Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Juó Bananére
O prugressu di Zan Baolo - Tuttos lugaro tenia só
O prugressu di Zan Baolo – Tuttos lugaro tenia só
matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do
viadutto – Io co Garonello arubamus
galligna lá muitas veíz
Altros appuntamenti.
Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"
Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.
S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.
Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.
També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.
També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.
Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!
Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.
A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.
D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.
Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.
Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.
(Palpito p'ra manhá: porco).
També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.
Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.
Evviva u Gartola!
Evvivôôô.....
Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato
Rigumendaçós p'rá famiglia
Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do
viadutto – Io co Garonello arubamus
galligna lá muitas veíz
Altros appuntamenti.
Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"
Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.
S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.
Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.
També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.
També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.
Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!
Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.
A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.
D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.
Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.
Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.
(Palpito p'ra manhá: porco).
També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.
Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.
Evviva u Gartola!
Evvivôôô.....
Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato
Rigumendaçós p'rá famiglia
Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
1 983
1
Bernardino Lopes
Mameluca
A que aí anda, esguia mameluca,
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.
É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.
Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;
E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.
É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.
Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;
E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 744
1
Raul Pompéia
A Perseguição às Cartomantes
A perseguição às cartomantes, que constitui boa parte do movimento da semana, não se pode dizer que esteja de acordo com a liberdade de cultos que existe e que se apregoa na atualidade.
Não há dúvida.
A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?
Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.
A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.
Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.
Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.
Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?
Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.
Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!
Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
Não há dúvida.
A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?
Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.
A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.
Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.
Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.
Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?
Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.
Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!
Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
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Raul Pompéia
A Perseguição às Cartomantes
A perseguição às cartomantes, que constitui boa parte do movimento da semana, não se pode dizer que esteja de acordo com a liberdade de cultos que existe e que se apregoa na atualidade.
Não há dúvida.
A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?
Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.
A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.
Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.
Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.
Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?
Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.
Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!
Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
Não há dúvida.
A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?
Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.
A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.
Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.
Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.
Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?
Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.
Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!
Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
2 248
1
Henriqueta Lisboa
Drama de Bárbara Heliodora
"Bárbara bela
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar."
Quem é esse que assim canta
como quem está chorando?
Suas faces encovaram,
seus olhos se amorteceram,
sobre seus cabelos negros
cai uma chuva de cinza.
Ah! e havia tanta brasa
em torno de seus cabelos,
tanto sol na sua ilharga,
tanto ouro nas suas minas,
tanto potro galopando
nas suas terras sem fim.
Grão de poeira quando o vento
a madrugada castiga:
Já não é mais Alvarenga
quem foi Alvarenga um dia.
Do galho tomba uma fruta
verde sobre o lago fundo.
A árvore guardava a seiva
toda nessa fruta verde.
A mão trêmula do poeta
mal sabe aquilo que escreve:
"Tu entre os braços
ternos abraços
da filha amada
podes gozar."
A essas horas, na distância,
vai pela tarde dorida
sob a chuva, entre salpicos
de lama, um caixão mortuário
sem enfeites nem bordados,
senão os que a lama asperge
no pano que cobre as tábuas.
Quando a alvura da açucena
se refugiava nas moitas,
Maria Ifigênia encontra
sua gruta para sempre.
É deveras a Princesa
do Brasil, essa menina
de madeixas escorridas,
de lábios esmaecidos,
de túnica mal vestida?
Essa, a mesma por quem vinham
da Corte os melhores mestres
de dança e língua estrangeira?
A de damascos e auréolas
a quem brotavam nos dedos
tíbios ramos de coral?
Linda, lendária Princesa,
por quem chora já sem lágrimas
pobre mulher desvairada
de olhos que olham mas não vêem.
Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.
É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.
Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"
Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino.
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 21.
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar."
Quem é esse que assim canta
como quem está chorando?
Suas faces encovaram,
seus olhos se amorteceram,
sobre seus cabelos negros
cai uma chuva de cinza.
Ah! e havia tanta brasa
em torno de seus cabelos,
tanto sol na sua ilharga,
tanto ouro nas suas minas,
tanto potro galopando
nas suas terras sem fim.
Grão de poeira quando o vento
a madrugada castiga:
Já não é mais Alvarenga
quem foi Alvarenga um dia.
Do galho tomba uma fruta
verde sobre o lago fundo.
A árvore guardava a seiva
toda nessa fruta verde.
A mão trêmula do poeta
mal sabe aquilo que escreve:
"Tu entre os braços
ternos abraços
da filha amada
podes gozar."
A essas horas, na distância,
vai pela tarde dorida
sob a chuva, entre salpicos
de lama, um caixão mortuário
sem enfeites nem bordados,
senão os que a lama asperge
no pano que cobre as tábuas.
Quando a alvura da açucena
se refugiava nas moitas,
Maria Ifigênia encontra
sua gruta para sempre.
É deveras a Princesa
do Brasil, essa menina
de madeixas escorridas,
de lábios esmaecidos,
de túnica mal vestida?
Essa, a mesma por quem vinham
da Corte os melhores mestres
de dança e língua estrangeira?
A de damascos e auréolas
a quem brotavam nos dedos
tíbios ramos de coral?
Linda, lendária Princesa,
por quem chora já sem lágrimas
pobre mulher desvairada
de olhos que olham mas não vêem.
Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.
É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.
Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"
Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino.
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 21.
2 636
1
Capinan
Soy Loco Por Ti, America, 1967
Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira
Imagem - 02540002
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978
NOTA: Parceria com Gilberto Gil e Torquato Net
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira
Imagem - 02540002
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978
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Capinan
Soy Loco Por Ti, America, 1967
Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira
Imagem - 02540002
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978
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Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira
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In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978
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Soy Loco Por Ti, America, 1967
Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira
Imagem - 02540002
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978
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Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira
Imagem - 02540002
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978
NOTA: Parceria com Gilberto Gil e Torquato Net
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1
Carlos Frydman
Ansiedade
Tenho sede de palavras quentes
desgarradas dos limites formais.
Tenho fome da pureza
que a "diplomacia" da vida roubou.
Tenho saudade dos luares
que a simetria da cidade retalhou.
Sinto a tristeza e o frio dos cimentos
que fizeram dos homens aves sem vôo;
das crianças, criaturas sem jardins;
dos decênios, estações sem primaveras,
impingindo um formalismo e limitando
os seres em si.
Tenho a premência coletiva
de impor os sonhos à vida;
e, do artifício de viver,
fazer da vida a delícia
que as artes vivas
procuram viver.
Tenho ansiedade
de não ficar ansiando
o que estou buscando,
na busca que busco,
antes que a busca
me possa tragar.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
desgarradas dos limites formais.
Tenho fome da pureza
que a "diplomacia" da vida roubou.
Tenho saudade dos luares
que a simetria da cidade retalhou.
Sinto a tristeza e o frio dos cimentos
que fizeram dos homens aves sem vôo;
das crianças, criaturas sem jardins;
dos decênios, estações sem primaveras,
impingindo um formalismo e limitando
os seres em si.
Tenho a premência coletiva
de impor os sonhos à vida;
e, do artifício de viver,
fazer da vida a delícia
que as artes vivas
procuram viver.
Tenho ansiedade
de não ficar ansiando
o que estou buscando,
na busca que busco,
antes que a busca
me possa tragar.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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1
Joaquim Manuel de Macedo
A Sé do Rio de Janeiro
Positivamente não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.
Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.
Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.
Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.
Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.
Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.
Comecemos.
A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.
Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?
É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.
Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.
Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.
Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.
Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.
E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.
Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.
Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.
Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.
Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.
Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.
Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".
E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.
Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.
Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.
Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.
Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.
Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.
Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".
Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.
Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.
Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.
Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.
Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.
Comecemos.
A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.
Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?
É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.
Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.
Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.
Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.
Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.
E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.
Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.
Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.
Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.
Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.
Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.
Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".
E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.
Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.
Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.
Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.
Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.
Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.
Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".
Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
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1
Luís Delfino
Primeira Missa no Brasil
A Victor Meirelles
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
3 005
1
Carlos Frydman
Menino de Hirochima
Hoje, que o sol raiou mais otimista,
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 020
1
Evaristo da Veiga
Soneto à Perfídia de Portugal
Brasil da Natureza encanto, amores
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
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Evaristo da Veiga
Soneto à Perfídia de Portugal
Brasil da Natureza encanto, amores
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
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Evaristo da Veiga
Soneto à Perfídia de Portugal
Brasil da Natureza encanto, amores
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
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1
Juó Bananére
U garnevallo inda a cittá - Também tive u corsego
U garnevallo inda a cittá – També tive u corsego(1)
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
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Juó Bananére
U garnevallo inda a cittá - Também tive u corsego
U garnevallo inda a cittá – També tive u corsego(1)
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
1 566
1
Evaristo da Veiga
Soneto ao Brasil
Minha Pátria, oh Brasil! tua grandeza
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
4 101
1
Bernardo Guimarães
A Orgia dos Duendes
(...)
II
(...)
Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. condessa!...
E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:
III
TATURANA
Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.
Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
GALO PRETO
Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
ESQUELETO
Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.
Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.
Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
II
(...)
Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. condessa!...
E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:
III
TATURANA
Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.
Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
GALO PRETO
Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
ESQUELETO
Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.
Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.
Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
2 095
1
Luiz de Miranda
Retina do Ofício
a Antônio Hohlfeldt
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
1 425
1
Zuca Sardan
Naufrágio
Quem pratica a virtude
só pra ganhar boa média
está mesmo muito perto
do vício.
Mais prático, no caso,
logo começar pelo vício...
Não há força sem habilidade.
Mas, pra que força?
Habilidade, só, resolve...
Responde-me, oh Infortúnio,
grão parteiro do Gênio:
"É menina ou menino?"
Oh almas fortes
domadoras da voluptuosidade,
Pilotos hábeis e serenos
evitando os rochedos:
"HOMEM AO MAR!!"
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.19. (Matéria de poesia
só pra ganhar boa média
está mesmo muito perto
do vício.
Mais prático, no caso,
logo começar pelo vício...
Não há força sem habilidade.
Mas, pra que força?
Habilidade, só, resolve...
Responde-me, oh Infortúnio,
grão parteiro do Gênio:
"É menina ou menino?"
Oh almas fortes
domadoras da voluptuosidade,
Pilotos hábeis e serenos
evitando os rochedos:
"HOMEM AO MAR!!"
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.19. (Matéria de poesia
1 783
1
Claudio Willer
Dias Circulares
I
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
1 497
1
Manuel de Santa Maria Itaparica
Descrição da Ilha de Itaparica
(...)
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
3 089
1
Affonso Ávila
Os Insurgentes
O LÚRIDO JOIO DO REVERSO
(...)
onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste
onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável
onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo
onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo
onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
O LÚCIDO JOGO DO REVÉS
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.
NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
(...)
onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste
onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável
onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo
onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo
onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
O LÚCIDO JOGO DO REVÉS
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.
NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
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