Citações neste tema
Humor e Ironia
Karl Kraus
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produção do kitsch, se emprega apenas material autêntico.
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Karl Kraus
A sátira não escolhe nem conhece objetos. Ela surge do facto de fugir deles e eles imporem-se a ela.
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Karl Kraus
Uma completa confusão tomou conta da vida amorosa dos seres humanos. Encontramo-nos em formas mistas das quais até agora não se fazia a menor ideia. Dizem que há pouco uma sádica berlinense deixou escapar: “Escravo miserável, ordeno-te que me dês uma bofetada imediatamente!...”. O assessor em questão fugiu apavorado.
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Karl Kraus
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimónias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incómodo é tirado do caminho. Vigas dobram-se à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incómodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida tornou-se terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
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Karl Kraus
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irresponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
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Karl Kraus
Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: “Pede-se deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo”. Se os educadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase dos donos de hotéis!
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Karl Kraus
Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque escrevem.
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Karl Kraus
Não basta à necessidade de solidão que se esteja sentado sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras vazias em volta. Quando o empregado de mesa tira uma dessas cadeiras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e a minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem cadeiras vazias.
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Karl Kraus
Uma certa psicanálise é a ocupação de racionalistas lúbricos que atribuem tudo no mundo a causas sexuais, exceto a sua ocupação.
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Karl Kraus
Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral quanto a insubornabilidade do meu pensamento causou na cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal algum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mulher de um redator embarcou num compartimento particular de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas nos comboios, o que provavelmente é o menor dos meus defeitos. Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxergam e seguem o seu caminho. Todas são mártires; defendem a causa comum, sabem que o meu ataque não se dirige às suas pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primeiro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas dos seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez sente-se solidária perante Die Fackel. Não há antagonismos de classe, a questão nacional cala-se e a Associação de Defesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evidentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte ritual, no fim de contas, tem algum traço de legitimidade, mas que certamente são apenas adeptos da política social que passam a faca pela boca à maneira dos carniceiros judaicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis um ao outro — mas os raios do ódio unem-se sobre a minha humilde pessoa. O facto de ainda não ter ocorrido a um governo austríaco a ideia de me reclamar para o seu programa somente pode ser explicado pela desorientação fundamental dos governos deste país.
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Karl Kraus
O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram a sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar a sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda os seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.
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Karl Kraus
O imbecil que não pode passar diante de nenhum enigma do universo sem observar, desculpando-se, que se trata da sua humilde opinião, embolsa o elogio da modéstia. O artista que se deleita com os seus pensamentos junto a um bueiro, ufana-se.
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Karl Kraus
Talvez as coisas andassem melhor se os homens recebessem focinheiras e os cães, leis; se os homens fossem conduzidos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia diminuir na mesma proporção da política.
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Karl Kraus
Eis uma coisa que eu gostaria muito de saber: o que tantas pessoas fazem com o seu horizonte ampliado?
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Karl Kraus
Os filhos de pais psicanalistas definham precocemente. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes perguntam que ideias lhes vieram à mente quando viram um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade em que o jovem pode confessar um sonho em que violou a sua mãe.
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