Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Herberto Helder
Os Epílogos
Vou enlouquecer, sussurrou ele para o mestre que o olhava do outro lado da mesa.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.
Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.
Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.
Ou ainda:
Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:
É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.
É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.
Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.
Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.
Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.
Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.
A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.
Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.
As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.
Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.
Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.
Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.
Ou ainda:
Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:
É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.
É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.
Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.
Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.
Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.
Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.
A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.
Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.
As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.
Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
1 580
Herberto Helder
E Eu Que Sopro E Envolvo Teu Corpo Tremulamente
e eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
1 203
Herberto Helder
E Eu Que Sopro E Envolvo Teu Corpo Tremulamente
e eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
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Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 5
Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
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Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 5
Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
1 074
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 5
Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
1 074
Herberto Helder
Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
1 016
Herberto Helder
As Palavras 4
Durmo.
Durmo de pé atravessando quartos, as minhas mãos não dormem — talvez eu sorria estremecendo, estremecendo.
As minhas mãos saem do sono, para os lados, mexem, mexem, os pés estão acordados e levam com um sorriso o meu sono pelos espaços vivos e brancos, sem som — estou de pé estremecendo.
Depois tenho quatro patas como um perfume que partisse ou uma flor que partisse à procura do seu perfume.
Digo que tenho uma aflita quadrupedia, como um cão nu que fosse em busca da sua flor desaparecida em toda a parte, neste clima aberto à volta do clima.
As minhas patas saem do sono para saber como é o espaço exasperado do clima, andam pelos soalhos do clima — e ao alto do movimento há um sorriso em lume brando numa pessoa estremecendo.
Aprendi como é devagar — comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder — aprendi devagar.
Entretanto, se me falarem de rosas não me falem de rosas — falem-me da espinhosa arte de ser rosa, da arte do devagar.
Mexes-te muito, digo eu, e penso: mexes-te muito pouco — é que eu sou o muito mais possível devagar, respondo, é que eu sou o sangue procurando, pelos tubos quentes, o pavor do coração.
Sou o sangue em busca de como há-de bater nas mãos e nos pés, através das galerias, como um ramo de ventania a bater no espaço da ventania.
Mexes-te pouco, é o sono que te leva, as mãos tremem, os pés apanham os passos um pouco atrás, o coração é terrível como um órgão oculto — mas a boca exposta é que é o órgão do amor.
Durmo, durmo, durmo em todas as direcções — abrem luzes como quem espanca neve, tornam claro como quem desdobra lençóis, tiram do sono como quem abre torneiras sobre as ervas espantadas.
Oh, deixa-me tu passar, digo-me eu, dá-me a superfície inteira desta noite irregular, a profundeza deste sono onde apenas se mexe uma incrível sabedoria à força de lentidão.
É isto que levo no corpo — a nudez, a nudez.
E a nudez põe o sono às costas, caminha, sabe, encontra, perde e caminha — toda exposta em seu espaço branco.
Não te importes com a água fria que atravessa a primeira imagem da tua ciência — tu abraças o amor como se abraçasses uma chaga ardente: a lepra, a loucura, a visão.
O dia começa a meter-se para dentro.
Leva consigo as casas de bruscas rosas acesas, os lençóis que tremem, as candeias com perfume.
A cor sobre as pedras, os lugares mais frios.
O pequeno espelho que o ar infiltrou de álcool, digo: o pássaro — o dia que começa a meter-se para dentro agarra-o pelas patas do voo, e leva-o consigo.
É preciso mais droga, ou amor, ou maior velocidade, para se ver que é o dia.
O movimento dos nomes, o espaço na beleza — e leva-os para dentro.
Já não sei como olhar as plumas que respiram entre as minhas duas mãos, o silêncio deitado, aberto, debaixo do meu de novo silêncio.
A luz pênsil como um girassol um pouco retirado.
A madeira latejante.
Agora não sei — o dia leva tudo para dentro.
Ouve-se então o interior mais escuro.
Aquele bater de águas giratórias.
Um eco de pancadas sonâmbulas, síncope, uma ardente digestão de coisas vivas.
Começa a meter-se para dentro — é uma paisagem tão móvel como a linha entre a maçã e o gosto.
O teu retrato parece uma colina de areia que caminha para os lados nocturnos, não é fixo e fascina — como um peixe dança pelas águas geladas.
Quando se dobra para trás, quente ainda o coração, pequena colina de areia sentada sobre si mesma como uma cabra, uma rosa — vem o dia que se mete para dentro, e leva-o consigo.
Tenho medo do teu rosto que desaparece um pouco loucamente, como se parasses para ver o outro lado do espelho.
Tremo olhando a convulsão de toda aquela seda.
Deita de fora as mãos e agarra o teu vestido de perfil, e tu olhas de lado como as pessoas lêem o sentido de um poema, e sorris a três quartos como as pessoas imaginam que são, e desapareces de costas como as pessoas apalpam a frescura das pêras — o dia agarra o teu vestido de pé, e leva-o para dentro.
O meu sono onde corre um ramo de sangue, como na europa um ramo de águas arquejantes.
O dia agarra pelos caules o ramo bem atado do meu sono que crepita — e a vigília põe-se a andar sobre as suas quatro patas, branca como um cão cheio de febre.
O dia como uma cadeira que se leva para dentro.
Durmo de pé atravessando quartos, as minhas mãos não dormem — talvez eu sorria estremecendo, estremecendo.
As minhas mãos saem do sono, para os lados, mexem, mexem, os pés estão acordados e levam com um sorriso o meu sono pelos espaços vivos e brancos, sem som — estou de pé estremecendo.
Depois tenho quatro patas como um perfume que partisse ou uma flor que partisse à procura do seu perfume.
Digo que tenho uma aflita quadrupedia, como um cão nu que fosse em busca da sua flor desaparecida em toda a parte, neste clima aberto à volta do clima.
As minhas patas saem do sono para saber como é o espaço exasperado do clima, andam pelos soalhos do clima — e ao alto do movimento há um sorriso em lume brando numa pessoa estremecendo.
Aprendi como é devagar — comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder — aprendi devagar.
Entretanto, se me falarem de rosas não me falem de rosas — falem-me da espinhosa arte de ser rosa, da arte do devagar.
Mexes-te muito, digo eu, e penso: mexes-te muito pouco — é que eu sou o muito mais possível devagar, respondo, é que eu sou o sangue procurando, pelos tubos quentes, o pavor do coração.
Sou o sangue em busca de como há-de bater nas mãos e nos pés, através das galerias, como um ramo de ventania a bater no espaço da ventania.
Mexes-te pouco, é o sono que te leva, as mãos tremem, os pés apanham os passos um pouco atrás, o coração é terrível como um órgão oculto — mas a boca exposta é que é o órgão do amor.
Durmo, durmo, durmo em todas as direcções — abrem luzes como quem espanca neve, tornam claro como quem desdobra lençóis, tiram do sono como quem abre torneiras sobre as ervas espantadas.
Oh, deixa-me tu passar, digo-me eu, dá-me a superfície inteira desta noite irregular, a profundeza deste sono onde apenas se mexe uma incrível sabedoria à força de lentidão.
É isto que levo no corpo — a nudez, a nudez.
E a nudez põe o sono às costas, caminha, sabe, encontra, perde e caminha — toda exposta em seu espaço branco.
Não te importes com a água fria que atravessa a primeira imagem da tua ciência — tu abraças o amor como se abraçasses uma chaga ardente: a lepra, a loucura, a visão.
O dia começa a meter-se para dentro.
Leva consigo as casas de bruscas rosas acesas, os lençóis que tremem, as candeias com perfume.
A cor sobre as pedras, os lugares mais frios.
O pequeno espelho que o ar infiltrou de álcool, digo: o pássaro — o dia que começa a meter-se para dentro agarra-o pelas patas do voo, e leva-o consigo.
É preciso mais droga, ou amor, ou maior velocidade, para se ver que é o dia.
O movimento dos nomes, o espaço na beleza — e leva-os para dentro.
Já não sei como olhar as plumas que respiram entre as minhas duas mãos, o silêncio deitado, aberto, debaixo do meu de novo silêncio.
A luz pênsil como um girassol um pouco retirado.
A madeira latejante.
Agora não sei — o dia leva tudo para dentro.
Ouve-se então o interior mais escuro.
Aquele bater de águas giratórias.
Um eco de pancadas sonâmbulas, síncope, uma ardente digestão de coisas vivas.
Começa a meter-se para dentro — é uma paisagem tão móvel como a linha entre a maçã e o gosto.
O teu retrato parece uma colina de areia que caminha para os lados nocturnos, não é fixo e fascina — como um peixe dança pelas águas geladas.
Quando se dobra para trás, quente ainda o coração, pequena colina de areia sentada sobre si mesma como uma cabra, uma rosa — vem o dia que se mete para dentro, e leva-o consigo.
Tenho medo do teu rosto que desaparece um pouco loucamente, como se parasses para ver o outro lado do espelho.
Tremo olhando a convulsão de toda aquela seda.
Deita de fora as mãos e agarra o teu vestido de perfil, e tu olhas de lado como as pessoas lêem o sentido de um poema, e sorris a três quartos como as pessoas imaginam que são, e desapareces de costas como as pessoas apalpam a frescura das pêras — o dia agarra o teu vestido de pé, e leva-o para dentro.
O meu sono onde corre um ramo de sangue, como na europa um ramo de águas arquejantes.
O dia agarra pelos caules o ramo bem atado do meu sono que crepita — e a vigília põe-se a andar sobre as suas quatro patas, branca como um cão cheio de febre.
O dia como uma cadeira que se leva para dentro.
1 102
Herberto Helder
Onde Não Pode a Mão 2
Cortaram pranchas palpitando de água:
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
1 291
Herberto Helder
Disseram: Mande Um Poema Para a Revista Onde
disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos
e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
nada se reparte: ou se devora tudo
ou não se toca em nada,
morre - se mil vezes de uma só morte ou
uma só vez das mortes todas juntas:
só colaboro na minha morte:
e elas entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,
que o demónio o leve, e foram-se,
e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,
só porque sim, isto é: só porque não agora
e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
nada se reparte: ou se devora tudo
ou não se toca em nada,
morre - se mil vezes de uma só morte ou
uma só vez das mortes todas juntas:
só colaboro na minha morte:
e elas entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,
que o demónio o leve, e foram-se,
e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,
só porque sim, isto é: só porque não agora
669
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 1
As cabeças de mármore: um raio
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
1 080
Herberto Helder
De Antemão 2
Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas
o sangue, Como as estrelas duplas
duplamente
se dão força,
E fique assim — astro grande estanque
cosido em sangue: e a luz
obturada,
E então no seu pneuma luminoso:
um astro cheio, Coração: astéria: carne
de olaria pulsando, O espasmo
da mão às vezes
se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,
Ou se retira ao braço o movimento
pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira
o rasgão do ar
na dança,
Assim a estrela com dois membros
cravados recebendo
o tremor do mundo, E toda essa
massa peristáltica esmaga
a argila táctil: um pequeno músculo
convulso no fundo de água:
um troço de sangue nas costas, Que lhe passes
pelas roupas e a nudez
as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro
um incêndio:
e te ilumines dele, E a tua cara se faça
miraculada
à combustão, E entres rutilante por uma porta
para outra porta, Essa porta que dê
para uma porta de ti própria,
A mão ateando a escrita que se desloca
brilha direita,
Toca-te toda: tocas no chão
através dela, A terra
treme
quando lhe tocas, Tudo
se transmite e transforma,
A gangrena é uma força, Tu és a raiz dele,
Estás dentro
da luz de fora, Como o choque
sísmico
da estrela
o sangue, Como as estrelas duplas
duplamente
se dão força,
E fique assim — astro grande estanque
cosido em sangue: e a luz
obturada,
E então no seu pneuma luminoso:
um astro cheio, Coração: astéria: carne
de olaria pulsando, O espasmo
da mão às vezes
se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,
Ou se retira ao braço o movimento
pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira
o rasgão do ar
na dança,
Assim a estrela com dois membros
cravados recebendo
o tremor do mundo, E toda essa
massa peristáltica esmaga
a argila táctil: um pequeno músculo
convulso no fundo de água:
um troço de sangue nas costas, Que lhe passes
pelas roupas e a nudez
as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro
um incêndio:
e te ilumines dele, E a tua cara se faça
miraculada
à combustão, E entres rutilante por uma porta
para outra porta, Essa porta que dê
para uma porta de ti própria,
A mão ateando a escrita que se desloca
brilha direita,
Toca-te toda: tocas no chão
através dela, A terra
treme
quando lhe tocas, Tudo
se transmite e transforma,
A gangrena é uma força, Tu és a raiz dele,
Estás dentro
da luz de fora, Como o choque
sísmico
da estrela
1 139
Herberto Helder
A Força da Faca Ou É Um Jogo
a força da faca ou é um jogo,
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
1 004
Herberto Helder
A Força da Faca Ou É Um Jogo
a força da faca ou é um jogo,
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
1 004
Herberto Helder
As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães
as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
1 276
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 2
Os braços arvorados acima do trono, Com um rasgão luminoso
movido tudo
a uma potência orgânica de astro:
astro
pleno,
Ameaça de desordem sobre uma trama exacta
de números
de gramática, Se dessa pauta se arrebatasse
a cerrada ligeireza
da dança, Inominável sistema
de peso e graça, Se a matéria crescesse
fincada
num tendão, Pela abertura fortemente
entre os nervos: pelos membros
se gerasse pulsando a forma, E uma
soberania formal
ardesse pelo meio, Os dedos:
uma estrela poderosa, Toco-te cheia
de fósforo
de sangue
de força eléctrica, A lua que é o fundamento,
O halo da tua onda
de oxigénio: de seda, Urdes a brancura
que te urde
o sono: que te acorda
em sobressalto atravessada
pelos relâmpagos, És o teu próprio nexo,
Toco-te apenas,
Suor:
tensão: o diamante que toco:
tacto contra tacto:
a língua
presa por uma veia negra: o odor: o bafo
-toco-te,
E moves-te como
uma porta tocada no fecho: apenas
como
um astro transbordante: palpitas apenas como uma
pálpebra sobre o mundo:
ou uma luz sem pálpebras
que te olha e olha, Respiras apenas:
pulmão
do quarto afogado: pulmão
árduo, Apenas
ferida perpétua: fluxo: púrpura ardida
— ó raiz transpirada dos meus braços
movido tudo
a uma potência orgânica de astro:
astro
pleno,
Ameaça de desordem sobre uma trama exacta
de números
de gramática, Se dessa pauta se arrebatasse
a cerrada ligeireza
da dança, Inominável sistema
de peso e graça, Se a matéria crescesse
fincada
num tendão, Pela abertura fortemente
entre os nervos: pelos membros
se gerasse pulsando a forma, E uma
soberania formal
ardesse pelo meio, Os dedos:
uma estrela poderosa, Toco-te cheia
de fósforo
de sangue
de força eléctrica, A lua que é o fundamento,
O halo da tua onda
de oxigénio: de seda, Urdes a brancura
que te urde
o sono: que te acorda
em sobressalto atravessada
pelos relâmpagos, És o teu próprio nexo,
Toco-te apenas,
Suor:
tensão: o diamante que toco:
tacto contra tacto:
a língua
presa por uma veia negra: o odor: o bafo
-toco-te,
E moves-te como
uma porta tocada no fecho: apenas
como
um astro transbordante: palpitas apenas como uma
pálpebra sobre o mundo:
ou uma luz sem pálpebras
que te olha e olha, Respiras apenas:
pulmão
do quarto afogado: pulmão
árduo, Apenas
ferida perpétua: fluxo: púrpura ardida
— ó raiz transpirada dos meus braços
1 200
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 2
Os braços arvorados acima do trono, Com um rasgão luminoso
movido tudo
a uma potência orgânica de astro:
astro
pleno,
Ameaça de desordem sobre uma trama exacta
de números
de gramática, Se dessa pauta se arrebatasse
a cerrada ligeireza
da dança, Inominável sistema
de peso e graça, Se a matéria crescesse
fincada
num tendão, Pela abertura fortemente
entre os nervos: pelos membros
se gerasse pulsando a forma, E uma
soberania formal
ardesse pelo meio, Os dedos:
uma estrela poderosa, Toco-te cheia
de fósforo
de sangue
de força eléctrica, A lua que é o fundamento,
O halo da tua onda
de oxigénio: de seda, Urdes a brancura
que te urde
o sono: que te acorda
em sobressalto atravessada
pelos relâmpagos, És o teu próprio nexo,
Toco-te apenas,
Suor:
tensão: o diamante que toco:
tacto contra tacto:
a língua
presa por uma veia negra: o odor: o bafo
-toco-te,
E moves-te como
uma porta tocada no fecho: apenas
como
um astro transbordante: palpitas apenas como uma
pálpebra sobre o mundo:
ou uma luz sem pálpebras
que te olha e olha, Respiras apenas:
pulmão
do quarto afogado: pulmão
árduo, Apenas
ferida perpétua: fluxo: púrpura ardida
— ó raiz transpirada dos meus braços
movido tudo
a uma potência orgânica de astro:
astro
pleno,
Ameaça de desordem sobre uma trama exacta
de números
de gramática, Se dessa pauta se arrebatasse
a cerrada ligeireza
da dança, Inominável sistema
de peso e graça, Se a matéria crescesse
fincada
num tendão, Pela abertura fortemente
entre os nervos: pelos membros
se gerasse pulsando a forma, E uma
soberania formal
ardesse pelo meio, Os dedos:
uma estrela poderosa, Toco-te cheia
de fósforo
de sangue
de força eléctrica, A lua que é o fundamento,
O halo da tua onda
de oxigénio: de seda, Urdes a brancura
que te urde
o sono: que te acorda
em sobressalto atravessada
pelos relâmpagos, És o teu próprio nexo,
Toco-te apenas,
Suor:
tensão: o diamante que toco:
tacto contra tacto:
a língua
presa por uma veia negra: o odor: o bafo
-toco-te,
E moves-te como
uma porta tocada no fecho: apenas
como
um astro transbordante: palpitas apenas como uma
pálpebra sobre o mundo:
ou uma luz sem pálpebras
que te olha e olha, Respiras apenas:
pulmão
do quarto afogado: pulmão
árduo, Apenas
ferida perpétua: fluxo: púrpura ardida
— ó raiz transpirada dos meus braços
1 200
Herberto Helder
Saio Hoje Ao Mundo
saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
1 131
Herberto Helder
Só Quanto Ladra Na Garganta, Sofreado, Curto, Cortado
só quanto ladra na garganta, sofreado, curto, cortado,
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
1 077
Herberto Helder
Em Certas Estações Obsessivas
Em certas estações obsessivas
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.
Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.
Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.
Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.
As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.
Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.
A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.
Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.
Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.
A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.
Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.
Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.
Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.
Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.
Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.
E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.
22-23.XI.77.
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.
Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.
Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.
Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.
As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.
Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.
A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.
Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.
Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.
A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.
Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.
Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.
Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.
Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.
Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.
E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.
22-23.XI.77.
1 193
Herberto Helder
De Dentro Para Fora, Dedos Inteiros
de dentro para fora, dedos inteiros,
falanges, falanginhas, falangetas,
ao polegar falta, a mim falta-me tudo,
desde a paz na memória e a esperança não sei onde
até
qualquer crença, mínima, fortuita, ultramarina,
por exemplo: na língua,
que dure muitos anos ao mesmo tempo em muitos sítios descontínuos
tempo e sítio de entre mim e quem me lesse,
pois se calhar são meus os trabalhos do diabo:
que alguém venha escutar-me quando puxo os lençóis para cobrir as musas do
desentendimento,
contra a noite abruptíssima:
estrelas, florações às faíscas
e no chão, sempre pequeno, vil, de vulgo e de rastejo,
menor em idioma, em pensamento e música,
queria sim escrever o meu poema fixo entre as palavras móveis
em que todo me desunho:
sentir um rastro de gelo passar-me pela cabeça,
implícita temperatura até à boca,
respiração aflita,
e o sangue na esferográfica,
só pelo nome natalício que vai de mim às coisas
e as torna indizíveis no dito poema escrito,
curto de um lado e comprido de outro,
por exemplo: restrito e errado e restituído e absoluto
falanges, falanginhas, falangetas,
ao polegar falta, a mim falta-me tudo,
desde a paz na memória e a esperança não sei onde
até
qualquer crença, mínima, fortuita, ultramarina,
por exemplo: na língua,
que dure muitos anos ao mesmo tempo em muitos sítios descontínuos
tempo e sítio de entre mim e quem me lesse,
pois se calhar são meus os trabalhos do diabo:
que alguém venha escutar-me quando puxo os lençóis para cobrir as musas do
desentendimento,
contra a noite abruptíssima:
estrelas, florações às faíscas
e no chão, sempre pequeno, vil, de vulgo e de rastejo,
menor em idioma, em pensamento e música,
queria sim escrever o meu poema fixo entre as palavras móveis
em que todo me desunho:
sentir um rastro de gelo passar-me pela cabeça,
implícita temperatura até à boca,
respiração aflita,
e o sangue na esferográfica,
só pelo nome natalício que vai de mim às coisas
e as torna indizíveis no dito poema escrito,
curto de um lado e comprido de outro,
por exemplo: restrito e errado e restituído e absoluto
813
Herberto Helder
Pedras Quadradas, Árvores Vermelhas, Atmosfera
pedras quadradas, árvores vermelhas, atmosfera,
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
1 025
Herberto Helder
Já Não Tenho Tempo Para Ganhar o Amor, a Glória
já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a Abissínia,
talvez me reste um tiro na cabeça,
e é tão cinematográfico e tão sem número o número dos efeitos especiais,
mas não quero complicar coisas tão simples da terra,
bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho,
e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,
e eu de dentro o não pudesse desfazer:
um saco sem qualquer explicação,
que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem amarrado
— não um destino à Rimbaud,
apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de pernas,
esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,
num recanto pela idade fora,
e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,
um saco sem qualquer salvação nos armazéns confusos
talvez me reste um tiro na cabeça,
e é tão cinematográfico e tão sem número o número dos efeitos especiais,
mas não quero complicar coisas tão simples da terra,
bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho,
e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,
e eu de dentro o não pudesse desfazer:
um saco sem qualquer explicação,
que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem amarrado
— não um destino à Rimbaud,
apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de pernas,
esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,
num recanto pela idade fora,
e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,
um saco sem qualquer salvação nos armazéns confusos
1 115
Herberto Helder
De Antemão 1
Tocaram-me na cabeça comum dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
1 069