Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, esperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
01/01/1921
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, esperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
01/01/1921
4 554
1
Fernando Pessoa
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, esperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
01/01/1921
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, esperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
01/01/1921
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1
Fernando Pessoa
Lenta e quieta a sombra vasta
Lenta e quieta a sombra vasta
Cobre o que vejo menos já.
Pouco somos, pouco nos basta.
O mundo tira o que nos dá.
Que nos contente o pouco que há.
A noite, vindo como nada,
Lembra-me quem deixei de ser,
A curva anónima da estrada
Faz-me lembrar, faz-me esquecer,
Faz-me ter pena e ter de a ter.
Ó largos campos já cinzentos
Na noite, para além de mim,
Vou amanhã meus pensamentos
Enterrar onde estais assim.
Vou ter aí sossego e fim.
Poesia! Nada! A hora desce
Sem qualidade ou emoção.
Meu coração o que é que esquece?
Se é o que eu sinto que foi vão,
Porque me dói o coração?
17/11/1930
Cobre o que vejo menos já.
Pouco somos, pouco nos basta.
O mundo tira o que nos dá.
Que nos contente o pouco que há.
A noite, vindo como nada,
Lembra-me quem deixei de ser,
A curva anónima da estrada
Faz-me lembrar, faz-me esquecer,
Faz-me ter pena e ter de a ter.
Ó largos campos já cinzentos
Na noite, para além de mim,
Vou amanhã meus pensamentos
Enterrar onde estais assim.
Vou ter aí sossego e fim.
Poesia! Nada! A hora desce
Sem qualidade ou emoção.
Meu coração o que é que esquece?
Se é o que eu sinto que foi vão,
Porque me dói o coração?
17/11/1930
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1
Fernando Pessoa
Se eu, ainda que ninguém,
Se eu, ainda que ninguém,
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
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1
Fernando Pessoa
Se eu, ainda que ninguém,
Se eu, ainda que ninguém,
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
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1
Fernando Pessoa
Na ribeira deste rio
Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.
Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.
Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.
Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi.
Ele passa e eu confio.
02/10/1933
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.
Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.
Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.
Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi.
Ele passa e eu confio.
02/10/1933
4 274
1
Fernando Pessoa
Não sei que sonho me não descansa
Não sei que sonho me não descansa
E me faz mal...
Mas eia! o harmónio a guiar a dança
Nesse quintal.
E eu perco o fio ao que não existe
E ouço dançar,
Já não alheio, nem sequer triste,
Só de escutar.
Quanta alegria onde os outros são
E dançam bem!
Dei-lhes de graça meu coração
E o que ele tem.
Na noite calma o harmónio toca
Aquela dança,
E o que em mim sonha um momento evoca
Nova esperança
Nova esperança que há-de cessar
Quando, já dia,
O harmónio eterno que há-de acabar
Feche a alegria.
Ah, ser os outros! Se eu o pudesse
Sem outros ser!,
Enquanto o harmónio minha alma enchesse
De o não saber.
10/10/1933
E me faz mal...
Mas eia! o harmónio a guiar a dança
Nesse quintal.
E eu perco o fio ao que não existe
E ouço dançar,
Já não alheio, nem sequer triste,
Só de escutar.
Quanta alegria onde os outros são
E dançam bem!
Dei-lhes de graça meu coração
E o que ele tem.
Na noite calma o harmónio toca
Aquela dança,
E o que em mim sonha um momento evoca
Nova esperança
Nova esperança que há-de cessar
Quando, já dia,
O harmónio eterno que há-de acabar
Feche a alegria.
Ah, ser os outros! Se eu o pudesse
Sem outros ser!,
Enquanto o harmónio minha alma enchesse
De o não saber.
10/10/1933
4 806
1
Fernando Pessoa
Não sei que sonho me não descansa
Não sei que sonho me não descansa
E me faz mal...
Mas eia! o harmónio a guiar a dança
Nesse quintal.
E eu perco o fio ao que não existe
E ouço dançar,
Já não alheio, nem sequer triste,
Só de escutar.
Quanta alegria onde os outros são
E dançam bem!
Dei-lhes de graça meu coração
E o que ele tem.
Na noite calma o harmónio toca
Aquela dança,
E o que em mim sonha um momento evoca
Nova esperança
Nova esperança que há-de cessar
Quando, já dia,
O harmónio eterno que há-de acabar
Feche a alegria.
Ah, ser os outros! Se eu o pudesse
Sem outros ser!,
Enquanto o harmónio minha alma enchesse
De o não saber.
10/10/1933
E me faz mal...
Mas eia! o harmónio a guiar a dança
Nesse quintal.
E eu perco o fio ao que não existe
E ouço dançar,
Já não alheio, nem sequer triste,
Só de escutar.
Quanta alegria onde os outros são
E dançam bem!
Dei-lhes de graça meu coração
E o que ele tem.
Na noite calma o harmónio toca
Aquela dança,
E o que em mim sonha um momento evoca
Nova esperança
Nova esperança que há-de cessar
Quando, já dia,
O harmónio eterno que há-de acabar
Feche a alegria.
Ah, ser os outros! Se eu o pudesse
Sem outros ser!,
Enquanto o harmónio minha alma enchesse
De o não saber.
10/10/1933
4 806
1
Fernando Pessoa
Não sei que sonho me não descansa
Não sei que sonho me não descansa
E me faz mal...
Mas eia! o harmónio a guiar a dança
Nesse quintal.
E eu perco o fio ao que não existe
E ouço dançar,
Já não alheio, nem sequer triste,
Só de escutar.
Quanta alegria onde os outros são
E dançam bem!
Dei-lhes de graça meu coração
E o que ele tem.
Na noite calma o harmónio toca
Aquela dança,
E o que em mim sonha um momento evoca
Nova esperança
Nova esperança que há-de cessar
Quando, já dia,
O harmónio eterno que há-de acabar
Feche a alegria.
Ah, ser os outros! Se eu o pudesse
Sem outros ser!,
Enquanto o harmónio minha alma enchesse
De o não saber.
10/10/1933
E me faz mal...
Mas eia! o harmónio a guiar a dança
Nesse quintal.
E eu perco o fio ao que não existe
E ouço dançar,
Já não alheio, nem sequer triste,
Só de escutar.
Quanta alegria onde os outros são
E dançam bem!
Dei-lhes de graça meu coração
E o que ele tem.
Na noite calma o harmónio toca
Aquela dança,
E o que em mim sonha um momento evoca
Nova esperança
Nova esperança que há-de cessar
Quando, já dia,
O harmónio eterno que há-de acabar
Feche a alegria.
Ah, ser os outros! Se eu o pudesse
Sem outros ser!,
Enquanto o harmónio minha alma enchesse
De o não saber.
10/10/1933
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1
Fernando Pessoa
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
2 794
1
Fernando Pessoa
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
2 794
1
Fernando Pessoa
Dorme sobre o meu seio.
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
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1
Fernando Pessoa
Dorme sobre o meu seio.
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
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1
Fernando Pessoa
Sol nulo dos dias vãos,
Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de alma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Cheios de lida e de alma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
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Fernando Pessoa
Sol nulo dos dias vãos,
Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de alma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Cheios de lida e de alma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
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1
Fernando Pessoa
O sol às casas, como a montes,
O sol às casas, como a montes,
Vagamente doura.
Na cidade sem horizontes
Uma tristeza loura.
Com a sombra da tarde desce
E um pouco dói
Porque quanto é tarde
Tudo quanto foi.
Nesta hora mais que em outra choro
O que perdi.
Em cinza e ouro o rememoro
E nunca o vi.
Felicidade por nascer,
Mágoa a acabar,
Ânsia de só aquilo ser
Que há-de ficar –
Sussurro sem que se ouça, palma
Da isenção.
Ó tarde, fica noite, e alma
Tenha perdão.
25/12/1918
Vagamente doura.
Na cidade sem horizontes
Uma tristeza loura.
Com a sombra da tarde desce
E um pouco dói
Porque quanto é tarde
Tudo quanto foi.
Nesta hora mais que em outra choro
O que perdi.
Em cinza e ouro o rememoro
E nunca o vi.
Felicidade por nascer,
Mágoa a acabar,
Ânsia de só aquilo ser
Que há-de ficar –
Sussurro sem que se ouça, palma
Da isenção.
Ó tarde, fica noite, e alma
Tenha perdão.
25/12/1918
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1
Fernando Pessoa
O sol às casas, como a montes,
O sol às casas, como a montes,
Vagamente doura.
Na cidade sem horizontes
Uma tristeza loura.
Com a sombra da tarde desce
E um pouco dói
Porque quanto é tarde
Tudo quanto foi.
Nesta hora mais que em outra choro
O que perdi.
Em cinza e ouro o rememoro
E nunca o vi.
Felicidade por nascer,
Mágoa a acabar,
Ânsia de só aquilo ser
Que há-de ficar –
Sussurro sem que se ouça, palma
Da isenção.
Ó tarde, fica noite, e alma
Tenha perdão.
25/12/1918
Vagamente doura.
Na cidade sem horizontes
Uma tristeza loura.
Com a sombra da tarde desce
E um pouco dói
Porque quanto é tarde
Tudo quanto foi.
Nesta hora mais que em outra choro
O que perdi.
Em cinza e ouro o rememoro
E nunca o vi.
Felicidade por nascer,
Mágoa a acabar,
Ânsia de só aquilo ser
Que há-de ficar –
Sussurro sem que se ouça, palma
Da isenção.
Ó tarde, fica noite, e alma
Tenha perdão.
25/12/1918
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1
Fernando Pessoa
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
02/10/1933
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
02/10/1933
4 806
1
Fernando Pessoa
Um muro de nuvens densas
Um muro de nuvens densas
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.
Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.
E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e da noite serena.
De resto, nunca sei nada.
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.
Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.
01/05/1929
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.
Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.
E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e da noite serena.
De resto, nunca sei nada.
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.
Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.
01/05/1929
4 218
1
Fernando Pessoa
Solene passa sobre a fértil terra
Solene passa sobre a fértil terra
A branca, inútil nuvem fugidia,
Que um negro instante de entre os campos ergue
Um sopro arrefecido.
Tal me alta na alma a lenta ideia voa
E me enegrece a mente, mas já torno,
Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia
Da imperfeita vida.
31/05/1927
A branca, inútil nuvem fugidia,
Que um negro instante de entre os campos ergue
Um sopro arrefecido.
Tal me alta na alma a lenta ideia voa
E me enegrece a mente, mas já torno,
Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia
Da imperfeita vida.
31/05/1927
3 336
1
Fernando Pessoa
Trila na noite uma flauta. É de algum
Trila na noite uma flauta. É de algum
Pastor? Que importa? Perdida
Série de notas vaga e sem sentido nenhum.
Como a vida.
Sem nexo ou princípio ou fim ondeia
A ária alada.
Pobre ária fora de música e de voz, tão cheia
De não ser nada!
Não há nexo ou fio por que se lembre aquela
Ária, ao parar;
E já ao ouvi-la sofro a saudade dela
E o quando cessar.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Pastor? Que importa? Perdida
Série de notas vaga e sem sentido nenhum.
Como a vida.
Sem nexo ou princípio ou fim ondeia
A ária alada.
Pobre ária fora de música e de voz, tão cheia
De não ser nada!
Não há nexo ou fio por que se lembre aquela
Ária, ao parar;
E já ao ouvi-la sofro a saudade dela
E o quando cessar.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
4 374
1
Fernando Pessoa
Cada dia sem gozo não foi teu
Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
14/03/1933
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
14/03/1933
2 495
1
Fernando Pessoa
Na quinta entre ciprestes
Na quinta entre ciprestes
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
4 274
1
Fernando Pessoa
Na quinta entre ciprestes
Na quinta entre ciprestes
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
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