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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Diversão Das 3 da Manhã:

a pior coisa é
estar bêbado

todos os isqueiros sem
faísca

cartelas de fósforos
vazias

tocos de cigarros e charutos
por todos os lados

você encontra uma pequena embalagem de
fósforos
com 3 fósforos
de papelão

mas os fósforos raspam
moles contra o gasto fósforo da
caixa

merda:
bebida sem fumo é como
pau sem
boceta

você bebe um pouco
mais
procura em volta

encontra um fósforo de papelão
de pura felicidade
cuidadosamente o raspa
contra a menos gasta
das embalagens
vazias

ele chameja!
você pode
fumar!

você acende
o fumo

você lança o fósforo
num piparote rumo a um
cinzeiro

você erra a mira
e
do nada...

sobe uma chama

tudo está QUEIMANDO
afinal!

: um recibo da
American Express

: algumas das embalagens de fósforos
vazias

: até mesmo um dos isqueiros
mortos

a chama rodopia e
salta
então todo o cinzeiro de
tocos de cigarro e charuto
começa a produzir fumaça
como se bocas os estivessem
tragando

você combate as chamas com
vários e sortidos objetos
incluindo suas
mãos

até que finalmente a chama se
vai e não há nada senão
fumaça

e outra vez lhe vem aquele
pensamento recorrente: só posso estar
louco.

você ouve a voz da sua
esposa:

“Hank, você está
bem?”

ela está no outro lado da
parede no
quarto

“ah, estou ótimo...”

“tem cheiro de fumaça... a casa está pegando
fogo?”

“foi só um foguinho, Linda... eu
apaguei... dorme...”

foi ela que comprou pra você
a lixeira de aço
depois de uma ocorrência
similar

logo ela está dormindo
de novo

e você está procurando
mais
fósforos.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Belíssima Editora

ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.

eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.

eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.

acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.

e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...

e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.

eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.

somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.

uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.

a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.

ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.

a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.

eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas

e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Supostamente Famoso

nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.

só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.

bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.

Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.

agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente

nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.

fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.

e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.

e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam

e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
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