Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Antonio Machado
La Saeta (O canto)
Disse uma voz popular:
Quem me empresta uma escada
para subir ao madeiro
para tirar-lhe os cravos
a Jesus o Nazareno?
Oh, la saeta, o cantar
ao Cristo dos ciganos
sempre com sangue nas mãos
sempre por desencravar
Cantar do povo andaluz
que todas as primaveras
anda pedindo escadas
para subir à cruz
Cantar da terra minha
que joga flores
ao Jesus da agonia
e é a fé de meus velhos
Oh! Não és tu meu cantar
não posso cantar, nem quero
a este Jesus do madeiro
senão ao que andou no mar!
Quem me empresta uma escada
para subir ao madeiro
para tirar-lhe os cravos
a Jesus o Nazareno?
Oh, la saeta, o cantar
ao Cristo dos ciganos
sempre com sangue nas mãos
sempre por desencravar
Cantar do povo andaluz
que todas as primaveras
anda pedindo escadas
para subir à cruz
Cantar da terra minha
que joga flores
ao Jesus da agonia
e é a fé de meus velhos
Oh! Não és tu meu cantar
não posso cantar, nem quero
a este Jesus do madeiro
senão ao que andou no mar!
2 066
1
Augusto dos Anjos
A Fome e o Amor A um Monstro Fome!
E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
3 197
1
Antoniella Devanier
Femininas
Sombras doces, que escondem vidas
Doces onças, que ferem as grades
Pacatas visões, que encontram ninas
Minhas onças femininas, num harém.
Desferem garras e golpeiam memórias.
Ana Cristina Cesar que revive estórias,
Marias que alimentam filhos livres,
Adélia Prado e suas novas glórias.
Aleluias, minhas meninas-tigres
Meio-onças que revivem lidas
ao lado de seus machos heróis,
em batalhas ocultas e diárias.
Não olvidem dessas sombras doces
Que acompanham tigres ou outras onças.
Apenas, amem a labuta de seus olhos,
são ternas retinas, femininas.
Doces onças, que ferem as grades
Pacatas visões, que encontram ninas
Minhas onças femininas, num harém.
Desferem garras e golpeiam memórias.
Ana Cristina Cesar que revive estórias,
Marias que alimentam filhos livres,
Adélia Prado e suas novas glórias.
Aleluias, minhas meninas-tigres
Meio-onças que revivem lidas
ao lado de seus machos heróis,
em batalhas ocultas e diárias.
Não olvidem dessas sombras doces
Que acompanham tigres ou outras onças.
Apenas, amem a labuta de seus olhos,
são ternas retinas, femininas.
903
1
Antoniella Devanier
Femininas
Sombras doces, que escondem vidas
Doces onças, que ferem as grades
Pacatas visões, que encontram ninas
Minhas onças femininas, num harém.
Desferem garras e golpeiam memórias.
Ana Cristina Cesar que revive estórias,
Marias que alimentam filhos livres,
Adélia Prado e suas novas glórias.
Aleluias, minhas meninas-tigres
Meio-onças que revivem lidas
ao lado de seus machos heróis,
em batalhas ocultas e diárias.
Não olvidem dessas sombras doces
Que acompanham tigres ou outras onças.
Apenas, amem a labuta de seus olhos,
são ternas retinas, femininas.
Doces onças, que ferem as grades
Pacatas visões, que encontram ninas
Minhas onças femininas, num harém.
Desferem garras e golpeiam memórias.
Ana Cristina Cesar que revive estórias,
Marias que alimentam filhos livres,
Adélia Prado e suas novas glórias.
Aleluias, minhas meninas-tigres
Meio-onças que revivem lidas
ao lado de seus machos heróis,
em batalhas ocultas e diárias.
Não olvidem dessas sombras doces
Que acompanham tigres ou outras onças.
Apenas, amem a labuta de seus olhos,
são ternas retinas, femininas.
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Alfonsina Storni
Palavras a um habitante de Marte
Será verdade que existes sobre o vermelho planeta,
que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis,
boca para o riso, coração de poeta,
e uma alma administrada pelos nervos sutis?
Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades
como sepulcros tristes? As assolou a espada?
Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas
a vasta harmonia outra taça vazia?
Se fores como um terrestre, que poderia importar-me
que o teu sinal de vida desça a visitar-me?
Busco uma estirpe nova através da altura.
Corpos bonitos, donos do segredo celeste
da alegria achada. Mas se o teu não é este,
se tudo se repete, cala triste criatura!
que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis,
boca para o riso, coração de poeta,
e uma alma administrada pelos nervos sutis?
Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades
como sepulcros tristes? As assolou a espada?
Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas
a vasta harmonia outra taça vazia?
Se fores como um terrestre, que poderia importar-me
que o teu sinal de vida desça a visitar-me?
Busco uma estirpe nova através da altura.
Corpos bonitos, donos do segredo celeste
da alegria achada. Mas se o teu não é este,
se tudo se repete, cala triste criatura!
1 472
1
Felipe Vianna
BLUMENAU
Minha Blumenau.
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
709
1
Felipe Vianna
BLUMENAU
Minha Blumenau.
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
709
1
Felipe Vianna
BLUMENAU
Minha Blumenau.
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
709
1
Augusto dos Anjos
Ave Libertas
Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
2 163
1
Augusto dos Anjos
Ave Libertas
Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
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Augusto dos Anjos
Ave Libertas
Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
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1
Augusto dos Anjos
Ave Libertas
Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
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1
Jorge Luis Borges
Milonga para um soldado - O jogo da vida
O hei sonhado nesta casa,
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais.
Uma de tantas províncias,
do interior foi sua terra,
não convém que se saiba
que morre gente na guerra.
O sacaram do quartel,
Puseram-lhe nas mãos
as armas e o mandaram
a morrer com seus irmãos.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
Sua morte foi uma secreta vitória
ninguém se admire que me dê inveja e pena
o destino daquele homem.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais.
Uma de tantas províncias,
do interior foi sua terra,
não convém que se saiba
que morre gente na guerra.
O sacaram do quartel,
Puseram-lhe nas mãos
as armas e o mandaram
a morrer com seus irmãos.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
Sua morte foi uma secreta vitória
ninguém se admire que me dê inveja e pena
o destino daquele homem.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
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1
Mario Benedetti
Te quero
Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
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1
Mario Benedetti
Te quero
Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
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1
Mario Benedetti
Te quero
Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
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1
Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
1 161
1
Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
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Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
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Ana Hatherly
O círculo
O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
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Manuel Alegre
Pedro soldado
Já lá vai Pedro soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada
Triste vai Pedro soldado
Branca rola não faz ninho
Nas agulhas do pinheiro
Não é Pedro marinheiro
Nem o mar é seu caminho
Nem anda a branca gaivota
Pescando peixes em terra
Nem é de Pedro essa roda
Dos barcos que vão à guerra
Onde não anda ceifeiro
Já o campo se faz verde
E em cada hora se perde
Cada hora que demora
Pedro no mar navegando
Não é Pedro pescador
Nem no mar vindimador
Nem soldado vindimando
Verde vinha vindimada
Triste vai Pedro soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada
Triste vai Pedro soldado
Branca rola não faz ninho
Nas agulhas do pinheiro
Não é Pedro marinheiro
Nem o mar é seu caminho
Nem anda a branca gaivota
Pescando peixes em terra
Nem é de Pedro essa roda
Dos barcos que vão à guerra
Onde não anda ceifeiro
Já o campo se faz verde
E em cada hora se perde
Cada hora que demora
Pedro no mar navegando
Não é Pedro pescador
Nem no mar vindimador
Nem soldado vindimando
Verde vinha vindimada
Triste vai Pedro soldado
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Anna Akhmatova
Dedicatória
Diante dessa dor curvam-se os montes,
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
(Março 1940.)
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
(Março 1940.)
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Anna Akhmatova
Dedicatória
Diante dessa dor curvam-se os montes,
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
(Março 1940.)
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
(Março 1940.)
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Angela Melim
No peito
O pivete de óculos escuros
a comerciária
de pé inchado e sapato alto
o bacana de cordão de ouro
a madame mandona chorosa avoada
as varizes tortas da lavadeira
a carne branquela e sarapintada
dentro das bermudas dos aposentados;
suor azedo de ternos puídos
bijuteria
peitos caídos
o olho parado da empregada doméstica
a carapinha esticada;
chinelos de dedo
pés derramados
dedos que faltam nas mãos dos operários
bocas sem dentes
e mães sem fim
de unhas escalavradas
a reproduzir toda cidade do Brasil
atravessam
meu peito
e as avenidas presidente Vargas.
a comerciária
de pé inchado e sapato alto
o bacana de cordão de ouro
a madame mandona chorosa avoada
as varizes tortas da lavadeira
a carne branquela e sarapintada
dentro das bermudas dos aposentados;
suor azedo de ternos puídos
bijuteria
peitos caídos
o olho parado da empregada doméstica
a carapinha esticada;
chinelos de dedo
pés derramados
dedos que faltam nas mãos dos operários
bocas sem dentes
e mães sem fim
de unhas escalavradas
a reproduzir toda cidade do Brasil
atravessam
meu peito
e as avenidas presidente Vargas.
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