Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eu Falo da Primeira Liberdade
Eu falo da primeira liberdade
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava.
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava.
2 251
2
Cruz e Sousa
Só
Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
2 661
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Cruz e Sousa
Só
Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
2 661
2
Cruz e Sousa
Só
Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
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Sophia de Mello Breyner Andresen
O Efebo
Claro e esguiamente medido como a amphora
Como a amphora
Ele contém um vinho intenso e resinado
A lucidez da sua forma oculta a embriaguez
A sua claridade conduz-nos ao encontro da noite
A sua rectidão de coluna preside à imanência dos desastres
Como a amphora
Ele contém um vinho intenso e resinado
A lucidez da sua forma oculta a embriaguez
A sua claridade conduz-nos ao encontro da noite
A sua rectidão de coluna preside à imanência dos desastres
2 727
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ressurgiremos
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
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Carlos Drummond de Andrade
Águas E Mágoas do Rio São Francisco
Está secando o velho Chico.
Está mirrando, está morrendo.
Já não quer saber de lanchas-ônibus,
nem de chatas e seus empurradores.
Cansou-se de gaiolas
e literatura encomiástica
e mostra o leito pobre,
as pedras, as areias desoladas
onde nenhum caboclo-d’água,
nenhum minhocão ou cachorrinha-d’água,
cativados a nacos de fumo forte,
restam para semente
de contos fabulosos e assustados.
Ei, velho Chico,
deixas teus barqueiros e barranqueiros na pior?
Recusas pegar frete em Pirapora
e ir levando pro Norte as alegrias?
Negas teus surubins, teus mitos e dourados,
teus postais alucinantes de crepúsculo
à gula dos turistas?
Ou é apenas
seca de junho-julho para descanso
e volta mais barrenta na explosão
da chuva gorda?
Já te estranham, meu Chico. Desta vez,
encolheste demais. O cemitério
de barcos encalhados se desdobra
na lama que deixaste. O fio d’água
(ou lágrimas?) escorre
entre carcaças novas: é brinquedo
de curumins, os únicos navios
que aceitas transportar com desenfado.
Mulheres quebram pedra
no pátio ressequido
que foi teu leito e esboça teu fantasma.
Não escutas, ó Chico, as rezas músicas
dos fiéis que em procissão imploram chuva?
São amigos que te querem,
companheiros que carecem
de teu deslizar sem pressa
(tão suave que corrias,
embora tão artioso
que muitas vezes tiravas
a terra de um lado e a punhas
mais adiante, de moleque).
É gente que vai murchando
em frente à lavoura morta
e ao esqueleto do gado,
por entre portos de lenha
e comercinhos decrépitos;
a dura gente sofrida
que carregas (carregavas),
no teu lombo de água turva,
mas afinal água santa,
meu rio, amigo roteiro
de Pirapora a Juazeiro.
Responde, Chico, responde!
Não vem resposta de Chico,
e vai sumindo seu rastro
como o rastro da viola
se esgarça no vão do vento.
E na secura da terra
e no barro que ele deixa
onde Martius viu seu reino,
na carranca dos remeiros
(memória de outras carrancas
há muito peças de living),
nas tortas margens que o homem
não soube retificar
(não soube ou não quis? paciência),
nos pilares sem serviço
de pontes sobre o vazio,
na negra ausência de verde,
no sacrifício das árvores
cortadas, carbonizadas,
no azul, que virou fumaça,
nas araras capturadas
que não mandam mais seus guinchos
à paisagem de seca
(onde o tapete de finas
gramíneas, dos viajantes antigos?),
no chão deserto, na fome
dos subnutridos nus,
não colho qualquer resposta,
nada fala, nada conta
das tristuras e renúncias,
dos desencantos, dos males,
das ofensas, das rapinas
que no giro de três séculos
fazem secar e morrer
a flor de água de um rio.
Está mirrando, está morrendo.
Já não quer saber de lanchas-ônibus,
nem de chatas e seus empurradores.
Cansou-se de gaiolas
e literatura encomiástica
e mostra o leito pobre,
as pedras, as areias desoladas
onde nenhum caboclo-d’água,
nenhum minhocão ou cachorrinha-d’água,
cativados a nacos de fumo forte,
restam para semente
de contos fabulosos e assustados.
Ei, velho Chico,
deixas teus barqueiros e barranqueiros na pior?
Recusas pegar frete em Pirapora
e ir levando pro Norte as alegrias?
Negas teus surubins, teus mitos e dourados,
teus postais alucinantes de crepúsculo
à gula dos turistas?
Ou é apenas
seca de junho-julho para descanso
e volta mais barrenta na explosão
da chuva gorda?
Já te estranham, meu Chico. Desta vez,
encolheste demais. O cemitério
de barcos encalhados se desdobra
na lama que deixaste. O fio d’água
(ou lágrimas?) escorre
entre carcaças novas: é brinquedo
de curumins, os únicos navios
que aceitas transportar com desenfado.
Mulheres quebram pedra
no pátio ressequido
que foi teu leito e esboça teu fantasma.
Não escutas, ó Chico, as rezas músicas
dos fiéis que em procissão imploram chuva?
São amigos que te querem,
companheiros que carecem
de teu deslizar sem pressa
(tão suave que corrias,
embora tão artioso
que muitas vezes tiravas
a terra de um lado e a punhas
mais adiante, de moleque).
É gente que vai murchando
em frente à lavoura morta
e ao esqueleto do gado,
por entre portos de lenha
e comercinhos decrépitos;
a dura gente sofrida
que carregas (carregavas),
no teu lombo de água turva,
mas afinal água santa,
meu rio, amigo roteiro
de Pirapora a Juazeiro.
Responde, Chico, responde!
Não vem resposta de Chico,
e vai sumindo seu rastro
como o rastro da viola
se esgarça no vão do vento.
E na secura da terra
e no barro que ele deixa
onde Martius viu seu reino,
na carranca dos remeiros
(memória de outras carrancas
há muito peças de living),
nas tortas margens que o homem
não soube retificar
(não soube ou não quis? paciência),
nos pilares sem serviço
de pontes sobre o vazio,
na negra ausência de verde,
no sacrifício das árvores
cortadas, carbonizadas,
no azul, que virou fumaça,
nas araras capturadas
que não mandam mais seus guinchos
à paisagem de seca
(onde o tapete de finas
gramíneas, dos viajantes antigos?),
no chão deserto, na fome
dos subnutridos nus,
não colho qualquer resposta,
nada fala, nada conta
das tristuras e renúncias,
dos desencantos, dos males,
das ofensas, das rapinas
que no giro de três séculos
fazem secar e morrer
a flor de água de um rio.
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2
Carlos Drummond de Andrade
Maternidade
Seu desejo não era desejo
corporal.
Era desejo de ter filho,
de sentir, de saber que tinha filho,
um só filho que fosse, mas um filho.
Procurou, procurou pai para seu filho.
Ninguém se interessava por ser pai.
O filho desejado, concebido
longo tempo na mente, e era tão lindo,
nasceu do acaso, o pai era o acaso.
O acaso nem é pai, isso que importa?
O filho, obra materna,
é sua criação, de mais ninguém.
Mas lhe falta um detalhe,
o detalhe do pai.
Então ela é mãe e pai de seu garoto,
a quem, por acaso,
falta um lobo de orelha, a orelha esquerda.
corporal.
Era desejo de ter filho,
de sentir, de saber que tinha filho,
um só filho que fosse, mas um filho.
Procurou, procurou pai para seu filho.
Ninguém se interessava por ser pai.
O filho desejado, concebido
longo tempo na mente, e era tão lindo,
nasceu do acaso, o pai era o acaso.
O acaso nem é pai, isso que importa?
O filho, obra materna,
é sua criação, de mais ninguém.
Mas lhe falta um detalhe,
o detalhe do pai.
Então ela é mãe e pai de seu garoto,
a quem, por acaso,
falta um lobo de orelha, a orelha esquerda.
1 751
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Quarto
No quarto roemos o sabor da fome
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
2 430
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Quarto
No quarto roemos o sabor da fome
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
2 430
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Depois da Cinza Morta Destes Dias
Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Depois da Cinza Morta Destes Dias
Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
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Ruy Belo
Tristeza branda
Num dia destes de tristeza mansa
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar
Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear
Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 155 | Editorial Presença Lda., 1984
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar
Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear
Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 155 | Editorial Presença Lda., 1984
1 048
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Ruy Belo
Tristeza branda
Num dia destes de tristeza mansa
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar
Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear
Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 155 | Editorial Presença Lda., 1984
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar
Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear
Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 155 | Editorial Presença Lda., 1984
1 048
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Sophia de Mello Breyner Andresen
A Luz Oblíqua
A luz oblíqua da tarde
Morre e arde
Nas vidraças.
Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.
A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo.
A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.
Morre e arde
Nas vidraças.
Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.
A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo.
A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. a Solidão
A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro
A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro
Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes azuis.
Eu te procuro.
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro
A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro
Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes azuis.
Eu te procuro.
3 774
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. a Solidão
A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro
A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro
Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes azuis.
Eu te procuro.
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro
A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro
Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes azuis.
Eu te procuro.
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Martha Medeiros
A fita métrica do amor
Como se mede uma pessoa?
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ela é enorme para você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado.
É pequena para você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos e clichés.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ela é enorme para você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado.
É pequena para você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos e clichés.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.
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2
Ruy Belo
Esta rua é alegre
Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 160 e 161 | Editorial Presença Lda., 1984
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 160 e 161 | Editorial Presença Lda., 1984
2 701
2
Edmir Domingues
A revolta e o convite
Coroa de Tercetos (Invenção do autor.)
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.
III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.
IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.
V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.
VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.
COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.
Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.
III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.
IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.
V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.
VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.
COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.
Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
743
2
Edmir Domingues
A revolta e o convite
Coroa de Tercetos (Invenção do autor.)
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.
III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.
IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.
V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.
VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.
COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.
Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.
III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.
IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.
V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.
VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.
COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.
Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
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Nuno Júdice
Poema de amor
O céu, as linhas de luz na água,
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.
2 072
2
Florbela Espanca
Saudade
És a filha dilecta da noss’alma
Da noss’alma de sonho e de tristeza,
Andas de roxo sempre, sempre calma
Doce filha da gente portuguesa!
Em toda a terra do meu Portugal
Te sinto e vejo, toda suavidade
Como nas folhas tristes dum missal
Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!...
Andas nos olhos negros, magoados
Das frescas raparigas. Namorados
Conhecem-te também, meu doce ralo!
Também te trago n’alma dentro em mim,
E trazendo-te sempre, sempre assim,
É bem a Pátria q’rida que eu embalo!
Da noss’alma de sonho e de tristeza,
Andas de roxo sempre, sempre calma
Doce filha da gente portuguesa!
Em toda a terra do meu Portugal
Te sinto e vejo, toda suavidade
Como nas folhas tristes dum missal
Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!...
Andas nos olhos negros, magoados
Das frescas raparigas. Namorados
Conhecem-te também, meu doce ralo!
Também te trago n’alma dentro em mim,
E trazendo-te sempre, sempre assim,
É bem a Pátria q’rida que eu embalo!
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Florbela Espanca
A Mulher I
Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!
Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta; sê em Vênus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão de pisar-te!
Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;
E gritam então os vis: “Olhem, vejam
É aquela a infame!” e apedrejam
A probrezita, a triste, a desgraçada!
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!
Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta; sê em Vênus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão de pisar-te!
Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;
E gritam então os vis: “Olhem, vejam
É aquela a infame!” e apedrejam
A probrezita, a triste, a desgraçada!
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