Citações neste tema
Humor e Ironia
Karl Kraus
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante o seu trabalho. Deve ser capaz de objetivar a sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
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Karl Kraus
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego os meus manuscritos. Como pode um dramaturgo fiar-se na boca de um ator?
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Karl Kraus
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.
59
Karl Kraus
A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o apetite do filisteu enche-me de pavor. Recuso-me a ser digerido pelo burguês. Mas ficar no seu estômago também não é tentador. O melhor, talvez, seja não se lhe servir de forma alguma.
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Karl Kraus
Obras de arte são supérfluas. É necessário criá-las, é verdade, mas não é necessário mostrá-las. Quem possui arte em si não necessita da ocasião externa. Quem não a possui vê apenas a ocasião. A um o artista impõe-se, ao outro prostitui-se. Em ambos os casos, deveria envergonhar-se.
62
Karl Kraus
O valor da formação revela-se da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo da sua formação.
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Karl Kraus
Como? A humanidade imbeciliza-se em favor do progresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele? Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando podemos escapar dela num automóvel?
67
Karl Kraus
Os neurologistas que patologizam o génio merecem que lhes partamos o crânio com as suas Obras Completas. Não devemos agir de forma diferente com os defensores da humanidade que deploram a vivissecção em cobaias e permitem a utilização de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consigamos agarrá-los, chutemos a cara de todos os que se dispõem a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a humanidade ajoelha-se e, com medo da sua saúde, implora ao Criador por mais loucura!
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Karl Kraus
O desporto é um filho do progresso, e já contribui por conta própria para a imbecilização da família.
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Karl Kraus
Considero a política uma maneira pelo menos tão excelente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de cartas, e visto que há homens que vivem de jogar cartas, o político profissional é um fenómeno perfeitamente compreensível. Tanto mais que ele ganha sempre à custa daqueles que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o apostador político pague as contas, já que a observação paciente constitui o conteúdo da sua vida. Se não houvesse política, o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que o pudesse ocupar.
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Karl Kraus
As revistas de humor são uma prova de que o filisteu não tem sentido de humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a bebida faz parte da refeição. “Dê-me todas as revistas de humor!”, ordena um idiota cheio de preocupações ao empregado de mesa, e atormenta-se para que um sorriso apareça no seu rosto. O humor que ele não tem deve chegar-lhe de todos os cantos da vida quotidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não trouxesse uma piada no seu rótulo. Li numa delas: “Aprendiz de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espírito!”. Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe o método do aprendiz de ofício como uma indireta.
55
Karl Kraus
Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso deve ser igual aos outros no seu exterior. Só pode permanecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a atenção sobre si através de alguma peculiaridade, torna-se vulgar e coloca os perseguidores no seu encalço. Quanto mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tanto mais necessário é que se sirva dos trajes da média como um mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez. Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior quando se compara com a excentricidade de cabelos compridos. Mesmo o bêbado de quem o populacho se ri, ri do homem que usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada sobre o absurdo da ordem social — um ideal dos poetas andarilhos medievais, há muito abandonado pelos nobres e hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira boemia já não faz aos filisteus a concessão de os irritar, e os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem sequer precisa de ser roubado. A pobreza continua não sendo uma vergonha, mas a sujeira já não é uma honra. A “mãe estrada” renega os seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje em dia.
67
Karl Kraus
Conversas de barbeiro são a prova irrefutável de que as cabeças existem por causa dos cabelos.
68
Karl Kraus
O segredo do agitador consiste em parecer tão idiota quanto os seus ouvintes, de modo que eles acreditem ser tão inteligentes quanto ele.
72
Karl Kraus
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado o seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos transformar-se em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem deixar-se formar por ela. A beleza é banida juntamente com os arrepios, e o espírito jovem encontra-se diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
62
Karl Kraus
Para se orientar em questões de política, bastam lembranças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a forma de governo absolutista, por exemplo, foi-nos ensinado pelas figuras de um rei Bobèche, de um príncipe herdeiro Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos possui mesmo um sentido, então ela só pode estar a referir-se à produção de operetas. Esta é criticada com razão por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos que não cabe levar a sério, ou seja, os assuntos públicos. Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de todos os desdobramentos políticos por conceder à estupidez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de sentido superior.
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Karl Kraus
Crianças brincam de soldado. Isto é razoável. Mas por que brincam os soldados de criança?
71
Karl Kraus
Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida mental é uma condição social. O homem fica satisfeito por ver respeitada a sua pele e atrás dela a chamada honra e a chamada moralidade. O olho e o ouvido não devem ser ofendidos, apenas as exigências que os mesmos fazem. O nariz precisa perceber cheiros que detesta, e quando o paladar se preparou para uma refeição, o empregado de mesa vem dez minutos depois e lamenta não poder mais servir. Qualquer imbecil pode encará-lo com os olhos arregalados, tu precisas tolerar o incómodo de qualquer palerma quando ele perguntou se não estás a incomodar, e exatamente quando corres até à secretária para anotar que vives na companhia de pessoas que se julgam eticistas por não te puxarem a carteira do bolso em plena rua, alguém certamente cruzará o teu caminho a pedir lume. O facto de a civilização se orgulhar da cortesia neste ponto, o facto de nenhum fumador ousar responder ao pedido indesejado com um brusco não — nada é capaz de desnudar melhor a estupidez da convenção que estabelecemos entre nós. Prometeu foi buscar o fogo aos céus. Mas, em razão disso, até ele foi acorrentado por ordem de Júpiter a um rochedo do Cáucaso onde um abutre lhe come o fígado.
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Karl Kraus
Se o convite de um cocheiro para andar em seu coche apenas se chocasse com o nosso desejo de não andar com ele, a vida seria fácil. Mas às vezes ele se choca com pensamentos melhores, e os destrói. Quem, afinal, pensa sempre em não andar de coche?
61
Karl Kraus
Se alguém me quer dirigir a palavra, ainda espero até ao último momento que o medo de se comprometer o impeça de o fazer. Mas as pessoas são corajosas.
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Karl Kraus
Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei protege-me.
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