Citações neste tema
Outros
Mário Quintana
Pousou agora mesmo — precisamente sobre a velha caneta que eu havia erguido um momento à cata de um adjetivo — um insetozinho verde que tem a forma exata de um escudo. Veio da noite, atraído pela luz da minha janela. Sua gentil visita me compensa não sei de quê. Fico a examiná-lo em silêncio: nada posso nem sei dizer-lhe. E assim nos quedamos por um breve instante, frementes, incomunicáveis e juntos... Dois universos dentro do mesmo mundo.
52
Mário Quintana
Casimiro de Abreu chorava tanto que não cabia em si de descontente. Suas lágrimas escorrem até agora pelas vidraças pelas calçadas pelas sarjetas e só vão deter-se ante o coreto da praça pública, onde, sob os mais inconfessáveis disfarces, Castro Alves ainda discursa!
51
Mário Quintana
O mais difícil, quando se escreve em prosa, é evitar as rimas e, quando se escreve em verso, achar uma rima.
49
Mário Quintana
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos.
50
Mário Quintana
Nós seremos almas quando nos despojarmos de tudo, dizem... Mas que seremos nós sem os nossos pertences, os nossos achaques, todos os nossos inclusives? Nós somos o que temos e o que sofremos. E a coisa mais melancólica deste e do outro mundo é um cachorro sem pulgas.
46
Mário Quintana
As barbas do Doutor Fausto estão longas e brancas como as do Padre Eterno. A mão repousa sobre a esfera armilar. Mas a sua fronte sulca-se de inextrincáveis hieróglifos,
39
Mário Quintana
De há muito venho desconfiando que a justaposição de imagens usada por Guillaume Apollinaire deveria provir, sendo ele polaco, de seu pouco traquejo da construção francesa e consequente dificuldade no emprego de certas partículas, locuções e demais parafusos e rebites que constituem a armação da prosa. Com o que, acabou renovando e rejuvenescendo a linguagem da poesia.
32
Mário Quintana
Por vezes, quando estou escrevendo estes cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio...
38
Mário Quintana
O mais triste que existe na memória são essas marchinhas dos carnavais distantes...
33
Mário Quintana
Ouço, num primitivo espanto, os gritos mais insólitos. Não sei o nome de nenhum desses pássaros, de nenhuma dessas árvores. Olho, agora, esta flor: apenas sei que é amarela. Meu pensamento, ou seja lá o que for, é simplesmente composto de adjetivos, como nos primeiros dias da Criação.
55
Mário Quintana
Todas as antigas civilizações — por mais isoladas umas das outras, no tempo e no espaço — sempre começaram descobrindo três coisas: a poesia, a bebida e a religião.
42
Mário Quintana
Na linguagem corrente não se encontra a palavra “cântaro”. Mas é uma palavra que jamais poderá sair dos poemas. Há palavras assim. São como esses nobres animais heráldicos, que só existem nos brasões.
45
Mário Quintana
Na linguagem corrente não se encontra a palavra “cântaro”. Mas é uma palavra que jamais poderá sair dos poemas. Há palavras assim. São como esses nobres animais heráldicos, que só existem nos brasões.
45
Mário Quintana
O mau gosto e irremediável fealdade dos cabides deve ter sido uma das causas da vertiginosa e já histórica emigração dos chapéus para os anéis de Saturno.
34
Mário Quintana
Quem se aventura a fazer um poema é como se atirasse uma pedra n’água. Tudo depende da formação dos círculos concêntricos. Salvo se o leitor for como o Lago Asfaltite, também chamado Mar Morto. Com este não há jeito nenhum.
37
Mário Quintana
Quem se aventura a fazer um poema é como se atirasse uma pedra n’água. Tudo depende da formação dos círculos concêntricos. Salvo se o leitor for como o Lago Asfaltite, também chamado Mar Morto. Com este não há jeito nenhum.
37
Mário Quintana
Falam em decadência da arte de escrever. Mas isso que por aí se vê, essa imprecisão, essa desconexão, é tudo um simples gráfico do espírito do autor. Não me venham, porém, dizer que ele não tem estilo. Tem-no, e muito seu. O estilo continua sendo o homem. Crise de estilo não existe. O que existe é crise de pensamento.
39
Mário Quintana
Há gente que tem raiva dos clássicos, por terem sido obrigados a conhecê-los. Eu tenho pena deles, porque não nos conhecem.
39
Mário Quintana
Ah! os versos das línguas — pouco lidas como a nossa — pouco lidas por nós mesmos e desconhecidas pelo resto do mundo... Sua incomunicabilidade os torna de uma beleza única e irreparável. Quando descubro um belo verso nosso, sempre me dá vontade de chorar, porque é escrito em português.
14