Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Herberto Helder
21
mas se basta uma braçada de luz com água,
e ao sono basta o rasgão por onde se escoa,
e ao teu corpo, o que basta a esse ofício do brilho:
o organismo diamante, o sistema da rosa,
o banho plenário,
e à exasperada alegria basta cada dia roaz,
se basta a água anárquica?
frutas, púcaros, ondas, folhas, dedos, tudo
o que a luz encurva,
se era para trás do rosto ou das espáduas,
dos membros,
dos riscos
escarpados do corpo,
porque eu tremo com o punhado de ouro grosso que te queimava
como quem faz um nó com a sua estrela
ou morre noutra pessoa —
tudo o que me devora se apaga, e eu brilho
daquilo que me devora,
quando se amarra e desamarra
da força entre as mãos batidas altas,
do ar que salta:
o segredo é a coisa mais brilhada
e ao sono basta o rasgão por onde se escoa,
e ao teu corpo, o que basta a esse ofício do brilho:
o organismo diamante, o sistema da rosa,
o banho plenário,
e à exasperada alegria basta cada dia roaz,
se basta a água anárquica?
frutas, púcaros, ondas, folhas, dedos, tudo
o que a luz encurva,
se era para trás do rosto ou das espáduas,
dos membros,
dos riscos
escarpados do corpo,
porque eu tremo com o punhado de ouro grosso que te queimava
como quem faz um nó com a sua estrela
ou morre noutra pessoa —
tudo o que me devora se apaga, e eu brilho
daquilo que me devora,
quando se amarra e desamarra
da força entre as mãos batidas altas,
do ar que salta:
o segredo é a coisa mais brilhada
1 003
Herberto Helder
15
roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
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Herberto Helder
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pêras plenas na luz subida para colhê-las
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
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Herberto Helder
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mordidos por dentes caninos, que substantivos!
assim me encontre eu perdido numa grande escrita,
toca-se, e o fogo morde o cabelo,
a luz movida levanta o corpo,
a exasperada delicadeza com que se toca na obra-prima
de uma pálpebra, de uma
clavícula,
e logo atrás a omoplata vergada pela crua labareda do pêlo jorrando
da cabeça
que implacável poder o desta ordem das matérias,
a ordem do acessível,
e o prodígio oh
do ar na luz revolvidos de um espaço para outro,
e de repente entende-se
que um corpo é só um corpo: prova do improvável, ou
impossibilidade, ou
esplendor, ou
que alta tensão! e diz-se:
toca-me, e toca-se, e os dedos
despedaçam-se, e aquilo em que se toca alumia-se
até ao intacto, o intocável
assim me encontre eu perdido numa grande escrita,
toca-se, e o fogo morde o cabelo,
a luz movida levanta o corpo,
a exasperada delicadeza com que se toca na obra-prima
de uma pálpebra, de uma
clavícula,
e logo atrás a omoplata vergada pela crua labareda do pêlo jorrando
da cabeça
que implacável poder o desta ordem das matérias,
a ordem do acessível,
e o prodígio oh
do ar na luz revolvidos de um espaço para outro,
e de repente entende-se
que um corpo é só um corpo: prova do improvável, ou
impossibilidade, ou
esplendor, ou
que alta tensão! e diz-se:
toca-me, e toca-se, e os dedos
despedaçam-se, e aquilo em que se toca alumia-se
até ao intacto, o intocável
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Herberto Helder
18
porque estremeço à maravilha da volta com que tiras o vestido por
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
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Herberto Helder
18
porque estremeço à maravilha da volta com que tiras o vestido por
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
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Herberto Helder
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a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
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Herberto Helder
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a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
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Herberto Helder
Fonte - V
Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.
E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.
Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.
Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.
Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.
E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.
Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.
Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.
Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
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Herberto Helder
Fonte - V
Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.
E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.
Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.
Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.
Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.
E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.
Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.
Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.
Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
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Herberto Helder
Fonte - Iii
Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.
Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.
— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?
Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
6 cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.
Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.
— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?
Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
6 cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.
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Herberto Helder
Tríptico - I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
1 833
Herberto Helder
Tríptico - I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
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Herberto Helder
Pensam: É Melhor Ter o Inferno a Não Ter
pensam: é melhor ter o inferno a não ter coisa nenhuma
— como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem, dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subtilezas desde o xadrez à fisica quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
l a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
a metáfora da água?
a ideia de paraiso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantando, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!
— como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem, dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subtilezas desde o xadrez à fisica quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
l a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
a metáfora da água?
a ideia de paraiso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantando, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!
665
Herberto Helder
Olhos Ávidos
olhos ávidos,
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
1 054
Herberto Helder
Daqui a Uns Tempos Acho Que Vou Arvoar
daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
621
Herberto Helder
Daqui a Uns Tempos Acho Que Vou Arvoar
daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
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Herberto Helder
Daqui a Uns Tempos Acho Que Vou Arvoar
daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
621
Herberto Helder
Fonte - Vi
Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.
No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.
Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.
No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.
Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
668
Herberto Helder
Elegia Múltipla - Vi
São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras —
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes — enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite — extremas e únicas.
— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras —
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes — enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite — extremas e únicas.
— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.
1 096
Herberto Helder
Ao Vento Deste Outono
d’après Issa
ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
628
Herberto Helder
O Poema - V
Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria
masculinidade. Era talvez um cego escorrer
de sangue pelos anéis e flores do corpo.
Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
da alegria da minha vida.
Havia também outra coisa a que se deveria dar
um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
como uma árvore se vai cercando de folhas
inúmeras. Tudo isso começava
a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
confusão. Era primeiro uma virtude.
Depois, este vagaroso acender
da noite. O sangue despenhava-se
nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
que era a tristeza, a tristeza — um poder
mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
e todo me circundava de uma torrente
silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.
Nunca se deve dizer que um rosto perde
as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
pode ligar a terra à violência do espírito.
— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
as portas, a loucura das pontes celestes
aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
do corpo subtilmente preso por crateras e picos
ao tumulto das sombras.
Eu abaixava-me e tomava como nos braços
essa criança ignota.
E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
um afogado. Tudo me inspirava
nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
do mundo. Como pode um coração absorver
tanta matéria, tanta inocência da terra?
Se era uma criança, sua vida circulava
indecisamente; se eram os mortos,
a distância tornava-se infinita. Apenas
a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
corria nas palavras adormecidas
e degelava as mãos que se cobriam
de um sentido impenetrável.
— Essa forma amparava-se no sexo repleto
de espinhos e espelhos,
e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
uma louca morte
onde começassem a girar as inspirações misteriosas.
masculinidade. Era talvez um cego escorrer
de sangue pelos anéis e flores do corpo.
Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
da alegria da minha vida.
Havia também outra coisa a que se deveria dar
um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
como uma árvore se vai cercando de folhas
inúmeras. Tudo isso começava
a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
confusão. Era primeiro uma virtude.
Depois, este vagaroso acender
da noite. O sangue despenhava-se
nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
que era a tristeza, a tristeza — um poder
mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
e todo me circundava de uma torrente
silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.
Nunca se deve dizer que um rosto perde
as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
pode ligar a terra à violência do espírito.
— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
as portas, a loucura das pontes celestes
aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
do corpo subtilmente preso por crateras e picos
ao tumulto das sombras.
Eu abaixava-me e tomava como nos braços
essa criança ignota.
E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
um afogado. Tudo me inspirava
nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
do mundo. Como pode um coração absorver
tanta matéria, tanta inocência da terra?
Se era uma criança, sua vida circulava
indecisamente; se eram os mortos,
a distância tornava-se infinita. Apenas
a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
corria nas palavras adormecidas
e degelava as mãos que se cobriam
de um sentido impenetrável.
— Essa forma amparava-se no sexo repleto
de espinhos e espelhos,
e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
uma louca morte
onde começassem a girar as inspirações misteriosas.
837
Herberto Helder
Cheirava Mal, a Morto, Até Me Purificarem Pelo Fogo
cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras
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Herberto Helder
Colinas Amarelas, Árvores Vermelhas
colinas amarelas, árvores vermelhas,
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
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