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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Herberto Helder

Herberto Helder

1

as imagens de palavras (João Vieira) — as pessoas das imagens das coisas (Manuel de Castro)

Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
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Herberto Helder

Herberto Helder

4

Entre temperatura e visão a frase africana com as colunas de ar
sorvedouros pedaços magnéticos de um lado para outro
e alguém que dança quase apenas um rosto martelado,
mãos negras. Eu disse: levo a máscara,
levo-a deste mundo.
Quem sabe se o mundo estremece pela força da máscara pequena.
Começa na ponta dos dedos com muito jeito assim
para estudar: será que tem fulcros insuportáveis
de potência
algo que de repente carbonize os dedos?
Se eu pegasse na cabeça, se eu
me encostasse à sombra dos galhos de marfim enquanto grito.
^Ouviria os leões a abrir as portas, sentiria o bafo
leonino,
a misteriosa vida leonina, de frente, batendo, leonina contra mim?
E o chifre pelo coração dentro.
Através desse marfim rasgando ficar maciço e maduro
do marfim fieira a fieira pelo coração e depois o grito.
Mãos arrumadas sustendo nos buracos a ferver
na volta dos braços a ferver:
o sangue
e então: como se transborda na frase! Rodam as atmosferas,
caem sobre o cabelo coruscante. Como se transborda
de coisa a coisa escrita africanamente!
paus negros enflorados a rosa, leões pelos corredores, vê-se a juba
ao dobrar a esquina do espelho,
a rapariga dança, potes monstruosos de barro ocre.
E então a luz revoluteada se alguém arranca uma banana do peso
cor do ouro; súbito: a ruptura da frase, membros
por toda a parte. Esta é a carne despedaçada, aqui.
Isto são as colunas de ar.
Levo a máscara, disse eu. Quando pus os dedos
na frase, a frase
sangrava. Tinha aquele lanho, alguém cosera tudo com agrafes de marfim
— palavras a marfim e sangue. Disse: levo-a comigo.
O continente arqueja pela espinha de ouro.
Talvez eu volte, quem sabe? talvez
eu ressuscite a frase ocre africana, quem sabe quantos nomes
faltam, volte
coroado, mãos negras com as iluminações girando, eu:
devagar a debruçar-me sobre a furiosa rede dos diamantes —
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Herberto Helder

Herberto Helder

11

Doces criaturas de mãos levantadas, ferozes cabeleiras, centrifugas
pelos olhos para
se deslumbrarem com
a iluminação, entretecidas, membros
com membros, nos confins. Se lhes dão voz, se uma
fala nos círculos. “Mestres,”. Mas pode alguém ser mestre
aqui, de onde
se ofuscam, cândidos animais transmudando-se?
“Eu sou o manancial nos hortos inocentes.”
Nenhum mestre, porque se eles
se tocam
— um ao outro desabrocham: a pancada no amarelo
ou no branco enflora o mundo. “Mas eu não me conheço
sem a força que me passa, toda
em imagem
destravada ao jubileu das memórias; batem-lhe no rosto
os galhos de sal, e ele toca-me — e
abre — e
tranca. Tranca-me numa pedraria
vibrante. Para que eu me revele em mim. E me sele nas palavras com
veias.
Alvoroço a madeira sonora com a fria loucura da música.
As dedadas amasso o bloco a dois reluzindo pela cicatriz que o cose
do cóccix ao occípite. Chamo
até aos extremos do nome, ele é o nome nas respirações
cantadas. Mestres,”.
Os mestres viram como estremecera ao afundar-se na água
negra, quando ela
era água metida pela noite dentro. E viram-nos
depois sob as varas
salgadas: lavradas
armas que se encostam ao mundo,
altas armas abrasadas contra o mundo nocturno.
“Tornei mortal o cantor na sua cana cantora.
Deus olha-o na cara, e ele sonha-me; Deus enlaça-o, rutila; Deus
e os seus mamíferos, em mim, canto,
biografia rítmica. Mestres,”.
Que não há mestres, esses eram donos dos latifúndios bravios onde
se planta
o sal. Mas estes, no seu canto pequeno,
crispavam-se
entre braços e umbigos, entre sexos
e bocas. Tinham a sua coroa talhada na polpa
de um diamante. Uma coroa
cravada na carne da cabeça. Quem é o arco ou a flecha,
quem se retesa, quem
mata? Porque tanto a flauta como a sua melodia. Tanto
a mão como a sua escrita. Tanto uma
onda de escarlate
cruel
no espelho devassado para baixo e para cima. Arrebata-os
o demoníaco. São os indígenas do ouro.
Um é a cana, outro é o som.
O som destroça a cana.
“Mestres,”.
Cada um é a sua arma, cada um é o lanho da sua arma à altura
da garganta cortada. A voz
de um no outro, a entoação amarga —


1989
953
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
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Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Iii

As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Elogios

Deitada, repousa a flor. Deitado, além, repousa o canto.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turquesa.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de colo vermelho e
plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.

No pórtico de flores, no corredor de flores,
canta o cantor e eleva seu canto puro:

«Chegaram os pássaros diferentes:
o pássaro azul, o pássaro amarelo, o pássaro de ouro e cor-de-rosa
o maravilhoso pássaro da luz.»

Na casa do deus levanta-se agora o canto admirável.
Bracelete, fino unguento, esmeralda brilhante,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.

Belas são as tuas virgens flores.
Colares de luzentes e redondas pedras de jade,
enorme plumagem de quetzal,
arco de finíssimas plumas,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.

És uma flor vermelha de milho queimado.
Abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
As borboletas do mundo libam em ti o mel vivo,
e em ti libam o mel os pássaros semelhantes ás águias roubadoras.
Tua casa verde refulge como um grande sol —
a casa de aquáticas flores de jade.
Flores espalham-se, soam os guizos.
Príncipe, são os teus guizos.

És uma flor encarnada de plumas:
abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
E teu perfume caminha pelo mundo, espalha-se entre a multidão.
Uma pedra de jade rolou na poeira, nasceu uma flor: o teu canto.
Esplende o sol
somente quando na terra do México levantas tuas flores virgens.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - V

Explico uma cidade quando as luzes evoluem.
Quando é assaltada pelos gestos devotados.
Explico um espaço solene e unido
por virtude do fogo infantil.
Com a boca sobre um casulo
de som, uma criança
é sempre livre e encerrada.
Explico uma cidade através
de brilhos interiores. De pedras raras
viradas na palma da mão.

Cidades são janelas em brasa com cortinas
puras, praças com a forma da chuva.
Quartos. Jarras.
Rostos como girando sobre gonzos.
E por dentro de tudo a morte ou a loucura.
Estátuas encarnadas cheias
de sangue. E o silêncio
dobrado para a frente na força da luz.

Cidades existem entre as mães que contemplam
as flores e as folhas
do sono. A criança branca
e prolongada para dentro como no fundo
de uma estampada idade do ouro.
Cidades são aposentos fixos
quer na cabeça, entre brasas, quer
no gosto, na audição.
Barulho de passos, profundidade,
devotamento misterioso.
É o girassol do talento materno
amando o movimento por cima brilhante.

Ao longo de sons sempre passaram
mulheres apaixonadas,
separando os pés sobre frigidas gotas.
Mulheres partindo, chegando, voltando
o corpo na luz suspensa
e inteligente. Mulheres cheias de uma
atenta suspeita.
Vergadas para o fundo de uma existência
dura e pura.

Cidades que se envolvem de ecos e em cuja
solidão extraordinária
as mulheres batem seus dedos cândidos.
Sua sinistra fantasia.
Tiradas dos limbos segundo um ardente
princípio de ilusão.
Amadas por Deus e entrando
na corrupção de Deus.

São quentes e frias, colocadas sobre moventes
comoções antigas.
Metidas pelo espanto dentro, enterradas
até ao livre espírito e ao terror.
Fábulas de comércio.
Imagens delicadas de uma suave indústria.
Cidades dotadas de uma inteira falta de intenção.
Abertas aligeiras canções tenebrosas e,
sobre as graves canções, fechadas
como pedras frias.

Na noite impressa nos dois lados e,
pelo mais escuro lado antigo,
a revelação. Cada cidade é uma vingança
anterior onde a beleza passa
vestida de mulher.
Beleza lembrada e relembrada em seu
circuito ardente.
Escoada, esquecida.
E logo ressurrecta.
Tão próxima.
Cidades vazias de cócoras contra a noite,
ao lado de uma enorme ressurreição.

E os arquitectos deslocam-se, unindo
nos dedos a pedra encurvada.
Ouvindo o som contra o som.
Imaginando uma paixão espantosa
no sono.
E agarrando-se às vozes, como as vozes brilhantes
se agarram à língua para fora.
Arquitectos fechados sobre as mãos com instrumentos
que se voltam no ar. Principiando
a queimar-se.
Isolando concepções geladas
que entram na terrível purificação universal.
E então levanta-se o exemplo dos violinos.
E eis o que se ama: o som.
Arco ligado que leva a música
em louvor das fêmeas.
As cordas, as chaves, a caixa soante
dos vivos e dos mortos.
Lírica
antropologia.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Todas Pálidas, As Redes Metidas Na Voz.

Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente — e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Por cima a cal com luz, por baixo os pescadores
cheios de mãos cantando.
Cresciam as barcas por ali fora, a proa
aberta como uma janela ao sal.
Metida na voz, toda pálida, a proa
rimava no ocidente com a cal que os pescadores
remavam, cantando grande, pela luz fora. Ao sol, ao sal.

E o espírito de Deus como num livro
movia-se sobre as águas.
Com seu motor à popa, veloz, peixe
sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um número de cavalos, galgava
a antiga face pálida das águas. Enquanto,
cantando as redes,
os pescadores metiam as mãos cheias
de cal pelos grandes peixes abaixo.
E pelas barcas fora a luz remava pelo ocidente todo pálido, rimando
as redes leves com a proa.

E o peixe espírito de Deus, rangendo
o motor, rompia com um número,
remando todo pálido os seus grandes
cavalos. Deus
cantava no ocidente sobre as redes de cal,
a proa aberta — como as guelras
da luz. E os pescadores
metiam as redes pelo espírito de Deus abaixo.
E os remos rimavam com as redes
leves no peixe sumptuoso.
Por ali fora as guelras caíam na voz
dos grandes pescadores.

E Deus metido então nas redes, puxado
cor de cal para dentro
das barcas, as mãos cantando cheias
de pescadores.
E sobre as águas rangentes, rompendo
o leve ocidente, os pescadores remavam
o espírito de Deus para terra — peixe
de motor à popa — e a proa
grande aberta.

E cantavam o seu peixe sumptuoso, espírito
pálido na leve cal do ocidente
cantando.
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Herberto Helder

Herberto Helder

V E

Selaram-no com um nó vivo como se faz a um odre,
a ele, o dos membros trançados, o recôndito.
Podiam arrancá-lo aos limbos, à virgindade, ao pouco,
destrançá-lo
para o potente e o suave do mundo:
as ramas de leite que se devoram,
sal e mel que se devoram,
pão, o alimento ígneo,
a testa lavorada pela estrela saída agora da forja.
Custara-lhe que a cabeça e os membros atravessassem a vagina
materna.
Mas depois os dois lados da cabeça refulgiram muito,
e ele ergueu-se à altura do seu nome,
antebraços apanhando a luz, pés a correr como em cima de água,
torso puro: algures, algo.
E então selaram-no, e à púrpura nele, e à música jubilatória dos
tubos na boca,
nó de couro num odre vivo,
a frescura como uma chaga:
louco, bêbado. E selado
luzia.
Duro, o sopro e o sangue tornaram-no duro,
as mães não o acalentam, ele,
o sombrio filho das gramáticas,
porque já não quer o peso, o pesadelo:
membros por cima da cabeça e por baixo da barriga,
saco selado a nós de osso, vivo, saco
vivo, osso vivo, dentro um montão
de tripas
brilhando, autor,
como se ele mesmo fosse o poema, lembra-se, o primeiro, talhando
o fôlego,
o das substâncias
quentes, respiração e soluço, o dos elementos:
coziam-se pinhas, pérolas, abelhas, o floral das varas: lume,
se Deus atiçasse ao mesmo tempo as obras —
com uma volta de vento nas mãos fazia
um dia total, o abismo,
ou propriamente o pomar do mundo:
paus estuando de uma agudeza para dentro das frutas,
as laranjeiras com as labaredas,
colinas,
as colinas estremecem pelo poder das laranjas,
ou outros exemplos: que as mães trazem da sua noite a curva
arcaicamente rútila de uma bilha e levam-na até à água fechada, e
abrem-na,
e a água é rútila na bilha,
e por cima do ar comburente e da água tão forte,
poema do começo,
o sistema sideral infunde-se nos trabalhos do terror e da doçura:
a ideia, a idade,
o idioma:
o mais rouco ou mais leve ou de azougue —
poema que desconheço, o antigo, o novíssimo,
o que devora
a mão que o escreve: no papel fica apenas
sal de ouro,
e vê-se tão bem como o rosto se eleva
da sua condição de cometa escarpado caído
raso,
e depois erguido defronte das câmaras,
por entre as pranchas de mármore das florestas da terra,
limpo, lento
— um toque secreto na têmpora,
o tremor da música na boca,
porque é o primeiro e o último baptismo:
o poema escreve o poeta nos recessos mais baixos,
às vezes o nome enche-se de água quebrada no gargalo da bilha,
às vezes é um nome esvaziado de água:
a sangue grosso,
a árduo sopro,
quando o rosto inquilino da luz já não se filma.

1991 e 1994.
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