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Poemas neste tema

Vida e Existência

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Gênio da Multidão

Há suficiente violência, traição,
ódio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam São Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
– POR FIM – SÃO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTÃO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou Estão Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles Rápidos em Censurar:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam Multidões
Constantes; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Busca o
Comum
Mas Há Gênio No Modo Como Odeiam
Há Gênio Suficiente No Ódio
Deles Para Matá-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por Não Desejarem a Solidão
Por Não Entenderem a Solidão
Tentarão Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte
Considerarão o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARÃO
VOCÊ
E o Ódio Deles Será Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes É
Mais Fina
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Dinossauros, Nós

nascidos assim
em meio a isso
enquanto as faces de greda sorriem
enquanto a Dona Morte ri
enquanto os elevadores quebram
enquanto os cenários políticos se dissolvem
enquanto o empacotador de supermercado ostenta um diploma universitário
enquanto o peixe gorduroso expele sua presa gordurosa
enquanto o sol se mascara
somos
nascidos assim
em meio a isso
em meio a essas cuidadosas e insanas guerras
em meio à visão das janelas quebradas de uma fábrica de vacuidade
em meio a bares onde as pessoas já não falam umas com as outras
em meio a brigas de soco que terminam com tiros e facadas
nascido em meio a isso
em meio a hospitais que são tão caros que sai mais em conta morrer
em meio a advogados cujos honorários tornam mais barato alegar culpa
em meio a um país em que as cadeias estão cheias e os manicômios fechados
em meio a um lugar em que as massas promovem imbecis a ricos heróis
nascidos em meio a isso
caminhando e vivendo através disso
morrendo por causa disso
calados por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
irritados por isso
enlouquecidos e doentes por isso
levados à violência
levados à inumanidade
por isso
o coração está enegrecido
os dedos buscam a garganta
o revólver
a faca
a bomba
os dedos vão em busca de um deus que não responde
os dedos buscam pela garrafa
pela pílula
pela pólvora
nascemos em meio a esta pesarosa mortalidade
nascemos em meio a um governo com dívidas superiores a 60 anos
que em breve não será capaz sequer de pagar os juros dessa dívida
e os bancos arderão
o dinheiro será inútil
haverá mortes impunes e a céu aberto nas ruas
haverá armas e multidões errantes
a terra será inútil
a comida se tornará pouco lucrativa
o poder nuclear entrará em colapso pelas inúmeras
explosões que continuamente sacudirão a terra
homens-robô radioativos se atacarão em silêncio
os ricos e os escolhidos assistirão a tudo de plataformas espaciais
o Inferno de Dante parecerá brincadeira de criança
o sol não será mais visto e a noite será constante
as árvores morrerão
toda vegetação morrerá
os homens radioativos comerão a carne de homens radioativos
os mares serão venenosos
os rios e lagos desaparecerão
a chuva será o novo ouro
os corpos putrefatos dos homens e dos animais federão ao vento negro
os poucos sobreviventes serão consumidos por novas e hediondas doenças
e as plataformas espaciais serão destruídas pelo desgaste natural
pela diminuição dos suprimentos
pelo efeito da decadência geral
e então haverá o mais belo silêncio jamais ouvido
nascido disso tudo.
o sol seguirá escondido
à espera do próximo capítulo.
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Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

ELEGIA II Da Arrábida

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.
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Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

ELEGIA II Da Arrábida

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Meu Velho

16 anos de idade
durante a depressão
cheguei em casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias –
pastas, e páginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mãe estava me
esperando atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, leu
suas histórias...”
“posso chutar a
bunda dele...”
“Henry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para você.”
mas o que o preocupava era
que eu talvez não
terminasse o colegial
então eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, “este é
um grande conto”.
eu disse, “o.k.”
e ele me alcançou
e eu li.
era uma história sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrás de uma xícara de café
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi então que voltou
para seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a história em suas mãos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
não tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
então eu lhe disse,
“o.k., velho, você pode
ficar com ela”.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais próximo
que jamais estivemos.

Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
– Meu filho, cada homem, durante seu período de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. Então, esse filho também compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. Já são duas. Este último compraria uma nova e aí seriam três casas...
A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, misture com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você teria o necessário.
Olhei para meu pai, para suas mãos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mãe simplesmente não existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu não enxergava nada além de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. Séculos de sangue de camponês e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma série de camponeses servis que haviam aberto mão de suas vidas reais em troca da ilusão de lucros esporádicos e ilusórios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
– Não quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivência pudessem me moldar, enquanto eu assistia àqueles garotos ricos desfilarem em seus cupês cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achá-los até um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, através dos séculos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupês creme com os rapazes sorridentes. Elas não podiam fazer nada, é claro, muito embora você sempre acabe pensando que talvez... Mas não, não havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitória, e vitória era a única realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei não pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressão de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginásio feminino com música ao vivo, uma banda de verdade. Não sei bem por que, mas andei até lá naquela noite, os quatro quilômetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, através das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adoráveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase não as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a música vinha alta e límpida e boa, potente.
Então vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirá-los – marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
Então ouvi um barulho às minhas costas.
– Ei, o que você está fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
– Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
– Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
– Quem é você? – perguntei.
– Sou o guarda noturno. Tire seu rabo já daqui antes que eu chame a polícia!
– Por quê? Esse é o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
– Não vem com essa – ele disse. – Você tem pelo menos uns 22 anos!
– Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
– Por que você não está lá dentro dançando?
– Esqueça. Estou indo pra casa.
– Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradável e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas não tive certeza.
– Misto-quente
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Amor Esmagado Como Mosca Morta

em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
631 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Introdução do Autor

Os poemas das três primeiras partes deste livro são dos anos de 1955 a 1968, e os poemas da última parte correspondem aos trabalhos novos de 1972 a 1973. O leitor poderá se perguntar o que aconteceu entre os anos de 1969 e 1971, uma vez que o autor desapareceu (literalmente) entre os anos de 1944 e 1954. Mas não desta vez. The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills (Black Sparrow Press, 1969) contém os poemas escritos ao fim de 1968 e em boa parte de 1969, mais uma seleta de cinco poemas que haviam saído em edições caseiras não cobertas pelas três primeiras partes do presente livro. Mockingbird Wish me Luck (Black Sparrow Press, 1972) traz impressos poemas escritos do fim de 1969 até o início de 1972. Assim, para os críticos, leitores, amigos, inimigos, ex-amantes, novas amantes, o presente volume, junto com Days e Mockingbird, contém o que considero ser o melhor de meu trabalho escrito nos últimos dezenove anos.
Cada uma das partes faz ressurgir lembranças caras. Para Meu coração tomado em suas mãos me pediram para fazer uma viagem a Nova Orleans. O editor tinha que, em primeiro lugar, certificar-se de que eu era uma pessoa decente. Ao apanhar o trem na Union Station logo na sequência do Terminal Anexo aos Correios onde eu trabalhava para o Tio Sam, sentei-me no vagão-restaurante e comecei a beber uísque com água e voei para Nova Orleans para ser julgado e avaliado por um ex-presidiário que dirigia uma antiga casa editorial. Jon Webb acreditava que a maioria dos escritores (e ele conhecera alguns bons, incluindo Sherwood Anderson, Faulkner, Hemingway) eram seres humanos detestáveis quando estavam longe de suas máquinas de escrever. Cheguei, eles me conheceram, Jon e sua esposa, Louise, bebemos e conversamos por duas semanas, então Jon Webb disse, “Você é um canalha, Bukowski, mas vou publicá-lo assim mesmo”. Fui embora da cidade. Mas isso não foi tudo. Logo os dois estavam em Los Angeles com seus dois cães em um hotel ecológico que ficava nos limites da periferia. Ele queria uma confirmação. Bebemos e conversamos. Eu seguia sendo um canalha. Adeus. Muitos acenos pela janela do trem. Louise chorava por detrás do vidro. Meu coração foi publicado...
O grosso dos poemas de Crucifixo em uma mão morta foi escrito durante um mês extremamente quente e lírico em Nova Orleans no ano de 1965. Eu caminhava pela rua e tonteava, sóbrio eu tonteava, ouvir os sinos das igrejas, os cachorros feridos, feria a mim, tudo isso me feria. Eu tinha mergulhado em uma depressão, sofrera um apagão depois de publicar Meu coração e Jon e Louise haviam me trazido de volta para Nova Orleans. Eu vivia em uma esquina perto da casa deles com uma mulher gorda e gentil cujo ex-marido (que já estava morto) tinha quase chegado a ser campeão mundial dos pesos médios ou dos leves, esqueci ao certo. Todas as noites eu visitava Jon e Louise, e bebíamos até o amanhecer junto à pequena mesa da cozinha secundada por baratas que não paravam de subir e descer na parede a nossa frente (elas gostavam, em especial, de se mover em círculo ao redor de um bico de luz que brotava diretamente da parede) enquanto conversávamos e bebíamos.
Eu voltava para o meu canto e acordava por volta das dez e meia da manhã, bastante enjoado. Eu me vestia e seguia até a casa de Jon. A editora ficava abaixo do nível da rua e eu dava uma olhada para ver se ele estava por ali antes de bater. Podia vê-lo pela janela, calmo, relaxado, sem qualquer sinal de ressaca, murmurando e alinhando as páginas de Crucifixo na prensa.
“Trouxe algum poema, Bukowski?”, ele perguntava, assim que eu entrava. (É preciso ter cuidado: alimentar uma prensa à espera de material com poemas pode facilmente reduzir-se a jornalismo.)
Jon desconcertava-se de imediato se eu não tivesse trazido um punhado de poemas. Não era tão bom ficar ao lado daquele puto nessas ocasiões, e eu logo me via de volta ao meu quarto trabalhando na máquina de escrever. À noite, se eu lhe trouxesse algumas páginas de poesia, seu humor melhorava de modo considerável.
Então eu seguia escrevendo poemas. Bebíamos com as baratas, o lugar era pequeno, e as páginas 5, 6, 7 e 8 ficavam enfiadas na banheira, ninguém tomaria banho, e as páginas 1, 2, 3 e 4 ficavam em um grande baú, e logo não havia espaço para colocar qualquer outra coisa. Havia páginas até o teto. Com muita cautela, nos moviámos entre elas. A banheira tinha sido útil, mas a cama se tornou um problema. Então Jon construiu uma espécie de elevação com umas sobras de madeira. Mais uma escada. E Jon e Louise passaram a dormir ali sobre um colchão e a cama foi descartada. Assim havia mais espaço no chão para espalhar as folhas. “Bukowski, Bukowski por toda parte! Vou ficar louca!”, disse Louise. As baratas circulavam e nós bebíamos e a prensa engolia meus poemas. Um tempo muito estranho, e lá estava Crucifixo...
Eu costumava ir à casa de John Thomas e ficar por lá a noite inteira. Tomávamos boletas e bebíamos e conversávamos. Quero dizer, John tomava as boletas e eu as tomava junto com a bebida, e nós conversávamos. John tinha então o hábito de gravar tudo, fosse bom ou não, estúpido ou interessante, inútil ou aproveitável. Escutaríamos nossas conversas no dia seguinte, e era um processo válido, ao menos para mim. Eu percebia o quão imbecil, insuportável e desfocado seguidamente me tornava, ao menos quando estava bêbado. E algumas vezes mesmo quando não estava.
Certa vez, durante essas gravações, John pediu que eu levasse uns poemas e os lesse. Eu o fiz. E deixei os poemas por lá e esqueci que existiam. Os poemas foram jogados fora junto com o lixo. Meses se passaram. Um dia, Thomas me ligou. “Aqueles poemas, Bukowski, dariam um bom livro.” “Que poemas, John?” Ele disse que tinha pegado a fita com os meus poemas e a tinha ouvido de novo. “Eu teria que transcrevê-los, isso daria muito trabalho”, eu disse. “Eu transcrevo para você.” Concordei, e logo tinha os poemas mais uma vez datilografados.
Desta vez, um homem careca e ruivo, com uma testa alta e lustrosa, meticuloso e gentil, com um sorriso escarninho quase imperceptível e constante, estava por aparecer. Trabalhava como gerente em uma firma de móveis e suprimentos e era colecionador de livros raros. Seu nome era John Martin. Havia publicado alguns de meus poemas em edições caseiras. Ele assinava uns cheques em meu nome enquanto eu me sentava a sua frente na cozinha e assinava aqueles panfletos. Ali estava começando a Black Sparrow Press, uma editora que logo começaria a publicar uma grande parcela da poesia de vanguarda na América, mas nenhum de nós sabia disso então.
Mostrei a John os poemas que Thomas tinha transcrito para mim. Eu havia revisado as transcrições e ele fizera um trabalho muito cuidadoso e acurado. John Martin levou os poemas consigo e me ligou alguns dias depois: “Você tem um livro aí e eu mesmo vou publicá-lo”. E foi assim que alguns poemas quase perdidos foram reencontrados e impressos em livro e a Black Sparrow alçou voo. Chamei o livro de Na rua do terror e no caminho da agonia.
Dando uma olhada nesses poemas escritos entre 1955 e 1973, gosto mais (por uma ou outra razão) daqueles escritos por último. Isso é algo que me agrada. Não faço a mais vaga ideia, claro, da forma que meus poemas futuros terão, sequer se escreverei outros mais, porque não posso garantir nem mesmo que vá seguir vivendo, mas uma vez que comecei a escrever poesia tarde na vida, por volta dos 35, gosto de pensar que eles me darão alguns anos a mais nessa reta final. Enquanto isso, os poemas que agora seguem terão de cumprir essa missão.
Charles Bukowski
30 de janeiro de 1974
1 187 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eles, Todos Eles, Sabem

pergunte aos pintores de calçada em Paris
pergunte ao raio de sol sobre um cão adormecido
pergunte aos 3 porquinhos
pergunte ao menino que entrega jornais
pergunte à música de Donizetti
pergunte ao barbeiro
pergunte ao assassino
pergunte ao homem escorado no muro
pergunte ao pastor
pergunte ao marceneiro
pergunte ao batedor de carteiras ou ao
dono da loja de penhores ou ao soprador de vidro
ou ao vendedor de estrume ou
ao dentista
pergunte ao revolucionário
pergunte ao homem que enfia a cabeça na
boca de um leão
pergunte ao homem que vai disparar a próxima
bomba atômica
pergunte ao homem que pensa ser Cristo
pergunte ao azulão que volta para casa
à noite
pergunte ao bisbilhoteiro
pergunte ao homem tomado pelo câncer
pergunte ao homem que precisa de um banho
pergunte ao perneta
pergunte ao cego
pergunte ao homem com língua presa
pergunte ao comedor de ópio
pergunte ao cirurgião vítima de tremores
pergunte às folhas que você pisoteia
pergunte a um estuprador ou a
um motorneiro ou a um velho
arrancando as ervas de seu jardim
pergunte à sanguessuga
pergunte a um treinador de pulgas
pergunte a um engolidor de fogo
pergunte ao mais miserável homem que você
puder encontrar em seu mais
miserável momento
pergunte a um mestre de judô
pergunte a um condutor de elefantes
pergunte a um leproso, a um condenado à prisão perpétua, a um lenhador
pergunte a um professor de história
pergunte ao homem que jamais limpa as
unhas
pergunte a um palhaço ou ao primeiro rosto que você vir
à luz do dia
pergunte a seu pai
pergunte a seu filho e
e ao que ainda virá a ser
pergunte a mim
pergunte a uma lâmpada queimada dentro de um saco de papel
pergunte aos fracos de vontade, aos malditos, aos tolos
aos insolentes, aos escravizadores
pergunte aos construtores de templos
pergunte ao homem que nunca gastou os sapatos
pergunte a Jesus
pergunte à lua
pergunte às sombras dentro do armário
pergunte à mariposa, ao monge, ao louco
pergunte ao homem que faz as tiras para
The New Yorker
pergunte a um peixinho dourado
pergunte a uma samambaia balançando como uma dança sensual
pergunte ao mapa da Índia
pergunte a um rosto gentil
pergunte ao homem escondido debaixo da sua cama
pergunte ao homem que você mais odeia na face da
terra
pergunte ao homem que bebia com Dylan Thomas
pergunte ao homem que amarrava as luvas de Jack Sharkey
pergunte ao homem de cara triste bebendo café
pergunte ao encanador
pergunte ao homem que sonha com avestruzes todas as
noites
pergunte ao bilheteiro em um show de horrores
pergunte ao falsário
pergunte ao homem dormindo em um beco sob
folhas de jornal
pergunte aos conquistadores das nações e planetas
pergunte ao homem que acaba de decepar o dedo
pergunte a uma passagem da bíblia
pergunte às gotas d’água pingando de uma torneira
enquanto toca o telefone
pergunte a quem perjura
pergunte à pintura de azul profundo
pergunte ao paraquedista
pergunte ao homem com dor de barriga
pergunte ao olho divino tão astuto e flutuante
pergunte ao garoto de calças justas na
faculdade cara
pergunte ao homem que escorregou na banheira
pergunte ao homem mastigado pelo tubarão
pergunte ao cara que me vendeu as luvas
sem pares
pergunte a esses e a todos aqueles que deixei de fora
pergunte ao fogo do fogo do fogo –
pergunte até para os mentirosos
pergunte a quem você quiser a qualquer momento
que quiser em qualquer dia que quiser
faça chuva ou esteja
nevando ou mesmo que
você esteja avançando pela varanda
amarelada pelo calor
pergunte isto pergunte aquilo
pergunte ao homem com merda de passarinho no cabelo
pergunte ao torturador de animais
pergunte ao homem que assistiu a touradas demais
na Espanha
pergunte aos donos de Cadillacs novos em folha
pergunte aos famosos
pergunte ao tímido
pergunte ao albino
e ao estadista
pergunte aos senhorios e aos jogadores de sinuca
pergunte aos farsantes
pergunte aos assassinos de aluguel
pergunte aos carecas e aos gordos
e aos caras altos e aos
nanicos
pergunte aos caolhos, aos
homens que treparam demais ou de menos
pergunte aos homens que leem todos os
editoriais
pergunte aos homens que cultivam rosas
pergunte aos homens quase incapazes de sentir dor
pergunte aos moribundos
pergunte aos cortadores de grama e aos espectadores
dos jogos de futebol
pergunte a qualquer um desses ou a todos esses
pergunte pergunte pergunte e
todos responderão a você:
uma esposa grunhindo no corrimão da escada é mais
do que um homem pode suportar.
1 122 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Seja Gentil

sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.

Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
1 435 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Aposta Arriscada

claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.

ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.

você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.

era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.

o padre ficava me enchendo o saco.

“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.

“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”

“isso foi só pra ser
sociável...”

“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”

“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”

a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.

e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã

e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.

permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.

finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.

um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.

“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.

“quero.”

“uma em 50.”

“caramba,
você tem
cigarros?”

“não, mas posso te conseguir
alguns.”

fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Aposta Arriscada

claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.

ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.

você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.

era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.

o padre ficava me enchendo o saco.

“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.

“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”

“isso foi só pra ser
sociável...”

“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”

“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”

a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.

e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã

e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.

permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.

finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.

um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.

“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.

“quero.”

“uma em 50.”

“caramba,
você tem
cigarros?”

“não, mas posso te conseguir
alguns.”

fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
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