lápides, em roubar de outros defuntos algumas flores para as dispor artisticamente ao pé de seus túmulos esquecidos.
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Mário Quintana
Vi uma guriazinha vindo pela calçada, de pé no chão, e arrastando, preso a uns cordéis, o seu par de sapatos. Eles a seguiam que nem dois cachorrinhos. Uma verdadeira “hippie” — mas ainda em estado de puro lirismo.
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