Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
O Incêndio do Sonho
A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.
Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.
Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 717
Charles Bukowski
À Espera
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
onde um de cada três lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantações
de laranja –
se você tivesse um carro e
gasolina.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difíceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chão:
“seu filho da puta de
merda!”
“Henry, Henry, me solta,
me solta!”
“seu filho da puta, eu vou
te matar!”
minha mãe ligou para a polícia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
à noite:
“o que vamos fazer? o que vamos
fazer?”
“deus, não faço a menor ideia...”
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as línguas
expostas, aqueles olhos tão tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silêncio
e as mulheres pálidas como
estátuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentávamos os cães com restos endurecidos de
pão
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.
Naquele verão, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saída de um cinema em Chicago. Ele não teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrás o sistema bancário havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pôde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rádio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mês de setembro eu fui designado para a escola de ensino médio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
– Olhe – eu disse –, Chelsey fica em outro bairro. É muito longe.
– Você vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famílias ricas botavam seus filhos lá. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lá também. Não conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta até Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrível. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus próprios automóveis, muitos deles conversíveis novinhos, e eles não eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulôveres, relógios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lá estava eu, minha camisa feita em casa, meu único par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros não se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos não eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessível. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhávamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixá-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distância de quatro quilômetros na ida e outros quatro na volta. Carregávamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey você podia escolher entre fazer educação física ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para não ter que usar um abrigo de ginástica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lã, o que irritava minhas feridas. Usávamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usássemos nossas roupas normais.
Estudávamos o Manual do Exército. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. Marchávamos ao redor do campo. Praticávamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vários exercícios era terrível para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. Saía sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lã, a mancha não ficava visível e não se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
– Chinaski! – gritou. – Seu rifle está com um vazamento de óleo.
– Sim, senhor.
Concluí o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E então saía um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatológico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difícil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de água e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
– Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
– Olhe o que aconteceu – eu falei.
Minha mãe entrou no quarto.
– Esse filho da puta não quer se curar – meu pai disse a ela. – O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mãe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhãs de carro como se estivesse indo trabalhar.
– Sou engenheiro – ele dizia às pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartão branco comprido. Peguei o cartão e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dólar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta às oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrás de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lá fora o sol brilhava.
– Mamãe – ouvi o garotinho perguntar –, o que há de errado no rosto daquele homem?
A mulher não respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela não respondeu.
Então o garoto gritou:
– Mamãe! O que há de errado no rosto daquele homem?
– Cale a boca! Não sei o que há de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lá, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficávamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lá para cá, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
– O dr. Menen ainda não chegou – e desligou.
– Com licença – eu disse.
– Sim? – perguntou a enfermeira.
– Os médicos ainda não chegaram. Posso voltar mais tarde?
– Não.
– Mas não há ninguém aqui.
– Os médicos estão atendendo.
– Mas eu tinha uma consulta às oito e meia.
– Todos aqui estão marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
– Já que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns médicos estejam aqui então.
– Se você sair agora, perderá automaticamente a sua consulta. Terá que retornar amanhã, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei até onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros não protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou três enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seções, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E então mais duas. Nós sentados, esperando. Então alguém disse:
– Lá vem um médico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
– Martinez? – o médico chamou. – José Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
– Martinez? Martinez, meu velho, como você está?
– Mal, doutor... Acho que vou morrer...
– Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lá dentro. Peguei um jornal que alguém havia deixado e tentei lê-lo. Mas todos pensávamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o próximo seria chamado.
Então Martinez gritou.
– AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
– Calma, calma, não é para tanto... – disse o médico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silêncio. Tudo que podíamos ver era a sombra da porta entreaberta. Então um auxiliar também correu para lá. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivém. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele não estava morto, pois o tecido não lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
– Jeferson Williams? – ele perguntou.
Não houve resposta.
– Jeferson Williams está aí?
Não houve reação.
– Mary Blackthorne?
Não houve resposta.
– Harry Lewis?
– Sim, doutor?
– Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O médico examinou mais cinco pacientes. Então deixou a sala, parou junto à mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava óculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xícara de café. Tomou um gole, e então, segurando o café numa das mãos, com a outra empurrou a porta vaivém e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartões brancos e chamou por nossos nomes. À medida que íamos respondendo, ela nos devolvia os cartões.
– O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhã, se quiserem. O horário de sua consulta está marcado no cartão.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhã.
– Misto-quente
Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do óleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saía sangue e pus e eu ficava lá sentado, vagando sobre a corda bamba, à beira de um precipício. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridículo e inacreditável.
– O pior caso que já vi – disse um dos médicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
– O que há de errado com aquele homem? Mãe, o que há de errado com a cara daquele homem?
E a mãe fazia:
– PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenações, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prédios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, não havia nada a fazer. Os médicos, por não saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que história triste, né? Lembro-me dos prédios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos médicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falácia dos hospitais... que os médicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lá para que os médicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, além de poderem trepar com as enfermeiras: – Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do câncer, esqueça o fedor da vida. Não somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remédio, uma injeção, toda a droga de que precisamos está ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantará para nós, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dálias e laranjas e brilhando através dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberrações. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
– Nunca vi ninguém suportar a broca desse jeito!
– Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reunião de comedores de enfermeiras, uma reunião de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reunião.
– Como você se sente?
– Maravilhoso.
– Não acha que a agulha machuca um pouco?
– Vá se foder.
– Como?
– Mandei você se foder.
– É apenas um garoto. Um garoto amargo. Não podemos culpá-lo. Quantos anos você tem?
– Catorze.
– Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. Você é durão.
– Vá se foder.
– Não pode falar assim comigo.
– Foda-se. Foda-se. Foda-se.
– Você devia se manter mais positivo. Imagina se você fosse cego?
– Então não precisaria olhar para sua cara estúpida.
– O garoto é louco.
– Claro que ele é, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e não imaginei que voltaria lá vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisões e prostíbulos: eis as universidades da vida. Eu já recebera vários títulos dessas instituições. Exigia ser tratado por senhor.
– Ao sul de lugar nenhum
A máquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os óculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
– Ainda não – ela disse –, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
– Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substância grossa e com textura semelhante à de manteiga.
– Os médicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
– Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
– O sr. Sleeth?
– O homem do narigão.
– Era o sr. Sleeth.
– Não o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
– Morreu.
– Você quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
– Suicídio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
Então escutei um homem gritar na sala ao lado:
– Joe, cadê você? Joe, você disse que voltaria! Joe, cadê você?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
– Ele fez isso durante todas as tardes desta semana – disse a srta. Ackerman – e nada do Joe aparecer para buscá-lo.
– Eles podem ajudá-lo?
– Não sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. É isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
– Joe, Joe, você disse que ia voltar! Onde você está, Joe?
– Agora segure também esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar você bem direitinho! Isso. Falta só fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
– Ok, ponha suas roupas. Vejo você depois de amanhã. Até mais, Henry.
– Até mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à máquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinário e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
– Joe! Joe! Cadê você, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu não dava a mínima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui até o final da linha e desci. A tarde caía e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa após a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu não tinha emprego nem ia à escola. Eu não fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durão, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu não iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas não haviam desaparecido, mas diminuíram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessões de drenagem eram intermináveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se é que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta também havia desaparecido. Não havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os médicos que não podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença é que eu era a vítima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemática e história. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhãs. Havia três vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
– Henry, este será seu último tratamento. Vou sentir sua falta.
– Ah, corta essa – eu disse –, pare com essa brincadeira. Você vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elétricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
– O que há, Janice? O que há de errado com você?
– Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
– Vamos – ela disse –, este vai ser seu último tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
– Agora já sei o seu primeiro nome – eu disse. – Janice. É um nome bonito. Assim como você.
– Oh, fique quieto – ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a máquina e deixou a sala. Jamais voltei a vê-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
– Eles fazem você mijar num tubo, levam seu dinheiro e vão para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills – ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hálito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no próximo trimestre, disse meu pai.
– Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurá-lo até que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que é que você poderia ficar aí sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que você seja um engenheiro. Como, diabos, você vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas até a altura da bunda? Isso é tudo o que você é capaz de desenhar? Por que você não desenha flores ou montanhas ou o oceano? Você vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas não estavam curadas, mas já não estavam tão terríveis quanto antes.
– Misto-quente
onde um de cada três lotes estava desocupado
e era um trajeto curto até as plantações
de laranja –
se você tivesse um carro e
gasolina.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
jovem demais pra ser um homem e velho demais pra ser
um garoto.
tempos difíceis.
um vizinho tentou assaltar nossa
casa, meu pai o pegou
entrando pela
janela,
manteve-o preso ali no escuro
junto ao chão:
“seu filho da puta de
merda!”
“Henry, Henry, me solta,
me solta!”
“seu filho da puta, eu vou
te matar!”
minha mãe ligou para a polícia.
outro vizinho colocou fogo na casa
numa tentativa de receber o
seguro.
acabou sendo investigado e
preso.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles,
nada para fazer, nenhum lugar para ir, ouvindo
a conversa assustada de nossos pais
à noite:
“o que vamos fazer? o que vamos
fazer?”
“deus, não faço a menor ideia...”
cachorros famintos pelos becos, a pele tesa
as costelas marcadas, o pelo falhando, as línguas
expostas, aqueles olhos tão tristes, mais tristes que toda a tristeza
da Terra.
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles
os homens da vizinhança em silêncio
e as mulheres pálidas como
estátuas.
os parques cheios de socialistas,
comunistas, anarquistas, junto aos bancos do
parque, discursando, agitando.
o sol brilhava em meio a um céu aberto e
o oceano estava limpo
e nós não éramos
nem homens nem
garotos.
alimentávamos os cães com restos endurecidos de
pão
pelos quais ficavam muito agradecidos,
os olhos brilhando
maravilhados,
os rabos balançando diante de tanta
sorte
como
a Segunda Guerra Mundial veio em nossa direção,
assim mesmo, durante aqueles
verões escaldantes na metade dos anos 30 em Los Angeles.
Naquele verão, julho de 1934, metralharam John Dillinger na saída de um cinema em Chicago. Ele não teve nenhuma chance. A Dama de Vermelho[5] o alcaguetou. Mais de um ano atrás o sistema bancário havia entrado em colapso. A Lei Seca tinha sido revogada, e meu pai pôde voltar a beber a cerveja Eastside. Mas o pior de tudo foi Dillinger ter sido pego. Muitas pessoas o admiravam, e sua morte causou grande comoção. Roosevelt era o presidente. Ele mantinha um programa no rádio em que conversava informalmente e todos escutavam. Realmente sabia falar. E ele começou a criar programas de trabalho para as pessoas. Mas as coisas continuavam muito ruins. E minhas espinhas pioraram, tornando-se descomunais.
Naquele mês de setembro eu fui designado para a escola de ensino médio Woodheaven, mas meu pai insistiu para que eu fosse para a Chelsey.
– Olhe – eu disse –, Chelsey fica em outro bairro. É muito longe.
– Você vai fazer o que estou mandando. Vai se matricular na Chelsey.
Eu sabia por que meu pai desejava que eu fosse para Chelsey. As famílias ricas botavam seus filhos lá. Meu pai era louco. Continuava com o sonho de ser rico. Quando Carequinha descobriu que eu estava indo para Chelsey, decidiu ir para lá também. Não conseguia me livrar dele nem das minhas espinhas.
No primeiro dia, seguimos de bicicleta até Chelsey e as estacionamos. Era uma sensação horrível. Boa parte dos garotos, pelo menos os mais velhos, tinha seus próprios automóveis, muitos deles conversíveis novinhos, e eles não eram pretos ou azul-marinho como os carros normais, eram de cores vibrantes: amarelo, verde, laranja e vermelho. Os caras sentavam ali, do lado de fora da escola, e as garotas se juntavam ao redor deles, loucas por uma carona. Todos se vestiam bem, os garotos e as garotas, usavam pulôveres, relógios de pulso e sapatos bacanas. Pareciam bastante maduros e tinham um ar de superioridade. E lá estava eu, minha camisa feita em casa, meu único par de calças totalmente surrado, meus sapatos esbodegados e coberto de espinhas. Os caras em seus carros não se preocupavam com acne. Eles eram muito elegantes, altos e limpos, seus dentes brilhavam e seus cabelos não eram lavados com sabonete. Eles pareciam saber algo que me era inacessível. Mais uma vez, eu estava por baixo.
E uma vez que todos os caras tinham carros, Carequinha e eu nos envergonhávamos de nossas bicicletas. Acabamos por deixá-las em casa, indo e voltando a pé da escola, uma distância de quatro quilômetros na ida e outros quatro na volta. Carregávamos lancheiras marrons. Mas a maioria dos estudantes sequer comia na cafeteria da escola. Iam junto com as garotas até alguma lanchonete, colocavam as vitrolas para tocar e riam à vontade. Estavam a caminho da Universidade do Sul da Califórnia.
Eu tinha vergonha das minhas espinhas. Em Chelsey você podia escolher entre fazer educação física ou fazer o R.O.T.C.[6]. Escolhi o R.O.T.C. para não ter que usar um abrigo de ginástica que permitiria que todos vissem as espinhas que me cobriam o corpo. Mas eu odiava o uniforme. A camiseta era de lã, o que irritava minhas feridas. Usávamos o uniforme de segunda a quinta. Na sexta, deixavam que usássemos nossas roupas normais.
Estudávamos o Manual do Exército. Era sobre atividades militares e outras merdas desse tipo. Marchávamos ao redor do campo. Praticávamos o que estava no Manual. Segurar o rifle durante os vários exercícios era terrível para mim. Eu tinha espinhas nos ombros. Algumas vezes, quando batia o rifle contra o meu ombro, uma espinha estourava e escorria pela minha camiseta. Saía sangue, mas como a camiseta era grossa e feita de lã, a mancha não ficava visível e não se parecia com sangue.
Falei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela costurou nos ombros um forro com tecido de algodão, mas isso só melhorou um pouquinho minha situação.
Uma vez um oficial veio fazer uma inspeção. Tomou o rifle das minhas mãos e o segurou, examinando o cano à procura de pó na parte interna do calibre. Atirou a arma de volta para mim, e então olhou para uma marca de sangue no meu ombro direito.
– Chinaski! – gritou. – Seu rifle está com um vazamento de óleo.
– Sim, senhor.
Concluí o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face. Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E então saía um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatológico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difícil para as pessoas terem que me olhar.
A escola deve ter alertado meu pai. Ao final daquele trimestre, fui retirado da escola. Fiquei de cama e meus pais me cobriram de unguentos. Tinha uma pomada marrom que fedia. Era a preferida de meu pai. Queimava. Ele insistia para que eu a mantivesse no corpo, muito tempo além do que a bula indicava. Certa noite ele insistiu para que eu a deixasse agir por horas. Comecei a gritar. Corri para a banheira, enchia-a de água e removi a pomada, com dificuldade. Eu estava queimado no rosto, nas costas e no peito. Naquela noite me sentei na beirada da cama. Eu não conseguia me deitar.
Meu pai entrou no quarto.
– Acho que eu te disse para ficar com a pomada!
– Olhe o que aconteceu – eu falei.
Minha mãe entrou no quarto.
– Esse filho da puta não quer se curar – meu pai disse a ela. – O que foi que eu fiz para merecer um filho como esse?
Minha mãe perdeu o emprego. Meu pai continuava saindo todas as manhãs de carro como se estivesse indo trabalhar.
– Sou engenheiro – ele dizia às pessoas. Seu sonho era ter sido engenheiro.
Deu-se um jeito para que eu fosse internado no Hospital Geral do Condado de Los Angeles. Recebi um cartão branco comprido. Peguei o cartão e tomei o bonde da linha 7. A passagem custava sete centavos (ou quatro passes por um quarto de dólar). Guardei meu passe e fui me sentar no fundo. Tinha uma consulta às oito e meia.
Algumas quadras depois um garotinho e uma mulher entraram no bonde. A mulher era gorda, e o garotinho devia ter uns quatro anos de idade. Sentaram-se no banco atrás de mim. Olhei pela janela. Seguimos. Gostava da linha 7. Ia em alta velocidade e balançava bastante enquanto lá fora o sol brilhava.
– Mamãe – ouvi o garotinho perguntar –, o que há de errado no rosto daquele homem?
A mulher não respondeu.
O garoto voltou a fazer a mesma pergunta.
Ela não respondeu.
Então o garoto gritou:
– Mamãe! O que há de errado no rosto daquele homem?
– Cale a boca! Não sei o que há de errado com o rosto dele.
Dirigi-me à recepção do hospital e eles me encaminharam para o quarto andar. Lá, a enfermeira sentada à mesa anotou meu nome e me disse para eu esperar sentado. Ficávamos em duas longas filas de cadeiras verdes de metal, uma de frente para a outra. Mexicanos, brancos e negros. Não havia orientais. Não havia nada para ler. Alguns dos pacientes tinham jornais velhos. Havia pessoas de todas as idades, magras e gordas, velhas e jovens. Ninguém falava. Todos pareciam cansados. Os auxiliares passavam de lá para cá, de vez em quando se via uma enfermeira, mas nunca um médico. Passou-se uma hora, depois duas. Ninguém havia sido chamado. Levantei-me à procura de um bebedor. Olhei para as pequenas salas onde as pessoas seriam examinadas. Não havia ninguém em nenhuma delas, nem médicos, nem pacientes.
Fui até a mesa da enfermeira. Ela examinava um livro grosso, cheio de nomes escritos a mão. O telefone tocou. Ela atendeu.
– O dr. Menen ainda não chegou – e desligou.
– Com licença – eu disse.
– Sim? – perguntou a enfermeira.
– Os médicos ainda não chegaram. Posso voltar mais tarde?
– Não.
– Mas não há ninguém aqui.
– Os médicos estão atendendo.
– Mas eu tinha uma consulta às oito e meia.
– Todos aqui estão marcados para as oito e meia.
Havia entre 45 e cinquenta pessoas esperando.
– Já que estou na lista de espera, que tal se eu voltar daqui a algumas horas, talvez alguns médicos estejam aqui então.
– Se você sair agora, perderá automaticamente a sua consulta. Terá que retornar amanhã, se ainda quiser receber um tratamento.
Voltei até onde estavam as cadeiras e me sentei. Os outros não protestavam. Havia muito pouco movimento. Vez ou outra, duas ou três enfermeiras passavam caminhando e rindo. Noutra oportunidade, empurravam um homem numa cadeira de rodas. Suas pernas estavam completamente enfaixadas e sua orelha, no lado em que pude ver quando passou, havia sido arrancada. Havia um buraco negro, dividido em pequenas seções, e era como se uma aranha tivesse entrado ali e tecido sua teia. Horas se passaram. A hora do almoço veio e se foi. Outra hora passou. E então mais duas. Nós sentados, esperando. Então alguém disse:
– Lá vem um médico!
O médico entrou numa das salinhas e fechou a porta. Ficamos na expectativa. Nada. Uma enfermeira entrou. Escutamos uma risada. Então ela saiu. Cinco minutos. Dez minutos. O médico saiu com uma prancheta na mão.
– Martinez? – o médico chamou. – José Martinez?
Um mexicano, velho e magro, ficou de pé e caminhou na direção do médico.
– Martinez? Martinez, meu velho, como você está?
– Mal, doutor... Acho que vou morrer...
– Bem, agora... entre aqui...
Martinez ficou muito tempo lá dentro. Peguei um jornal que alguém havia deixado e tentei lê-lo. Mas todos pensávamos no destino de Martinez. Se Martinez chegasse um dia a sair dali, o próximo seria chamado.
Então Martinez gritou.
– AHHHHH! AHHHHH! PARE! PARE! AHHHH! TENHA PIEDADE! POR DEUS! PARE, POR FAVOR!
– Calma, calma, não é para tanto... – disse o médico.
Martinez voltou a gritar. Uma enfermeira entrou na salinha. Houve silêncio. Tudo que podíamos ver era a sombra da porta entreaberta. Então um auxiliar também correu para lá. Martinez emitiu um som que parecia um gorgulho. Foi removido numa cama com rodinhas. A enfermeira e o auxiliar o empurraram pelo corredor, fazendo-o passar por uma porta de vaivém. Martinez estava coberto por um lençol, mas ele não estava morto, pois o tecido não lhe cobria o rosto.
O médico ficou na sua sala por mais uns dez minutos. Então saiu com a prancheta.
– Jeferson Williams? – ele perguntou.
Não houve resposta.
– Jeferson Williams está aí?
Não houve reação.
– Mary Blackthorne?
Não houve resposta.
– Harry Lewis?
– Sim, doutor?
– Venha, por favor...
As consultas progrediam muito devagar. O médico examinou mais cinco pacientes. Então deixou a sala, parou junto à mesa da enfermeira, acendeu um cigarro e falou com ela por uns quinze minutos. Parecia ser um homem muito inteligente. Tinha um tique no lado direito da face, que ficava se contraindo. Seu cabelo era ruivo com algumas mechas grisalhas. Usava óculos que ficava pondo e tirando o tempo todo. Outra enfermeira apareceu e lhe serviu uma xícara de café. Tomou um gole, e então, segurando o café numa das mãos, com a outra empurrou a porta vaivém e desapareceu.
A enfermeira se levantou da mesa com nossos longos cartões brancos e chamou por nossos nomes. À medida que íamos respondendo, ela nos devolvia os cartões.
– O expediente de hoje terminou. Por favor, retornem amanhã, se quiserem. O horário de sua consulta está marcado no cartão.
Olhei para o meu. Estava escrito oito e meia da manhã.
– Misto-quente
Era como uma broca para madeira, poderia ser mesmo uma broca para madeira, eu podia sentir o fedor do óleo queimando, e eles enfiavam aquela coisa na minha cabeça e na minha carne, e a broca perfurava e saía sangue e pus e eu ficava lá sentado, vagando sobre a corda bamba, à beira de um precipício. Eu estava coberto de espinhas monstruosas do tamanho de pequenas maçãs.
Era ridículo e inacreditável.
– O pior caso que já vi – disse um dos médicos, e olha que ele era velho.
Eles se reuniam ao redor de mim como se eu fosse uma aberração.
Eu era uma aberração. Ainda sou uma aberração. Andava de bonde, indo e vindo da ala de caridade do hospital. As crianças no bonde me olhavam e perguntavam a suas mães:
– O que há de errado com aquele homem? Mãe, o que há de errado com a cara daquele homem?
E a mãe fazia:
– PSSSIIIIT!!!
Aquele psit era a pior das condenações, e depois daquilo elas deixavam que os pequenos cretinos e cretininhas me encarassem por sobre os encostos de seus assentos, e eu olhava pela janela e observava os prédios passando e me afogava, eu estava rastejando e me afogando, não havia nada a fazer. Os médicos, por não saberem como chamar o que eu tinha, chamavam de Acne vulgaris. Ficava sentado por horas em um banco de madeira enquanto esperava por minha broca de madeira. Que história triste, né? Lembro-me dos prédios velhos de tijolos, das enfermeiras calmas e descansadas, dos médicos rindo, enquanto faziam aquela coisa. Foi ali que aprendi sobre a falácia dos hospitais... que os médicos eram reis e os pacientes eram merda e os hospitais estavam lá para que os médicos pudessem desfilar toda a sua vigorosa e branca superioridade, além de poderem trepar com as enfermeiras: – Doutor, doutor, doutor, aperta a minha bunda no elevador, esqueça o fedor do câncer, esqueça o fedor da vida. Não somos pobres idiotas, nunca morreremos; bebemos nosso suco de cenoura e, quando nos sentimos mal, podemos tomar um remédio, uma injeção, toda a droga de que precisamos está ao nosso alcance. Pio, pio, pio, a vida cantará para nós, somos as estrelas do momento. Eu entrava e sentava, e eles enfiavam a furadeira em mim. ZIRRRR ZIRRRR ZIRRRR, ZIR, o sol, enquanto isso, cultivando dálias e laranjas e brilhando através dos vestidos das enfermeiras, enlouquecendo ainda mais as pobres aberrações. Zirrrrrrr, zirrrr, zirr.
– Nunca vi ninguém suportar a broca desse jeito!
– Olhem para ele, frio como aço!
Mais uma vez uma reunião de comedores de enfermeiras, uma reunião de homens que tinham casas grandes e tempo para rir e ler e ir ao teatro e comprar pinturas e esquecer como pensar, esquecer como sentir qualquer coisa. Jalecos engomados e a minha derrota. A reunião.
– Como você se sente?
– Maravilhoso.
– Não acha que a agulha machuca um pouco?
– Vá se foder.
– Como?
– Mandei você se foder.
– É apenas um garoto. Um garoto amargo. Não podemos culpá-lo. Quantos anos você tem?
– Catorze.
– Estava apenas elogiando a sua coragem, a forma como suportou a agulha. Você é durão.
– Vá se foder.
– Não pode falar assim comigo.
– Foda-se. Foda-se. Foda-se.
– Você devia se manter mais positivo. Imagina se você fosse cego?
– Então não precisaria olhar para sua cara estúpida.
– O garoto é louco.
– Claro que ele é, deixem-no em paz.
Esse era um hospital qualquer, e não imaginei que voltaria lá vinte anos mais tarde, novamente para a ala de caridade. Hospitais e prisões e prostíbulos: eis as universidades da vida. Eu já recebera vários títulos dessas instituições. Exigia ser tratado por senhor.
– Ao sul de lugar nenhum
A máquina de raios ultravioleta emitiu um clique e se apagou. Eu havia recebido tratamento nos dois lados. Retirei os óculos protetores e comecei a me vestir. A srta. Ackerman entrou na sala.
– Ainda não – ela disse –, fique sem roupa.
O que ela ia fazer comigo?, pensei.
– Sente-se na ponta da mesa.
Sentei-me ali, e ela começou a esfregar um unguento no meu rosto. Era uma substância grossa e com textura semelhante à de manteiga.
– Os médicos decidiram tentar um novo tratamento. Vamos enfaixar seu rosto para tornar a drenagem mais efetiva.
– Srta. Ackerman, o que aconteceu com o homem do nariz grande? O nariz continuou crescendo?
– O sr. Sleeth?
– O homem do narigão.
– Era o sr. Sleeth.
– Não o vejo mais por aqui. Ele conseguiu se curar?
– Morreu.
– Você quer dizer que ele morreu por causa do nariz?
– Suicídio.
A srta. Ackerman continuou a aplicar o unguento.
Então escutei um homem gritar na sala ao lado:
– Joe, cadê você? Joe, você disse que voltaria! Joe, cadê você?
A voz era alta e muito triste, cheia de agonia.
– Ele fez isso durante todas as tardes desta semana – disse a srta. Ackerman – e nada do Joe aparecer para buscá-lo.
– Eles podem ajudá-lo?
– Não sei. Finalmente ficaram quietos. Agora ponha o dedo aqui e segure esta gaze enquanto eu o enfaixo. Isso. Assim. É isso. Pode tirar o dedo. Muito bem.
– Joe, Joe, você disse que ia voltar! Onde você está, Joe?
– Agora segure também esta outra gaze. Isso. Segure bem. Vou enfaixar você bem direitinho! Isso. Falta só fazer os curativos.
Logo seu trabalho estava acabado.
– Ok, ponha suas roupas. Vejo você depois de amanhã. Até mais, Henry.
– Até mais, srta. Ackerman.
Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à máquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além de meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinário e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.
Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:
– Joe! Joe! Cadê você, Joe?
Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança não estava presente na humanidade.
Na volta, no bonde, sentei no fundo, fumando cigarros pelo buraco da boca em minha cabeça enfaixada. As pessoas me olhavam, mas eu não dava a mínima. Havia mais medo do que horror em seus olhos. Desejei permanecer assim para sempre.
Segui até o final da linha e desci. A tarde caía e fiquei na esquina da avenida Washington com a Westview, observando as pessoas. Os poucos que tinham emprego voltavam para casa após a jornada de trabalho. Logo meu pai chegaria de carro do seu falso emprego. Eu não tinha emprego nem ia à escola. Eu não fazia nada. Estava enfaixado, parado numa esquina fumando um cigarro. Eu era um cara durão, um cara perigoso. Eu sabia das coisas. Sleeth tinha se suicidado. Eu não iria me suicidar. Preferia matar alguns deles. Levaria quatro ou cinco deles comigo. Ia mostrar para aquela corja o que significava me fazerem de palhaço.
Uma mulher veio andando pela rua em minha direção. Tinha pernas espetaculares. Primeiro, olhei diretamente em seus olhos e então me fixei em suas pernas. Assim que ela passou, fiquei olhando seu rabo, absorvendo cada detalhe daquele rabo maravilhoso, memorizando, guardando inclusive as costuras de suas meias de seda.
Jamais poderia ter feito isso sem minhas bandagens.
As bandagens ajudaram. O Hospital Geral do Condado de Los Angeles finalmente conseguira alguma coisa. As espinhas secaram. Elas não haviam desaparecido, mas diminuíram um pouco de tamanho. Ainda assim, novas surgiriam, erguendo-se outra vez. Novamente me furaram e me enfaixaram.
Minhas sessões de drenagem eram intermináveis. Trinta e duas, 36, 38 vezes. O medo das agulhas se fora, se é que um dia o tivera. Havia apenas a raiva, mas esta também havia desaparecido. Não havia sequer resignação da minha parte, apenas desgosto, um desgosto profundo por isso ter acontecido comigo, e um desgosto com os médicos que não podiam fazer nada a respeito. Estavam impotentes diante das feridas, assim como eu. A diferença é que eu era a vítima. Eles podiam ir para suas casas e viver suas vidas e esquecer, enquanto eu estava condenado a carregar este rosto comigo aonde quer que eu fosse.
Aconteceram, no entanto, mudanças na minha vida. Meu pai arrumou um emprego. Passou no concurso para guarda do Museu do Condado de Los Angeles. Meu pai era bom em concursos. Adorava matemática e história. Passou no concurso e finalmente arrumou um lugar de verdade para ir todas as manhãs. Havia três vagas para guarda e ele conquistou uma delas.
O Hospital Geral do Condado de Los Angeles de alguma forma descobriu sobre meu pai, e a srta. Ackerman me disse um dia:
– Henry, este será seu último tratamento. Vou sentir sua falta.
– Ah, corta essa – eu disse –, pare com essa brincadeira. Você vai sentir a minha falta tanto quanto eu vou sentir falta dessas agulhas elétricas!
Ela, porém, estava bastante estranha naquele dia. Aqueles olhos enormes estavam marejados. Escutei quando assoou o nariz. Uma das enfermeiras lhe perguntou:
– O que há, Janice? O que há de errado com você?
– Nada. Estou bem.
Pobre srta. Ackerman. Eu tinha quinze anos e estava apaixonado por ela e eu estava coberto de espinhas e não havia nada que nós dois pudéssemos fazer.
– Vamos – ela disse –, este vai ser seu último tratamento com os raios ultravioleta. Deite-se de bruços.
– Agora já sei o seu primeiro nome – eu disse. – Janice. É um nome bonito. Assim como você.
– Oh, fique quieto – ela disse.
Ainda a vi mais uma vez quando o primeiro zumbido soou. Eu me virei, Janice reajustou a máquina e deixou a sala. Jamais voltei a vê-la.
Meu pai não acreditava em médicos que não fossem de graça.
– Eles fazem você mijar num tubo, levam seu dinheiro e vão para casa para ficar ao lado de suas esposas em Beverly Hills – ele disse.
Uma vez, contudo, ele me mandou até um. Era um médico com mau hálito e a cabeça redonda como uma bola de basquete. A diferença é que ele tinha dois olhinhos onde uma bola de basquete não teria nenhum. Eu não gostava do meu pai, e o médico não era muito melhor. Ele disse, nada de frituras, e beba suco de cenoura. E foi isso.
Eu retornaria para a escola no próximo trimestre, disse meu pai.
– Estou arriscando meu rabo para evitar que as pessoas roubem. Ontem um negro quebrou o vidro de uma caixa e roubou algumas moedas raras. Peguei o desgraçado. Rolamos juntos escada abaixo. Dei um jeito de segurá-lo até que os outros chegassem. Arrisco minha vida todos os dias. Por que é que você poderia ficar aí sem mexer o seu rabo, deprimido? Quero que você seja um engenheiro. Como, diabos, você vai ser um engenheiro se eu encontro um caderno cheio de desenhos de mulheres com as saias arriadas até a altura da bunda? Isso é tudo o que você é capaz de desenhar? Por que você não desenha flores ou montanhas ou o oceano? Você vai voltar para a escola!
Eu bebia suco de cenoura, esperando pelo momento de ser rematriculado. Eu tinha perdido apenas um trimestre. As espinhas não estavam curadas, mas já não estavam tão terríveis quanto antes.
– Misto-quente
1 480
Charles Bukowski
Albergue
você não viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
1 353
Charles Bukowski
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 467
Charles Bukowski
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 467
Charles Bukowski
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 467
Charles Bukowski
A Noite Em Que Eles Pegaram o Branquelo
sonho de pássaro e papéis de parede descolando
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
1 127
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas...
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 156
Charles Bukowski
retrato de uma alma para moscas
ele é um homem com camisa de baixo usadíssima de desbotada
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
1 136
Charles Bukowski
retrato de uma alma para moscas
ele é um homem com camisa de baixo usadíssima de desbotada
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
1 136
Charles Bukowski
aula noturna, 20 anos depois
a pressão famélica de ser tarde demais;
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
1 305
Charles Bukowski
Uma Parada Na Viagem
fazer amor ao sol, debaixo do sol da manhã
num quarto de hotel
sobre um beco
onde homens pobres se empurram por garrafas;
fazer amor ao sol
fazer amor sobre um carpete mais vermelho que nossos sangues,
fazer amor enquanto os garotos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazer amor sobre uma fotografia de Paris
e um pacote aberto de Chesterfields,
fazer amor enquanto outros homens – pobres diabos –
trabalham.
Desse momento – para agora...
talvez anos no modo como medem,
mas há apenas uma sentença que segue em minha cabeça –
há tantos dias
em que a vida faz uma parada e se levanta e se senta
e aguarda como um trem sobre os trilhos.
passo pelo hotel às 8
e às 5; há gatos pelo beco
e garrafas e mendigos,
e eu ergo meus olhos pra janela e penso,
já não sei mais onde você está,
e eu sigo em frente e me pergunto onde
a vida vai
quando faz uma parada.
num quarto de hotel
sobre um beco
onde homens pobres se empurram por garrafas;
fazer amor ao sol
fazer amor sobre um carpete mais vermelho que nossos sangues,
fazer amor enquanto os garotos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazer amor sobre uma fotografia de Paris
e um pacote aberto de Chesterfields,
fazer amor enquanto outros homens – pobres diabos –
trabalham.
Desse momento – para agora...
talvez anos no modo como medem,
mas há apenas uma sentença que segue em minha cabeça –
há tantos dias
em que a vida faz uma parada e se levanta e se senta
e aguarda como um trem sobre os trilhos.
passo pelo hotel às 8
e às 5; há gatos pelo beco
e garrafas e mendigos,
e eu ergo meus olhos pra janela e penso,
já não sei mais onde você está,
e eu sigo em frente e me pergunto onde
a vida vai
quando faz uma parada.
1 149
Charles Bukowski
Morde Morde
ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
1 080
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 076
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 076
Charles Bukowski
Algumas das Minhas Leitoras
Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 121
Charles Bukowski
Algumas das Minhas Leitoras
Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 121
Charles Bukowski
Algumas das Minhas Leitoras
Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 121
Charles Bukowski
Falando a Minha Caixa de Correio...
menino, não venha me dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
1 154
Charles Bukowski
Jane E Droll
estávamos num barraco apertado na
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
1 011
Charles Bukowski
Poema nos Meus 43 Anos
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
1 181
Charles Bukowski
Trólios E Treliças
claro, eu posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrás (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as águas literárias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
são bem razoáveis as chances
de que ele acabe optando por cálidas e aprazíveis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu próprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vários
assim chamados gênios queridinhos que não
o são.
não vou culpá-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
será que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de Trólios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofício para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou será que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
Lázaro,
manejando recém-descoberta
importância?
podemos imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produções
deverão ser agora entregues em
formato rondó
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
é um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“você não ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que é
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a Depressão
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversão em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
início da manhã, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lá na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nós
atiramos a luva
e é possível
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrás (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as águas literárias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
são bem razoáveis as chances
de que ele acabe optando por cálidas e aprazíveis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu próprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vários
assim chamados gênios queridinhos que não
o são.
não vou culpá-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
será que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de Trólios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofício para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou será que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
Lázaro,
manejando recém-descoberta
importância?
podemos imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produções
deverão ser agora entregues em
formato rondó
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
é um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“você não ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que é
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a Depressão
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversão em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
início da manhã, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lá na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nós
atiramos a luva
e é possível
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
963
Charles Bukowski
Já Vivi na Inglaterra
já vivi na Inglaterra
e já vivi no inferno,
mas talvez não haja nada tão horrível
como pegar a última revista literária
entupida com os últimos queridinhos,
K. ensina em L., M. está lançando
um segundo volume de poemas, O. foi
publicado nos melhores jornais, S. ganhou
uma bolsa para Paris -
e você segura as páginas
contra a luz do abajur
e mesmo assim
nada transparece.
é um problema, realmente,
muito mais do que quando num pique de 90 por um
aparece algum na pista no último momento
e cruza na frente.
um cavalo pode viver.
e você, de fato, espera encontrar
poesia
numa revista de poesia?
as coisas não são tão
simples.
e já vivi no inferno,
mas talvez não haja nada tão horrível
como pegar a última revista literária
entupida com os últimos queridinhos,
K. ensina em L., M. está lançando
um segundo volume de poemas, O. foi
publicado nos melhores jornais, S. ganhou
uma bolsa para Paris -
e você segura as páginas
contra a luz do abajur
e mesmo assim
nada transparece.
é um problema, realmente,
muito mais do que quando num pique de 90 por um
aparece algum na pista no último momento
e cruza na frente.
um cavalo pode viver.
e você, de fato, espera encontrar
poesia
numa revista de poesia?
as coisas não são tão
simples.
1 082
Charles Bukowski
Faíscas
a fábrica longe da Av. Santa Fé era
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.
jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los
a maioria de nós em
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado
poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos
aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado
os raros brancos que ficavam
eram loucos
trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.
eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos
subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres
para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos
enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas
éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho
mas isso
não nos tocou
nunca
entre aquelas paredes despelando
o barulho das brocas
e serras
as faíscas
éramos uma turma boa
naquele balé mortal
éramos maravilhosos
dávamos a eles
muito mais do que pediam
e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.
jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los
a maioria de nós em
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado
poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos
aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado
os raros brancos que ficavam
eram loucos
trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.
eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos
subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres
para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos
enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas
éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho
mas isso
não nos tocou
nunca
entre aquelas paredes despelando
o barulho das brocas
e serras
as faíscas
éramos uma turma boa
naquele balé mortal
éramos maravilhosos
dávamos a eles
muito mais do que pediam
e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
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